quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Jerry Coyne: Porque é que a evolução é verdade mas poucos acreditam nela?

PORQUE É QUE A EVOLUÇÃO É VERDADE (MAS POUCOS ACREDITAM NELA)?

Casual Conferences
Orador: Jerry Coyne
06 OUT 2012 (Sáb), 15h30
Auditório da Fundação de Serralves, Porto

Entre as maravilhas que a ciência tem revelado acerca do universo, nenhum assunto desperta maior fascínio e debate do que a evolução. Porém, raramente se menciona aquilo que importa: as provas, os dados empíricos que demonstram o processo de evolução por selecção natural. E essas provas são extensas, variadas e grandiosas, provindo de um espectro alargado de investigação científica, desde a genética, a anatomia e a biologia molecular, até à paleontologia e à geologia.

Nesta palestra, Jerry Coyne, um dos mais conceituados biólogos evolucionistas a nível mundial, apresentará um resumo sucinto e acessível dos factos que corroboram o processo evolutivo – incluindo as provas que reuniu no seu já famoso livro A Evidência da Evolução, cujo lançamento em português terá lugar nesta sessão, e provas adicionais que surgiram desde então. Ao demonstrar a existência da «marca indelével» dos processos inicialmente apresentados por Darwin, Jerry Coyne mostrará que a evolução é mais do que uma teoria: é um facto de que ninguém pode duvidar. Apesar disso a ideia de evolução continua a ser rejeitada por muita gente em todo o mundo. Jerry Coyne discutirá as razões desta resistência e sugerirá algumas estratégias que tornarão mais consensual a teoria da evolução.

14 comentários:

  1. O próprio autor comenta o evento aqui:
    http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/10/08/book-launch-portugal/

    Assisti a conferencia mas não fiquei para ouvir a discussão. Fico surpreendida com o comentário dele que a discussão foi toda sobre ciência e religião e não sobre biologia, sobretudo porque a ver a minha volta parecia-me uma audiência de jovens biólogos.

    No entanto, considerando a conclusão da palestra dele, se calhar não é de tudo surpreendente que a discussão foi para aí. Vou resumir no comentário seguinte.

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  2. Eventos como este, com boas palestras por pessoas com conhecimento e perspetivas interessantes, enriquecem a vida de uma cidade, e para o Porto a Fundação Serralves tem sido uma fonte estimulante neste sentido. Esta conferência foi organizada em colaboração com CIBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da UP.

    Como é evidente, não consigo resumir uma palestra de uma hora num comentário num post. A palestra foi em grande parte a mesma como a que podemos ver aqui http://www.youtube.com/watch?v=eEVXzeU3BIA (e espero que o leitor aproveita para ver, mesmo em detrimento de ler o meu resumo!).

    O ponto de partida do Professor Jerry Coyne é o de um biólogo estado-unidense que tem observado com preocupação o facto que os seus compatriotas não acreditar que a teoria de evolução é verdade. Começou por mostrar estatística internacional, que coloca vários países nórdicos (mas também França) no topo com perto de 90% da população a acreditar que a evolução é verdade, e os Estados Unidos no penúltimo lugar (antes da Turquia) com cerca de 60% da população a acreditar que a teoria de evolução é falso. Portugal situa-se mais ou menos no meio, com cerca de 60% a achar verdade, 25 a achar falso e a restante não sabendo.

    Definiu depois o que é “ser verdade” para a ciência - “algo para o qual existe tanta evidencia que seria perverso não acreditar” – antes de passar a apresentar esta evidência que divide em 5 aspetos que todos precisam de ser provados para que a teoria em seu conjunto seja verdade neste sentido:
    1. Evolução acontece – há uma alteração de populações que pode ser estudada
    2. Esta mudança evolutiva é gradual – acontece ao longo de milhões de anos
    3. Há especiação – uma espécie divide-se em várias
    4. Todas as espécies têm um ancestral comum -
    5. As mudanças ocorrem sobretudo como consequência de seleção natural

    Ponto por ponto trouxe observações que evidenciam cada um dos 5 pontos, antes de passar por abordar a questão de porque apesar de existir toda a evidência que podemos querer, as pessoas continuam a não acreditar.

    E a resposta dele foi clara: religião. Há algo mais forte em que as pessoas acreditam e que as faça recusar a evidência.

    Então, porque é que a religião se opõe à teoria da evolução? Segundo Coyne, porque a teoria da evolução ameaça a ideia da origem humana como divina e o nosso lugar como especial entre espécies, põe em causa o que a religião ensina ser o objetivo e o sentido da vida humana e ameaça o moral religioso.

    Acabou por concluir que não se vai ver maior penetração da ideia da teoria da evolução até haver menos religiosidade.

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    1. Como católico que sou, não deixo de sentir algum incómodo com esta conclusão. Parece de facto haver uma correlação positiva entre a laicidade de um país e a aceitação da teoria evolucionista. Se virmos bem, os países nórdicos são tendencialmente mais laicos que os países mediterrâneos (a França pode ser um país mediterranêo mas foi um dos primeiros - ou mesmo o primeiro - a separar o Estado da Igreja). Sabemos também que a população norte-americana é na sua larga maioria cristã (78,5%) e, embora a Turquia seja um estado laico, 96% da população é muçulmana (Wipipedia dixit). A pergunta é, haverá algo mais a adicionar a esta equação? Outras questões culturais ou educativas?

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    2. Primeiro, parece-me bem claro que para a questão de acreditar na evolução (e provavelmente na evidencia científica em geral), depende de que grupo religioso que se pertence. A igreja católica não se compara minimamente com as igrejas evangélicas dos Estados Unidos*.

      Segundo, Coyne comentou várias vezes que todos os colegas portugueses tinham repetidamente declarado que não havia problemas com criacionistas ou defensores de Intelligent Design em Portugal, mas que ele não estava tão convencido. Penso que sustentava o seu ceticismo por um lado na estatística acima mencionada, por outro lado no infeliz facto de estar exposto numa das mesas na livraria do Serralves um livro de Intelligent Design….

      Terceiro, a mim parece-me evidente que não é a crença religiosa em si que é incompatível com a teoria da evolução, mas a pertença a uma religião cuja dogma é incompatível com ou explicitamente nega a teoria da evolução.

      Eu seria mais uma a dizer que isto não é um problema que temos cá, mas a estatística é de facto um pouco problemática. Não sei se podemos explica-la completamente com a relativamente baixa literacia científica geral.

      *E as evangélicas do Brasil, que agora expandem também em Portugal? Pergunta pertinente para a comunidade lusófona, não conheço a resposta. Suspeito que encontramos o mesmo problema lá. Os meus dois colegas na faculdade que declararam abertamente não acreditar na teoria de evolução pertenciam a maior grupo pentecostialista na Suécia.

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  3. Penso que um contributo interessante para este livro podia ser: Acredito que a teoria de evolução é verdade, então tenho que deixar de acreditar em Deus?
    http://umlivrosobreevolucao.blogspot.pt/p/objectivo-e-destinatarios.html

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    1. Bem acho que não, só não pode acreditar que a biblia é 100% verdade. Eu acredito em ambos, só não acredito que Deus é como relatam por ai, pois a religião deturpa tudo e inventa o que quer para manipular a população é só pensar na idade média para atestar isso.

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    2. Precisa de se informar melhor sobre a Idade Média, que há muito deixou de ser catalogada como Idade das trevas, pelos investigadores sérios. Aliás não é só sobre isso que precisa de se informar...

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  4. Para perceber porque é que as pessoas não acreditam na evolução, será importante dividi-las em pelo menos dois grupos: aquelas que recusam a teoria da evolução sem conhecer as evidências que a demonstram e aquelas, mesmo conhecendo as provas, continuam a rejeitar a teoria.

    No primeiro caso, não é possível saber se é a religião que as faz não acreditar na evolução ou simplesmente a falta de conhecimento das evidências a favor da evolução. Para estas pessoas, tratar-se-á de escolher entre duas "crenças", não havendo nenhuma razão para escolher a evolução em vez do criacionismo a não ser o facto de a comunidade científica "acreditar" massivamente na evolução. Assim que são expostas às evidências, se as compreenderem, podem passar a acreditar na teoria evolucionista ou passar para o segundo grupo.

    Neste segundo grupo, parece-me muito mais óbvia a influência da religião, especialmente se estivermos a falar de religiões que rejeitam abertamente a evolução.

    No caso do cristianismo, se um cristão aceitar que a Bíblia é palavra de Deus, escrita por inspiração do Espírito Santo (penso que é este o dogma), então efetivamente não há lugar à evolução, nem sequer à idade conhecida da Terra. Alguns argumentam que o Génesis é uma alegoria, não se devendo levar à letra. O mesmo dizem para outros relatos fantásticos ou para actos crúeis do Antigo Testamento. Mas isto levanta o problema de saber quais das histórias são alegorias e quais são factuais, e quem é pode determinar isso. Porque é que o o Génesis é alegoria e a ascensão corpórea da Virgem Maria é factual? Não são ambas impossíveis à luz do conhecimento atual? Mas isto é mais uma crítica à religião do que uma discussão relacionada com o assunto do post, portanto vou-me ficar por aqui.

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  5. A publicação de onde derivam os dados está aqui: https://athena.cci.utk.edu/content/relatedmedia/2009/03/03/Science_evolution_2006.pdf
    (sei que a ligação não é considerada segura, corri o risco pois estava demasiado curiosa)

    Infelizmente, o artigo é tão virado para responder à questão porque os estado-unidenses não acreditam na teoria da evolução que não é possível tirar grandes conclusões sobre todos os outros países.

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  6. Há uma passagem em 'Inherit the wind' em que o advogado Henry Drummond (Spencer Tracy) questiona o advogado de acusação Cor. Mat Brady sobre o texto bíblico, que este assume como a verdade literal (literal é aqui importante). E pergunta-lhe se acredita que Joshua parou o Sol conforme é afirmado na bíblia. A resposta é sim. Então Drummond elabora sobre as consequências físicas de a Terra ser instantaneamente parada no seu movimento de rotação.
    http://www.politicalspeeches.net/us-politics/spencer-tracys-evolution-vs-creationism-speech-from-inherit-the-wind

    Este filme é uma das mais brilhantes refutações do discurso anti-evolucionista que conheço. Porque o que está em causa não é a evolução, mas o conhecimento científico. Se alguém declarasse que a equação de Newton F=ma era falsa, isso passaria a ser verdade?
    Eu ensino evolução há muitos anos a crentes e não crentes. Aos primeiros digo que se querem compreender a ciência não podem basear-se na sua religião.

    O problema da religião em relação à evolução é um problema do obscurantismo religioso em relação ao pensamento racional. Nada mais.

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    1. O link não funciona mas encontrei este:
      http://www.youtube.com/watch?v=kf0DYaMjhZc&feature=related

      O advogado de acusação termina, comentando a súbita aparição da mulher de Caim: "The Bible satisfies me; it is enough". Nao é difícil identificar dogmatismo nestas palavras. Mas, sem querer defender o criacionismo ou combater o espírito científico, não cairemos num dogmatismo semelhante se refutarmos a religião ao ponto de dizer: "Evolution satisfies me; it is enough"?

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    2. A evolução É suficiente para muitos. E ao manter esta visão, não causam nenhum problema ao mundo, ao contrário de muitos que consideram a Bíblia (ou Alcorão) é suficiente.

      Acho que isto é o mais importante. E quero acreditar que luta principal que os emblemáticos ateus militantes travam é com a expansão religiosa que penetra a sociedade. Isto inclui a inclusão de intelligent design no currículo de biologia nos Estados Unidos e a propagação de leis sharia no Reino Unido.

      Mas inclui a fé religiosa de cada um? Deve inclui-la?

      Richard Dawkins disse que inicialmente não gostou da inclusão da palavra “probably” na letra do emblemático autocarro londrino
      http://en.wikipedia.org/wiki/Atheist_Bus_Campaign

      Nenhuma das grandes instituições cristãs na Europa põe em causa a teoria da evolução. Nem a igreja católica, nem a anglicana, nem as lutheranas dos países escandinavos. Historicamente não tem um track record brilhante na aceitação da evidência científica, e no que diz respeito a metodologia usada na investigação, continua a haver alguns motivos de conflito. Mas no momento não se opõe ao método científico como meio principal de produzir conhecimento e evidência.

      A mim parece-me impossível acreditar na ciência e levar a Biblia à letra ao mesmo tempo. Mas deve-se combater qualquer tentativa de conciliar a ciência com fé pessoal?

      A mim parece-me exagerado. Mas não sei quanto nuance que cabe na discussão.

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    3. A Bíblia não é para ser interpretada à letra. Desde o séc. II que Clemente de Alexandria o diz. E S. Agostinho no séc. IV-V continuou a dizer. Houve épocas em que o problema se pôs... Mas hoje é claro que não se pode ler à letra, sobretudo ler à letra com "espírito científico", livros escritos muito antes de haver ciência. Que de modo nenhum a viam desse modo. Há tanta coisa para ler sobre isso...

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    4. A título pessoal, e incorrendo no risco de chocar com pessoas de quem gosto e respeito (ainda que não respeite necessariamente as suas crenças, nem acho que deva), não posso deixar de constatar que qualquer livro - ou conjunto de escritos - auto-intitulados de "sagrados" não me merece muita consideração séria para além do seu valor histórico e literário. O entendimento do Universo e da Vida, das suas origens, dimensão, evolução e forças fundamentais era completamente alheio aos escribas da Idade do Bronze no Médio Oriente que escreveram a Tora e a Bíblia. Sabiam muitíssimo mais na China e Grécia antigas. A própria moralidade vigente nestes textos e a explicação para a origem da mesma ("divina") não tem lugar numa sociedade evoluída. Voltando à questão da evolução, é de notar que as sociedades, os comportamentos e por conseguinte a moral também evoluem. Isto aliás tem resultado num constante reescrever e reinterpretar dos ditos escritos sagrados pelos religiosos para que possam ter uma réstia (aparente) de validade face aos valores morais seculares e humanistas vigentes. É um exercício de contorcionismo ao qual muitos outros não estão dispostos, optando por leituras literais, levando ao fundamentalismo evangélico, de um lado, e islamista, do outro. Talvez evoluamos no sentido de os abandonar. Mas a evolução natural não tem rota definida, nem obedece a caprichos e vontades nossas. Se houvesse um relojoeiro, este seria cego.

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