domingo, 25 de março de 2012

De onde vem o seu leite ?



A ONG Compassion in World Farming tem a decorrer no seu website um pequeno teste para saber a opinião do público sobre o caminho a seguir pela indústria do leite na Europa. O resultado deste exercício serve para fazer pressão (lobbing) sobre os centros de poder da UE, alertando para alguns dos problemas da bovinicultura intensiva. Embora eu saiba que a questão não é tão branca e preta como a CiWF quer fazer parecer, aceitei o desafio e votei. Depois de avanços paulatinos na política europeia de bem-estar animal, como foi o recente caso das galinhas poedeiras, acredito ser esta uma área prioritária de regulação e onde mais está por fazer. Copiando as palavras de John Webster:
“A vaca leiteira de elevado rendimento, é de longe o animal de produção sujeito ao stress produtivo mais elevado. E possível seleccionar galinhas poedeiras capazes de pôr um ovo por dia durante 320 dias, mas é só um ovo por dia. Com a vaca leiteira é possível seleccioná-la indefinidamente para produzir cada vez mais leite. A vaca leiteira trabalha 4 x mais do que a galinha poedeira, que é provavelmente o segundo animal que mais trabalha. Se nós, humanos, fossemos forçados a trabalhar tanto como uma vaca leiteira, teriamos de correr 6 horas por dia, todos os dias. É realmente demasiado trabalho e não é surpreendente que elas sucumbam.”
O leite é considerado por muitos como um bem essencial, especialmente importante para crianças e idosos, mas o preço que pagamos por ele (o leite nacional pode ser encontrado a 49 cêntimos o litro) não reflecte o seu real custo de produção, nem obedece a uma política de sustentabilidade (social, ambiental ou económica). Face aos desafios apresentados, de onde gostaria que o seu leite proviesse?

14 comentários:

  1. Um exemplo onde a força da imagem derruba uma consideração equilibrada dos factos? Ou um belo exemplo de como quando mais simples, melhor?

    Faz-me lembrar o debate na Suécia nos anos 80, que precederam a nova legislação de proteção animal de 1988, motivado entre outros fatores por um livro entitulado "A minha vaca quer divertir-se", da co-autoria da Astrid Lindgren (autora da Pipi-das-Meias-Altas e outros grandes livros para crianças de todas as idades) e Kristina Forslund, professora catedrática da faculdade de medicina veterinária. E um dos aspetos que é bastante singular da lei sueca de proteção animal é a obrigatoriedade de manter as vacas no pasto no verão. (Mas este aspeto tem que ser considerado na luz do facto que na Suécia daquela altura sistemas de estabulação livre eram raros, e que efetivamente aqueles 3 meses eram os unicos em que a vaca podia usar as pernas para mais do que se deitar e se levantar).

    Claro que prefiro a imagem à esquerda, sobretudo ao pronunciar-me como pessoa e como consumidora. E a perspetiva da vaca não consigo, infelizmente, adotar. Mas se me pronuncio como cientista de bem-estar animal, já não acho a contrastação de imagens particularmente bem escolhida. Por um lado, considero os melhores sistemas de estabulação livre para vacas leitiras entre os melhores sistemas de alojamento na pecuária presente. Por outro lado, os principais problemas do bem-estar das vacas leiteiras de hoje são provavelmente relacionados com a sua produtividade e não com o sistema de alojamento.

    Confesso que não me consegui livrar destas considerações, de tal maneira que não consegui votar!

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  2. Estas imagens são realmente injustas porque simplificam uma questão que não tem nada de simples. Imaginem as mesmas vacas numa pastagem num Inverno como este que estamos a passar? Ou então num daqueles dias de ventos e chuva fria?
    Ou então imaginem aquele estábulo com bastante mais luz, espaço e camas mais confortáveis?
    Mas tornemos a coisa verdadeiramente complicada - estes animais são autênticas máquinas de fazer leite e se as suas necessidades não forem satisfeitas entram rapidamente em stress metabólico e falência orgânica. Exactamente o que a Anna Olson refere – aí sim há enormes problemas de bem-estar e a vida torna-se um autêntico inferno. Será que a pastagem cumpre esses requisitos? Para quem está interessado no assunto sugiro a leitura do seguinte artigo:
    Charlton et al, Applied Animal Behaviour Science 130 (2011) 1–9
    Neste estudo deram a 32 vacas altas produtoras a hipotese de sair para a pastagem ou entrar no estábulo onde tinham a manjedoura com uma dieta completa apropriada à produção. Mais de o dobro dos animais ficavam dentro do estábulo e essa percentagem ainda subia mais quando estava a chover ou fazia vento. Demonstrou-se ainda uma relação significativa entre a produção de leite e a preferência pelo interior.
    Ou seja, a imagem das vacas em pastos verdes luxuriantes versus estábulos húmidos e escuros impressiona o público e o consumidor... mas alguém já perguntou á vaca qual a sua preferência?
    Atenção: estes comentário não se destinam a defender a estabulação tout court, mas demonstrar que temos de abordar o assunto com cuidado e conhecimento. Temos de aliar as vantagens de diferentes sistemas pensando sempre que o mercado exige leite de qualidade a um preço ridiculamente baixo!

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  3. Pego onde o George deixou: enquanto o mercado exigir leite a menos de metade do preço de um sumo de frutas, pouco se pode fazer em prol do bem-estar da vaca leiteira. Sabemos que o maior problema não está na estabulação. O verdadeiro problema, como diz a Anna, reside no stress produtivo. Quando estamos a falar de vacas capazes produzir 50 litros de leite por dia, mudar a estabulação não vai produzir melhorias significativas... o que ajuda a compreender os resultados do estudo de Charlton et al.: uma vaca em balanço energético negativo quer é comer, não quer vir dar uma volta. Por isso penso que a mudança tem de vir de cima, isto é, a mudança tem de ser política.

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  4. Mais uma consideração relacionada com o que já foi dito.

    O que os sistemas de pasto têm de bom para os animais? Ainda mais importante do que o acesso ao ar livre (que como George diz, tem um lado menos bom se o tempo for mau) é o acesso a algo importante para fazer. O que para animais das tipicas especies pecuárias é procurar comida e comer, o que em inglês chamamos foraging.

    Falta de possibilidade de se dedicar ao que é normal para um animal é provavelmente um dos principais fatores atras dos problemas de bem-estar dos porcos e das galinhas poedeiras em gaiolas. São mantidos em espaços muito fechados, feitos com materiais inertos e são alimentados com ração concentrada. Sobra lhes a maior parte do dia sem nenhuma coisa relevante por fazer, além de mastigar ou debicar os colegas de quarto.

    Mas para uma vaca leiteira de alta produção, que ainda por cima é ruminante e portanto tem que mastigar o que come duas vezes, isto não é um problema. Ela precisa tudo o tempo que tem para conseguir comer o que precisa.

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  5. Estas coisas fazem-me uma confusão do caraças. Queremos por vacas que nasceram para ser domésticas no campo ao ar livre? Eles já nascem no estábulo, são "educadas" pelas mães no estábulo, etc. Elas nem sabem o que é viver no campo.
    É o mesmo que dizer que um periquito que nasceu numa gaiola está melhor livre. Só que livre nem saberia procurar comida e abrigo e morreria rapidamente.
    Estas questões levam a que todos queiramos que os animais que nos dão alimento vivam bem, mas se for assim a produção iria diminuir tanto que não haveria comida para metade da população mundial.
    Estas pessoas que defendem estas tretas parecem preocupar-se mais com os animais do que com elas, com falácias ridículas. Gostaria de ver se todo o leite fosse produzido por vaquinhas ao ar livre. O que diriam quando tivessem de pagar 10€ por litro de leite ou os filhos deles não pudessem ter alimento à mesa por ser tão caro ou raro?
    Estes amigos citadinos que mandam postas de pescada sobre o campo e a natureza, sentados no seu computador, secalhar a comer batatas fritas e coca-colas, não têm qualquer noção da realidade.

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  6. Caro José:

    Obrigado pelo seu contraditório. Aprecio as convicções fortes que apresenta, mas convido-o a reflectir melhor sobre elas, já que as mesmas parecem assentar em argumentos falsos ou apenas falaciosos.

    Antes de mais há que distinguir entre comportamentos inatos e adquiridos. Para uma vaca, "saber viver no campo" está decerto entre os primeiros, o que quer dizer que a educação que recebe não a torna inapta a sobreviver no exterior. E o mesmo se passa com porcos, galinhas e outras espécies domésticas. Digo-o não por mandar postas de pescada mas porque me baseio em evidências científicas.

    O seu argumento é curioso, porque é na sua essência o mesmo usado pelos esclavagistas nos finais do Sec.XIX que justificavam a manutenção de escravos como uma forma de os proteger de um mundo para o qual (já) não estavam adaptados.

    Em relação ao exemplo dos periquitos, está também enganado. Não só é possível ao periquito sobreviver, como também reproduzir-se e prosperar ao ar livre. E dou-lhe o exemplo do periquito-de-colar, que resulta de fuga de cativeiro, e que hoje é uma ave muito comum no centro de Lisboa (http://www.publico.pt/Sociedade/que-misteriosas-aves-verdes-e-estridentes-sao-estas-que-invadiram-lisboa-1526430?p=1).

    O argumento de que bem-estar animal colide com a produção não é que seja falso, revela antes de mais ignorância. Há maneiras de evitar que o litro de leite custe 10€ e este é para mim um ponto fundamental da discussão. O José deu a entender que não é um homem da cidade (é provável até que o José - ao contrário das vacas estabuladas - saiba o que é viver no campo) mas também se percebe que não produz leite nem tem plena noção dessa realidade. Porque com que justiça apregoamos leite barato para os nossos filhos sem antes defendemos os filhos dos produtores de leite nacional, produtores esses que num ano de seca como este pagam para produzir?

    A questão não é a vaca "viver no campo". Aliás, não viu aqui ninguém a defender isso. A questão é, a meu ver, criarmos um sistema de produção de leite mais justo para todos os envolvidos (vaca, produtor, consumidor,...) e que seja sustentável no médio-longo prazo.

    Em resumo, só há um aspecto do seu raciocínio que me deixou intrigado: qual é o mal em comer batatas fritas? E já agora, não lhe parece que o parágrafo final sugere da sua parte intolerância pela opinião de pessoas diferentes de si?

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    1. Caro José:
      Se há coisa que eu percebo é de viver e trabalhar no campo. Mais - trabalhar com produtores de leite, coisa que faço há mais de 25 anos. Por isso as postas de pescada que eventualmente mando, vêm bem cobertas por um molho de natas.
      Agora a sério. A ideia de que não é possível produzir com qualidade (seja leite ou outro produto de origem animal) enquanto se defende o bem-estar animal, é um enorme engano normalmente alimentado por quem não sabe gerir a sua produção. Os bons produtores são os primeiros a admitir que nunca terão sucesso sem primeiro assegurar o conforto e qualidade de vida dos seus animais. Aliás, os produtores de leite de maior sucesso que conheço são os que põem sempre no topo da lista o bem-estar dos seus animais, nem que seja porque sabem que só assim poderão garantir o seu próprio bem-estar.
      Aqueles produtores que normalmente protestam contra a ideia do bem-estar animal são os que estão a perder dinheiro constantemente ou a tentar suportar uma exploração que deixou de ser sustentável. São as más práticas, o mau maneio, as más instalações, a má nutrição e tantos outros erros, que boicotam o sucesso da sua actividade. Depois a culpa recaí sobre as regras de bem-estar. Tivessem eles a clarividência de fornecer melhores condições aos seus animais e provavelmente viam como os dois bem-estar (animal e humano) estão intimamente ligados.
      Agora voltando à vaca a "viver no campo" - eu próprio disse que se tem de ter cuidado na forma como traduzimos as necessidades dos animais. Não tenho dúvidas que as vacas não desaprenderam a viver em pastagem, mas também é verdade que temos de ter a certeza que essa lhes oferece todas as condições para uma vida de qualidade e, por isso, produtiva.
      Finalmente, gostaria de secundar o que o Manuel disse - a venda de leite a um preço tão baixo (como parece preconizar) não afecta directamente o bem-estar dos animais, mas de certeza que afecta o bem-estar de milhares de produtores. Esta ideia de que se deve vender alimentos de origem animal ao preço da chuva é perigosa e tem de acabar – mas isso é uma outra conversa.

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  7. Em primeiro lugar, acho que deve ser debatida a própria questão do consumo de enormes quantidades de leite de outra espécie depois de terminado o período de amamentação. Se não estou em erro, somos efectivamente o único mamífero que bebe leite ao longo de toda a vida. Uma vez que a pecuária só surgiu depois de a nossa espécie hás ter aparecido, penso que é legítimo concluir que o consumo de leite de vaca não é condição sine qua non para a nossa sobrevivência. Isso será óbvio para os autores do blogue, mas já vi alguns argumentos que pareciam indicar uma crença de que o consumo de leite era imprescindível.

    Arrumada a questão da sobrevivência, coloca-se a questão dos benefícios do consumo de leite ao longo da vida. A maior parte dos estudos aponta efectivamente para que haja uma série de benefícios para a saúde, ainda que isto não se aplique a todas as pessoas — alérgicos e intolerantes à lactose, por exemplo. Contudo, é importante mencionar que existem alternativas ao consumo de leite/lacticínios, que aportam os mesmos benefícios e alguns outros. Não me refiro apenas ao leite de soja, ainda que este seja o mais análogo ao leite de vaca. Diversos alimentos de origem vegetal contém elevadas quantidades de cálcio, além de conterem outros nutrientes saudáveis não presentes no leite, como flavonóides e outros antioxidantes. Posto isto, do ponto de vista meramente ético, penso que a decisão individual mais correcta seria cessar o consumo de leite de vaca.

    No entanto, sei bem que isto é utópico, pelo que se devem procurar soluções que não impliquem a extinção da indústria da produção de leite. Um conceito útil que aprendi em Economia do Ambiente foi o de externalidade, i.e. um efeito, benéfico ou prejudicial, que uma dada actividade económica tem sobre terceiros, que não estão envolvidos nessa actividade. A existência de externalidades faz com que o preço de um produto não reflicta o seu custo social real, o que suscita a procura de mecanismos de internalização deste custo. A indústria de produção do leite produz elevadas externalidades, devido à emissão de metano, enorme consumo de água para rega dos alimentos das vacas, emissões associadas ao transporte, produção de resíduos, desflorestação para criação de pastagem (não tanto em portugal, mas muito preocupante na amazónia, p ex), etc.

    O actual preço do leite não reflecte estes efeitos, que mais tarde ou mais cedo se convertem em custos sociais. Se considerarmos a procura do bem estar animal como essencial, penso que também podemos incluir a falta de bem-estar animal como uma externalidade negativa na produção de leite, pelo que se justifica um aumento do preço em resultado da tentativa de minimização dessa externalidade. Certamente que já existem leites à venda provenientes de produtores que adoptam acarretampráticas mais éticas e protectoras do bem-estar das vacas. Esse preço não é assim tão proibitivo que ninguém esteja disposto a pagá-lo. De qualquer forma, se alguém não estiver, pode sempre optar pelas alternativas vegetais, que não acarretam as externalidades do leite.

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    1. Caro Ricardo,

      Os pontos que foca são extremamente relevantes.
      A questão de sermos únicos mamíferos a ingerir leite na idade adulta tem sido muito discutida mas não concordo com o argumento que deixou: se seguíssemos o seu raciocínio teríamos de abdicar de saneamento básico, que também só surgiu depois de a nossa espécie ter aparecido. Eu vejo a questão de forma oposta: a tolerância à lactose é uma maravilha da evolução humana, algo que faz parte da nossa identidade genética, social e cultural.

      Não penso que o consumo de leite seja absolutamente imprescindível. Mas considero-o essencial. Porquê? Por ser um alimento muito completo, disponível todo o ano, bem tolerado pela maior parte das pessoas e que provém de uma fonte (i.e. vaca mas também cabra, camela, lama, rena, etc.) que, além de móvel, pode ser produzida em qualquer parte do planeta habitado, de regiões semi-desérticas a latitudes polares e capaz de transformar matérias celulósicas em alimento digerível. Se quanto à carne é possível argumentar com alternativas equivalentes em termos nutricionais (e também melhores para a saúde) no que diz respeito a ovos e leite, o argumento já não me parece tão linear.

      A presença de alternativas vegetais ao leite animal é benéfica porque permite diversificar as fontes alimentares (o que é benéfico para a saúde humana) e diminuir as externalidades (o que é benéfico para ambiente e animais). Mas é preciso lembrar que a principal causa de desflorestação no planeta é o cultivo da soja. Se é certo que parte essa soja serve para alimentar animais, fazer da soja um substituto da vaca para a produção mundial de leite não acarretaria externalidades menores do que as presentes. Talvez apenas diferentes.

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    2. Caro Manuel Sant'Ana,

      Eu não quis dizer que o facto de sermos os únicos mamíferos a consumir leite na idade adulta é um argumento contra o consumo de leite. Apenas referi esse aspecto para demonstrar que o consumo de leite não é, nem foi no passados essencial à sobrevivência da espécie humana. Aliás, a persistência da lactase terá surgido apenas há 10,000 anos, na Europa, sendo que a maioria da população mundial possui lactase não-persistente [1]

      Não sei se falou da tolerância à lactose como algo que faz parte da nossa identidade como argumento a favor do consumo de leite. Se for esse o caso, não concordo. O facto de uma prática fazer parte da identidade de uma sociedade não a torna necessariamente desejável ou ética. Veja-se o caso das touradas ou das muitas tradições cruéis que foram sendo abolidas ao longo dos séculos.

      Quanto à questão de o consumo de leite ser essencial, penso que o facto de a maior da população mundial ter lactase não-persistente é indicativo do facto de não ser um alimento essencial à vida. Sobre os benefícios do consumo de leite, confesso que quando disse, no comentário anterior, que "A maior parte dos estudos aponta efectivamente para que haja uma série de benefícios para a saúde", estava a falar de cor. Estava a repetir o que nos dizem ao longo da vida. Mas depois de ler o se comentário, resolvi ir ver o que dizem as organizações de defesa dos direitos dos animais sobre o assunto, nomeadamente a PETA e a PCRM (Physicians Comitee for Responsibe Medicine). Claro que estas organizações têm um enviesamento contra o leite, mas os artigos científicos que citam, em princípio, são isentos. Então, o que dizem estas ONGs?

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    3. CÁLCIO
      - Uma review publicada em 2005 na revista Pediatrics concui que o consumo de leite não melhora a integridade óssea em crianças [2].
      - O "Harvard Nurses’ Health Study", que acompanhou mais de 72,000 ao longo de 18 anos não mostrou nenhum efeito protector do aumento do consumo de leite no risco de fractura. [3]
      - O mesmo estudo aponta para que consumos de cálcio que excedam 600 mg - quantidade facilmente alcançável sem consumo de lacticínios ou suplementos - não melhora a integridade óssea.
      - É possível reduzir o risco de osteoporose através da redução de sódio e proteína animal na dieta,[4-7] aumento da ingestão de frutas e legumes, [7,8] exercício, [9,10] e garantindo a ingestão adequada de cálcio de alimentos vegetais como couve, brócolos, e outros vegetais de folhas verdes e feijão.

      1. Swallow, D. M. (2003). "Genetics of lactase persistence and lactose intolerance". Annual Review of Genetics 37: 197–219
      2. Lanou AJ, Berkow SE, Barnard ND. Calcium, dairy products, and bone health in children and young adults: a reevaluation of the evidence. Pediatrics. 2005;115(3):736-743
      3. Feskanich D, Willett WC, Colditz GA. Calcium, vitamin D, milk consumption, and hip fractures: a prospective study among postmenopausal women. Am J Clin Nutr. 2003;77(2):504-511.
      4. Finn SC. The skeleton crew: is calcium enough? J Women’s Health. 1998;7(1):31-36
      5. Nordin CBE. Calcium and osteoporosis. Nutrition. 1997;3(7/8):664-686
      6. Reid DM, New SA. Nutritional influences on bone mass. Proceed Nutr Soc. 1997;56:977-987.
      7. Lin P, Ginty F, Appel L, et al. The DASH diet and sodium reduction improve markers of bone turnover and calcium metabolism in adults. J Nutr. 2001;133:3130–3136.
      8. Tucker KL, Hannan MR, Chen H, Cupples LA, Wilson PWF, Kiel DP. Potassium, magnesium, and fruit and vegetable intakes are associated with greater bone mineral density in elderly men and women. Am J Clin Nutr. 1999;69:727-736.
      9. Going S, Lohman T, Houtkooper L, et al. Effects of exercise on bone mineral density in calcium-replete postmenopausal women with and without hormone replacement therapy, Osteoporos Int. 2003;14(8):637-643.
      10. rince R, Devine A, Dick I, et al. The effects of calcium supplementation (milk powder or tablets) and exercise on bone mineral density in postmenopausal women. J Bone Miner Res. 1995;10:1068-1075.

      fonte: http://www.pcrm.org/search/?cid=252

      CANCRO
      - Cancros da próstata e da mama têm sido associados ao consumo de produtos lácteos, presumivelmente relacionados com aumentos da concentração sanguínea de insulin-like growth factor (IGF-I)[11]
      - Um estudo mostrou que homens que tinham os mais altos níveis de IGF-I tinham mais de quatro vezes o risco de cancro de próstata em comparação com aqueles que apresentavam os menores níveis [12]
      - Outros estudos mostraram que havia um elevado risco de cancro da próstata relacionado com o aumento do consumo de leite magro, sugerindo que demasiado cálcio lácteo pode ser prejudicial para a saúde da próstata [13,14]

      11. Voskuil DW, Vrieling A, van’t Veer LJ, Kampman E, Rookus MA. The insulin-like growth factor system in cancer prevention: potential of dietary intervention strategies. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev. 2005;14:195-203.
      12. Chan JM, Stampfer MJ, Giovannucci E, et al. Plasma insulin-like growth factor-1 and prostate cancer risk: a prospective study. Science. 1998;279:563-565.
      13. Chan JM, Stampfer MJ, Ma J, Gann PH, Gaziano JM, Giovannucci E. Dairy products, calcium, and prostate cancer risk in the Physicians' Health Study. Am J Clin Nutr. 2001;74:549-554.
      14. Tseng M, Breslow RA, Graubard BI, Ziegler RG. Dairy, calcium and vitamin D intakes and prostate cancer risk in the National Health and Nutrition Examination Epidemiologic Follow-up Study cohort. Am J Clin Nutr. 2005;81:1147-1154.

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    4. A lista continua, tendo um total de 38 referências, pelo que não vou traduzi-la toda para aqui. De qualquer forma, acho que isto mostra que, apesar de o leite ser um alimento relativamente completo (excepto em vitaminas e minerais), a ingestão de leite e produtos lácteos também acarreta riscos. Por esse motivo, acho muito plausível que as alternativas vegetais ao leite sejam até mais saudáveis que o próprio leite.

      Ainda assim, concordo consigo quando refere que "provém de uma fonte (i.e. vaca mas também cabra, camela, lama, rena, etc.) que, além de móvel, pode ser produzida em qualquer parte do planeta habitado, de regiões semi-desérticas a latitudes polares e capaz de transformar matérias celulósicas em alimento digerível.". Contudo, nos países desenvolvidos ocidentais, onde ocorre o maior consumo de leite, estas vantagens não têm muita relevância: as vacas estão paradas a maior parte do tempo, a temperatura é compatível com o cultivo de alternativas vegetais e essas alternativas são bem toleradas e digeríveis.

      Por último, sobre a questão da desflorestação, é verdade que muita ocorre para o posterior cultivo de soja, mas se essa soja fosse directamente consumida pelos humanos em vez de servir de alimento a animais (que eliminam grande parte da biomassa e energia fornecido pelos seus alimentos), seriam necessários muitos menos hectares de plantações de soja para suprir as nossas necessidades nutricionais.

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    5. É certo que se tende a defender a pecuária moderna com as razões para qual a humanidade passou a cultivar e manter animais, e que isto não é um argumento completamente convincente. Também não é completamente disparatado; uma prática que durante milhares de anos foi essencial e que apenas muito recentemente deixou de ser não é a mesma coisa como uma moda passageira, merece mais consideração.

      Atrevo-me a dizer que a maior parte da produção de leite para consumo direto em Portugal não sobrevivia se fosse feita uma otimização energética do uso do terreno. O que sobrevivia, sim, era a produção de leite para fabrico de queijo em zonas montanhosas, que servem para pasto mas que são dificilissimos de usar para outro tipo de cultura.

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  8. Obrigado, Ricardo. Esta informação é muito útil para a discussão (vai é demorar um pouco a digerir).

    Só um comentário em relação à tolerância à lactose (que eu uso para defender o consumo de leite) como parte da nossa identidade. O argumento está na adaptação que ela representa, como uma característica positiva para o nosso desenvolvimento como seres humanos, algo que penso não poder ser defendido em relação às touradas.

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