segunda-feira, 28 de junho de 2010

Salvem os "gatinhos-do-mar"!

A propósito do post do Manuel Sant`Ana sobre o site que promove a pesca sustentada, deixo-vos aqui a visão de um grupo activista(-extremista?) sobejamente conhecido e mediático sobre a questão das pescas.

Do lado deles, devo admitir que vejo muita gente ter mais problemas éticos com o consumo de carne que de peixe, ainda que estes sofram provavelmente mais e por mais tempo ao ser pescados (pelo stress, asfixia, desidratação, insolação e/ou descompressão sentidos) que um porco com o abate por exemplo, se feito humana e devidamente.

A PETA-People for the Ethical Treatment of Animals argumenta que a razão pela qual isto acontece se relaciona com a nossa apreciação estética do peixe como um animal. Vai daí, sugerem que deixemos de pensar neles como peixes, mas antes gatinhos-do-mar. E ninguém atravessaria um anzol pela boca de um gatinho, pois não?

Ainda não decidi completamente se isto é um golpe publicitário de génio, ou simplesmente absurdo. Provavelmente, está simultaneamente no limiar de cada uma destas duas visões.

Os "gatinhos do mar" (banner do site http://features.peta.org/PETASeaKittens/

Será o melhor o leitor julgar por si mesmo, acedendo ao site da PETA dedicado a esta causa. A primeira coisa que irá notar, certamente, é o facto de ser deliberadamente orientada para um público jovem, pela grafia, os textos e as histórias sobre estes "gatinhos-do-mar" que disponibilizam.

People don't seem to like fish. They're slithery and slimy, and they have eyes on either side of their pointy little heads—which is weird, to say the least. Plus, the small ones nibble at your feet when you're swimming, and the big ones—well, the big ones will bite your face off if Jaws is anything to go by.

Of course, if you look at it another way, what all this really means is that fish need to fire their PR guy—stat. Whoever was in charge of creating a positive image for fish needs to go right back to working on the Britney Spears account and leave our scaly little friends alone. You've done enough damage, buddy. We've got it from here. And we're going to start by retiring the old name for good. When your name can also be used as a verb that means driving a hook through your head, it's time for a serious image makeover. And who could possibly want to put a hook through a sea kitten?

4 comentários:

  1. Concordo que esta campanha tem algo de "absurdamente genial". A PETA parece não ter deixado nada ao acaso: não chega dizer que os peixes sofrem; é preciso apelar ao factor emocional para nos identificarmos com o seu sofrimento. É engraçada a forma como, ao invés de outras campanhas, optaram por uma abordagem "gatomorfista" em vez do tradicional antropomorfismo. Superficial mas eficaz, talvez.

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  2. Sinceramente, gostei da ideia! Tenho a sensação que as pessoas demonstram mais “pena” com o sofrimento das vacas, porcos e até galinhas de produção do que aos peixes se relaciona. A preocupação com o sofrimento é ainda maior com os animais de estimação. Mesmo no seio da comunidade científica nem todos acreditam que os peixes possam sentir dor. Existem alguns estudos focados na dor nos peixes (http://news.uns.purdue.edu/x/2009a/090429GarnerPain.html). Penso que é a distância relacional/emocional que nos separa dos peixes a impedir que a preocupação pelo seu sofrimento esteja ao mesmo nível que temos com os outros animais. Somos capazes de compartimentar e, por isso, talvez explique como conseguimos matar e comer animais que nos são desconhecidos e/ou distantes, mas ficamos repugnados com a ideia de consumir um animal doméstico (nas sociedades ocidentais). Assim, aproveitando esta deixa, a campanha aproveita-se desta “fraqueza humana”. O aspecto escorregadio e estranho dos peixes não desperta em nós a vontade de tocar, não é acolhedor como é o pêlo ou mesmo as penas… provocando nos seres humanos uma reacção, um impulso de querer “fazer festas”. E é isso que torna esta campanha tão bem pensada e provavelmente eficaz: aproxima-nos e faz-nos vê-los com outros olhos.
    A propósito do sofrimento nos peixes, parece-me notório comparar os animais de pecuária com os peixes de cultura. Por muito boas que as condições sejam, ambos são criados para que no fim da sua curta vida sejam mortos para serem consumidos. Recentemente tem-se desenvolvido esforços no sentido de minimizar o sofrimento dos animais quando são mortos, mesmo em peixes, mas ainda se praticam muitos métodos menos humanos (como asfixia, banhos de gelo, sangramento até à morte e sem anestesia, etc).
    Mais grave ainda é o caso da pesca: os anzóis perfuram as mandíbulas dos peixes, debatem-se quando içados para os barcos, as redes de arrasto apanham (e matam) ainda outras espécies, que, geralmente, são deitadas borda fora por não terem interesse comercial. Tudo isto sem preocupação alguma com a dor dos peixes. Actualmente verifica-se apreensão com as actividades pesqueiras, mas foca-se sobretudo na extinção das espécies e na destruição dos ecossistemas.
    São conhecidas outras campanhas da PETA onde seres humanos representam situações em que os animais estariam em sofrimento (como na campanha contra os animais em circos). Mas na presente campanha o público-alvo visa directamente o infanto-juvenil. A abordagem escolhida atingirá mais eficazmente os objectivos: as crianças, sensibilizadas, darão forte contributo na educação/reeducação das famílias (como os hábitos de reciclagem é exemplo).

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  3. Uma campanha deste género direccionada para as crianças é uma faca de dois gumes. Por um lado ensinamos-lhes a respeitar animais cujo sofrimento seria de outra forma ignorado. Mas por outro estamos a incutir-lhes uma visão distorcida do mundo marinho e dos animais que nele habitam. Os peixes não são gatos, e nunca ensinaria isso ao meu filho.

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  4. Para mim, aqui o busílis da questão é que, ao invés de alertarem que os peixes são seres sencientes e que por isso merecem consideração moral, procuram antes um "atalho emocional", tentando capitalizar a ligação afectiva já existente entre humanos e os gatos, para tentar conseguir que a mesma relação se estabeleça, por proxy, nas crianças.

    Um dos problemas que considero mais relevantes é essa mesma exploração da ética relacional. O que acaba por acontecer é a legitimação da relação afectiva com os animais como argumento maior para justificar o tratamento ético dos animais. Isso levanta de imediato a questão: só deveremos tratar eticamente aqueles animais com os quais podemos potencialmente estabelecer algum tipo de ligação afectiva?

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