sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A clonagem animal em tempos de crise


A Comissão Europeia (EC) anunciou a 19 de Outubro que vai suspender temporariamente a aplicação da clonagem animal para produção de alimentos dentro da UE. A clonagem apresenta-se como um dos temas mais controversos no domínio da bioética animal. E, talvez como em nenhum outro, a aplicação do Princípio da Precaução esteja tão patente como no caso da clonagem. Na verdade, tanto a EC como a norte-americana Food and Drugs Administration consideram não existir quaisquer indícios de que os alimentos clonados coloquem problemas diferentes daqueles colocados pelos alimentos mais tradicionais. Mas isso não impede que este tipo de material biológico seja tratado de forma diferente de outros produtos de origem animal. Porque será?

4 comentários:

  1. Não sei, e não tenho conseguido saber junto de pessoas mais próximas da discussão, qual é a razão politica do avanço seguido por um recuo.

    A questão de clonagem animal continua polemica. Como Jesper Lassen e colegas no Danish Centre for Bioethics and Risk Assessment têm demonstrado, as sondagens publicas mostram que a biotecnologia mais controversa é a que envolve animais vertebrados e a que envolve alimentos. Aqui temos os dois!

    Além disto, ainda persistem os problemas tecnicos, que levam a problemas de bem-estar animal quando nascem animais com malformações ou baixa vitalidade. Neste caso, paradoxalmente, quanto mais a tecnologia será aplicada, mais rapidamente provavelmente será optimizada.

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  2. O Eurobarómetro avança com conclusões semelhantes às da equipa do Jesper (http://europa.eu/rapid/pressReleasesAction.do?reference=IP/08/1478&format=HTML&aged=0&language=EN&guiLanguage=en) e estou convencido que a opinião pública tem um papel determinante na decisão. Mas até que ponto devem decisões desta natureza ficar reféns das sondagens de opinião?
    Parece haver uma tendência no discurso político de equiparar opinião pública a ética. A este respeito Garrard & Wilkinson (2005) consideram que embora a opinião pública deva ser tida em conta nas decisões políticas, "there is no necessary connection between what 'society thinks' about any given issue and the moral truth of the matter."

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  3. Toda a acção política tem, de uma maneira ou de outra, que ficar refém da opinião pública, pois agir em contradição com o "senso comum" global leva a reacções que muitas vezes podem comprometer à implementação de algumas medidas, por melhores que sejam as intenções dos promotores das mesmas. Eu próprio tenho problemas com o facto de muita da opinião pública não ser devidamente pensada e fundamentada ou ser baseada em falsos pressupostos. Contudo, continuo a achar salutar que devamos ouvir o público, pois isso exige um esforço para o informar, promove o salutar debate entre diferentes sectores da sociedade e é um garante da participação democrática. Por mais que achemos que temos razão...

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  4. A clonagem é de facto um dos temas mais controversos da bioética animal. A Comissão Europeia (EC) reconhece actualmente o desafio da questão do bem-estar animal e toma em consideração a faceta ética da clonagem, ressaltando igualmente para a inexistência de provas científicas que confirmem as preocupações com a segurança dos alimentos provenientes de animais clonados.

    Na clonagem tem sido observada o aumento da frequência de hidrópsias e distócias em bovinos e suínos, juntamente com o aumento do tamanho das crias recorrendo-se a cesarianas com mais frequência do que na gravidez convencional. A avaliação do bem-estar destes animais extrapolada a partir apenas de dados de saúde está diminuída. Baseado no conhecimento actual, e considerando o facto de que a sequência de ADN se mantém inalterado em clones, não há nenhuma indicação de que existem diferenças em termos de segurança alimentar entre os produtos alimentares provenientes do gado saudável e clones.

    Há quem defenda que a clonagem pode ser encarada como uma técnica reprodutiva assistida, como o caso da inseminação artificial, uma vez que se trata de um método utilizado para atingir a gestação por meios artificiais. Esta perspectiva não me parece aceitável visto que a clonagem é o único procedimento que permite a produção de animais a partir de um único animal de um dado genótipo e de fenótipo conhecido.

    Nos EUA, a Food and Drugs Administration (FDA), 28 Dezembro 2006, concluiu que os produtos edíveis produzidos a partir de clones são tão seguros como os produzidos de forma convencional. No entanto, como não contestar esta ideia uma vez que os clones e seus descendentes ainda não foram estudados em todo o seu ciclo de vida natural?

    Com base numa avaliação de risco final, um relatório escrito pelos cientistas da FDA e publicada em Janeiro de 2008, concluiu-se que a carne e o leite de vaca, porco, cabra de clones e os descendentes de qualquer dos clones animais são tão seguros como alimentos que comemos todos os dias. Será, no entanto, biológica e eticamente justificável a produção de alimentos (por exemplo, leite e carne) recorrendo à clonagem? Será a clonagem na produção animal Evolução ou Revolução?
    Sónia-PGBEA

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