sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Somos aquilo que comemos

Quando pensamos em investigação em animais é provável que a primeira imagem que nos surja seja a de um pequeno mamífero, como o ratinho da imagem, usado em investigação biomédica. De uma forma geral, estamos cientes das repercussões que este tipo de investigação tem na vida quotidiana, nomeadamente na nossa saúde. Mas com mais dificuldade nos apercebemos que quando vamos a um (vulgar) mercado comprar peixe podemos ter à nossa frente um produto que é o resultado de um trabalho de investigação tão intenso e meticuloso como a aspirina que compramos na (asséptica) farmácia.

Photo Credits: Rita Colen, AQUAGROUP

Na última edição da Revista Pública, é-nos dado a conhecer o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido na área da aquacultura em Portugal. Guiados pela investigadora do CCMAR Maria Teresa Dinis, viajamos desde os ensaios experimentais nos anos 80 - numa altura em que o oceano era ainda visto como uma fonte de recursos inesgotável - até aos dias de hoje em que mais de metade dos stocks marinhos estão sobre-explorados e o cultivo se prepara para ultrapassar as pescas de captura como a principal fonte mundial de peixe para consumo. Projectos como o SEACASE caminham no sentido de explorarmos os nossos recursos marinhos de forma mais sustentável (do ponto de visto social, económico e ambiental) mas cabe-nos a nós, consumidores, tomarmos decisões responsáveis e informadas.
E o leitor, sabe de onde provém o peixe que consome?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Darwin e as emoções animais

Charles Darwin defendia que os animais eram capazes de experimentar emoções. Entre essas emoções incluía, por um lado, a raiva (rage) e o medo (fear) e por outro o prazer (pleasure), e a alegria (joy). Darwin negava, no entanto, que os animais fossem capazes de chorar:

"A woman, who sold a monkey to the Zoological Society, believed to have come from Borneo (Macacus maurus or M. inornatus of Gray), said that it often cried; and Mr. Bartlett, as well as the keeper Mr. Sutton, have repeatedly seen it, when grieved, or even when much pitied, weeping so copiously that the tears rolled down its cheeks. There is, however, something strange about this case, for two specimens subsequently kept in the Gardens, and believed to be the same species, have never been seen to weep, though they were carefully observed by the keeper and myself when much distressed and loudly screaming."

Charles Darwin (1872)
The expression of the emotions in man and animals
London: John Murray, pp.135-6


São famosos os relatos de elefantes que choram os seus mortos, de cães que ficam cegos de raiva ou de gatos felizes por se deitarem ao colo dos seus donos. Mas sentirão os animais o que nós pensamos que eles sentem? Qual a sua opinião sobre as emoções animais?

Exuberâncias da Caixa Preta


Cebus rubustus Kuhl, 1820
Macaco-prego, Brasil
Colecção Braga Júnior
Museu História Natural da Faculdade de Ciências
Universidade do Porto


"Entre os carnívoros, a erecção dos pêlos parece ser um dado quase universal, sendo muitas vezes acompanhada por movimentos ameaçadores, como o arreganhar dos dentes e a emissão de ferozes rugidos."

Charles Darwin (1872)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A ética animal em 60 minutos – parte II




Ainda não comecei a minha palestra, mas já sei o que espera, em termos do contexto da audiência. Não é sem esforço que conseguimos uma participação activa na discussão que quero encetar (se fosse para terem aulas tradicionais mais valia que ficassem na escola), nomeadamente neste cenário em específico: 20 a 100 alunos fora do seu ambiente natural, trazidos pelos seus professores a um instituto de investigação para ouvir alguém falar sobre ética e experimentação animal, cada um com as suas já predefinidas ideias acerca do tema, e que podem ir do “já sei que fazem experiências em animais, o que mais poderá ter isto de interesse?” ao “estes sádicos magoam animais, que podem eles dizer que me interesse?”, passando por todas as visões intermédias, umas pró, outras a favor, outras de relativa indiferença.

Entusiasmado com a oportunidade, começo como me foi ensinado (ou melhor, tacitamente aprendi): pelo princípio, evidentemente. Assim, anatomo-fisiologistas ilustres como Galeno, Vesalius, Harvey e Claude Bernard perfilam-se projectados numa tela brilhante ao meu lado, recurso que certamente cativaria mais os alunos há uns meros 5 anos, mas não hoje em dia, no tempo das salas de aula com quadros interactivos e aulas em “powerpoint”. O “quando”, “como” e os “porquês” mais relevantes da experimentação animal são abordados de seguida, com destaque para as espécies animais mais utilizadas. Falo do papel dos animais como modelos dos seres humanos, suas virtudes e limitações, manipulação genética e características de um modelo ideal (algo que não existe, certamente). Não há reacções, ninguém contesta, ninguém estranha. Muitos jogadores de póquer sonhariam poder manter durante tanto tempo um olhar tão incomodativamente inexpressivo. Nada que não estivesse já à espera desde o princípio.

Volto então atrás, à imagem de Vesalius que tinha já apresentado. Amplio-a, destacando o que se passa no seu fundo. Aí, um cão jaz numa marquesa completamente amarrado e amordaçado, com o tórax aberto. “Porque iriam prender e amordaçar este animal para esta intervenção”, pergunto? A resposta tarda, mas não porque falte engenho a estes alunos ou alguma peça do puzzle. Apenas ninguém quer acreditar no que sabem ser a resposta. Aquele cão foi preso para não espernear e amordaçado para que as suas vocalizações de dor não incomodem os seus examinadores.


A visão do melhor amigo do homem (e membro das famílias de muitos dos que nesse momento me escutam) nesse grau de sofrimento faz despontar nos seus rostos esgares de incredibilidade, ares reprobatórios, trejeitos de repulsa e olhares de tristeza. Ainda assim, na maioria dos casos, todos se abstêm de comentar em voz alta. Poucos ousam questionar a “autoridade científica” ou mesmo ética de alguém que supostamente saberá muito mais sobre aquele e outros temas do que eles (algo que, por si, já dava toda uma outra discussão). Não o fiz inocentemente, e noutro contexto teria um pouco mais de pudor em recorrer tão primariamente às emoções. Mas sei que a partir desse preciso momento o tema já não lhes é indiferente. Já podemos então falar de Ética.

A ética animal em 60 minutos – parte I

Abordar algo tão complexo e multidimensional como a Ética Animal num tempo tão escasso poderá ser impossível de todo. Aliás, sei por experiência própria que cinco horas ou mesmo cinco dias poderão ser escassos para cobrir os aspectos mais relevantes desta temática. Mas vejo-me frequentemente na posição de tentar isso mesmo. Como fazer então que alguém que supomos nunca se ter interrogado sobre o tema – ou mesmo reflectido eticamente sobre os animais – possa adquirir uma visão genérica das principais questões e teorias afectas à Ética Animal e se sinta inclinado a discuti-las e motivado a emitir o seu juízo?

Evidentemente, começamos por admitir que a essa suposição é errada. Todos, sem excepção, têm não só a capacidade como a necessidade de fazer constantemente juízos de valor sobre as mais diversas situações (ou seja, pensar eticamente). Isso inclui a nossa relação com os animais, ainda que não pensemos muitas vezes nisso, de modo consciente. Observamo-los, caçamo-los, representamo-los na nossa arte, criamo-los como fonte de alimento, como família ou como modelos da nossa própria fisiologia.
Assim, partindo do princípio que todos podem raciocinar eticamente sobre os animais (e que de facto o fazem, ainda que a diferentes níveis), não deveria ser difícil encontrar uma base de entendimento entre interlocutores, assente na existência de valores universais. Acontece, no entanto, que estes não existem (muitos discordarão disto, mas peço que pelo menos para este tema em particular assumam esta premissa). Aliás, a primeira vez que, assumindo isso mesmo, procurei contextualizar o trabalho que realizo a alguém fora da área foi, no mínimo, desastrosa. Curiosamente, foi com o meu próprio pai.

Muitos cientistas poderão identificar-se com a ingrata experiência de procurar explicar aos pais o que fazem, em concreto. Já o “Grande Porquê” de fazerem o que fazem poderá ser mais fácil, seja ele contribuir – ainda que apenas potencialmente – para a descoberta da cura para uma doença, salvar o ambiente ou verificar se um dado composto é seguro. No meu caso, descobri que aquilo que o que me parecia auto-evidente – a imperiosa necessidade de melhor bem-estar para animais de laboratório – não o era necessariamente aos outros. Mais, descobri que muitas vezes se tornava mais fácil justificar os esforços para elevar os níveis de bem-estar deste animais através de argumentos instrumentalistas (como, por exemplo, melhorar o output científico por redução de variáveis como o stress) do que por razões de ordem ética, especialmente com pessoas da geração dos meus pais, o que inclui muitos académicos.


- “Mas então aquilo não é quase tudo com ratos?”, perguntou-me ele então um dia. Essa pergunta viria a ser-me colocada mais vezes, desde então, nomeadamente aquando das visitas de turmas do Ensino Secundário ao IBMC a seminários subordinados ao tema “Ética Animal e Ciência”. Curiosamente, também nessas visitas, muitas vezes alguém se antecipa à minha resposta e retorque: “e que diferença isso faz, também não sofrem?”. Outras perspectivas se vão então perfilando e vai-se tornando notório que falar das diferentes correntes filosóficas actuais e históricas da nossa relação com os animais se torna mais acessível porque as mesmas se encontram muitas vezes reproduzidas de diferentes formas na nossa audiência (sobre se isto é reflexo da acumulação das diferentes perspectivas ao longo da história que ainda se manifestam na consciência colectiva ou se antes ao longo dos tempos as mesmas sempre co-existiram, temo que não possa dar uma resposta em concreto).

Estas múltiplas visões poderão grosso modo ser enquadradas em cinco grandes perspectivas éticas (para saber em qual/quais nos enquadramos melhor, nada como dar um salto aqui) e isso proporciona-me algo que é precioso quando queremos encetar uma tarefa que se afigura difícil: um ponto de partida.