sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Uma refeição completa?

O consumo de carne baixou cerda de 10% durante 2012, relata a Renascença. As famílias têm menos dinheiro e cortam no alimento básico que é mais caro, ou seja a carne.

Não é só por contar a desesperante historia de quem tem que fazer o dinheiro chegar mais longe do que se calhar é possível, o texto da notícia é ainda triste por revelar uma visão tão limitada do que é alimentação.

O presidente da Federação Portuguesa de Suinicultores diz "“Quando não há dinheiro, há mesmo que cortar. Se eu tenho de ir comprar cinco euros de carne e se conseguir trazer uma embalagem de ‘cornflakes’ e dois litros de leite, janto muito mais barato com a minha família." Mais adiante lê-se que "grande parte dos portugueses não tem meios financeiros para refeições completas".

Pois, admito que dois litros de leite e um pacote de cornflakes está muito longe de ser uma refeição completa. Mas o que aconteceu com as sopas, os leguminosos,.as feijoadas - todos aqueles pratos que foram elaborados para fazer pouca carne chegar muito longe?

Espero bem que são estes que estão a ser feitas quando "“Fazem uma refeição com uma morcela, fazem uma refeição com um chouriço,".

Mas penso que qualquer jornalista hoje deve saber suficiente sobre cozinha vegetariana para saber que uma refeição pode ser completa sem conter nenhum produto de origem animal.


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Bem-estar no Abate - "Kill it, Cook it, Eat it"



Por Ricardo Reis:

Ontem (sic) vi um episódio do programa britânico "Kill it, Cook it, Eat it", que pretende mostrar a um grupo de pessoas ao vivo e aos telespectadores, todo o processo de abate, desmanche e preparação da carne, sendo dada oportunidade aos presentes de comer a carne do animal que viram ser abatido. O episódio de 13 de Dezembro foi sobre porcos. Ora, durante o programa, foram feitas duas afirmações sobre as quais eu gostava de ouvir a opinião dos especialistas.
A dada altura foi dito que o Reino Unido tinha as melhores práticas em termos do bem estar dos animais durante o abate (apesar de um representante da Compassion in World Farming ter dito que nos maiores matadouros a pressa é tanta que os animais podem não ficar devidamente atordoados e acordar antes de morrerem), contrastando com a Europa Continental, que ainda teria um longo caminho a percorrer. Eu gostaria de saber se é verdade, ou se há algum chauvinismo da parte das autoridades britânicas.

Outra coisa que disseram, na voz de uma oficial do Meat Hygiene Service (MHS), foi que o atordoamento provoca o equivalente a um ataque epiléptico, pelo que os movimentos das pernas que vemos pouco depois do atordoamento são espasmos involuntários e até indicam um bom atordoamento. Isto é verdade? Se sim, então como podemos saber se um animal está a recuperar consciência antes de morrer? Que sinais nos indicariam isso?

Por último, confesso que fiquei um pouco surpreendido por nenhuma das pessoas que testemunhou o abate, aparentemente, se ter recusado a comer a carne cozinhada a partir daquele porco. Faz-nos pensar se Paul McCartney tinha razão quando disse: “If slaughterhouses had glass walls, everyone would be a vegetarian.” Atribuo essa recusa a 2 factores:
- O processo de abate mostrado parecia de facto seguir as melhores práticas: os porcos nunca se mostraram agitados, o atordoamento foi eficaz, o sangramento foi rápido, de uma maneira geral, parece não ter havido sofrimento da parte dos porcos. 
- A responsável do MHS foi explicando o que estava a ser feito e reassegurando as pessoas que os animais estavam a ser abatido da forma o mais humanitária possível. Sem essa responsável lá, algumas pessoas poderiam ter pensado que os porcos estavam a voltar a si quando agitaram a perna durante o sangramento. Além disso, acho que a presença da responsável faz com que as pessoas racionalizem mais o que estão a ver, ao invés de reagirem emocionalmente.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Agricultura em tempos de guerra



Com Natal a aproximar-se, o trabalho intensifica-se com as obrigações relacionadas com o fim do ano fiscal. Sobra pouco tempo e energia para animalogar. Nada melhor nestas circunstâncias do que uma boa série televisiva, e ninguém melhor do que BBC para produzir infotainment de qualidade. Esta ainda por cima tem relevância animal e está disponível on-line. 


O segundo episódio começa com o dilema entre manter animais ou usar cereais diretamente para alimentação humana. O mesmo dilema que discutímos hoje em termos ambientais, mas que em 1940 era posto de uma maneira muito mais aguda e imediata.


Os restantes episódios, 3-8, estão todos no YouTube.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Bo Algers sobre a Conferência Global sobre Bem-estar Animal

Anna Olsson: Olá Bo Algers (Professor de Higiene e Bem-estar Animal na Universidade Sueca de Ciências Agrárias - SLU). Regressaste recentemente de Kuala Lumpur, na Malásia, onde participaste, na qualidade de investigador, na terceira Conferência Global sobre Bem-estar Animal, organizada pela OIE. No panorama global, é o bem-estar animal um tema importante?
Bo Algers: A protecção dos animais tornou-se numa questão cada vez mais importante também numa perspectiva global. Para a OIE, a organização internacional de saúde animal, que trata principalmente de doenças infecciosas em animais, esta questão tornou-se importante uma vez que para controlar doenças infecciosas é necessário muitas vezes matar um grande número de animais. Os métodos de abate têm sido questionados já que existem casos de animais que foram incinerados vivos. A OIE teve, por isso, de desenvolver padrões para o abate de animais em conjunto com o controlo de doenças. A organização também desenvolveu regras de maneio dos animais durante o transporte e abate e outras regras estão a ser desenvolvidas. Mas nesta conferência foi interessante perceber que, por exemplo, existe uma organização pan-Africana de bem-estar animal, que a Malásia (que organizou a conferência) está prestes a lançar a sua primeira lei de protecção animal e que há um interesse geral nestas questões, e não só da parte de órgãos governamentais, em muitos países em desenvolvimento.

AO:
Quais os principais pontos discutidos nesta conferência?

BA:
Esta conferência abordou, acima de tudo, questões ligadas às circunstâncias regionais, tais como os aspectos culturais e religiosos. Por exemplo, a questão do bem-estar animal durante o abate halal foi tema de um workshop dedicado. Muitos expressaram a necessidade de abertura e transparência durante a produção, transporte e abate para garantir que essas atividades são feitas de uma forma que a sociedade possa aceitar. Outra questão levantada pela OIE foi a das normas que podem ser consideradas como barreiras comerciais razoáveis no comércio internacional. A OIE defendeu que apenas as suas próprias normas possam ser consideradas motivos válidos. Mas muitos interessados defenderam um ponto de vista diferente, argumentando que os países com padrões mais elevados de bem-estar deveriam ser capazes de os usar em vez das normas da OIE. Nesta questão, há uma divisão entre, em especial, os estados membros da UE e outros países. Vários participantes de estados membros da UE argumentaram que, se se evita apelar a normas mais abrangentes, não haverá nenhuma motivação para avançar com a questão do bem-estar animal. A Suécia, entre outros países, pode ser um modelo importante na defesa desta questão no âmbito da OIE.
 

AO: Para mim foi um momento revelador quando ouvi os responsáveis por assuntos em bioética na UNESCO falarem sobre a reacção que tinham recebido de países em desenvolvimento: “Vocês discutem diagnóstico pré-natal e consentimento informado, para nós bioética centra-se em ter água limpa e cuidados básicos de saúde”. Imagino que haverá distâncias correspondentes no que diz respeito à saúde e bem-estar dos animais. Como se lida com isso numa discussão global?  

BA: Eu penso que muitos ficariam surpreendidos com a rapidez com que estes assuntos granjearam uma atenção global. E não é alheio o facto de ser precisamente quando os animais são transportados, manuseados e abatidos que pode haver consequências financeiras directas do mau trato aos animais, sendo a quantidade de carne produzida reduzida. Penso que isto é relevante quer para consumo interno, quer para exportação. Por isso para muitos pequenos e grandes intervenientes esta questão é importante. Ademais, aumentar o nosso conhecimento significa que o bem-estar animal é cada vez mais visto como parte da noção de “uma só saúde”. As discussões entre os cerca de 280 delegados de 72 países não pareceram de todo artificiais, mas antes muito relevantes.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Por que não me proponho para adotar um ratinho

O corpo foi descoberto 6/12 às 8h de manhã mas o estado de rigor mortis indica que a morte teve lugar durante a noite. Desta vez a protagonista não foi apanhada em flagrante, mas há fortes suspeitas.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

"Quem quer adoptar um ratinho?"

O suplemento P3 do Público noticiou esta semana uma iniciativa do Núcleo de Estudantes de Bioquímica da Universidade do Porto, que pretendem dar para adopção murganhos (ratinhos) e ratos saudáveis usados em aulas.

Uma iniciativa do Núcleo de Estudantes
de Bioquímica da Universidade do Porto
Ainda que sejam apenas anestesiados sem qualquer outra intervenção, não podem no entanto regressar ao Biotério do ICBAS por razões de segurança. Assim, a solução habitualmente utilizada é eutanasiar os animais findo o seu propósito. Esta medida, embora comum, este ano chocou vários alunos, que empreenderam esforços no sentido de serem autorizados pela universidade a procurarem lares de acolhimento para dez destes animais - que os alunos garantem terem sido tratados com o maior respeito pelo seu bem-estar -  como alternativa à eutanásia.




Recentemente, no decorrer da nossa actividade académica, eu e a Anna Olsson temo-nos debruçado sobre a perspectivação da morte dos animais usados em ciência e no ensino como uma inevitabilidade, e se haverá alternativas eticamente preferíveis, como a adopção. 
Murganhos
No página de Facebook desta iniciativa, surge um grande número de candidatos a disponibilizar-se para adoptar apenas um animal, o que revela que conhecem mal o comportamento e biologia destas espécies. Tantos os ratinhos (Mus musculus) como os ratos (Rattus norvegicus, vulgo ratazanas) são  animais marcadamente sociais e que sofrem consideravelmente com o isolamento. Querendo esclarecer esta questão, enviei uma mensagem para o Núcleo, tendo-me sido agradecido o esclarecimento, e informado que quem adoptar os animais receberá aconselhamento de veterinários. 

Os alunos recusaram, contudo, responder a mais questões para este blog, muitas delas importantes para aferir se este tipo de iniciativa resultará de facto num ganho para os animais. Fica assim por esclarecer:

- Quais os critérios de selecção dos candidatos à adopção (serão os "primeiros a chegar"? Os que já tiverem habitats para este tipo de animal? Quem demonstrar conhecimento das reais necessidades destes animais? Quem já tiver experiência no cuidado de roedores?) 
- Como garantir que os animais serão bem tratados? 
- Haverá um acompanhamento da situação dos animais? Por quem? 
- Como garantir que estes animais não se irão reproduzir (desconheço se os animais são todos do mesmo sexo, ou se os alunos sabem distinguir machos de fêmeas para prevenir alojar casais)?

Estas são questões a que urge dar resposta, uma vez que uma acção potencialmente benemérita poderá resultar no comprometimento da imagem da Universidade do Porto relativamente às suas obrigações no campo da bioética e  higiene pública. 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Guerra do Leite em Bruxelas

O Jornal Público tem no seu (renovado) site uma excelente fotorreportagem da manifestação dos produtores de leite europeus à porta da Comissão Europeia em Bruxelas, no passado dia 26 de Novembro. Já aqui abordámos a questão da sustentabilidade do sector leiteiro nacional e europeu quer do ponto de vista do bem-estar animal, quer do ponto de vista da regulamentação do mercado. Numa altura em que as falências no sector se sucedem, o anunciado fim das quotas leiteiras em 2015 e das ajudas directas à produção têm deixado as associações de produtores à beira de um ataque de nervos, ao ponto de regarem com leite os edifícios da Comissão. Na prática, o fim das quotas leiteiras implica a liberalização do mercado: por um lado não são impostos limites à produção de cada país mas, por outro lado, isso representa também uma maior exposição dos membros da UE à concorrência interna e externa. As novas regras europeias de compra e venda de produtos lácteos pretendem substituir o regime de quotas mas têm sido acusadas de favorecerem os países do Centro e Norte da Europa em detrimento dos do Sul.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Novas iniciativas portuguesas na promoção de alternativas à utilização de animais em biomedicina


O tema da experimentação em animais tem vindo a ganhar crescente relevância em Portugal, ainda que esteja longe do nível de controvérsia que se observa noutros países, como o Reino Unido, Suiça ou alguns países escandinavos.

Começam assim a surgir algumas iniciativas para a promoção de alternativas ao uso de animais em biomedicina, com a particularidade de serem da parte de instituições não-académicas, como é a Sociedade Portuguesa para a Educação Humanitária (SPedH) e o Biocant Park.

O primeiro será o workshop “Alternativas à utilização de animais em estudos pré-clinicos”, uma iniciativa do  Biocant Park (Cantanhede, Coimbra), e ao abrigo do projecto europeu ShareBiotech, a realizar a 10 de Dezembro.


Segundo a organização, esta workshop parte da identificação deste tipo de iniciativas como uma das necessidades mais prementes, num questionário dirigido a grupos de investigação. O workshop focar-se-á essencialmente na divulgação de abordagens em estudos pré-clinicos sem o uso de animais, sendo uma oportunidade para a indústria, investigadores e clínicos discutirem e traçarem linhas de acção no sentido de desenvolverem potenciais alternativas ao uso de animais nesta área.

Uma outra iniciativa será o International Conference Of Alternatives to Animal Experimentation, organizada pelo SPedH, e que tomará lugar a 26 e 27 de Janeiro de 2013, em Almada. O programa contará com influentes oradores portugueses e estrangeiros nas áreas da filosofia, da investigação biomédica e até da política. Estão também abertos à submissão de abstracts para posters até 30 de Novembro.


Da minha parte, tenho particular curiosidade neste último evento, nomeadamente no que diz respeito ao "tom" de toda a conferência, dado os organizadores se alinharem próximos da perspectiva dos "direitos dos animais", e pela qual se regem também alguns dos principais convidados. Terá contudo também a participação de cientistas com diferentes visões, pelo que poderemos ter um interessante e equilibrado debate. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Academicos opinativos - entrevista com Mickey Gjerris


Anna Olsson: Olá Mickey Gjerris*. Recentemente, ao embarcar num avião em Copenhaga, peguei por acaso num exemplar de um dos maiores jornais dinamarqueses, e vi publicado um comentário teu sobre bem-estar animal e a indústria agro-pecuária Dinamarquesa. Podias por favor resumir os principais pontos deste comentário aos leitores do Animalogos? 

Mickey Gjerris: O ponto de partida da minha carta ao editor foi o questionar da alegação que frequentemente é feita pelo sector agrícola dinamarquês de que são os “campeões mundiais” em bem-estar animal. Isto foi usado para discutir como o bem-estar animal é um conceito complexo e que é entendido de modo distinto por diferentes pessoas. Alegar ser campeão mundial de bem-estar animal é assim um gesto bastante desprovido de significado.

Tendo isto como pano de fundo, prossegui criticando diversos aspectos da indústria pecuária dinamarquesa, mostrando como o bem-estar de animais é sacrificado no altar da produtividade. Finalmente mostrei como outros países europeus têm, nalgumas áreas, padrões mais elevados de bem-estar animal do que a Dinamarca, nomeadamente ao nível de práticas de corte de caudas e castração dos leitões, a oportunidade dada aos bovinos de leite para poderem pastar, etc. 

AO: Qual foi a reacção ao teu comentário? 

MG: A reacção tem sido um enorme número de e-mails (+50) da parte de pessoas que consideram uma novidade positiva que alguém do mundo académico fale abertamente contra os métodos de produção tipicamente usados. Ademais, o presidente da Organização Dinamarquesa para a Agricultura – uma entidade que reúne produtores e demais partes interessadas da cadeia de produção – publicou uma resposta no mesmo jornal, basicamente dizendo que têm de fazer aquilo que é preciso para competir numa economia aberta, que as coisas não são tão más como se julga (ele não tem no entanto documentação que o comprove) e afirmando que os produtores de gado dinamarqueses amam e respeitam os seus animais. 

AO: Que pensas da contribuição de investigadores vindos do mundo académico neste debate? Temos um papel legítimo como fazedores de opinião, ou responsabilidade nesse sentido? 

MG: Considero a participação em debates públicos uma parte importante do meu trabalho como eticista. De certa maneira revejo-me na figura do antigo bobo-da-corte, alguém com a função de dizer aquilo que toda a gente já sabe, mas que ninguém quer saber. Para além disso, o meu trabalho é qualificar o debate público e ajudar a desenredar conceitos e ideias complexos de modo a torná-los acessíveis a outros, bem como identificar afirmações erróneas e que tornam o debate demasiadamente simplista. No caso da produção agro-pecuária dinamarquesa ser vista como a ‘campeã do mundo’, eu considerei importante que alguém com conhecimento suficiente questionasse essa crença de modo a tornar o debate público mais informado. Geralmente considero importante que os académicos participem em debates públicos e os tornem mais qualificados. Temos sempre que ter em atenção, porém, a distinção entre o conhecimento que temos como especialistas e as opiniões que advogamos como cidadãos. Isto não é um exercício fácil e por vezes estas duas vertentes são difíceis de dissociar, mas devemos não obstante tentar fazê-lo.

* Mickey Gjerris é professor associado na Universidade de Copenhaga. Com formação inícial em teologia, fez o seu doutoramento em bioética. Hoje desenvolve trabalhos sobre tópicos como alterações climaticas, ética animal, bioética e ética da natureza. É membro do Danish Ethical Council (www.etiskrad.dk), acredita profundamente em tofu fumado, gosta de abraçar arvores e ver as nuvens passar e tem uma relação quase apaixonada com o seu iPhone.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O pessimista e o seu cão

Arthur Schopenhauer (1788-1860) foi um peculiar filósofo alemão, fundador de uma corrente ético-filosófica denominada pessimismo metafísico. “Viver é sofrer”, dizia ele, e para esta visão não terão sido alheios o suicídio de seu pai quando Arthur tinha 17 anos e a má relação com a mãe, com quem rompe em definitivo aos 26.

A base do pensamento de Shopenhauer é a filosofia kantiana, a qual funde com as escrituras hindus. Foi ele o responsável pela introdução do pensamento oriental (nomeadamente as religiões da Índia, o Hinduísmo e o Budismo) na metafísica alemã. Contemporâneo de Hegel e opositor visceral das suas teorias, envolve-se numa batalha de protagonismo na Universidade de Berlim, da qual sai perdedor. A sua obra maior é O Mundo como Vontade e Representação, publicada nos finais de 1818. Bertrand Russell diz que Shopenhauer dava enorme importância a esta obra, chegando a dizer que alguns parágrafos tinham sido ditados pelo Espírito Santo. Vivendo em permanente litígio com os seus pares, Shopenhauer lamentava-se da miséria da condição humana e considerava os seres humanos cegos de egoísmo. "Não existe felicidade", dizia ele, "porque um desejo irrealizado causa pena e, se atingido, saciedade".

O temperamento de Shopenhauer foi-se tornando progressivamente mais irascível e solipso. Com 45 anos instala-se em Frankfurt e durante os vinte e sete anos que aí viveu, dedicados em exclusivo à reflexão filosófica, levou uma vida solitária, tendo só um cão por companhia. Schopenhauer era amante de cães pois, segundo ele, entre os cães - e contrariamente ao que ocorre entre os homens - a vontade não é dissimulada pela máscara do pensamento. Durante estes anos, Shopenhauer teve uma dinastia de Caniches, sempre de nome Atma, que significa “alma do mundo” em hindu.

A predilecção de Schopenhauer por animais era filosoficamente justificada: ele argumentava que os animais não-humanos possuíam a mesma essência dos humanos, apesar da ausência de razão. Embora não praticasse o vegetarianismo e o considerasse facultativo, defendia que os direitos dos animais deviam fazer parte da reflexão moral. Opunha-se à vivissecção, muito utilizada por pensadores e cientistas da época, e criticou furiosa e demoradamente a ética Kantiana por não incluir os animais no seu sistema moral.

Nietzsche, muito influenciado pelo seu pensamento, apelidava-o de “cavaleiro solitário”. Na sua vida é difícil encontrar provas de virtude, excepto para com os animais. A sua visão da natureza humana era de tal modo pessimista que, quando faleceu a 21 de Setembro de 1860 vitimado por uma pneumonia, deixaria todos os bens ao seu caniche Atma, a alma do mundo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Seminário sobre Bem-estar Animal - Coimbra

O Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos Veterinários, em parceria com a Direcção de Serviços de Alimentação e Veterinária da Região Centro – DGAV e com a colaboração da Escola Universitária Vasco da Gama, está a organizar um Seminário referente aos temas:

- RAÇAS POTENCIALMENTE PERIGOSAS: Comportamento;

- BOVINOS E SUÍNOS: Bem Estar animal na Exploração – Desafios em 2013;

- INSPEÇÃO SANITÁRIA: Abates de Emergência.

O evento realizar-se-á no dia 10 de Novembro de 2012, no Auditório da Escola Universitária Vasco da Gama, em Castelo Viegas em Coimbra.

Inscrições até às 16h00 do dia 09 de Novembro de 2012.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Ignorância ou ideologia?


Há um aparente paradoxo entre a opinião predominante entre cientistas portugueses (e a qual partilho) de que teorias como o criacionismo ou o ‘intelligent design’ não se apresentam como problemáticas em Portugal, e os dados apresentados por Jerry Coine que mostram que cerca de 25% dos portugueses consideram a teoria da evolução falsa. Não resisti a debruçar-me sobre esse paradoxo, e fui assim conferir o artigo original citado por Coyne (e do qual ele obteve o gráfico). O artigo original não é acessível através do website da revista (mas poderão facilmente encontrá-lo através de uma pesquisa no Google).  


 Este artigo fora publicado em 2006 na Science, por Jon D. Miller, Eugenie C. Scott e Shinji Okamoto, respectivamente dois investigadores dos Estados Unidos e um do Japão. Como acontece frequentemente em artigos publicados nestas revistas de elevado factor de impacto e que são extremamente condensados, para aferir como o estudo foi de facto conduzido o que precisamos de ler é o material de suporte disponível online.

A partir daqui, procurei identificar o que de facto foi perguntado neste estudo e cujas respostas servem de base a este gráfico. 

Estes dados referentes à Europa provêm do estudo 63.1 do Eurobarómetro. Este foi conduzido usando um questionário extenso, sendo que Miller et al não fornecem nenhuma informação acerca de que parte dos dados foi usada na sua comparação com os provenientes dos Estados Unidos e o Japão, mas as únicas perguntas que dizem respeito à evolução encontram-se na questão Q10. Segue uma lista de afirmações apresentadas aos respondentes para testar os seus conhecimentos em áreas da Ciência e Tecnologia (nota: a tradução aqui apresentada e a nossa do inglês e difere ligeiramente da versão portuguesa do inquerito original).

- O centro da Terra é muito quente
- O Sol orbita em torno da Terra
- O Oxigénio que respiramos provém das plantas
- O leite radioactivo torna-se seguro após fervido
- Os electrões são mais pequenos que os átomos
- Os continentes em que vivemos têm-se movido durante milhões de anos e continuar-se-ão a mover no futuro
- São os genes da mãe que determinam se o bebé será um rapaz ou uma rapariga
- Os primeiros seres humanos viveram no mesmo período que os dinossauros
- Os antibióticos tanto matam bactérias como vírus
- Os lasers funcionam pela focalização de ondas sonoras
- Toda a radioactividade é produzida pelos seres humanos
- Os seres humanos, tal como os conhecemos, desenvolveram-se a partir de outras espécies mais antigas
- A Terra demora um mês a dar uma volta em torno do Sol.

Destaquei as duas frases acima que nos dão alguma informação relativamente à evolução. Estas foram também incluídas num estado sobre o nível de aceitação dos paradigmas científicos nos Estados Unidos mas – e isto é de particular importância para entender o que os dados de Miller nos dizem sobre Portugal – no estudo americano estes surgem juntamente com um terceiro, mais forte:
“Os seres humanos foram criados por Deus como pessoas completas e não evoluíram de formas de vida mais antigas” 

Vamos assim olhar para estas três informações e reflectir acerca do que as diferentes respostas nos podem dizer sobre o que os respondentes sabem e acreditam

- A afirmação “Os primeiros seres humanos viveram no mesmo período que os dinossauros” é falsa. Mas para responder corretamente não chega ter conhecimento que o processo de evolução tem lugar, é ainda necessário conhecer a história natural da Terra o suficiente para saber que a espécie humana apenas surgiu depois da extinção dos dinossauros.
 - A afirmação “Os seres humanos, tal como os conhecemos, desenvolveram-se a partir de outras espécies mais antigasé verdadeira. As razões mais prováveis para afirmar ser falsa serão acreditar que os humanos são especiais e assim não relacionados com outras espécies (ideologia) ou não ter a mínima ideia de como as espécies evoluíram (ignorância).
Mas a única afirmação que permite distinguir ideologia de ignorância é “Os seres humanos foram criados por Deus como pessoas completas e não evoluíram de formas de vida mais antigas”, mas aos respondentes portugueses não foi pedido que comentassem esta afirmação.  

No estudo europeu estas frases foram usadas para medir o nível de conhecimentos em ciência e tecnologia - não para medir aceitação da teoria da evolução. E Portugal surgiu como um dos países com menor nível de conhecimento científico, como este mapa do Relatório do Eurobarómetro evidencia (a cor cinzenta representa a categoria mais baixa, 0-20% de respondentes com conhecimento científico muito bom).

E assim, onde levará tudo isto? Vou argumentar que com base neste conjunto de dados é de facto impossível separar ideologia de ignorância na explicação para a relativamente reduzida crença na teoria da evolução em Portugal. Mais, diria que há de facto alguma indicação de que é ignorância e não ideologia que explica porque Portugal fica numa posição tão baixa na escala de aceitação da teoria da evolução.

Baseio este argumento numa abordagem diferente dos mesmos dados. Num artigo de Cosima Rughini de 2011 encontrei o pormenor importante que me faltava no artigo de Miller. Com base nas respostas perante a afirmação Os seres humanos, tal como os conhecemos, desenvolveram-se a partir de outras espécies mais antigas, foi feito o ranking de 33 países em termos de aceitação da evolução. Se este ranking for feito com base na percentagem de respostas corretas (que a afirmação é verdadeira), Portugal ocupa um modesto 18º lugar entre 33. Mas, se o ranking for feito com base na percentagem de respostas incorretas (que a afirmação é falsa), Portugal sobe até um confortável 10º lugar, com uma percentagem menor de respostas erradas do que Alemanha, Países Baixos e Suiça. Isto é porque os portugueses respondem "Não sei" proporcionalmente com mais frequência. 

E será que isto importa? Provavelmente, sim. A razão pela qual Jerry Coyne escreveu este livro foi que achou que se as pessoas ficavam a conhecer a evidência convincente da teoria da evolução passarão a ser convencidas da sua veracidade. Como disse na sua palestra na Serralves, ele acabou por perceber que isto não é suficiente, pelo menos nos Estados Unidos de onde é oriundo: as pessoas também precisam de ser menos religiosas.

Mas se em Portugal o principal problema é o conhecimento e entendimento muito limitado da ciência (e não sendo a Igreja no geral avessa à ciência ou a explicações científicas), então será mais importante disseminar o conhecimento do que será combater a religião.

Contudo, pessoas como os autores deste blog não parecem ser as mais adequadas para este trabalho, pelo menos a acreditar no Eurobarómetro…