segunda-feira, 18 de abril de 2011

Produzir bem é estar bem... ou não?

A maioria dos cientistas em bem-estar animal diria que a produção não é um parâmetro fidedigno para se aferir o bem-estar. Mas muitos agricultores e engenheiros zootécnicos diriam, por outro lado, que um animal que produz bem é também um animal que está bem. Em geral, é verdade que um animal acometido pela doença não será o mais produtivo mas, para além deste facto, a relação entre produtividade e bem-estar está longe de ser linear. Isto fica claramente ilustrado num interessante e importante estudo que relaciona a saúde podal de vacas leiteiras e a produtividade, publicado na revista Animal Welfare 04/2010.

Uma equipa conjunta da Universidade Austral de Chile e da Warwick University no Reino Unido treinou produtores de gado leiteiro a usar um sistema padronizado de detecção de laminites (inflamações do casco que provocam claudicação) e a identificar a patologia podal por detrás da claudicação. Sempre que uma vaca manca era identificada, ela era tratada para o problema específico. Sete explorações e 1.635 vacas foram incluídas no estudo. No final, correlacionaram-se os dados sobre a saúde podal com os dados sobre a produção de leite de cada vaca.
 
Para todas as causas de claudicação, a produção de leite aumentou no mês após o tratamento. Para algumas das anteriores houve também uma redução significativa na produção durante alguns meses antes do tratamento, como ilustra o diagrama (que pode ser visto em formato maior clicando sobre a figura).

Mas para uma das patologias podais, dupla sola, as vacas que foram diagnosticadas com o problema apresentaram maior produção de leite antes da sintomatologia do que as vacas sem claudicações. E para outra patologia, a dermatite digital, as vacas coxas produziram mais leite - mesmo sofrendo da doença não tratada - do que aquelas que não apresentaram claudicações.
 
O que é que isto nos diz? Em primeiro lugar - e este é provavelmente o achado mais importante do estudo - que vale a pena aos agricultores estar atentos às vacas coxas e tratá-las atempadamente já que, em geral, a produção diminui quando a vaca claudica e volta a aumentar após o tratamento. Em segundo lugar, que seria benéfico tanto para os agricultores como para as vacas se os problemas fossem detectados mais cedo. As vacas foram tratadas logo que o problema foi detectado, mas, como mostra a figura, a produção já vinha diminuindo durante os meses anteriores, sugerindo que os animais poderiam ter problemas podais muito antes de estes serem detectados. Em terceiro lugar, que a relação entre produção e saúde / bem-estar é complexa. Ao nível individual, a produção parece, de facto, reflectir a saúde: à medida que uma vaca desenvolvia patologias nos seus cascos, a produção de leite descia. Mas ao nível colectivo esta relação não é clara. Por um lado, as vacas de alto rendimento parecem estar em maior risco de desenvolver patologias podais (como já havia sido determinado noutros estudos). Por outro lado, vacas com dermatite digital mantiveram-se mais produtivas do que as vacas não coxas mesmo quando a patologia não estava ainda a ser tratada.

Assim, quando o agricultor observa que uma vaca diminui inesperadamente a produção de um mês para o outro, há todas as razões para suspeitar que a sua saúde e bem-estar estão afectados. Mas o facto de uma vaca produzir mais do que a média não pode ser usado como prova de que ela é saudável e de que goza de bem-estar.Listen
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5 comentários:

  1. É cada vez mais um facto comprovado de que o bem-estar animal apresenta alguma influencia directa nos niveis de produtividade animal.
    Este estudo especifico demonstrou que a generalidade das vacas com claudicação diminuiam a produtividade e que o diagnóstico precoce e o tratamento atempado da causa subjacente à claudicação tinha influência directa no retorno à produtividade espectável.
    Também é demonstrado pelo estudo que a detecção dos problemas o mais cedo possivel pelos produtores e o seu tratamento precoce vai influenciar directamente a produção de leite.
    Tendo em conta os conhecimentos adquiridos na faculdade podesse dizer que as principais causas que desencadeiam claudicações em vacas leiteiras são devidas a alterações nutricionais, a causas infecciosas e problemas associados aos pavimentos das proprias instalações dos animais. As causas nutricionais e infecciosas tem vantagem em serem detectadas e tratadas precocemente. Agora em relação ás claudicações que surgem devido a problemas associados aos pavimentos das explorações em causa, penso que não seja de todo compensatório apostar num diagnostico e tratamento precoce, pois por mais que os produtores invistam em mecanimos de detecção precoce para seu posterior tratamento não irá compensar em nada. Nestes casos em que os problemas surgem devido aos maus pavimentos onde os animais circulam a melhor opção economica e medico-veterinária tanto a curto como a longo prazo será a melhoria permanente dos pisos e pavimentos que estão por detrás do surgimento da claudicação nos animais, e não no investimento da detecção e tratamento precoce do problema.

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  2. Caro TGNL:

    Está portanto a dizer que TODOS os problemas devidos ao piso inadequado se resolvem mudando o piso e nada mais? Quais os custos dessa mudança e o que é que ela envolve? E não são os problemas podais multifactoriais (ao contrário do que afirma)? E não será a realidade das nossa explorações pecuárias mais complexa do que simplesmente dizer a todos os produtores para colocarem pisos de borracha e camas de serrim? Gostava do seu comentário.

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  3. Em primeiro lugar queria esclarecer a minha opinião, pois penso que não me exprimi bem.

    A ideia que queria transmitir era seguinte:
    Os principais factores associados a claudicação em bovinos são, de um modo geral, a alimentação/nutrição, ambiente, agentes infecciosos, genética, a inexistência de programas de correcção das unhas, o maneio e as instalações/piso. Estes últimos, muitas vezes descurados, são base fundamental para uma correcta saúde podal, podendo predispor (ou não) o aparecimento de determinadas patologias podais de origem traumáticas, infecciosas e em certa parte também alimentares\nutricionais. Nestes casos não adiantará optar um diagnóstico precoce, mas sim, e numa primeira análise à exploração, optar pela correcção das instalações e por um correcto maneio influenciando isto também positivamente o bem-estar animal.
    Sobre o estudo em causa, gostava ainda de salientar que, mais que a relação bem-estar/ produzir bem permite-nos tirar ilações sobre a evolução genética de que as Holstein Frísias têm sido sujeitas nestas ultimas décadas. Evolução essa que nos permite ter vacas, que mesmo com patologias podais, continuam a produzir a níveis aceitáveis.
    Gostava ainda de realçar mais um facto, é que o estudo não especifica nenhum score de claudicação (normal, ligeiro, moderado, severo), o que poderá influenciar muito as conclusões a tirar do estudo.
    Queria também salientar que a ‘claudicação’ além do impacto económico que apresenta a nível da produção de leite vai também influenciar negativamente a fertilidade que directamente também conduz a uma diminuição nas taxas de produção de leite com efeito directo na produtividade leiteira, taxas de refugo e taxas de reposição.

    Sobre o tema do post ‘ Produzir bem é estar bem … ou não?’ pessoalmente penso que é uma falsa questão pois as Holstein Frísia têm sido sujeita a um intensíssimo melhoramento genético para optimização da produção leiteira levando-as a manter a produção alta mesmo em estados de saúde algo deficitários. Questiono-me por vezes até que ponto este melhoramento genético é eticamente correcto dado que nos vai dificultar a avaliação do bem-estar animal pela sua produção.

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  4. Pessoalmente, levava à questão do TGNL até outro patamar, ou seja, remataria com uma outra questão: até que ponto é que é eticamente correcto continuar-mos com este melhoramento genético das Holstein, quando sabemos que está em causa o seu bem-estar?

    Já sabemos de antemão que, devido ao melhoramento genético das ultimas décadas, estes animais já entram obrigatoriamente em BEN no seu ciclo produtivo, pois irão produzir mais do que o seu organismo têm capacidade.
    Agora ter animais, que continuam com altas pautas de produção, mesmo em estado de doença (mesmo que ligeira), it's a whole new world ...

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  5. Obrigados TGNL e pereiranlr por terem contribuido mais factos relevantes a esta discussão.

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