sexta-feira, 30 de julho de 2010

E a Catalunha diz não às Touradas

Foto: El Mundo /Afp

A Espanha enfrenta uma cisão histórica. Atrevo-me a dizer que anos de separatismo Basco não foram capazes de dividir tanto a sociedade espanhola como a decisão do Parlamento da Catalunha em proibir, a partir do início de 2012, as corridas de touros no seu território. No vídeo disponível no site do jornal El Mundo podemos ver como a notícia foi recebida na galeria do parlamento catalão: aplausos efusivos de um lado, choro desconsolado no outro. Os comentários a esta notícia ultrapassam já os 2250 e o ano e meio que falta para a lei entrar em vigor promete ser quente com apelos dos pro-taurinos ao Tribunal Constitucional e ao Congresso. Aliás, a contra-reforma já começou, com a putativa iniciativa do PP de fazer das toradas Património Cultural da Humanidade.
Bartoon, Luis Afonso, Jornal Público, 30-07-2010

A decisão catalã não apanha ninguém de surpresa: há muito que se debatia a questão taurina. Mas ela pode ser o início de um ciclo, tal como tem acontecido em Portugal com o crescente número de autarquias a suprimir os espectáculos tauromáquicos nas suas praças. Entretanto, a corrida vai continuar a ser perseguida e acossada porque a sua defesa, em termos de ética animal, é frágil e ninguém parece disposto em reformá-la. Como defendi recentemente num artigo de opinião: "a festa brava encontra-se numa encruzilhada: ou continua surda aos gritos de revolta e assiste imóvel ao crescente mediatismo dos argumentos das organizações zoófilas (...) ou oferece o dorso ao ferro e promove a reformulação de algumas das práticas que constituem a lide."

Não me afirmo aficionado mas também não partilho da opinião dos paladinos dos direitos dos animais de que a tourada representa a barbárie e a tortura. Sei que a abolição catalã vai ser agora usada pelos grupos activistas como um exemplo a seguir por uma sociedade evoluída e humanista. No entanto, considero-me mais um reformista do que um abolucionista e gostava de ver a questão taurina a ser debatida mais ao nível dos consensos do que das imposições legais.

24 comentários:

  1. Já era de esperar. Um dos modos de nos fazermos destacar dos demais é pela cultura. E se Espanha é um pais associado às touradas, a Catalunha não o poderá ser. É uma lógica simplista, mas parece que funciona...

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  2. Note-se, no entanto, que aplaudo a decisão, seja qual for o motivo por detrás da mesma.
    Por mais aberto que seja a diferentes correntes de opinião e tente ver os diferentes lados de qualquer questão (e à luz de diferentes correntes éticas), tenho grande dificuldade em vislumbrar qualquer benefício da lide e cultura tauromáquicas.

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  3. Sim. De um ponto de vista utilitarista, os benefícios (humanos) da tourada parecem ficar aquém dos malefícios (animais) que causam. Mas existem outras actividades humanas causadoras de sofrimento e morte sem que ninguém perca tempo a tentar exterminá-las como fazem com a tourada (p.e. selecção de raças puras de cães com problemas crónicos e incapacitantes). A lide e a cultura tauromáquicas têm, ainda assim, justificação ética dentro de uma ética de virtudes, de uma forma semelhante à caça, como se pode ver na obra do filósofo espanhol Ortega e Gasset.

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  4. Pois...mas eu também não vou muita na cantiga da muitas vezes invocada "ética de virtudes" da caça...há muitas outras actividades (desportivas ou não) que permitem o cultivar de valores como o gosto e protecção da natureza, a saúde física ou a camaradagem.

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  5. A questão taurina sempre foi um tema polémico que divide a população em opiniões, emergindo radicalismos e insultos. Mas será esta a melhor conduta?
    Há quem alegue que se trata de uma tradição bonita, com mérito artístico e técnico. As tradições tem acompanhado a evolução da população e a sua forma de pensar, neste momento a arte tauromáquica não acompanha a sensibilidade e as emoções da população no seu todo. Prova disso é esta notícia do veto catalão às touradas.
    Partilho da mesma opinião que deve haver uma “reformulação” na arte tauromáquica. Se existe uma justificação para a existência deste evento, baseada numa ética de virtudes, de prazer, este prazer emotivo não deve colidir com a sensibilidade do animal. O prazer obtido deve assentar na beleza da técnica de dominar um touro e não no sadismo emotivo de vislumbrar sangue em praça pública. Não sou assim apologista da visão utilitarista do aficionado. Daí que concorde plenamente com a substituição dos arpões de ferro utilizados na lide por algo que não cause a laceração do músculo, à semelhança do que acontece nos EUA.
    Considero que mais uma vez se expõe a fraqueza da ética animal quando se permite que o touro permaneça em sofrimento agónico durante um tempo infindável entre a lide e o seu abate no matadouro, não havendo quaisquer medidas que evitem tal situação.
    Acredito que se não houver debate público e mudanças forçadas de mentalidades em pró da evolução, as touradas estejam condenadas à abolição.

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  6. Deixo de início claro, que este meu comentário, vem no seguimento da avaliação necessária à cadeira de Deontologia Médica, porque só neste sentido o faria.
    Indo de encontro ao que interessa: sou aficionada. Sê-lo-ei sempre. Respeito quem não é, agradecendo que me respeitem a mim. A questão da Catalunha é frágil e tem muitos pontos de vista de onde possa ser apreciada. O meu diz-me que a identidade de um povo, as suas raízes, a sua história, o seu orgulho acabou por ser “ceifado” por interesses não compatíveis com os meus. Só me posso colocar no lugar dos aficionados catalães e dizer que me sentiria completamente ultrajada se o mesmo acontecesse em Portugal. Para quem não sabe, para quem não vê e para quem não quer ver, a festa dos Toiros é muito mais do que o espectáculo no dia da corrida. Os Toiros, unem-nos a nós aficionados, durante todo o ano..em tertúlias onde se recorda o toiro x e a pega y, em colóquios onde aprendemos mais sobre o protagonista da festa: o Toiro, em festas onde celebramos a nobre existência deste animal, nos dias que antecedem corridas, nos dias em que se ferram os animais, nos dias em que se tentam mães e em tantas outras horas que dedicamos a este tema. Quem está de fora não entenderá nunca. Porque não quer, porque não consegue ou porque ninguém capaz lhe explica o porquê desta nossa aficion. Sou assumidamente apaixonada por animais (caso contrário não despenderia 6 anos da minha vida no curso de Medicina Veterinária), a natureza é algo que me fascina e, portanto, não me considero bárbara nem culturalmente atrasada. Bem pelo contrário, elevo os costumes do meu povo, respeito a história da minha Nação e orgulho-me dela. A festa dos Toiros é, acima de tudo, uma bandeira cultural que deve ser bem erguida! O Toiro é um animal único que jamais deverá ser perdido. E aqui entra o paradigma, pergunto-vos a vocês caros amigos anti-taurinos, estarão dispostos a lutar pela não extinção deste animal caso as corridas de toiros acabem? Estão dispostos a comprar terras onde os possam criar? Estarão dispostos a gastar rios de dinheiro sem retorno? Estarão dispostos a levantarem-se durante a noite só para ouvir os urros dos “vossos” animais? Comprometem-se a comprar centena de bibliografia sobre o Toiro e a lê-la? Dão o vosso corpo ao manifesto quando for preciso apartar algum bezerro da mãe? E no fim disto tudo? Vão os animais morrer de velhos? Ou serão enviados para o matadouro? Comerão a carne do bravo? Quem não sabe é como quem não vê, e sim, se a imagem da Catalunha se espelhar noutras regiões podem bem crer que a maravilha zootécnica que é o Toiro Bravo, acaba! Não gosto de idiotices, e muitas das pessoas que provavelmente ficaram felizes com a decisão Catalã têm cães em apartamento, periquitos em gaiolas, coelhos em jaulas, alimentam-se vorazmente de carne, usam sapatos e malas de pele. Para muitas dessas pessoas o bem-estar animal passa por vestir o caniche, proibir o rafeiro de ladrar, levar o gato ao “cabeleireiro”, comprar um animal de raça porque os do canil “Deus me livre!”, entre outras tão típicas dos “amigos dos animais”. Devo em minha defesa dizer, que sei que nem todos são assim. Conheço aqueles que não são hipócritas mas são uma pequena minoria. Ainda assim tento respeitá-los a todos. Mesmo tendo que ouvir insultos e gritos quando pago o meu bilhete para assistir calmamente a uma corrida de Toiros no Campo Pequeno, por exemplo. Tudo isto , em jeito de prosa muito mal concebida, para dizer que não concordo com a proibição das touradas na Catalunha e que apoiarei incondicionalmente quem contra esta decisão se revoltar. A identidade de um povo faz parte da identidade de cada um de nós, e sem ela, seremos igual à areia da praia ou à flor do malmequer. Os animais, tal como nós, têm a sua função predestinada e isso não faz com que os amemos menos!! Animais e humanos não são iguais, mas sim complementares! Deus assim o quis e assim será!

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  7. Cara Nádia Cavaco,

    Obrigada por seu comentário escrito com paixão. Fico contente por a disciplina do curso lhe ter dado um pretexto para deixar o comentário aqui: animalogos é um lugar para debate onde ha espaço para visões diferentes.

    Fica bem claro que defende a continuação das touradas como uma tradição que na sua óptica não trarã mais problemas para o animal do que muitas outras práticas com animais. Tendo eu própria passado a adolescência a desdobrar me sobre livros geneológicos de cavalos, e continuando a admirar a arte equestra, consigo bem imaginar a cultura que envolve a tauromaquia. Daquela cultura, a própria corrida é apenas uma parte. Muito do resto pode ser defendido até de uma perspectiva de ética animal: biodiversidade, criação dos animais em função do seu comportamento natural, o desenvolvimento da relação humano-animal que pelo menos no caso do cavaleiro-cavalo é positivo. Mas a própria corrida, a matança lenta de um animal em público, é muito dificil defender de qualquer ponto de vista ético. E a tauromaquia tal como está agora depende dele.

    Na investigação com animais, falamos do refinamento como um princípio que temos que seguir: refinar o metodo experimental para que os animais sofram o mínimo. Haverá maneira de refinar as corridas neste sentido?

    Penso que haverá espaço para dialogo em vez de confrontação nesta questão.

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  8. Cara Ana,
    sou defensora de que o sofrimento animal deve ser minimizado mas também sei que nunca o conseguiremos reduzir a zero. De facto, e com os conhecimentos adquiridos ao longo do curso, sei que o Toiro sofre. Não nego isso nem nunca neguei. A questão de minimizar esse sofrimento estará eternamente preso à sua inevitabilidade. Se o Toiro não for picado (como já ouvi sugerir da boca de alguns) não demonstrará na sua plenitude a bravura que o caracteriza. O espectáculo não existiria..porque o toiro não investiria como investe. Poderia até ser "provocado", investir uma ou duas vezes mas ficaria por ai. Se o Toiro se chama "Bravo" é precisamente porque possui uma característica única chamada "Bravura" que o faz lutar até ao último segundo. E é por isso que são um hino à vida. Existem ainda estudos já sobejamente conhecidos que nos dizem que pelo nível de endorfinas libertadas durante a lide, o sofrimento é minimizado. Enquanto futura médica veterinária e aficionada não vejo como refinar as corridas durante o momento do lide. Nem acho que tal deva ser feito. Acredito sim que durante o embarque, transporte para a corrida e após desta para o matadouro e mesmo durante a permanência nos curros é possível minimizar o stress incutido no animal. E também sei que hoje em dia já se faz algo em prol disso. Para finalizar, devo dizer-lhe que ficaria muito feliz se na realidade houvesse diálogo e não confrontação..Conheço "anti-taurinos" com quem consigo dialogar, torcar impressões e até mostrar um pouco deste mundo. Infelizmente, haverá extremistas com quem o diálogo nunca será possível.Porque é como lhe digo, não gosto de ser insultada (nem que insultem os meus) e , muito menos, que duvidem do amor que tenho a qualquer animal. Da minha parte estarei sempre disposta a esclarecer quem queira ouvir!

    Nádia Cavaco

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  9. Obrigada por esta resposta. Espero que possamos continuar a discussão porque penso que podia trazer esclarecimentos e informações que não conheço.

    O argumento da importância do touro mostrar a sua bravura é central para a tauromaquia embora difícil de entender para muitos que estão fora. Mas se calhar não é necessáriamente o mais importante nesta discussão. O argumento do efeito de endorfinas libertado é relevante. É conhecido que tanto num campo de batalha como num campo de futebole (bem, este segundo pode parecer incrível face ao habitual comportamento dos jogadores a procura de livres e penalties, mas há exemplos), pessoas gravemente feridas continuam a tentar participar sem aparentemente sentir nada de algo que em outras circumstâncias seria impeditivo de qualquer actividade. É razoável pensar que durante a corrida, o toiro pode não sentir muita dor.

    Mas no sentido de perceber o potencial para "refinar" a prática (do ponto de vista de bem-estar animal) seria interessante discutir aqui o fim da corrida e o que acontece depois. O meu desconhecimento da prática das touradas é grande, nunca vi nenhum. O que determina na tourada à portuguesa o fim da corrida? Qual é a duração normal de uma? Haverá a possibilidade de por um tempo-limite?

    E depois? O que impede que o touro seja morto logo a sair da arena? Porquê tem que passar tempo nos curros e depois ser transportado para o matadouro? A questão da qualidade de carne, que tenho ouvido referido, parece-me uma justificação pouco valida tendo em conta o preço que o touro paga por ter que passar este tempo gravemente ferido e já não sob a analgesia das endorfinas.

    Reconheço que o diálogo muitas vezes não é possível - e não é só sobre as touradas - mas pelo menos aqui espero poder continua-lo!

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  10. Anna, respondendo directamente às tuas perguntas:

    Os espectaculos tauromáquicos são regulados pelo Decreto Regulamentar 62/91, 29 Nov. O tempo da lide está estabelecido: a cavalo não pode exceder 10 min, a pé 8 minutos e a pega de caras cinco minutos e três tentativas.

    Em relação ao número de toiros lidados, normalmente está limitado a seis (penso que por tradição) e o MV é o responsável por interromper ou impedir a lide caso o animal não esteja em condições.

    O que impede que o touro seja morto logo a seguir à lide é também a lei nacional que obriga o abate em local próprio, vulgo matadouro, na presença de um MV inspector sanitário, o que vai para além das competências do MV responsável pela corrida. A alternativa seria a eutanásia do toiro logo após a lide por motivos de bem-estar, mas isso levaria à rejeição da carcaça, que ainda assim teria de ser levada para o matadouro com todos os custos inerentes.

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  11. Obrigada Manuel.

    Os tempos indicados parecem-me razoáveis. Em total não ultrapassará de 30 minutos, certo?, mesmo tendo em conta se o processo não é absolutamente continuo.

    O problema principal estará para mim no abate tardío do touro, e o transporte para o matadouro. Na minha opinião, considerando a quantidade de dinheiro que a tauromaquia movimenta, os custos associados com a destruição da carcaça não parece um preço exorbitante.

    Seguindo as regras estipuladas em termos de duração (que espero que já é um facto), e com a eutanasia imediata do touro depois da lide, as touradas não causarão mais sofrimento animal do que por exemplo a castração de leitões sem anestesia (que eventualmente será proibida mas ainda é prática comum em quase toda a suinicultura europeia, embora na portuguesa menos do que na norte da Europa).

    Se alguem viesse introduzir um espectaculo novo parecido com as touradas, não acharia razão para defender. Mas considerando que as touradas existem, que há um conjunto de pessoas para qual eles são importantes e que fazem parte de uma cultura com aspectos mais faceis de defender, penso que faz sentido dialogar.

    No entanto, se quer ser credível, para mim a tauromaquia tem que enfrentar a questão da eutanasia do touro.

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  12. Sim, concordo contigo, Anna. É espectável que o touro sofra mais depois da lide do que propriamente durante a mesma. E por isso a eutanásia do touro é um tema a ser debatido no contexto do refinamento de que falas. Mas também penso que, se o sofrimento do touro é reduzido pelo elevado nível de endorfinas em circulação durante o tempo que passa na arena (algo que eu nunca vi publicado em nenhum estudo científico digno desse nome), que diferença é que faz para a qualidade lide o uso de bandarilhas com espigões de 20 cm ou de um outro método menos traumatizante? Por que não trabalhar no sentido de substituir os tradicionais espigões por, p.e., agrafes?

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  13. Se me permitem opinar sobre este polémico assunto, gostava de o fazer. Primeiro quero realçar que não sou nem nunca fui “aficionada”. Até acrescento, não gosto de touradas. Nem de touradas nem de ver o “Fama Show” da SIC. Simplesmente não gosto de touradas porque é algo que não me diz nada, algo que não me aquece nem me arrefece, tal e qual como o “Fama Show”, e não pelo que se passa na arena ou pelos seus intervenientes.

    Indo ao cerne da questão, penso que a mesma está a ser abordada do lado errado. É claro que o touro na arena sofre. Isso ninguém pode negar. Mas o que também ninguém pode negar é que o Touro será uma das espécies de produção/pecuária que melhor vida tem. Ora vejamos, nasce no campo e vive no campo cerca de 4 a 5 anos. Durante esse tempo ninguém o chateia nem o incomoda. Tem todos os cuidados possíveis e todas as mordomias. Vive num montado, livre, rodeado de hectares e hectares de pastagem. Perdoem-me a comparação, mas tem uma vida de Rei. Conhecem outra espécie pecuária que tenha tanta qualidade de vida e bem estar durante a sua vida útil? Eu não. Nem mesmo as que são criadas em suposto modo biológico, têm esta qualidade de vida (ou este tempo de vida)!

    Outra questão, extremamente importante e muitas vezes esquecida pelos supostos defensores dos animais, são os ecossistemas locais. Os touros, como todos sabemos, geram imenso dinheiro e serão dos animais de produção que mais área ocupam, num encabeçamento diminuto. Os montados semi-selvagens são um importante pedaço do ecossistema português. Primeiro, é certo e sabido, que os montados onde vivem os touros bravos estão em muito melhores condições que os que são usados para outras raças (de carne), devido à menor intervenção humana nestes quer pelo menor encabeçamento dos touros bravos. Segundo, associados a estes montados está a sobrevivência de muita fauna ameaçada, como por exemplo, os locais de postura da Águia de Bornelli. Acrescente-se o facto de montados com Touros diminuírem muito a caça furtiva e as pilhagens. Claro que podemos pensar: então e colocar nesses montados outras raças? Haverá (como há) um encabeçamento maior e uma maior intervenção humano, tirando o factor “semi-selvagem” dos montados. Claro que também se pode equacionar se os nossos governantes não se chegariam à frente, com subsídios para manter os montados como estão. Mas estamos em Portugal, portanto …. E nisto, meus amigos, os touros bravos (sustentados pelas touradas) são os melhores guardiões da Natureza.

    Acho extremamente engraçado e até hipócrita as manifestações que se fazem anti-touradas, quando essas próprias pessoas consomem carne que de certeza provêm de animais que tiveram muito menos qualidade de vida que o touro, e que se calhar, nunca viram o sol nem nunca sentiram a terra! Mais engraçado é ver um País inteiro mobilizar-se contra as Touradas quando na casa ao lado está um cão que vive amarrado a meio metro de corrente, quando na casa à frente está um vitelo de engorda que viverá os seus 9 meses de vida amarrado sem sentir o sol ou pisar terra e quando na rua atrás está um canil municipal ou uma associação de recolha de cães abandonados com canis cheios de cães, que nunca terão oportunidade de ter uma vida digna. Isto para mim é da maior hipocrisia … E leva-me até a questionar se o que incomoda os (pseudo) defensores dos animais é o sofrimento do touro na arena ou o prazer que os aficionados têm no espectáculo? É que cada vez mais me parece ser este último, pois se fosse pelo sofrimento animal as touradas seriam o menor dos problemas para esses defensores dos animais.

    Para terminar este post e para terminar até o meu primeiro paragrafo, confesso que um dia gostava de ser contra as touradas. Porque isso significaria que todos os outros problemas de bem-estar animal teriam sido resolvidos. Infelizmente não me parece que esse dia chegue.

    Just my two cents ….

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  14. As touradas são, de facto, uma tradição. Não há como negar. Mas será isso justificação para a manutenção deste espectáculo? A sociedade evolui, bem como os seus pensamentos e preocupações, nomeadamente a nível de bem-estar animal e do Homem. É por esse mesmo motivo que foi abolida a escravatura, ou uma prática muito apreciada no Império Romano em que eram colocados homens numa arena com leões.
    Não me considero hipócrita por defender o fim das touradas! Felizmente tenho a capacidade de me conseguir preocupar com vários assuntos simultaneamente. Não é por ter havido um sismo no Japão que atingiu milhares de pessoas que não me devo ou posso preocupar com a crescente criminalidade ou com a economia do meu país! Não é portanto por me preocupar com este tema que não me preocupo com o facto de haver um número crescente de animais abandonados de dia para dia ou com animais a sofrerem maus tratos! Faço tudo o que posso para evitar estas situações, no entanto acredito que enquanto não houver legislação punitiva para os indivíduos que cometem tais crimes, estes vão continuar a acontecer. Parece-me, contudo, este ser um tema para outro debate de ideias, que em nada se relaciona com este.
    Mais um dos argumentos que em nada se relaciona com o sofrimento do touro numa arena, é o facto de eu comer carne. Bem, eu como carne porque sou omnívara! É uma necessidade, meus caros. Quer-se portanto justificar um espectáculo para divertimento humano completamente dispensável com o que é uma necessidade?! Mas se querem que vos diga, muitos dos anti-taurinos são vegetarianos. Acrescentando, os animais são abatidos em matadouro com o mínimo de sofrimento possível. Ficam amedrontados obviamente, assim como acontece numa arena, no entanto têm uma morte rápida e não dolorosa. É certo que os toiros de lide têm uma "vida de rei" como já foi aqui referido, no entanto será que como o touro é tão bem tratado ao longo da sua vida, pode ter uma morte horrenda, em que por vezes tem de esperar dois dias para que seja posto termo ao seu sofrimento? Convido-vos a ver um vídeo, do que deixarei o link no final do post, em que até as orelhas são cortadas com o animal vivo! Neste aspecto, concordo que o animal deve ser morto logo na arena.
    Não me vou alongar muito a comentar as afirmações de alguns aficionados que dizem que o touro não sente dor, pois penso nem valer a pena. Penso que todos aqui chegámos a acordo relativamente ao contrário. Apesar de o touro estar sob o efeito de endorfinas, tem SNC, perde continuamente sangue e inúmeras estruturas são laceradas pelas bandarilhas.
    Esta "arte" pode até ser observada como bonita, no entanto perde toda a sua validade quando se baseia numa luta injusta e cobarde em que um animal se encontra em desvantagem numérica e é desprovido de qualquer arma (até os cornos são limados!). Ninguém põe em questão, nestas condições, quem sai vencedor na grande maioria das vezes.
    Para terminar, quanto à possível extinção do Touro Bravo, não me parece de todo verdadeira. Muitas outras espécies animais que se encontraram em vias de extinção, cá continuam entre nós, mesmo não tendo como fim o divertimento humano. Isto porque existem Planos para a Conservação dessas mesmas espécies/raças. No entanto, dado que os aficionados amam não só a arte de tourear, mas também o próprio animal, tenho a certeza de que continuariam a amá-los, mesmo que fosse posto um fim às touradas. Além disso, o apoio financeiro que certas Câmaras Municipais dão para a realização desses eventos, poderia ser direccionado para a manutenção do Touro Bravo.
    Por todos os motivos anteriormente referidos e mais alguns, aplaudo a decisão da Catalunha e não posso aceitar quando me dizem "se não gostas, não vejas". Na verdade, não consigo assistir ao que chamam de arte tauromáquica, mas não irei fechar os olhos.
    Devo, por fim, dizer que respeito quem tem opinião contrária e concordo com a Dra. Anna Olsson quando diz que "há espaço para diálogo em vez de confronto".

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  15. http://www.youtube.com/watch?v=WlkvSFhyEeM (Nota: Tenho plena consciência que este vídeo foi feito em Espanha e não sei se estes episódios acontecem aqui em Portugal, no entanto não poderia deixar de o mostrar.)

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  16. *omnívora peço desculpa pelo lapso.

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  17. Raquel, faço das tuas palavras, minhas! Concordo com tudo o que disseste e é exactamente essa a argumentação que uso quando este tipo de debate surge. Quanto à Catalunha, fico muito contente igualmente que tenham dito não. É sinal que alguma coisa está a mudar (para melhor!). Espero um dia ainda poder assistir ao não de Portugal e vai ser um dia muito feliz para mim.

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  18. Apesar de dar a minha opinião, respeito que cada pessoa possa ter a sua opinião, ou seja, acreditar nos seus ideais.
    Eu não concordo com as touradas, uma vez que é uma crueldade, utilizarem os animais para serem torturados para o entretenimento do ser Humano. Apesar de, afirmarem que o touro praticamente não sofre, eu não acredito. Investiguei sobre o assunto para ter conhecimento da presença ou ausência do sofrimento dos animais e, encontrei estudos científicos que revelam que as agressões sofridas antes e durante as corridas não são só dolorosas mas incapacitantes. Uma vez que o touro fica com os nervos e os músculos rasgados, e a quantidade de sangue que perde continuamente enfraquece-o. Penso que esta situação não é agradável para o Touro. O touro, também, trata-se de um animal com sistema nervoso central tendo capacidade para sentir dor, ansiedade, medo e sofrimento. Este manifesta sinais exteriores na arena que denunciam essas emoções. Portanto, não é aceitável, a ideia de que os touros não sofrem muito.
    Outra justificação dos defensores das touradas é o “touro nasce para ser lidado. São animais agressivos por natureza.” Penso que os touros agem assim, por instinto de sobrevivência e auto-defesa. Estes animais agem deste modo, como defesa quando se sentem em perigo. Um Touro saudável deixado em paz no campo não anda a atacar tudo o que se mexe. Trata-se de um instinto que o Homem também o tem em situação de perigo.
    No entanto, tenho em conta que, as touradas são tradições existentes já há muitos anos. Existindo, muitas famílias que, desde que nascem são criadas assistirem a touradas como uma tradição das suas terras. Para essas famílias as touradas são uma tradição da sua terra, um costume do seu povo, uma história da sua Nação, a qual, é passada de geração para geração.
    Trata-se de um tema que é muito debatido uma vez que existe diferentes opiniões. No entanto, temos que tentar compreender as duas situações.

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  19. Cara Tânia:

    Fico contente que se tenha interessado por este tema. Uma das grandes limitações nas discussões à volta da tourada diz respeito à desinformação que existe quanto ao bem-estar do touro de lide. É capaz de partilhar connosco alguns desses estudos científicos de que fala?

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  20. Para realizar o comentário fui pesquisar vários sites, um dos quais era o site dos direitos dos animais. Neste site é que referiam que tinham pesquisado vários estudos científicos para comprovar se o touro tinha dor.
    Posteriormente, como também foi leccionado em algumas unidades curriculares do meu curso, em que os animais são dotados de irritabilidade e de sensibilidade. Os estímulos são captados por receptores e transmitidos através de trajectos nervosos a centros nervosos.
    Além deste facto, a zona da cernelha (zona acima das espáduas) onde são cravadas as farpas pelos «bandarilheiros» , apesar de ser pele e tecidos subjacentes são sensíveis à dor. As bandarilhas e os restantes ferros possuem arpões na ponta, para prenderem-se à carne e aos músculos dos animais, rasgando os seus tecidos e provocando-lhes um sofrimento. Os touros ficam com febres imediatas e um enfraquecimento acentuado pela perda de litros de sangue.

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  21. Cara Tânia,

    começo por clarificar que também me oponho à prática de touradas. No entanto, não entendo que tal justifique a desonestidade intelectual de esgrimir argumentos cuja base de sustentação científica não posso providenciar.

    Não é difícil argumentar que espécies cuja anatomofisiologia nervosa e endócrina é semelhante possam ter uma nocicepção aproximada. Aliás, este conceito do "se me dói a mim, poderá ser também doloroso para outra espécie" é recorrente em Ciência de Animais de Laboratório. Contudo, daí a dizer que há estudos científicos que COMPROVAM que o animal sente dor na arena SEM REFERIR QUAIS ESTUDOS SÃO, vai um grande e perigoso passo.

    É muito provável que, de facto, os animais sintam não só dor como também stress associado à lide na arena. Há, sem dúvida, traumatismos vários causados ao animal, bem como perda de sangue. Contudo, face à argumentação (que tem alguma fundamentação científica) que, devido aos elevados níveis de adrenalina e/ou outras hormonas, o touro vê a sua nocicepção reduzida, deve-se de facto aferir CIENTIFICAMENTE da veracidade desta alegação. E não a verdade que se ajuste aos nossos interesses. Simplesmente a verdade, seja ela qual for, venha a verificar-se servir para reforçar a nossa argumentação ou não. Até porque as causas que me levam a opor à barbárie da tourada não se esgotam no sofrimento causada na arena ao animal.

    Mais que certo é que não é com argumentos vazios de rigor e credibilidade que vamos fazer valer o nosso ponto de vista. E muito menos com “diz que disse”, principalmente da parte de fontes facciosas e não-credíveis (como são os sites pró-Direitos dos Animais”). Quando o Manuel pediu referências, referia-se a referências científicas. Se as há ou não, desconheço, mas tal é um trabalho importante que, a não existir, urge realizar. Mas até lá, é necessário ter muito cuidado com as alegações que se fazem, bem como com a construção da argumentação com base em conjecturas, ao invés de factos comprovados.

    Não me querendo alongar, não posso deixar de recomendar (bem como aos restantes colegas) que reveja as principais competências necessárias ao pensamento crítico, descritas de modo por Robert Ennis (académico da Univ. de Cornell que se dedicou a este tema) e disponíveis em http://faculty.ed.uiuc.edu/rhennis/SSConcCTApr3.html

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  22. Não suporto quando um dos argumentos dos aficionados é "são anti-touradas mas comem carne". Primeiro, é uma generalização. Existem muitos anti-touradas que não comem carne. Segundo, uma coisa é alimentação, outra coisa é o prazer de ver e fazer um animal sofrer (mesmo que depois a carne do touro seja aproveitada para alimentação). Segundo, infelizmente, ainda existe muito a ideia de comer carne é uma necessidade humana, e a sociedade exerce uma enorme pressão para que as pessoas continuem a acreditar nisso. Terceiro, essa afirmação por sí só não é um argumento válido. Só porque existem outros males no mundo como a exploração intensiva de animais, não posso manifestar-me contra a violência gratuita sobre outros?

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  23. O polémico tema.
    Quero de antemão agradecer todos os comentários efectuados e toda a carga sentimental que cada comentário tem. Eu sou um ignorante na “cultura tauromáquica”, mas consegui banhar-me de algum conhecimento através da leitura dos diferentes comentários. O debate e a partilha de opinião, sobretudo a opinião vinda da alma, são as principais ferramentas para o estímulo do pensamento e por conseguinte para a evolução do mesmo através da transmutação dos nossos conceitos iniciais.
    A Catalunha deu um passo de gigante e foi com coragem que o fez. Claro que este passo terá os seus próprios interesses e a forma como foi dado poderá não ser o adequado para o caminho certo, contudo temos que aplaudir o facto de ter originado o debate e nomeadamente a partilha de opiniões.
    A leitura de todos os comentários enriqueceu o meu pensamento, talvez o meu entendimento em algumas matérias, mas não me converteu à aceitação da tourada como cultura e como entretenimento por prazer pessoal.
    Reparei que apenas se falou nos touros, o que se entende por ser o animal que durante todo o trajecto da cerimónia tauromáquica é humilhado, ferido, estimulado para o stress e tem como prémio, a morte, a qual o touro aguarda em sofrimento. Penso que há que referir também o sofrimento do cavalo que em luta desigual com o touro, está sujeito a uma dose de stress considerável e ao fim e ao cabo a uma utilização humilhante também.
    A cultura é uma combinação complexa que inclui o conhecimento adquirido nas nossas vivências pessoais, nas nossas crenças, na arte, mas também a moral, a lei, os nossos costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pela formação a que tivemos acesso como membros de uma sociedade. Somos seres sociais e pertencemos a uma sociedade constituída por vários elementos, humanos, animais, vegetais, minerais, energéticos e tantos outros que a minha capacidade de percepção se calhar não consegue identificar. Como ser humano e ser social tenho obrigação de preservar o equilíbrio da sociedade a que pertenço, isto porque ao promover a harmonia, permaneço nela e esta é uma necessidade básica. Numa arena onde existem seres sociais que por prazer recebem a energia do sofrimento de outros seres, igualmente sociais e pertencentes ao todo das interacções, não consigo ficar indiferente a essa percepção energética negativa. Penso que é necessário como seres humanos, ficarmos disponíveis para a evolução. Para isso temos que em primeiro lugar tomar consciência de que na Natureza existe um esquema evolutivo que resulta do entrelaçamento da evolução espiritual, física e intelectual. A evolução física é representada pelo corpo que funciona como veículo ao crescimento em todo o seu sentido lato. A evolução intelectual é experienciada pela inteligência e sobretudo pela consciência e a evolução espiritual depende de todo o conjunto de evoluções para as quais nos disponibilizamos. Quando entendermos que somos um todo e que captamos as ondas vibratórias de todas as nossas acções perante os outros seres que fazem parte do todo, talvez tenhamos a percepção do que significa harmonia e as touradas deixem de fazer sentido.
    António Silvestre Batista.

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  24. Caro António,
    Obrigado pelo comentário. Concordo consigo que a troca de opiniões aqui estimula o pensamento. Quando diz "O debate e a partilha de opinião, sobretudo a opinião vinda da alma, são as principais ferramentas para o estímulo do pensamento", toca de facto em dois dos três pilares da retórica classica, nomeadamente logos (apelo à lógica) e pathos (apelo à emoção).

    No entanto, mais adiante tenho dificuldade em acompanhar o seu argumento. A sua visão que a sociedade é constituída por "vários elementos, humanos, animais, vegetais, minerais, energéticos" é pouco convencional. Costumamos falar do circulo moral em expansão - aquele que começou por só incluir homens livres inclui agora toda a humanidade e para muitos também pelo menos alguns animais, para outros ainda o ambiente / biosfera / natureza. São todos termos para os quais temos um entendimento comum, podemos usa-los na discussão e assumir que o outro 1) tem uma noção do que se fala e 2) tem uma noção mais ou menos semelhante da nossa. Isto não se aplica a conceitos como "energéticos" e "ondas vibratórias", são termos que para ser usados aqui nesta discussão precisam de ser definidos. A mesma coisa se aplica a "evolução física", "evolução intelectual" e "evolução espiritual".

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