segunda-feira, 4 de julho de 2011

Bem-estar animal no abate

Mas que raio de conceito é esse - criar e abater os animais em massa, pretender que se preocupa com o bem-estar deles e ainda ter a lata de declarar que até podemos ganhar mais dinheiro com isso. Tenho toda a compreensão pelo leitor que reage assim - foi consigo em mente que escrevi o post anterior, porque acho que é preciso ver o contexto em que se encontra a ciência de bem-estar animal para perceber o que se investiga.

Criação de porcos para abate é na Dinamarca uma actividade economica com peso considerável no produto nacional bruto. Enquanto o país tem pouco mais do que 5 milhões de habitantes, produz (e exporta) carne de porco suficiente para alimentar 15 milhões. Que há preocupação com a eficiencia neste sector não é de surprender. Mas o público dinamarquês preocupa-se também com o bem-estar animal.

Até que ponto consegue esta preocupação competir com a preocupação economica? Bem, esta pergunta não tem uma resposta, depende da situação.


Existem circunstâncias em que ambos ganham. As imagens deste post vem de um poster apresentado no UFAW International Symposium Making animal welfare improvements: Economic and other incentives and constraints. Apresenta numeros capazes de convencer mesmo quem se preocupa mais com centimos do que com porcos que um sistema de abate que causa menor stress aos animais não é um custo. 



A mudança que se introduziu foi de manter os mesmos grupos de animais desde a saida da exploração (quinta) até o abate. Os animais passam por todos os passos incluindo o atordoamento sempre junto com o mesmo grupo de individuos, nunca estão sozinhos e não são misturados com animais que não conhecem. A qualidade da carne melhora, a quantidade de carcaça que tem que ser removida por ter lesões diminui e (como é mais facil manobrar porcos que estão menos stressados) é preciso menos mão de obra para lidar com o mesmo número de animais.

Não sei qual foi o motivo de introduzir estas mudanças. Mas é um bom exemplo como é possível colaborar com o comportamento natural dos animais e fazer melhor para todos. 



3 comentários:

  1. Não gosto muito de generalizar, mas cada vez mais me parece que as melhores e mais elegantes medidas para melhoramento do bem-estar animal são também as mais simples e de mais fácil implementação.

    A propósito de uma dessas mesmas medidas de refinamento, mais concretamente em animais de laboratório, tenho já um post na calha...

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  2. Penso que é uma generalização problematica.

    Se algo que é simples e de fácil implementação é também eficaz, claro que também qualifica como uma melhor e mais elegante medida.

    Mas restam os problemas complexos que não têm solução fácil, pelo menos à luz do conhecimento actual, e que podem ter consequências consideráveis para os animais. Os exemplos classicos são problemas comportamentais, como picacismo e canibalismo.

    E ainda temos os em que sabemos o que deviamos fazer para evitar o problema, mas em que considerações economicas faz com que não se toma as medidas para melhoramento de bem-estar animal. E não se pode descartar isto como o produtor ser cinico ou insensível aos problemas do bem-estar animal, ele pode não ter uma margem economica que permite suportar mais custos. (Não digo que é sempre o caso, mas que temos que conhecer o caso antes de julgar no mesmo).

    O exemplo dos matadouros dinamarqueses é interessante porque mostra um win-win situation, onde aproveitando o comportamento normal dos animais se pode reduzir o stress e poupoar custos. Claro que merece ser propagado como um exemplo de sucesso. Mas é perigoso pensar que tudo é win-win. As vezes melhorar bem-estar animal custa dinheiro.

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  3. Um outro exemplo clássico é o do transporte e manuseamento dos animais pré e peri-abate, já que o stress agudo e/ou lesões levam a que a carne perca em qualidade, palatibilidade e processabilidade (as tais carnes PSE e DFD) e lesões estragam-na completamente. Às vezes, arredondar uma esquina pode evitar vários milhares de euros de prejuízo, com vantagens também para o animal. Mas sim, de facto, há também questões de bem-estar anuimal que constituem desafios tecnológicos, económicos e logísticos. Mas se resolvermos os mais simples primeiro, podemos depois partir para os mais complexos.

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