sábado, 16 de fevereiro de 2013

O que há de errado em comer cavalo por vaca ?

Matadouro Romeno
Photo:Daniel Mihailescu - AFP
O escândalo da carne de cavalo que estalou no Reino Unido há duas semanas não dá sinais de abrandar. A troca, propositada, de carne de vaca por carne de cavalo em produtos transformados (hambúrgeres, lasanhas, recheios) é um problema que envolve toda a Europa e que revela as fragilidades do mercado europeu de produtos de origem animal. A carne de cavalo já foi entretanto detectada noutros países como a Alemanha ou a França, estando para já Portugal fora deste mercado negro que parece ter origem na Roménia.

Duas questões principais se colocam com esta crise: uma diz respeito à quebra do elo de confiança com consumidor, que deixa de ter razões para crer na informação que vem nos rótulos; a segunda, mais grave, prende-se com os potenciais riscos de saúde pública em comer carne cujo estado sanitário se desconhece. Um dos perigos associados ao consumo de carne de cavalo é a presença do anti-inflamatório fenilbutazona. O Ministro David Heath, da DEFRA, confirmou a presença do fármaco em 8 das 206 amostras testadas pelos seus laboratórios, mas em valores considerados residuais e que portanto não constituem um risco para a saúde pública. Mas outros riscos poderão ainda emergir.

O horror com que a presença de carne de cavalo foi encarada no Reino Unido tem razões históricas. Por um lado, este caso ameaça tornar-se o maior escândalo no sector agro-alimentar europeu desde a crise das vacas loucas  nas décadas de 80 e 90 do século passado, que também teve origem nas Ilhas Britânicas. Por outro lado, não é de desprezar o facto dos britânicos serem um povo de horse lovers. Para os britânicos o cavalo é o animal de estimação por excelência, e a sua presença tem uma importância - na paisagem e no imaginário colectivo - muito superior àquela que a maioria de nós lhe reconhece. Para muitos, portanto, comer cavalo é uma ideia aberrante, como para outros será comer cão ou outro animal de estimação.

Em Portugal não existe também o hábito de comer carne de cavalo, mas as razões parecem ser diferentes. A mim, não me faz confusão nenhuma comer um bife de cavalo mas já não concebo a ideia de comer gato por lebre. Como diz Miguel Esteves Cardoso no Fugas de hoje, "aquilo que mais nos deve horrorizar  não é a presença de carne de cavalo mas a distância insondável entre o consumidor e o animal (ou animais) cuja carne está a comer." Como omnívoro que sou, não podia estar mais de acordo. O mesmo problema se põe, por exemplo, com o leite. Existem marcas, como a Auchan, que importam leite (a granel) de França. O produto é depois embalado em Portugal e é-lhe atribuido o selo de produto nacional. Ora nada disto é transparente. Eu não tenho nada contra o leite francês ou mesmo contra os cavalos romenos. O que eu quero é saber o que estou a comer e saber também, sem sombra de dúvidas, a origem e a forma como aqueles animais foram criados. 

7 comentários:

  1. Aí é que está. Eu pessoalmente também não me importo em comer carne de cavalo (não me faz confusão), mas mentir ao consumidor já me faz imensa confusão...

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  2. Um artigo no jornal i de dia 20 de Fevereiro procura contextualizar o consumo de carne de cavalo em Portugal (bom, pelo menos em Lisboa):
    http://www.mmclip.com/Pdftmp/11984930_3_959_gci.pdf

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  3. O artigo refere: “Para os britânicos o cavalo é o animal de estimação...” e “Em Portugal não existe também o hábito de comer carne de cavalo, mas as razões parecem ser diferentes”.

    Sem deixar de achar que o comum dos ingleses tem uma muito maior estimação por cavalos, contesto a afirmação quanto a Portugal. Na minha perspectiva, muita da celeuma em Portugal deriva dos factos:

    1º. (Em Portugal) As pessoas (o comum das pessoas) considera normal que por razões afectivas o dono dê nomes aos cavalos (como aos cães e gatos). Quanto a dar nomes a vacas… a probabilidade de alguem ter de conter um sorriso irónico… Ou seja o cavalo, para o comum das pessoas, não será um animal de estimação, mas quase,… principalmente se fosse mais pequeno… Falo aqui no dar nomes pela importância emocional que isso representa.

    2º. Se fosse carne de vaca misturada com carne de frango, isso não teria “vendido” tantos telejornais ou jornais.
    Sem prejuizo de se sentirem irritadas por terem sido enganadas quanto ao rótulo, sentir-se-iam principalmente “roubadas” por a carne de frango ser mais barata que a de vaca.

    Para terminar. O que seria se nas touradas, os cavalos fossem tratados como touros? Ainda haveria touradas?

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    1. Caro Paulo:

      1º Dar um nome a um animal não é um acto desprovido de significado, como constata. Implica reconhecer o animal como indivíduo, diferente de outros da mesma espécie. Ao escolher um nome, quer seja a um cão, a uma vaca ou a um cavalo, estamos também a estabelecer uma relação, pois o nome nunca é escolhido ao acaso e funciona como elemento de identificação (de nós próprios) com esse animal. Não conheço nenhum cavalo que não tenha nome mesmo os que não são considerados animais de estimação; mesmo no que diz respeito às vacas - que só existem como um meio para atingir um fim - é frequente serem tratadas pelo nome, pelo menos aquelas que o produtor mais estima. E nada disso tem de risível.

      2º A questão de carne de frango misturada em carne de vaca é (ou seria, se tal fosse possível sem ser detectado) exactamente a mesma que se coloca com a carne de cavalo, já que esta é duas vezes mais barata do que a de vaca.

      Para terminar, há uma certa tendência, em Portugal, de comparar qualquer tema de relevância ética (animal) com o tratamento a que os touros são sujeitos nas touradas (numa espécie de reductio ad tauromaquia). Por ser legítimo - para muitos - lidar touros, nenhuma conclusão daí podemos tirar sobre o tratamento dado a cavalos.

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  4. Chegamos ao ponto de serem os meios de comunicação social a investigarem este tipo de casos de saúde pública ou pelo menos de desrespeito pelo direito que os consumidores têm de serem informados correctamente sobre o que estão a comprar!
    Porque a questão é se o problema é apenas a etiquetagem ou se haverá um problema de saúde pública, porque os animais utilizados, por não serem de origem destinados ao consumo humano, podem ter sido tratados com produtos, medicamentos ou outros, eventualmente nocivos.
    Em qualquer dos casos, houve negligência por parte dos serviços públicos que não tiveram em conta a legislação. Agora, surge uma nova polémica, especialmente sensível na época de crise financeira e social que o país atravessa, que é o destino a dar aos produtos apreendidos: doar ou destruir.
    Tratando-se apenas de uma situação de rotulagem fraudulenta, e desde que a qualidade alimentar do produto esteja assegurada, a doação desses produtos não coloca nenhum problema ético na sociedade actual, desde que na doação o engano fique esclarecido, e quem recebe tenha oportunidade de escolha.
    No entanto, e apesar de estarem envolvidos produtos animais, não se trata aqui de ética animal, mas de saúde pública. Apesar disso, a discussão deste assunto ajuda a chamar a atenção para as condições em que os animais são tratados e às manipulações a que podem ser sujeitos, as quais muitas vezes escapam ao público consumidor.

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  5. Obrigado pelo comentário, Bárbara.

    Penso que os meios de comunicação estão mesmo a cumprir o seu papel aqui. Houve negligência por parte de varios intervenientes, sobretudo quem vendeu cavalo por vaca, na primeira instância quem vendeu a materia-prima mas se calhar também quem produciu os produtos agora apanhados sem verificar o contéudo.

    Houve ainda negligência por parte dos serviços públicos?

    E há um real problema de saúde pública, tendo em conta as quantidades de carne de cavalo consumida e as quantidades de resíduos de fenilbutazona que esta carne pode conter? A bastionária da Ordem dos Médicos Veterinários parece pouco preocupada
    http://www.publico.pt/sociedade/noticia/deco-encontra-medicamento-proibido-em-carne-de-cavalo-1586977
    No entanto, não há nenhum 'limite-seguro' de resíduos desta substância, que é a razão para qual fenilbutazona não é perimitida como medicação para animais destinados a abate para consumo humano.
    http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2034431/

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