domingo, 26 de junho de 2011

Trabalhar com Bem-Estar Animal em Portugal: Leonor Galhardo, ISPA


Na primeira entrevista desta serie, falamos com a etologa Leonor Galhardo sobre o curso que ela dirige e ainda sobre o cenário atual de bem-estar animal em Portugal.

Bom dia Leonor, estás a planear a Sessão de Encerramento da primeira edição da Pós-Graduação em Comportamento e Bem-Estar Animal no ISPA em Lisboa, não é?
Sim, será no dia 2 de Julho, no ISPA.
Podes contar um pouco mais sobre este curso?
Trata-se de um curso geral em Comportamento e Bem-Estar Animal que pretende dar formação em aspectos biológicos, sociais e éticos relacionados com o conceito de bem-estar animal, ao mesmo tempo que aborda aspectos particulares de áreas bem definidas como a pecuária, incluindo a aquacultura, os animais de companhia, os animais selvagens e o uso de animais para fins experimentais. O curso tem uma acentuada componente prática com várias visitas de estudo e trabalho efectuado pelos alunos. Destaco em particular o Projecto em Bem-Estar Animal que é uma unidade curricular onde os alunos realizam um projecto na sua área de interesse. Este projecto é desenvolvido ao longo de 10 meses sob a nossa orientação e constitui uma oportunidade para aprofundar conhecimentos ou resolver problemas decorrentes de actividades profissionais ligadas a animais. A segunda edição deste curso irá também incluir um módulo em didáctica do bem-estar animal e outro em interacções humanos-animais.

Quais são os alunos e as suas motivações par a procurar formação especializada nesta área?

Temos alunos de formação diferente, mas em particular médicos-veterinários. Na primeira edição do curso tivémos também biólogos, zootécnicos e enfermeiros veterinários. Pensamos que este curso pode também ser de grande interesse para professores, bem como para psicólogos interessados nas relações entre humanos e animais. As motivações dos nossos alunos são a necessidade de aprofundar conhecimentos científicos e técnicos em comportamento e bem-estar animal e poderem adquirir formalmente competências para trabalhar nesta área, dando formação ou de alguma forma esteja ou venha a trabalhar com animais na área da inspecção, maneio, aplicação de legislação, etc.
Haverá uma nova edição do curso no ano lectivo de 2011/12?
Sim, já temos várias pessoas interessadas no curso e portanto pensamos que existe grande probabilidade de o re-editar no próximo ano lectivo.

Que papel têm, na tua opinião, eventos de formação profissional para promover e melhorar o bem-estar animal em Porugal?
Tem um papel fundamental. Na minha opinião, em qualquer área em que os animais sejam utilizados por humanos, são as decisões que tomamos acerca da sua manutenção, a forma como os manuseamos, a competência com que os compreendemos e manipulamos o seu comportamento que ditam as principais directrizes daquilo que pode ou não constituir o bem-estar dos animais em causa. Por isso é imprescíndivel que haja formação profissional e conhecimentos nesta área em qualquer sector do uso de animais. Para além disso é já uma exigência das entidades competentes que as pessoas tenham formação teórica e prática para manipular animais por exemplo na pecuária e na e investigação.

Leonor, foste provavelmente a primeira portuguesa a concluir formação superior em bem-estar animal e trabalha com esta questão em Portugal há mais do que uma década. Como estão os animais em Portugal – bem ou mal? Melhor ou pior do que há 15 anos?

Embora eu ache que os animais em Portugal precisam da nossa intensa preocupação e cuidados, a sua situação melhorou em alguns aspectos quando comparando com há 15 anos atrás. Antes de dar exemplos de mudanças positivas e situações em que penso que não houve evolução nenhuma, gostaria de começar por referir que a protecção dos animais é uma atitude social de carácter civilizacional e como tal exige tempo; é lenta; atravessa gerações… Uma das áreas em que pouco ou nada mudou nos últimos 15 anos, apesar do carácter estruturante que tem para a protecção dos animais em Portugal, foi o conteúdo e a aplicabilidade da Lei de Protecção dos Animais (92/95). Precisamos de um formato legal que permita uma protecção real dos nossos animais - maus-tratos, negligências, abusos, e outras agressões que causam grande sofrimento praticamente não são ainda penalizadas em Portugal. Na área da pecuária, em função da evolução da legislação houve vários como progressos, embora muita fiscalização e formação técnica seja necessária para atingir níveis aceitáveis de bem-estar animal. Exemplos de requisitos que melhoraram na pecuária: alteração das baterias de galinhas poedeiras para sistemas melhorados; proibição das celas individuais para porcas reprodutoras e melhoramento dos sistemas intensivos para suínos; identificação, controlo e fiscalização do transporte dos animais para o matadouro; maior preocupação com o atordoamento no abate. Na investigação, há um lento progresso no sentido do registo e pedido de autorização para levar a cabo experiências feitas em animais. Actualmente, muitas centenas de investigadores fizeram cursos para se tornarem competentes no manuseamento e redução do sofrimento de animais em experiências. Há 15 anos atrás não havia qualquer espécie de controlo nesta matéria. Na área dos animais de companhia continua a não haver dados oficiais que nos permitam conhecer taxas de abandono e suas causas. Mas aparecem agora pessoas interessadas no assunto (no nosso curso, foi feito um trabalho neste sentido) e, de qualquer forma, o sistema de identificação obrigatório e a base de dados que foi criada permitem um controlo muito diferente do que existia há 15 anos, que era nulo. Não obstante, muito há para fazer para tornar os donos dos animais mais responsáveis e a base de dados de identificação mais operacional. Na área dos animais selvagens, também julgo ter havido uma evolução, com os parques zoológicos hoje muito mais preocupados do que antes com aspectos relacionados com o enriquecimento ambiental e com o passar para o público mensagens de conservação. Há 15 anos atrás os animais saíam destas instituições para circos, colecções privadas, etc. e hoje um grande número de parques nem por sombras o considera fazer, até porque se tornou proíbido. Acerca de todos estes exemplos quero reforçar a ideia de que há indicadores de claras melhorias embora ainda haja muito por fazer. Para concluir, gostaria de lembrar que há 15 anos atrás falar de bem-estar animal em certos círculos provocava risos ou atitudes de desmerecimento do assunto. Hoje, as pessoas estão em geral mais conscientes de que os animais são seres que sentem, capazes de pensar, raciocinar, fazer as suas escolhas, alimentar desejos, sofrer e ter prazer. Essa consciência humana muda tudo em relação à nossa atitude de base.

Bem-estar animal é uma questão com uma clara conotação política – na resposta anterior falaste de leis, fiscalização e controlo, todos assuntos que têm a ver com política. Assunção Cristas acabou de tomar posse como a nova ministra de Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento. Que
assuntos consideras mais urgentes para esta nova responsável máxima pelo bem-estar animal em Portugal?
Os assuntos mais urgentes são sem dúvida a operacionalização de uma Lei de Protecção dos Animais, a formação técnica adequada de todas as partes envolvidas (pessoas que trabalham directamente com animais; gestores e inspectores de actividades envolvendo animais) e a operacionalização de bases de dados oficiais para melhorar os sistemas de controlo. Em relação à formação técnica, podemos ter a ideia de que um sistema extensivo de animais de produção é melhor do ponto de vista de bem-estar animal do que um sistema extensivo. Em larga medida, é verdade. Mas, na prática, qualquer dos dois pode ter enormes problemas dependendo da forma como o maneio dos animais é feito. E isso exige formação, conhecimentos adequados e especializados. Quanto às bases de dados oficiais, penso que é necessário operacionalizá-las melhor para que elas possam ser usadas de forma mais eficiente no controlo e na caracterização do perfil das várias áreas em causa. Precisamos com urgência de uma história, de indicadores de bem-estar animal, de uma forma consubstanciada de sabermos como estamos, de onde viemos, e para onde conduzimos os destinos do bem-estar animal em Portugal.

4 comentários:

  1. Após ler a entrevista da animalogos à etóloga Leonor Galhardo näo posso deixar de comentar a relevância das perguntas, das quais gostaria de destacar duas: a primeira relativa à importância da formaçäo profissional para promover e melhorar o bem-estar animal em Portugal e a segunda sobre quais as motivaçöes dos alunos para a procura dessa mesma formaçäo especializada.

    Näo querendo incidir sobre nenhuma profissäo específica relacionada com animais, seja com ou sem formaçäo superior, e muito menos destacar áreas ou atividades que os envolvam, gostaria de dar o meu contributo pessoal às afirmaçöes realizadas.

    A entrevistada refere que a formaçäo em bem-estar animal tem um papel fundamental porque "em qualquer área em que os animais sejam utilizados, säo as decisöes que tomamos acerca da sua manutençäo, a forma como os manuseamos, a competência com que compreendemos e manipulamos o seu comportamento que ditam as principais diretrizes daquilo que pode ou näo constituir o bem-estar dos animais em causa." Concordo com a mesma, pois se säo os técnicos quem diariamente lida e manuseia os animais, é indispensável que os mesmos tenham capacidade para saber identificar e reconhecer os problemas de bem-estar. Para além disso, é necessário ter confiança na sua própria capacidade, bem como legitimidade de avaliaçäo para oportunamente alertar os médicos veterinários, ou outros responsáveis, de eventuais alteraçöes comportamentais que possam pôr em causa a saúde física ou mental dos animais.

    Quanto à segunda pergunta realizada à entrevistada, relativa às motivaçöes que levam os alunos a procurar aprender sobre bem-estar animal, é referido que "as motivaçöes dos nossos alunos säo a necessidade de aprofundar conhecimentos científicos e técnicos em comportamento e bem-estar animal". Pois bem, uns seräo profissionais já inseridos no mercado de trabalho e com responsabilidades nesta área e outros, a título individual, que investiram em si mesmos, tanto em termos de tempo como em termos financeiros, procurando aumentar unicamente os seus conhecimentos com o objetivo de garantir maior qualidade nos cuidados que prestam ou poderäo vir a prestar aos animais. Para além do gosto pelo que fazem, ou poderäo vir a fazer, demonstram preocupaçäo com os possíveis resultados dos seus atos, tendo em conta que a eficácia de determinadas açöes estará dependente, em larga medida, da sua formaçäo e conhecimento técnico-científico.

    Sendo o conceito de bem-estar indispensável para as atividades que envolvem animais sob proteçäo e cuidados humanos. A forma como säo mantidos e tratados exige um grande esforço e acarreta desafios. Através dos conhecimentos adquiridos cientificamente, a medicina veterinária obteve grandes avanços. A par disto, a evoluçäo das técnicas de maneio e treino, nomeadamente através do reforço positivo e, por fim, o investimento na preparaçäo e na formaçäo dos técnicos, contribuíram para a melhoria dos cuidados de manutençäo e bem-estar animal, criando melhores formas para enriquecer o ambiente e a vida dos animais näo-humanos.

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    1. Boa tarde,

      Achei muito interessante a entrevista realizada, bem como o comentário feito pela Márcia Neto. Mas gostaria ainda de levantar uma questão.
      Eu trabalhei durante algum tempo na área da formação e constatei que a maioria das pessoas frequentava-a por obrigação ou simplesmente porque seria uma forma mais rápida de aceder ao mercado de trabalho.
      Presumo que para trabalhar com o bem-estar animal seja necessária uma motivação extra, que não se esgota ao fim de oito horas de trabalho. Questiono-me se não deverão as pessoas investir na sua própria formação, em vez de dependerem directa e exclusivamente da sua entidade patronal para adquirir os conhecimentos que lhe fazem falta?

      Votos de continuação de um bom trabalho,

      Cordialmente
      Caroline Santos

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    2. Obrigada Caroline, a sua questão é pertinente e de grande relevância. Na minha opinião, independentemente de ser uma exigência das entidades empregadoras competentes que as pessoas tenham formação apropriada, quer teórica, quer prática, para manipular animais, no meu ponto de vista não basta ser uma responsabilidade formativa só dessas mesmas atividades. Concordo consigo, os próprios técnicos devem fazer um esforço contínuo de investimento e validação das suas competências, que deve partir de uma aposta pessoal.

      Trabalho com animais em ambiente artificial desde 1995. Durante todos estes ano sempre recebi por parte da minha entidade patronal, formações teóricas e principalmente práticas, adequadas e direcionadas às minhas funções. Atualmente, além de continuar a exercer a mesma profissão com igual entusiasmo, carinho e motivação, frequento a Pós-Graduação dirigida pela entrevistada. Senti necessidade de fazer uma aposta pessoal diferente das que tinha feito até aqui, procurando obter conhecimentos específicos com validação científica em relação aos animais e ao seu bem-estar pois reconheço que poderemos sempre fazer mais e melhor. Incluo-me num grupo de pessoas que são autênticos "worklovers” e todos temos sentimentos morais e princípios diferentes que nos servem de guia para as ações de cada um. Não seria ético trabalhar por eles sem termos certeza que corretamente contribuímos para criarmos formas de melhorias de bem-estar dos animais não-humanos que a nós, nos compete cuidar.

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  2. Obrigada Márcia pelo comentário, em que salienta sobretudo a importância dos técnicos que trabalham diretamente com os animais, e a capacidade destes de reconhecer indicações de problemas de bem-estar animal.

    Neste sentido aproveito para destacar o que já escrevemos sobre formação para tratadores de animais de laboratório http://animalogos.blogspot.pt/2012/02/formacao-de-tecnicos-de-animais-de.html.

    Para técnicos de pecuária parece já haver planos concretos de cursos de formação http://www.drapn.min-agricultura.pt/BDFPA/documentos/ufcd-bea.pdf, embora não sei se já se realizaram.

    Regulamento (CE) n.º 1099/2009 sobre a protecção dos animais no abate também reforça a importância de formação e competência
    http://europa.eu/legislation_summaries/food_safety/animal_welfare/sa0002_pt.htm


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