terça-feira, 16 de julho de 2013

O cão é o melhor amigo do homem...mas desde quando?

A comunidade científica ainda não resolveu definitivamente a questão de quando, onde e como foram domesticados os primeiros cães a partir do lobo cinzento, o Canis lupus

Têm sido encontrados esqueletos de lobos junto a vestígios humanos com até cerca de 500.000 anos, o que significa que estes co-existiram com várias espécies do Género Homo, incluindo o Homo Erectus, e muito provavelmente foram caçados pela sua carne e pelagens.

Estudos do ADN canino e do lobo sugerem que a divergência genética entre estes terá surgido há mais 100.000 anos, ou seja,  várias dezenas de milhares de anos antes dos primeiros humanos modernos chegarem à Europa e terem extinguido animais como o tigre-dentes-de-sabre ou o mamute. Esta data ultrapassa largamente a idade dos mais antigos registos arqueológicos de proto-cães, que remontam até -36.000 anos. Uma possível explicação é que poderá ser impossível distinguir entre vestígios de lobos e dos primeiros cães, cujas diferenças poderão não ter sido ao nível da morfologia, mas sobretudo ao nível do comportamento, que tem uma base biológica e, consequentemente, genética. 

É provável que crias órfãs de lobo tenham frequentemente sido adoptadas e criadas por humanos como um costume cultural no Paleolítico. Tal não significava contudo verdadeira domesticação, mas antes adestramento de animais selvagens, que assim que começassem a manifestar maior agressividade (o que é previsível num animal selvagem), seriam afastados ou mortos. Apesar de haver quem considere que foi este hábito que levou ao surgimento do cão, é mais consensual a teoria que o processo inicial de domesticação se tenha dado por "auto-domesticação", ou seja, por força da vantagem reprodutiva daqueles melhor adaptados - por serem mais tolerantes à presença humana e/ou terem uma menor distância de fuga, por exemplo - para viver de restos de comida deixados  pelas primeiras aldeias. A ser verdade, não deixa de ser curioso que tenha sido o cão, e não o homem, o primeiro a "inventar" a domesticação. 

Foto de Robert Clark para a National Geographic 
(é evidente aqui a Neotenia resultante do processo de domesticação, 
tendo o cão características físicas marcadamente infanto-juvenis)
A domesticação propriamente dita resulta de um processo de modificações genéticas, morfológicas e comportamentais de uma determinada espécie por acção do homem. Assim, para conseguir as respostas, deveremos estudar no seu conjunto os indícios genéticos, paleoarqueológicos e biogeográficos. 

A revista Nature de 18 de Junho revela que, não obstante ser consensual entre os geneticistas em que aspectos genéticos os cães e os lobos diferem, há grandes divergências relativamente a quando e como se deu o processo de domesticação, e qual a relação temporal entre essas alterações genéticas e o processo de domesticação. Isto é, se foram um efeito da domesticação, ou a sua causa inicial (a tal "auto-domesticação"), ou se tal variou consoante os traços genéticos e as circunstâncias históricas e geográficas em questão.

Indo ao encontro da hipótese que o advento da agricultura no Neolítico serviu de catalisador para o processo de domesticação propriamente dito, Erik Axelsson e Kerstin Lindblad-Toh propuseram este ano num artigo que o aparecimento há 10.000 anos de genes para a digestão do amido - que terá permitido viver comensalmente de restos de alimento e colheitas dos seres humanos - terá ditado a separação destes canídeos dos seus antecessores exclusivamente carnívoros, dado subsequentemente origem  à sua domesticação. 

Greger Larson, arqueogeneticista da Universidade de Durham contesta veemente esta conclusão, dados os registos arqueológicos de ossos similares aos de cães modernos que precedem em vários milhares de anos a data proposta por Axelsson e Lindblad-Toh (distinguir ossos de cão e de lobo é no entanto tão mais difícil quanto mais recuarmos no tempo), situando assim o momento da domesticação no Paleolítico Superior. Larson argumenta - e tendo a concordar com ele - que não há razão para pensar que a domesticação do cão não possa ter precedido o aparecimento destes genes em particular, pelo que seria infundado apontar este acontecimento, ainda que importante, como equivalente ao início da domesticação.

Atendendo às provas arqueológicas, a gradual aproximação dos lobos ao homem deu-se provavelmente em acampamentos semi-sedentários de caçadores-recolectores, e portanto num período pré-agrícola. O advento da agricultura poderá ter tido, não obstante, um importante papel na diversificação das diferentes linhagens de cães, uma especialização para tarefas como guardar rebanhos, ajudar na caça ou proteger a comunidade.

Diferentes raças caninas, fotografadas por Robert Clark para a NatGeo (fonte)
Mas há quanto tempo se iniciou o processo de domesticação, afinal? 

Dados recentes publicados por cientistas chineses (Wang et al, 2013) fazem recuar a domesticação do cão até há -32.000 anos na China, região onde actualmente não existem lobos selvagens, mas que tinha já sido proposta como provável origem para o cão. Creio, no entanto, que a existência de um momento e local exacto para a domesticação de lobos em cães seja algo difícil de aceitar para a generalidade da comunidade científica, no seio da qual é mais ou menos consensual que este processo foi bastante complexo, tendo ocorrido mais do que uma vez ao longo da história, em mais de que um local e a partir de mais que uma população de lobos. Ademais, desde os anos 90 que estudos genéticos apontam  para a possibilidade de um frequente cruzamento de cães com diversas populações locais de lobos (e, portanto, de diferentes sub-espécies) ao longo dos tempos, o que poderá ter sido uma das causas para a enorme variedade genética encontrada nestes últimos. Isto é corroborado por um artigo recente (ainda em fase de pré-publicação, mas disponível em versão preliminar no arXiv), e que propõe o início da divergência genética entre lobos e cães para um período situado entre - 11.000 a -16.000 anos. 

Face a esta controvérsia, assiste-se agora a uma autêntica corrida entre equipas de investigadores para  serem os primeiros a apresentar dados que compararem material genético extraído de fósseis antigos de cães e lobos paleolíticos. A competição será aguerrida, uma vez que espécimes de fósseis deste tipo são muito raros, mas é consensual que esta abordagem trará uma nova luz a esta complexa questão.  

3 comentários:

  1. Sendo a domesticão um processo gradual, a resposta à tua pergunta "Mas há quanto tempo se iniciou o processo de domesticação, afinal?" vai variar conforme a definição de domesticado, certo?

    A biologia evolutiva permite definir quando a linhagem que deu origem ao cão de agora se separa da linhagem que deu origem ao lobo de agora. Mas quando ao longo desta linha temporal é que a originalmente-lobo-que-gradualmente-se-distingue de facto se torna cão?

    Do ponto de vista de ética animal, a perspetiva de domesticação como um processo de co-evolução tem consequencias. Diria que é basicamente incompatível com o mais fundamental do principio dos direitos dos animais segundo Regan, ou seja a ideia que todo o uso humano dos animais é exploração destes. Esta questão foi explorado num excelente livro cuja leitura recomendo vivamente: The Covenant of the wild do Stephen Budyansky.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Link para o livro: http://yalepress.yale.edu/yupbooks/book.asp?isbn=9780300079937

      Eliminar
  2. Efectivamente, não há como traçar uma linha divisória num processo que é contínuo e gradual, apenas identificar a existência de uma linhagem divergente já existente. Para além disso, como referes, ao passo que a análise directa de vestígios pode indicar a existência de animais morfologicamente distintos dos lobos, a genética só nos pode indicar a divergência entre os lobos actuais e a população que deu origem aos cães (presumivelmente extinta), ainda que se possa especular ter sido a mão humana a criar essa divergência.

    Mas esta divisão não significa necessariamente especiação. Os cães domésticos podem cruzar-se com lobos e dar origem a descendência fértil. Assim, atendendo à definição clássica de espécie (como uma população de indivíduos isolada geneticamente das restantes), não podemos sequer falar de espécies distintas, mas antes diferentes sub-espécies da espécie Canis lupus, sendo o Dingo (cães assilvestrados e recentemente re-domesticados na Austrália) outro exemplo. Aliás, várias "espécies" do género Canis podem cruzar-se entre si com sucesso, ainda que nem todas as combinações directas sejam possíveis.

    Quanto à questão ética, se de facto foram os cães que deram início à sua própria domesticação no paleolítico, e se podemos falar em certa medida de uma "co-evolução" de humanos e cães, não vejo como na linha dos direitos se pode argumentar contra a domesticação tout court. Mas vou ler o livro, certamente.

    Contudo, pode-se e deve-se questionar certas práticas actuais ligadas à criação e manutenção de animais com características que lhes são prejudiciais, algo a abordar futuramente aqui no Animalogos.

    ResponderEliminar

Obrigado pela sua participação no animalogos! O seu comentário é bem-vindo, em especial se fornecer argumentos catalisadores da discussão.

Embora não façamos moderação dos comentários, reservamo-nos no direito de rejeitar aqueles de conteúdo ofensivo.

Usamos um filtro automático de spam que muito ocasionalmente apanha mensagens indevidamente; pedimos desculpa se isto acontecer com o seu comentário.