domingo, 13 de novembro de 2011

O talhante orgulhoso

CADE (Part 2): The Good Slaughter: A Proud Meat Cutter Shares His Processing Floor from SkeeterNYC on Vimeo.

Um testemunho em formato de documentário sobre um talhante de Nova Iorque, orgulhoso do seu trabalho e da forma como o faz. Numa época em que a internet serve de plataforma previlegiada para denunciar e atacar, em especial no que diz respeito à forma como os animais são tratados, é revigorante ver um documento que não procura nada disso, retratando sem artifícios o trabalho de um homem, ao mesmo tempo que lhe permite contextualizar a sua prática. A transparência, rigor e simplicidade com que este talhante fala do seu metier só tem paralelo na forma virtuosa como executa as suas funções.

10 comentários:

  1. Impressionante.

    Numa sociedade em que se consome carne, devia haver esta transparência em relação a todos os aspectos deste consume.

    Não sabemos quanto tempo que os animais passaram no matadouro, nem qual a duração do transporte. Mas o que se vê do próprio abate parece exemplar, calmo, evitando violência no tratamento do animal vivo.

    Representativo? Infelizmente não. Abate "artesanal" é um luxo para poucos animais e poucos consumidores.

    Certo? Nem todos estarão de acordo. Quem não comer carne, atire a primeira pedra.

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  2. De facto, depois de todas as coisas horríveis que já vi, ao vivo e em documentários, é bom ver este vídeo. Não há gritos, animais a tentar fugir, violência. É apenas um senhor a fazer um trabalho que ele próprio diz lhe custar fazer, mas que o faz bem exactamente por isso. Eu pessoalmente deixei de comer carne por saber que este tipo de abate ocorre apenas 0,009 das vezes. Para mim não faz sentido algum dar uma boa vida ao animal, se depois não lhe damos uma "boa morte". Até porque dar-lhe uma “boa vida” é extremamente relativo, é o nosso ponto de vista mas podia não o ser se conseguíssemos perguntar ao animal. Quem nos garante que eles não preferiam ver a sua espécie extinguir-se do que apenas viver um terço da sua vida à nossa mercê, apesar de terem comida, abrigo e à partida, protecção relativamente a dor e desconforto? (o que acaba por ser uma utopia nas explorações altamente intensivas, cada vez mais utilizadas). O que é certo é que os animais hoje em dia utilizados estão cada vez mais a perder as suas características naturais e provavelmente nem sobreviveriam se fosse libertados.

    E este senhor, será que se alguém lhe mostrasse todos os estudos que dizem que podemos viver sem carne, que se diminuíssemos o seu consumo havia uma divisão mais equitativa e justa dos recursos alimentares, e que o facto de a comermos é uma das maiores causas de poluição do nosso planeta (ainda maior que utilização de transportes motorizados), ainda manteria a sua profissão?
    Num mundo ideal, o consumo de carne seria menor e todos os abates seriam feitos por senhores como este, mas por em quanto a sociedade continua a pressionar-nos a comer cada vez mais carne e a fechar os olhos à realidade do nosso bife. Como disse Sir Paul McCartney "If slaughterhouses had glass walls, everyone would be vegetarian." Ou então não, se mais matadouros seguirem o exemplo deste.

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  3. Cara Inês,

    Obrigado pelo teu comentário. O conflito de que falas, entre o interesse da espécie em se perpetuar e o interesse do indivíduo em não ser bife, está na base da convivência difícil entre as éticas ambiental e animal. A meu ver, a produção intensiva de carne não é amiga do ambiente mas também não o é o consumo intensivo de vegetais (milho, cereais,...). Por isso é que eu acho que a solução não passa por abolir o consumo de carne mas reduzir e torná-lo mais como o exemplo do vídeo. Se todos fossemos vegetarianos, o problema punha-se na mesma mas na versão veggie da sobrexploração de recursos. Voltando ao Paul MacCartney, ele também disse "Less meat = Less heat" e não "No meat = Less heat".

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  4. Concordo que a solução não passe pela abolição do consumo de carne simplesmente porque não temos uma solução melhor, a sobrepopulação mundial e os tipos de produção que temos disponíveis não nos permitem. Acredito que a solução passe pelas escolhas conscientes de cada um de nós... o problema é que as pessoas não sabem, nem querem saber, é um assunto extremamente incómodo de ser discutido. Eu escolhi não comer qualquer tipo de carne mas não me choca nada pessoas que criem os seus próprios porcos com o bom e do melhor para depois os comerem, ou que quando vão ao talho fazem questão de saber de onde veio a carne que vão consumir. O que me choca é as pessoas continuarem a insistir que comemos carne porque precisamos e preferem ficar surdos e cegos ao resto. Como costumo dizer aos meus amigos e familiares, se já foste a um matadouro e sabes o que é uma exploração intensiva, viste o que acontece, e mesmo assim consegues comer carne, então estás no teu direito! Enfim, é uma maneira pessoal de encarar um problema que tem raízes muito profundas.

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  5. Concordo que é interessante ver um documentário desta natureza, em que o abate dos animais é feito com transparência e, como será desejável, sem grande frenesim.
    Estranharia se este documentário estivesse num site de alguma organização dos direitos dos animais, ao lado de documentários como o “Earthlings”, mas por outro lado, se um documentário sobre este processo passasse (repito, passasse) na televisão seria com certeza idêntico a este.
    Felizmente a legislação tem progredido nos últimos anos e, com base em conhecimento científico, têm sido realizadas alterações nas condições de alojamento, transporte e abate de animais de produção. Porém as condições ainda não são as melhores e dificilmente o serão, basta pensarmos no número de pessoas que se alimentam de carne e de outros derivados animais e quantas vezes o fazem ao longo de uma semana, de um ano, de uma vida… Esta é uma das principais causas para a intensificação da produção animal, impedindo que o espaço físico seja o desejável e, logo, que os ambientes sejam ricos da perspectiva dos animais.
    Há ainda que analisar os processos que antecipam o abate. Não pretendo prolongar esta discussão por todas as fases de vida destes animais, mas analisemos as que antecedem imediatamente o abate: o transporte e a chegada ao matadouro. Frequentemente os animais são colocados com outros que desconhecem, o que provoca stress e pode causar agressões. Já no matadouro estes observam e ouvem (ou, neste caso, deixam de ouvir) outros animais a serem atordoados e a serem levados para o abate; outros sentidos estarão alerta (como o olfacto). Sabendo das capacidades sensoriais e cognitivas de muitos animais é fácil de prever o medo e sofrimento experienciado neste cenário.
    Para terminar, considero que observar o “The good slaughter” não pode ser tranquilizador, uma vez que, como já foi referido, este cenário não é representativo da realidade; todavia é de louvar a realização e a exposição de documentários que abordem os animais de produção, seja qual for o ponto de vista abordado.
    É essencial reflectirmos sobre as nossas escolhas e as consequências das mesmas: o que é culturalmente aceite, não tem obrigatoriamente uma conotação ética e a cultura é mutável (há cerca de 50/60 anos atrás comer carne era um luxo). O poder da mudança recai sobre os consumidores (todos nós); esperemos então que, nesta Era da informação, a espécie “Consumidor consciente” se propague!

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  6. Aqui está um bom exemplo de como ainda é possível, mesmo numa indústria cujo objectivo final é o lucro financeiro, executar um trabalho da melhor forma possível tendo em linha de conta o bem-estar animal. O contraste entre este documentário e a realidade dos matadouros em Portugal, pelo menos do que pude observar durante a minha formação, deve-se talvez a uma alienação da perspectiva do animal.
    Os matadouros atingiram um nível de industrialização tal, que o lucro passou a ter um peso maior do que a própria vida do animal e o objectivo é obter mais carcaças em menos tempo. E se é compreensível que para satisfazer as necessidades do mercado se tenha que pensar nos negócios a larga escala, não é aceitável que nessa escala não haja espaço para pensar nos pormenores, tais como o bem-estar. Foram vezes sem conta as que assisti a uma linha de abate e tive oportunidade de verificar que a confusão e o ruído a que os animais são expostos antes do abate atingem níveis desnecessários que poderiam facilmente ser controlados. Já para não falar de alguns animais que são dependurados ainda mal atordoados.
    Não sei se estas situações acontecem por falta de sensibilidade de quem executa a tarefa, por falta de formação ou se por um distanciamento que se adquire pelo carácter repetitivo deste tipo de trabalho. O que é facto é que as condições de abate nem sempre são as melhores.
    No entanto, a preocupação com tema bem-estar existe e a prova é a legislação que já foi criada e posta em vigor nesse sentido (Decreto-lei n.º 28/96 de 2 de Abril e a Convenção Europeia para a protecção dos animais no abate e occisão). Mesmo assim, parece que fica em falta um sistema eficaz de supervisionamento que garanta que a mesma é cumprida.

    Infelizmente, a realidade retratada neste documentário parece estar ainda longe de poder ser aplicada a linhas de abate de maiores dimensões.

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  7. Cara Inês Orfão:

    O argumento da cultura tem sido commumente usado para justificar liminarmente práticas agropecuárias pouco sustentáveis. Mas não concordo que o que é culturalmente aceite não tenha sempre uma conotação ética. A meu ver terá, já que a cultura é um reflexo do viver comum da sociedade (e deriva da chamada ética social). O que pode é não ser bem informada ou ser lenta a acompanhar os novos tempos. Há 50 ou 60 anos atrás não existia pecuária intensiva e quem vir este vídeo ainda achará que representa um abate normal. Estou em crer que a maior parte das pessoas ainda acredita (ou quer acreditar)que os animais são produzidos no campo o que pode querer dizer que a cultura ocidental ainda não interiorizou a pecuária intensiva e as suas consequências.

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  8. A propósito da resposta do Manuel: A padrão de consumo também tem alterado muito. Há 50 ou 60 anos atrás, não se comia carne como comemos agora. Carne carne, como num bife ou uma costeleta de porco ou um frango assado, não era comida de dia a dia.

    Se queremos honrar a cultura gastronómica portuguesa, então que comamos dos muitos pratos que combinam leguminosas em grande quantidade com pequenas quantidades de carne (as feijoadas, tripas-à-moda-do-Porto etc) ou que combinam batatas e outros legumes em grande quantidade com pequenas qualidades de bacalhau. E ganhamos duplamente, porque é comida mais saudável para nós e mais saudável para a planeta.

    Permitem-me a ser radical: bife com batata frita não é cultura nenhuma!

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  9. Cara Leonor,
    Não tenho duvidas que este documentário é muito pouco representativo, e como observa, o conceito de grandes matadouros onde o abate é feita como um momento numa linha de produção parece incompatível com um abate sem stress e medo.

    Será mesmo impossível?

    Acredito que não. A dificuldade não é definir o que é uma boa prática ou construção (ver por exemplo o website de Temple Grandin para bons exemplos), a dificuldade é como fazer para que seja implementada.

    Há de se reconhecer que as condições de trabalho num matadouro também ssão extremamente desgastantes. Para que o trabalhador respeite o animal é preciso que o empregador primeiro respeite o trabalhador.

    Intriga-me que existe poucos estudos de investigação sobre os aspectos psicologicos do emprego do matadouro, mas este artigo relata alguns
    http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1016401##.

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  10. É verdade que a cultura do consumo sofreu grandes alterações, sendo a cultura actual (analisando de uma forma generalizada e ao nível dos países desenvolvidos) caracterizada por um consumo excessivo. Em muitas sociedades o convívio entre familiares, amigos, colegas, ocorre durante as refeições e fazem parte dos costumes servir pratos que incluam carne. Culturalmente o consumo da carne banalizou-se (seria interessante comparar a carne contida num prato de feijoada e o número de vezes que se consumia feijoada há anos atrás e nos dias de hoje).
    Concordo que, tal como a cultura, a ética é mutável, resultando, neste último caso, da reflexão com base nos conhecimentos de que dispomos. Hoje, ao olharmos para trás, é fácil apercebermo-nos do sentido que faz comer legumes diariamente e comer carne ocasionalmente, por diversos motivos (ambientais, nutricionais, etc.). Mas quando o consumo aumentou, com o surgimento de novos recursos (como o frigorífico por exemplo), estaríamos longe de antever a dimensão que iria tomar e das consequências que daí iriam decorrer.
    Creio que a maioria dos consumidores distinga, em traços gerais, a produção intensiva da extensiva ("animais são produzidos no campo"). Mas o distanciamento que existe entre o ser que consome e o ser que é consumido é gigante. E não diminuirá enquanto a maioria não reflectir sobre este assunto, para lá dos costumes da sociedade.

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