sexta-feira, 29 de junho de 2012

O que é uma estereotipia?

Um equívoco comum nas discussões sobre bem-estar animal é considerar uma 'estereotipia' como sinónimo de "comportamento anormal". Os dois termos são relacionados, mas não são diretamente substituíveis. Na realidade, os comportamentos estereotipados são antes um tipo particular de comportamento anormal. Tal como o nome sugere, resultam da repetição regular de um mesmo comportamento, inúmeras vezes e por longos períodos de tempo.

Quem já viu um tigre ou um urso polar no jardim zoológico teve, com grande probabilidade, a possibilidade de assistir a pacing estereotipado. Estes comportamentos tendem a ser muito notórios e costuma ser evidente, mesmo para o observador menos experiente, que algo de errado se passa com o animal.




Animais selvagens de espécies que na natureza possuem grandes territórios, quando confinados a pequenos espaços em jardins zoológicos e circos - ou enjaulados como animais de estimação - são particularmente propensos a desenvolverem comportamentos estereotipados. Mas este tipo de comportamentos ocorre em todos os tipos de animais mantidos em cativeiro. Pensa-se que se desenvolvam a partir de comportamentos normais que os animais estão muito motivados a realizar na natureza, mas que num ambiente restritivo são impedidos de manifestar de maneira normal. 

Se a restrição comportamental afeta a alimentação e/ou a procura de alimentos, é mais provável que os animais desenvolvam estereotipias orais, como as porcas e o cavalo nos vídeos abaixo.








 
Se os animais antes estão motivados para explorar e para se movimentar, provavelmente irão desenvolver estereotipias locomotoras. O tigre acima é um exemplo disso, outra é weaving em cavalos.




Já agora, desligue o som no seu computador enquanto vê os vídeos, a menos que queira ser exposto a mais equívocos sobre comportamentos estereotipados. Estes comportamentos não são contagiosos e os animais não os aprendem uns dos outros, como muitos proprietários de cavalos e treinadores pensam. Se vários animais no mesmo ambiente mostram estereotipias semelhantes, a explicação é que eles reagem de uma forma semelhante ao ambiente inadequado.

As estereotipias são comportamentos intrigantes. Muita pesquisa tem sido direccionada para a compreensão de como se desenvolvem, mas também para dois outros aspectos importantes que vou discutir a seguir: porque é que as estereotipias persistem e o que significam para os animais.


Na maioria dos vídeos neste post, vemos os animais a executar estereotipias enquanto alojados em ambientes altamente restritivos, com uma excepção: o cavalo que exibe cribbing. Apesar de estar num paddock com amplo espaço e em companhia de outros cavalos continua a exibir este comportamento anormal. Este é um exemplo de que estereotipias podem persistir uma vez estabelecidas num animal - de modo que colocar o animal num ambiente mais adequado nem sempre é suficiente para se livrar do comportamento problemático.


As estereotipias são um indicador importante do bem-estar animal, uma vez que se pode concluir dum ambiente em que muitos animais desenvolvem estereotipias que o mesmo não é apropriado para estes animais. Mas em tal ambiente, as estereotipias podem ser uma espécie de auto-ajuda para os animais que as realizam. Há evidência de investigação que a execução de comportamentos estereotipados pode reduzir stress. Por isso, impedir um animal de realizar estes comportamentos (como é muitas vezes tentada em cavalos) é definitivamente o caminho errado para resolver o problema.


2 comentários:

  1. A propósito de estereotipias em ambiente de cativeiro, há muito que o cão é considerado um animal doméstico cujo ambiente natural é a casa e/ou o jardim. Então porque se identificam tantas estereotipias no cão que (con)vive com o ser humano? E, porque existem tantas semelhanças entre as estereotipias dos animais de zoológico e as dos cães domésticos?
    Relembremos as estereotipias caninas: o “cão andar esquipadamente em uma determinada área, caminhar em uma figura de oito ou circular, pular no mesmo lugar, correr ao longo da linha de uma cerca, escavar, arranhar o chão, andar em círculos, rodopiar ou não se mover em absoluto (paralisar)” (Beaver, 2001: 384). Estes exemplos em muito se aproximam dos comportamentos dos animais de zoológico descritos no post publicado por Anna Olsson.
    Com efeito, o cão tem estereotipias quando a energia física e mental que liberta através do estímulo e da actividade nos passeios e interacções com os donos são insuficientes para colmatar as suas necessidades caninas mais naturais. Adicionalmente, as estereotipias podem também ter uma origem cognitiva: perante uma situação desconhecida, uma novidade, o cão opta por ter comportamentos estereotipados, simplesmente porque não aprendeu junto dos seus pares a resposta comportamental canina.
    Por outras palavras, o humano trouxe o cão para dentro de casa, colocou barreiras físicas que impedissem a sua fuga, mas ‘esqueceu-se’ que o cão poderia vir a sofrer de tédio e entrar em rotinas ‘de não ter nada para fazer’. Não será este um contexto semelhante aos animais de zoológico que, não obstante o espaço disponível, carecem de estímulos similares aos do seu habitat natural? Penso que sim.
    Assim, parece que a adopção de comportamentos estereotipados sugere que essa é uma ferramenta que os animais utilizam para lidar com o stress. São várias as teorias que tentam explicar as estereotipias caninas. Da minha parte, permitem-me que me foque numa: a do enriquecimento ambiental. Segundo esta teoria, o cão sofre de estereotipias quando o ambiente que o rodeia desencadeia um estímulo aquém das suas necessidades (Bonnie, 2001).
    De acordo com esta explicação das estereotipias caninas, resta saber como deve o humano promover um ambiente que corresponda às necessidades do cão.
    Ao introduzirem-se elementos novos, simples e estimulantes no espaço onde o cão vive possibilita-se, por um lado, a oportunidade de escolha, por outro lado, que o cão possa optar pelo comportamento que se lhe afigure como mais natural.
    Exemplificando, tal como os exemplos apresentados no post sobre o porco e o cavalo, é possível estimular o cão na procura de alimento. Construindo uma gincana com diferentes tipos de piso e de obstáculos para que através do tacto, olfacto e visão o cão possa encontrar a sua refeição de forma desafiante. A variedade dessa refeição pode promover a conjugação do estímulo dos sentidos com o estímulo das texturas, sabores e odores.
    Consoante a personalidade do cão, estas poderão ser actividades individuais ou em grupo de pares (outros cães). Assim, para além das componentes alimentar, física, cognitiva e sensorial trabalhar-se-á também a componente social.
    Na tentativa de resolução de estereotipias caninas, por último, é importante sublinhar que cada cão tem a sua personalidade e as suas carências. Mais, ao longo do curso de vida as necessidades do cão alteram-se. Assim, não existe uma receita de sucesso, cabe a cada dono ter a sensibilidade de identificação dos estímulos mais adequados ao seu cão, bem como a capacidade de experimentação até ser conhecida a fórmula mais ajustada ao seu animal.
    Beaver, Bonnie V. (2001) Comportamento Canino: um guia para veterinários. São Paulo: Roca.

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  2. Obrigada pelo comentário.

    O ambiente pode ser o factor principal causador do desenvolvimento das estereotipias, e o ser humano deve sempre procurar de fornecer um ambiente que corresponda às necessidades dos animais nele mantido.

    No entanto, falando de estereotipias em cães num contexto de medicina comportamental, é importante lembrar que pode haver outras causas, e que a terapia indicada pode variar em função disto.

    Daniel Mills dá o comportamento canino de tail-chasing como um exemplo. Um comportamento que pode parecer muito semelhante pode ter origens tão diversas como:
    - conflito de motivação
    - ataque epilético
    - infeção do ouvido
    - dor na zona da cauda
    - neuropatia
    - resposta que animal aprendeu chama a atenção dos donos
    - estereotipia no sentido estrito do termo.

    (Mills & Luescher. Veterinary and Pharmacological Approaches to Abonromal Repetitive Behaviour. In: Mason & Rushen, Stereotypic animal behaviour. 2006 CABI).

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