sexta-feira, 9 de abril de 2010

Primeiros linces nascidos em cativeiro em Portugal


A notícia do nascimento de duas crias de Lince-ibérico (Lynx pardinus) no Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (CNRLI), em Silves supreendeu todos, mesmo aqueles envolvidos no projecto de reintrodução desta espécie emblemática no nosso País. De facto, decorreram apenas cinco meses desde que os progenitores, Azahar e Drago, foram introduzidos no CNRLI, e a extrema facilidade com que os dois indivíduos se adaptaram às novas condições (e um ao outro) augura um futuro mais risonho para a espécie.

Não deixa de ser curioso, no entanto, que a campanha de recuperação do Lince Ibérico - o mamífero mais ameaçado da Europa e o felino mais ameaçado do mundo - não seja mais do que uma medida de compensação ambiental imposta por Bruxelas pela construção da Barragem de Odelouca, na Serra de Monchique, no Algarve. Já anteriormente, nos finais dos anos setenta, houve uma campanha nacional para salvar o lince da extinção que se saldou num rotundo fracasso.


A campanha da Liga Portuguesa para a Protecção da Natureza visava, como ilustra o poster, combater a industria da celulose e o crescimento da monocultura do pinheiro-bravo e do eucalipto em detrimento da vegetação autóctone. A campanha, ao fazer perigar o desenvolvimento económico, criou uma barreira intransponível entre os interesses humanos e os interesses da natureza (e os do lince em particular). A prioridade foi, claro está, para os interesses humanos mais imediatos pese embora as consequências nefastas a médio-longo prazo do monocultivo vegetal: maior vulnerabilidade aos fogos florestais, desertificação dos solos e diminuição de biodiversidade.

Muito caminho está ainda por percorrer para que o lince volte a fazer parte da fauna nacional. Tão importantes como a reprodução em cativeiro, são a recuperação das populações de coelho-bravo e a requalificação de habitats.

4 comentários:

  1. Eu já tinha algum conhecimento deste projecto da recuperação dos linces, no entanto, não sabia que era por causa da construção de barragens. Por um lado, acho bom a construção das barragens para podermos obter energia de algo que a natureza nos dá (a força da água), sem ser necessário nos preocuparmos todos os dias quando é que este bem preciso acaba, apesar de a água doce já estar a começar a entrar em escassez. Se isso levar a alteração do habitat de vários animais que não tenham outro local para onde ir ou se estes animais estiverem em vias de extinção, então neste caso penso que deveriamos tentar arranjar alternativas, porque todos temos o direito de viver e o Homem não é mais do que os outros animais.
    Fico feliz que os linces se tenham reproduzido e espero que estes continuem a "trabalhar" nessa direcção. Já que o Homem destrói, que os outros seres vivos tenham a capacidade de remediar o nosso erro.
    Em relação aos outros animais que ficaram sem casa ou que estejam em vias de extinção... bom, acho que muito poucas pessoas têm consciência do que se passa na verdade, mas das poucas que têm consciência e capacidade para fazer algo, não devem desistir!
    Será que os políticos não vêm que estão a acabar com o melhor que podemos ter à nossa volta??? Será que amanhã eu vou poder ver uma ave livre a voar ou um coelho a alimentar-se no seu habitat natural? Gostaria de pensar que sim!!!


    Alexandra Couceiro

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  2. De facto, uma barragem - apesar de, depois de construída, não contribuir para as emissões de carbono - está longe de ser isenta de impactos ambientais. Haverá centenas de espécies, algumas talvez desconhecidas, que serão prejudicadas pelo seu funcionamento mas a compensação ambiental não passa por elas. O discurso político mudou muito nos últimos 20 anos no sentido de apostar na biodiversidade. Mas penso que as motivações são mais "contractualistas" do que no sentido de "respeitar a natureza". É que proteger uma espécie tão emblemática da nossa fauna como é o lince ibérico dá muito mais votos do que proteger, por exemplo, o sável, que também é endémica e está em vias de extinção.

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  3. De facto lembro-me da velhinha campanha a favor da salvação do lince da Malcata.
    Aqui está um dos perigos ao debruçarmo-nos com atenção sobre determinado assunto; eventualmente abrimos uma caixinha de Pandora.
    É uma vergonha que esta campanha sirva apenas para funcionar como uma espécie de tapa olhos, porém eu pergunto:Não será isto melhor do que nada?.
    Quero acreditar que a S.O.S. LINX tenha feito um bom trabalho a envergonhar-nos enquanto Nação, porque antes destes estava-se tudo cag***o para o Lince Ibérico.
    Por cá nós continuamos com as nossas aldrabices com a E.D.P. a fazer campanhas com animaizinhos e com o breve Dilúvio que se prepara na linha do Tua.
    Porém eu pergunto: face a todas estas aldrabices, aqueles poucos de nós que se preocupam com a Natureza e a vida selvagem em Portugal e na Península Ibérica o que podemos fazer a não ser contentar-nos com o mal menor ?
    Ass:
    Um Tuga que se preocupa com a Natureza.

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  4. Estive no 1º Seminário do Lince-Ibérico em Portugal (UAlg, 28-29/10/2010) e ouvi pela voz do Dr Jorge Palmeirim que a campanha do Lince da Malcata foi, na altura, um tremendo sucesso. Isto porque se conseguiu criar a Reserva Natural Parcial da Serra da Malcata e assim salvá-la dos interesses económicos. Num discurso que ele próprio apelidou de, talvez, excessivamente optimista,coube-me a mim introduzir a questão pessimista: «como explicar às novas gerações que uma campanha que cujo lema era SALVEMOS O LINCE foi um sucesso, quando falhámos em fazê-lo?». Não falhámos, respondeu. A culpa foi da mixomatose que matou a fonte de alimento dos linces. Mas a resposta não me convence. A Reserva da Malcata tem sido - reconhecidamente - mal gerida e hoje a serra, segundo António Cabanas (edil de Penamacor e antigo técnico do ICN), está longe de ter as condições ecológicas que permitam a sobrevivência do lince. Aliás, a Malcata nem sequer faz parte do projecto de reintrodução do Lince-ibérico em Portugal já que, na prática, foi incapaz de cumprir o objectivo para que foi criada. Ou seria o lince só um meio para atingir um fim?

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