quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

"Quem quer adoptar um ratinho?"

O suplemento P3 do Público noticiou esta semana uma iniciativa do Núcleo de Estudantes de Bioquímica da Universidade do Porto, que pretendem dar para adopção murganhos (ratinhos) e ratos saudáveis usados em aulas.

Uma iniciativa do Núcleo de Estudantes
de Bioquímica da Universidade do Porto
Ainda que sejam apenas anestesiados sem qualquer outra intervenção, não podem no entanto regressar ao Biotério do ICBAS por razões de segurança. Assim, a solução habitualmente utilizada é eutanasiar os animais findo o seu propósito. Esta medida, embora comum, este ano chocou vários alunos, que empreenderam esforços no sentido de serem autorizados pela universidade a procurarem lares de acolhimento para dez destes animais - que os alunos garantem terem sido tratados com o maior respeito pelo seu bem-estar -  como alternativa à eutanásia.




Recentemente, no decorrer da nossa actividade académica, eu e a Anna Olsson temo-nos debruçado sobre a perspectivação da morte dos animais usados em ciência e no ensino como uma inevitabilidade, e se haverá alternativas eticamente preferíveis, como a adopção. 
Murganhos
No página de Facebook desta iniciativa, surge um grande número de candidatos a disponibilizar-se para adoptar apenas um animal, o que revela que conhecem mal o comportamento e biologia destas espécies. Tantos os ratinhos (Mus musculus) como os ratos (Rattus norvegicus, vulgo ratazanas) são  animais marcadamente sociais e que sofrem consideravelmente com o isolamento. Querendo esclarecer esta questão, enviei uma mensagem para o Núcleo, tendo-me sido agradecido o esclarecimento, e informado que quem adoptar os animais receberá aconselhamento de veterinários. 

Os alunos recusaram, contudo, responder a mais questões para este blog, muitas delas importantes para aferir se este tipo de iniciativa resultará de facto num ganho para os animais. Fica assim por esclarecer:

- Quais os critérios de selecção dos candidatos à adopção (serão os "primeiros a chegar"? Os que já tiverem habitats para este tipo de animal? Quem demonstrar conhecimento das reais necessidades destes animais? Quem já tiver experiência no cuidado de roedores?) 
- Como garantir que os animais serão bem tratados? 
- Haverá um acompanhamento da situação dos animais? Por quem? 
- Como garantir que estes animais não se irão reproduzir (desconheço se os animais são todos do mesmo sexo, ou se os alunos sabem distinguir machos de fêmeas para prevenir alojar casais)?

Estas são questões a que urge dar resposta, uma vez que uma acção potencialmente benemérita poderá resultar no comprometimento da imagem da Universidade do Porto relativamente às suas obrigações no campo da bioética e  higiene pública. 

7 comentários:

  1. Recebi hoje o seguinte esclarecimento por parte dos alunos:

    "Boa tarde,
    Lemos o seu artigo no blog e queremos apenas esclarecer algumas questões que deixa em aberto, afim de o deixar mais descansado.
    Os voluntários que adoptaram os animais foram escolhidos de acordo com o seu perfil e experiência, de modo a garantir que os animais serão sempre bem tratados e não sofrerão. Antes da adopção, todos os voluntários conversaram e foram aconselhados por veterinários, que também avaliaram se os animais ficariam bem entregues.
    Queremos também informá-lo de que os animais foram adoptados aos pares, do mesmo sexo, e cujo par já se encontravam, de forma a sofrerem menos com a mudança.
    Depois da adopção, todos os animais serão frequentemente acompanhados e avaliados por veterinários, afim de os manter saudáveis.
    Esperamos assim esclarecer todas as suas dúvidas e assegurar-lhe que tomámos as devidas precauções para com o bem-estar dos animais.
    Cumprimentos,
    NEBQUP"

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  2. Agradecemos o esclarecimento.

    É legítimo perguntar se faz sentido ser tão exigente no que diz respeito à adoção proposta, se consideramos que qualquer pessoa pode ir a uma loja de animais e comprar um hamster ou um porquinho-de-India sem prestar contas a ninguém além do pagar o animal?

    Faz sentido sim, quando se trata de um organismo de ensino superior, ainda por cima um que forma veterinários.

    As precauções propostas parecem-me boas, e desejo o maior sucesso aos alunos, às famílias de acolhimento e os ratinhos!

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  3. E por razões que explicarei num post a seguir, não me vou juntar à lista de espera.

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  4. Fiquei agradavelmente surpreendido com todas as precauções adoptadas pelo NEBQUP, não estava à espera que fossem tão cautelosos (não por maldade, mas por simples desconhecimento). A iniciativa é excelente.

    Gostaria só de perguntar à Anna Olsson ou ao Henrique Franco quais são as "razões de segurança" que impedem os animais de voltar ao biotério. Perigo de contaminação?

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  5. Sim, é por perigo de contaminação. "Estandardização microbiológica" faz parte do pacote de estandardização e controle de condições que é um dos aspetos principais de experiências controladas com animais. Os animais quando vêm de outro biotério tem que vir acompanhados por um relatório que declara quais os microorganismos cuja presença foi monitorizada no ambiente dos animais. Dentro do biotério aplica-se regras para evitar a contaminação* e monitoriza-se a presença de microorganismos potencialmente patogenicos.

    * dos quais os principais são:
    - aceita-se apenas animais vindo de fora se estes vier com um health report de confiança e negativo de microorganismos patogenicos
    - pessoal a entrar no biotério tem que mudar de calçado e vestir roupa de proteção, incluindo toca, luvas e mascara (para niveis mais altas de proteção, como é o caso onde se mantem animais imuno-comprometidos ou animais de reprodução, ainda é preciso tomar banho e mudar toda a roupa antes de entrar)
    - não se pode entrar no biotério até 48-72h depois de ter estado em contacto com animais das mesmas especies fora do biotério (incluindo em outro biotério)

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    1. E todos os Biotérios em Portugal obedecem a essas regras? Todas essas medidas parecem involver um investimento, humano e material, elevado. Quem monitoriza os biotérios, a DGAV?

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  6. Pergunta difícil!

    Primeiro, em termos científicos a necessidade de cumprir este tipo de regras varia com o tipo de experiência. Não se aplica estandardização microbiológica em estudos de nutrição animal em pecuária, por exemplo. Neste tipo de estudos normalmente limita-se o controlo de variaveis a um nível que corresponde a boa prática agrícola. Mesmo dentro de um biotério mais típico, há diferentes niveis de controlo. Estudos de infecção exige normalmente mais de controlo microbiológico do que estudos de comportamento, porque a interferência nos resultados será maior no primeiro caso do que no segundo.

    Segundo, quem monitoriza este aspeto é principalmente o próprio biotério, que estabelece práticas e infraestruturas físicas para este efeito. Há recomendações internacionais a seguir, ver: http://www.felasa.eu/recommendations/recommendation/recommendations-for-health-monitoring-of-rodent-and-rabbit-colonies/. Assume-se que um bom programa de monitorização e prevenção segue pelo menos estas recomendações.

    As infraestruturas e a gestão de um biotério no sentido de garantir controlo microbiológico também faz parte dos requisitos da DGAV para licenciar biotérios. Mas a monitorização necessária para garantir que não há contaminação implica amostras mais frequentes do que as vistorias de alguma autoridade competente - o relatório da FELASA (link acima) recomenda amostras trimestrais.

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