segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Veterinária e Animais: longe da vista, longe da profissão ?

Texto da autoria de Ana Santos, Bruno Lopes e Leonor Valente
Alunos da Pós-graduação em Bem-estar Animal, ISPA

A utilização de animais - resultando muitas vezes em sofrimento ou morte dos mesmos - continua a ser comum na educação veterinária em disciplinas como cirurgia, fisiologia, bioquímica, anatomia, farmacologia e parasitologia. Nos dias de hoje, em que se sabe que os animais sentem dor e stress (o conceito de senciência animal está, aliás, consagrado na lei da União Europeia desde 1997), parece assim pouco ética a utilização e manutenção de animais para uso exclusivo no ensino, e sua perpetuação, pode estar ligada a uma falta de planeamento e aproveitamento dos recursos já existentes nas faculdades. Este tipo de abordagem tem implicações na formação dos próprios alunos, ao promover uma desvalorização da própria vida dos animais. Tem também um impacto negativo no bem-estar dos animais implicados e nos custos que a manutenção e uso de animais representa para cada faculdade. Substituir este tipo de prática por outras alternativas mais éticas e com resultados de aprendizagem igualmente satisfatórios trará novas oportunidades para professores, beneficiará os alunos, as faculdades, o mercado (explorações pecuárias, clínicas e hospitais veterinários, associações zoófilas) e, não menos importante, os animais.

Tradicionalmente, a profissão veterinária não tem sido a mais activa no avanço do ensino e divulgação das questões de bem-estar animal (Nota do Editor: um papel muitas vezes deixado a organizações como a WSPA). Isto é atribuído em parte à educação inadequada para esta temática durante o curso já que parece haver uma inibição do desenvolvimento da capacidade de raciocínio moral ao longo dos cinco anos de formação. Esta inibição pode ter duas explicações: pode, por um lado, ser devida aos exemplos dados pelos docentes, que em muitos casos não terão tido formação específica em questões de natureza ética e de bem-estar animal, e, por outro, pode também representar uma adaptação que permite aos alunos suportar o stress psicológico resultante do sofrimento causado em seres sencientes e na ausência de motivo aparente.

Algumas das alternativas realistas e que podem ser utilizadas para eliminar a utilização de animais no ensino incluem o recurso a modelos cirúrgicos e programas multimédia. No entanto, e apesar de existirem já várias alternativas que promovem igual ou mesmo maior aprendizagem por parte dos alunos (Nota do Editor: é o caso do simulador de palpação transrectal), continua a existir a necessidade de trabalhar com animais vivos em determinadas matérias. Esta prática não tem de ser eliminada, mas é necessário certificarmo-nos da proveniência, manutenção e destino desses animais. A título de exemplo podemos pensar nas faculdades de medicina veterinária em Portugal, as quais têm um hospital associado à instituição. Se os animais que procuram estes hospitais realmente necessitam de uma intervenção médica poderão ser aproveitados como objeto de estudo para os alunos, sem que se levantem questões éticas adicionais e permitindo que os alunos beneficiem exatamente do mesmo tipo de prática. Isto traz também a vantagem de permitir ao aluno uma noção mais real da prática clinica. Outro exemplo são as associações zoófilas que frequentemente se deparam com a sobrepopulação de animais e a escassez de cuidados médicos dos mesmos. Estes animais poderão também servir os alunos como objeto de estudo suprindo as necessidades das associações.

Na nossa opinião, estes são apenas alguns exemplos que demonstram como a utilização e manutenção de animais com fins exclusivamente educativos se pode tornar obsoleta e desnecessária existindo, no entanto, alternativas para a formação melhorada dos profissionais mais profundamente consciencializados para temas éticos e de bem-estar animal.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Educar para mudar?


No meio da minha leitura dos textos vindos do trabalho de didática em bem-estar animal, encontrei na última edição da revista Animal Welfare uma recensão do livro Education for Animal Welfare. O balanço custo (99,95€) - benefício (88 paginas e uma critica bastante reservada) não me faz correr a comprar o livro, mas a crítica de autoria de Siobhan Abeyesinghe levanta varias questões importantes que aproveito para trazer para cá:

“The issue, as with many environmental and health concerns, is not how to reach those who are already sympathetic, but how to reach those who are not. The risk of using very emotive and castigating language to raise awareness in the first place is in actually alienating rather than engaging the audience whose attitudes and knowledge we wish to alter. Likewise, I found the implication that simply raising awareness alone would necessarily change human attitudes and thus improve animal protection somewhat naïve. In terms of aiding the prospective educator, I consider an opportunity to address the education and learning process itself was missed. For example, what should education aim to act upon? Knowledge alone may not necessarily be implemented if it is counter to beliefs or not perceived to be of personal relevance; positive and caring attitudes may actually be detrimental to welfare without appropriate knowledge – pet obesity is an example of ‘killing with kindness’; animal welfare-promoting behaviour may not be implemented if a person does not perceive it to be their responsibility; they perceive it to risk censure or they do not consider their behaviour will make a difference. So, is it necessary to alter knowledge, attitude, behaviour or combinations of these factors? How do we achieve this and how do we address barriers to their implementation?"

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Animais de estimação – uma escolha para a vida

Texto da autoria de Cláudia Correia, Filipa Abreu e Maria da Paz Pereira
Alunas da Pós-graduação em Bem-estar Animal, ISPA

Uma das grandes causas da posse insuficientemente ponderada de animais de companhia reside na insistência das crianças no seio familiar. A sensibilização das crianças para este tema deve, pois, ser uma acção enquadrada na estrutura escolar (com pais e educadores, professores, animadores de ATL’s, etc.). Este é o ambiente ideal para ensinar e promover práticas de bem cuidar e, ao mesmo tempo, incutir atitudes conscientes em relação à posse, pois um dos factores que desperta o desejo numa criança de ter um animal é a imitação e a influência dos pares. Em paralelo ao ambiente escolar, as associações de protecção de animais abandonados e os canis/gatis podem também exercer importante influência nas crianças alertando-as para os problemas do abandono dos animais e promovendo alternativas à posse de um animal, com apadrinhamentos, horários de visitas para cuidar de alguns animais, fazendo-lhes companhia ou levando-os a passear, ofertas de brinquedos, etc. As escolas de treino de animais podem também ser um importante veículo para ensinar os donos a corrigir problemas que se poderão agravar no futuro e levar à negligência do trato ou mesmo abandono e as crianças, cujos pais procuram estas escolas, devem acompanhar os seus animais e envolverem-se de modo a compreender as suas necessidades e tudo o que está em causa quando se toma posse de um animal de estimação.

Educar para uma posse responsável dos animais implica que os educadores ensinem as crianças a tomar decisões ponderadas e, por outro lado, crianças que aprenderam a ser responsáveis com os seus animais podem influenciar os comportamentos dos adultos e promover alternativas conscientes. As grandes lições de vida passam pelas difíceis decisões que se aprendem a tomar. Sendo as crianças um factor de peso tão grande na influência da aquisição de um animal de estimação, podem ser elas a sugerir alternativas à posse de um animal, algo muitas vezes esquecido pelos adultos. Por outro lado, sendo possuidoras, podem partilhar o seu animal.

Manter com os outros seres (não humanos) relações saudáveis e conscientes permite a construção de pilares sociais onde as crianças que hoje cuidam de modo responsável virão a ser adultos incapazes de abandonar um animal de estimação à sua sorte. Crianças com conceitos corretos de relacionamento com os animais virão a ser adultos com características sociais mais estruturadas e assentes em valores que enriquecem as relações não só entre humanos e animais, mas entre os próprios humanos.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Não Deixe os Lobos Sem Abrigo


O Grupo Lobo está a realizar uma campanha internacional de crowdfunding com vista a angariar 250 mil dólares (cerca de 200 mil euros) que lhe permita adquirir o terreno em Mafra onde se encontra o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico (CRLI), desde a sua fundação em 1987. Isso permitiria garantir um santuário permanente para os lobos que não podem ser devolvidos ao habital natural. A campanha chama-se "Não deixe os Lobos Sem Abrigo / Don't Let Our Wolves Become Homeless", decorre até ao final de Setembro e conta com este apelativo vídeo.

Se puder, contribua! E já agora aproveite estas férias para visitar o CRLI.