terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Uso de animais no ensino - Parte 4

(Ver Parte 1, Parte 2, Parte 3)

Na sequência da publicação de um artigo meu no número de Janeiro da revista profissional Veterinária Actual, retomo aqui o tema do uso de animais no ensino de Medicina Veterinária. Esta discussão teve origem na notícia sobre "Cães vivos usados como cobaias na Universidade de Évora" e que foi desenvolvida - e muito discutida - em comentários posteriores (as mensagens anteriores podem ser encontradas em Parte 1, Parte 2 e Parte 3).

Deixo então a última parte, referente ao enquadramento deontológico, tal como foi publicada:

Face à impossibilidade de haver ensino veterinário sem o manuseamento de animais vivos, como devemos pautar a nossa conduta profissional de modo a deslindar o nó górdio em que nos encontramos? A solução passa por recorrermo-nos de recursos e métodos alternativos, como sejam:

a) Gerar casos clínicos reais através do Hospital escolar, da clínica móvel e de protocolos com criadores/produtores privados.

b) Utilizar os animais dos próprios alunos, após mútuo acordo, nomeadamente para procedimentos semiológicos e diagnósticos.

c) Colaborar com associações zoófilas e organismos oficiais, especialmente em campanhas de esterilização e de profilaxia.

d) Investir em modelos artificiais (manequins e simuladores).

e) Fomentar o extramural active learning em CAMV privados.

f) Aproveitar cadáveres provenientes dos Centros de Recolha Oficiais.

g) Criar um código de boas práticas pelo qual os educadores se possam orientar.

Espero a contribuição de todos.

3 comentários:

  1. Achas que podes reproduzir o artigo aqui? Ou já foi coberto pelos teus posts anteriores?

    Apesar de, no meu habitual papel de advogado do diabo, ter interrogado se realmente há algum problema em fazer cirurgias terminais em animais cuja eutanasia já está decidida, sublinho a tua sugestão acima. Para aquele animal, já não faz diferença. Mas para os alunos faz, para a sociedade faz e potencialmente fará para animais futuros. Há aqui uma questão da mensagem que queremos dar, aos alunos na primeira instância, mas também ao centro de recolha.

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  2. Penso ser essencial a utilização de animais vivos no ensino da medicina veterinária. Um dos pontos a favor desta minha opinião é o facto de certos procedimentos médicos que podem ser executados em animais mortos não mimetizarem o mesmo procedimento em animais vivos, o que pode levar a que, no futuro, se cometam erros que podem afectar a saúde do animal em tratamento ou mesmo comprometer a sua vida. Este argumento ainda é mais crítico em modelos artificiais que possam ser utilizados, por maior que seja realismo apresentado pelos mesmo.
    Vejamos o exemplo da cateterização. Em que situação será mais realista? Em que situação poderemos ter uma maior percepção do calibre da veia, do “toque” da veia, do percurso da veia, da sensação de ter a agulha dentro da veia? Eu quase tenho a certeza que é no animal vivo. Sim, erros podem ser cometido na cateterização, mas aprendemos com eles, aperfeiçoamos a nossa técnica para que, um dia, na prática clínica, quando estivermos a fazer esse mesmo procedimento tenhamos a hipótese de erro reduzida ao máximo possível. Noutro tipo de procedimentos cirúrgicos, como por exemplo a castração, concordo que inicialmente sejam utilizados cadáveres de centros de recolha para a prática das técnicas cirúrgicas, mas um dia vai ter de chegar em que o fazemos num animal vivo. No animal vivo a mobilidade das vísceras é diferente, temos vasos a passar por todo o lado!
    Obviamente que qualquer procedimento num animal vivo terá de ser supervisionado por um docente, que terá a função de nos ensinar determinada técnica e de, simultaneamente, impedir eventuais erros que o aluno possa vir a cometer. Na minha faculdade, todas as cirurgias que tive oportunidade de assistir foram feitas em pacientes que tinham um caso clínico na clínica da faculdade. Foi-me permitido, sob supervisão realizar alguns procedimentos como cateterização, intubação e monitorização anestésica SEMPRE com a supervisão de um docente. Na minha opinião esta é uma boa solução para a aprendizagem com animais vivos.
    Também é prática corrente na minha faculdade a utilização de animais cujo proprietário é um aluno e esse animal ser utilizado como caso clínico em aulas. O meu próprio cão foi (carinhosamente) uma “cobaia” nas aulas de ecografia e já foi um caso clínico utilizado numa aula.
    Na Medicina (Humana) também utilizam modelos, cadáveres, mas, a dada altura, utilizam o humano para aperfeiçoarem e praticarem procedimentos. Sim, o ser humano, tem voz e consegue expressar-se duma forma diferente dos animais, mas sem essa prática real o que permite a aquisição de experiência e prática para evitar erros? O mesmo não se aplicará à Medicina Veterinária?

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