quinta-feira, 6 de junho de 2013

O papel do ensino da ética animal na formação da pessoa humana


Texto escrito por Bárbara Nabo, José Paulo Rego e Sara Martins, alunos do curso de Pós-Graduação em Bem-Estar Animal, ISPA.

Estamos a viver um período acelerado de transformações e mudanças com evidentes reflexos sobre os valores que orientam a vida individual e da sociedade. Vivemos num cenário de transformações, mudanças, polémicas e incerteza sobre o futuro, no qual a educação tem um papel fundamental na busca de respostas sobre o que ensinar e como educar para esse futuro imprevisível. 

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Um dos campos em que se tem verificado uma consistente evolução é a ética do relacionamento entre pessoas e animais, que tem levado a uma maior sensibilização das pessoas para abusos que tradicionalmente eram considerados próprios da supremacia da espécie humana. 

Em consequência, multiplicam-se as campanhas de protecção, mesmo para espécies que são maltratadas em locais tão distantes como a China ou o interior de África; generalizou-se o melhoramento das condições de vida e abate dos animais destinados à alimentação humana, enquanto as ideias de alimentação com base em fontes alternativas de proteína ganham mais divulgação; e surge uma ética para a conduta urbana de pessoas que têm animais de companhia. Mesmo as entidades oficiais, nomeadamente as autarquias, têm programas de recolha de animais abandonados e algumas utilizam a sua autoridade para proibir ou pelo menos condicionar algumas práticas tradicionais. A Camara Municipal de Lisboa acabou de anunciar a reformulação do canil/gatil municipal numa Casa do Animal, incluindo um Provedor do Animal para supervisionar o funcionamento.  

Apesar disso, na sociedade actual, o abandono dos animais de estimação, em particular cães e gatos, é elevado, sendo frequente depararmo-nos cada vez mais com animais errantes a vaguear pelas ruas  

Descreve o jornal Expresso que as razões dadas pelas pessoas são: “(...) as alergias, os divórcios ou as férias de Verão, ás quais se junta agora a falta de dinheiro e a taxa de emigração”. O jornalista acrescenta que “tudo isto faz um cocktail onde, além do sofrimento dos animais, se alastra a problemas de saúde pública e até de segurança para as pessoas.”

À educação é solicitado que contribua para a superação desta crise, com mudanças não apenas nos conteúdos e métodos, mas principalmente, na sua vertente formativa, com destaque para o papel da escola como espaço educativo global, em que os aspectos racionais e legais se cruzam com os éticos e estéticos, para a educação dos valores e dos afectos.

A espécie humana tende a dominar o meio e a considerar-se superior às outras. Apenas no século passado, a noção de ecossistema e da importância repartida de todas as espécies de seres vivos na manutenção da vida como a conhecemos veio questionar essa atitude, e criou condições para se pensar nos direitos que os animais deverão ter como seres vivos, mesmo quando se considere que algumas espécies possam estar ao serviço directo da espécie humana, como os animais domésticos, ou outros. 

A educação tem portanto, um papel decisivo nesta mudança de atitude, não só ao nível do conhecimento científico, da divulgação das descobertas sobre o comportamento animal que vão sendo feitas e que permitem desenvolver ética animal, mas igualmente na formação de pessoas mais informadas e portanto mais conscientes do respeito que os outros seres vivos lhes devem merecer. 

Assim, a ética animal, sendo uma conquista recente da humanidade, reforça (re)aprendizagens importantes no contexto do comportamento humano, como o esprírito de solidariedade, de sentido crítico e de intervenção activa e promove a emergência de um conjunto de valores e crenças que contribuem positivamente para o desenvolvimento das sociedades.

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