terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Bem-estar no Abate - "Kill it, Cook it, Eat it"



Por Ricardo Reis:

Ontem (sic) vi um episódio do programa britânico "Kill it, Cook it, Eat it", que pretende mostrar a um grupo de pessoas ao vivo e aos telespectadores, todo o processo de abate, desmanche e preparação da carne, sendo dada oportunidade aos presentes de comer a carne do animal que viram ser abatido. O episódio de 13 de Dezembro foi sobre porcos. Ora, durante o programa, foram feitas duas afirmações sobre as quais eu gostava de ouvir a opinião dos especialistas.
A dada altura foi dito que o Reino Unido tinha as melhores práticas em termos do bem estar dos animais durante o abate (apesar de um representante da Compassion in World Farming ter dito que nos maiores matadouros a pressa é tanta que os animais podem não ficar devidamente atordoados e acordar antes de morrerem), contrastando com a Europa Continental, que ainda teria um longo caminho a percorrer. Eu gostaria de saber se é verdade, ou se há algum chauvinismo da parte das autoridades britânicas.

Outra coisa que disseram, na voz de uma oficial do Meat Hygiene Service (MHS), foi que o atordoamento provoca o equivalente a um ataque epiléptico, pelo que os movimentos das pernas que vemos pouco depois do atordoamento são espasmos involuntários e até indicam um bom atordoamento. Isto é verdade? Se sim, então como podemos saber se um animal está a recuperar consciência antes de morrer? Que sinais nos indicariam isso?

Por último, confesso que fiquei um pouco surpreendido por nenhuma das pessoas que testemunhou o abate, aparentemente, se ter recusado a comer a carne cozinhada a partir daquele porco. Faz-nos pensar se Paul McCartney tinha razão quando disse: “If slaughterhouses had glass walls, everyone would be a vegetarian.” Atribuo essa recusa a 2 factores:
- O processo de abate mostrado parecia de facto seguir as melhores práticas: os porcos nunca se mostraram agitados, o atordoamento foi eficaz, o sangramento foi rápido, de uma maneira geral, parece não ter havido sofrimento da parte dos porcos. 
- A responsável do MHS foi explicando o que estava a ser feito e reassegurando as pessoas que os animais estavam a ser abatido da forma o mais humanitária possível. Sem essa responsável lá, algumas pessoas poderiam ter pensado que os porcos estavam a voltar a si quando agitaram a perna durante o sangramento. Além disso, acho que a presença da responsável faz com que as pessoas racionalizem mais o que estão a ver, ao invés de reagirem emocionalmente.

4 comentários:

  1. Caro Ricardo Reis,

    Desde já agradecemos o comentário que a equipa do ANIMALOGOS concordou em elevar à categoria de mensagem. Porque as questões que levanta são demasiado importantes e abrangentes para se diluirem no comentário a uma outra mensagem.

    Assim, e na qualidade de médico veterinário, começo eu a responder às questões mais técnicas; é verdade que o Reino Unido tem das melhores práticas em termos do bem estar no abate. E isso deve-se não tanto às instalações - os modernos matadouros em Portugal oferecem condições semelhantes - mas sim à formação dos recursos humanos. No Reino Unido, quem lida com animais em qualquer fase do processo de abate - profissão que por cá se designa magarefe - necessita de passar por um período de formação e certificação. E isso acontece há pelo menos 20 anos. Na União Europeia só a partir de 1 de Janeiro de 2013 é que isso se torna obrigatório, com a entrada em vigor do Regulamento 1099/2009 relativo à protecção dos animais no momento da occisão (vide abate).

    Também é verdade que o que nos é dado a ver nesta peça não representa o abate industrial de suínos, que tem de ser muito mais rápido. E a rapidez pode predispor a erros no atordoamento eléctrico. E isso - em suínos - é mais fácil de acontecer quanto maior for o animal (os do vídeo são porcos relativamente pequenos - 80 kg - e novos - menos de 1 ano, talvez) e quanto maior for o stress. E também duvido que a selagem do recto (para diminuir o risco de consporcação) seja sempre feita com todo aquele cuidado que o vídeo demonstra.

    Em relação ao atordoamento, ele é normalmente feito por choque eléctrico que provoca um estado convulsivo com perda de consciência em 200 ms (menos que um piscar de olhos). Essa perda de consciência é transitória, o que quer dizer que a sangria deve ocorrer num espaço de tempo não superior a dois minutos após o atordoamento (ideal menos de 1 minuto; no vídeo demorou 30 segundos). Os espasmos dos membros são contracções musculares involuntárias provocadas por estímulos eléctricos e não representam tentativas de fuga do animal, que está inconsciente.

    O maior desafio, que requer formação específica, está em detectar quando um animal está a recuperar consciência: a respiração torna-se mais profunda e rápida, há vocalizações, e movimentos voluntários. Compete ao responsável pelo bem-estar dos animais (a nova figura prevista no novo Regulamento) impedir a sangria de um animal nessas condições.

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  2. Muito curto: Quando alguém alega “A melhor”, há sempre uma dose de chauvinismo. De Inglaterra, Dinamarca, Suécia e Países Baixos ouvimos frequentemente que o país em questão tem a lei de experimentação animal mais restritiva, o sistema de garantir bem-estar na produção mas eficiente etc.

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  3. Miguel Ângelo Fernandes7 de janeiro de 2013 às 23:53

    Atrevo-me a dizer, sem saber o que estabelece o Regulamento mas que admito ande pelos segundos, que o intervalo entre o atordoamento e a sangria (no caso dos suínos) não deve ultrapassar os 35 segundos, pois para além deste período a respiração rítmica é retomada, primeiro sinal de recuperação da consciência... se o mecanismo de atordoamento não provocou a paragem cardíaca.
    Preocupante é também o abate religioso (bovinos e ovinos) sem atordoamento prévio... não tive oportunidade, por estar ausente do país, de levantar a questão na conferência que o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) e a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) levaram a cabo no passado dia 7 de dezembro, subordinada ao tema "Bioética e Religiões"...
    Aproveito para voltar a perguntar: porque não está a profissão veterinária representada naquele Conselho Nacional?

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  4. A propósito deste tema, chamo a atenção para a recente polémica com as condições de abate de cavalos num matadouro no Reino Unido, trazidas a lume numa peça da Sky News, contendo "undercover footage" captada por uma organização de bem estar animal: http://news.sky.com/story/1040057/horse-abattoir-film-reveals-welfare-breaches

    As imagens mostram cavalos abatidos em grupos de 3, contrariando a lei que dita que cada cavalo deve ser abatido individualmente e fora da vista dos outros cavalos. Também mostra funcionários a bater em cavalos com barras de ferro e cavalos feridos ou doentes sem assistência veterinária.

    O vídeo já levou à revogação das licenças de dois magarefes e desencadeou uma investigação por parte da Food Standards Agency.

    No Reino Unido decorre uma campanha, que tem o apoio da RSPCA e da Compassion in World Farming, que pede a instalação de câmaras CCTV em matadouros: http://www.rspca.org.uk/getinvolved/campaigns/farm/cctv/-/article/CAM_CCTV_in_slaughterhouses

    Esta campanha surge no seguimento de várias investigações encobertas que mostram práticas desumanas e tratamento cruel de animais em matadouros do Reino Unido: http://www.animalaid.org.uk/h/n/CAMPAIGNS/slaughter/

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