sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Qual o lugar dos animais de companhia numa sociedade empobrecida?

Por Leonor Valente, Ana Margarida dos Santos e Bruno Lopes, alunos do Pós-graduação em Comportamento e Bem-Estar Animal, ISPA.

Com a crise económica instalada na realidade nacional, o nosso relacionamento com os animais de companhia confronta-nós com questões diferentes daqueles de outrora, em que se faziam menos contas à vida.

O principal aspecto que as pessoas definem quando interrogadas sobre o seu motivo para adquirir um animal de companhia é social, ou por outras palavras, companhia. O número de animais de estimação que co-habitam com humanos depende de diversos factores, tais como: nível de urbanização, tradições históricas ou estado económico de um país. Desta forma, um animal de companhia será visto de diferentes prismas consoante diferentes culturas e o que num país é aceitável pode não o ser noutro. No entanto, qualquer que seja a abordagem, um animal de companhia implica sempre um investimento financeiro por mais pequeno que este seja. No limite, a alimentação será o custo mínimo a ter para manter um animal.

Em Portugal, é comum cuidar (melhor ou pior) dos animais de companhia providenciando, pelo menos, os cuidados básicos de saúde. Apesar de tudo, o cidadão de hoje depara-se com uma realidade em que os meios económicos são cada vez mais escassos.

Os médicos veterinários queixam-se das dívidas dos clientes e da falta de dinheiro para prosseguir com os tratamentos. Cada vez é mais frequente recorrer a este tipo de serviço apenas quando o animal já se encontra num estado de saúde pouco recomendável. Assiste-se, portanto, a uma sociedade obrigada a alterar a sua lista de prioridades devido às limitações económicas, a uma sociedade na qual a relação humano-animal sofre alterações e, consequentemente,o bem-estar dos animais de companhia é afectadocom riscos de negligência dos cuidados básicos de saúde. Há já relatos, por parte de quem vive a realidade clínica, de perguntas do tipo “o Dr. quer que o abandone ou que o mate?”.
Poderá ser esta a explicação para o aumento das taxas de abandono a que temos assistido nos últimos tempos. No limite, quando tudo se perde e a sobrevivência se torna a palavra de ordem, os animais de companhia podem mesmo passar a ser encarados como fonte de alimento, tal como aconteceu na Argentina num passado relativamente recente. A análise do impacto da crise económica na forma como uma sociedade encara o papel do animal de companhia é complexa. É difícil entender se a falta de princípios éticos e morais, expressa por exemplo sob a forma de abandono, se manifesta perante condições económicas adversas ou se realmente os mesmos não existiriam em primeiro lugar. No final fica a pergunta: mesmo com princípios éticos e morais bem enraizados, de que estamos dispostos a abdicar antes de nós vermos obrigados de prescindir de um animal de companhia?

2 comentários:

  1. Refletindo sobre os dois posts mais recentes que abordam o mesmo tema:

    Sempre houve abandono (e pedido de eutanásia) de animais por motivos que a maior parte dos veterinários e outras pessoas ligadas à proteção animal não consideram muito lícitas. O animal ocupa mais tempo / mais espaço do que se pensava, o animal tornou-se difícil de gerir por não ter sido educado de uma maneira adequada, vai-se mudar de casa, nasceu um filho etc etc

    Parece que com a crise o nº de abandonos / pedidos de eutanásia deste tipo aumentou, com a adição de uma nova justificação, de não ter meios para sustentar o animal.

    Em todos os casos, aplica-se a mesma questão, que é mesmo aquele que conclui o post anterior:
    que estamos dispostos a abdicar(em termos de dinheiro no segundo caso, no primeiro se calhar mais em termos de conforto) antes de nós vermos obrigados de prescindir de um animal de companhia?

    Imagino que a resposta difere entre donos, conforma a motivação inicial para adquirir o animal. Tentei encontrar estudos que tem abordado esta questão, mas enquanto há dados sobre o que leva pessoas a adotar animais (e fatores que influencia o sucesso desta adoção), há pouca informação sobre razões de abandono. Percebe-se, é mais difícil em termos práticos e em termos emocionais. Quem abandona um animal na via pública não vai responder a pergunta nenhuma, e a quem pede para eutanasiar ou entregue a uma associação ninguém vai querer perguntar “afinal, comprou este cão para impressionar os seus amigos”.

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  2. Outra questão importante aqui: de que custos estamos a falar?

    O que custa alimentar um cão de porte médio durante um ano?
    O que custam cuidados básicos de saúde (e o que entendem como cuidados básicos?)?
    O que custa consulta e tratamento dos mais frequentes problemas de saúde?
    O que custa e o que paga um seguro de saúde para um animal de estimação?

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