terça-feira, 22 de outubro de 2013

Tem a barata o direito de não ser feita robô?


A ideia do RoboRoach é tão simples como surpreendente e provocador.

Com um kit electrónico e uma intervenção cirúrgica – pequena para quem a executa, não tão pequena para quem é sujeito - qualquer um de nós pode fazer de uma barata um robô, controlável através de um smartphone. A ambição é que a possibilidade de criar e experimentar com um RoboRoach possa estimular o interesse de crianças e jovens pelas neurociências.

P3 relata o caso, bem como as preocupações éticas levantados por alguns e refutados por outros.

É questionável se a barata tem direito a coisa alguma. Ela dificilmente passará o teste do Tom Regan para ser um ‘sujeito- de-uma-vida’, o critério estabelecido por este filosofo para atribuir o direito a um animal.

Mas o que está aqui em causa pode passar além da barata propriamente dita. Depois de me aperceber que um inseto ficava fora da filosofia do Regan, perguntei-lhe se isto implicava que os insetos deixavam de ter importância, se eu assim ficava sem argumentos para dizer a uma criança de parar de arrancar as asas de uma mosca. A resposta foi provavelmente mais de bom senso do que das profundidades da filosofia: que também se devia ter em conta a atitude que se queria promover na criança.

Achamos que a melhor maneira de ensinar ciência às novas gerações é por meio de experiencias invasivas em animais? Não vale a pena tentar manter a ideia que a natureza pode ser estudada sem a estragar por um pouco mais tempo?

7 comentários:

  1. É triste que uma escola esteja ensinando os seus alunos neurociencia com uma técnica tão cruel. Mas se a barata realmente nao sente dor, acho que nao é tão ruim assim.Afinal de contas quando se vê uma barata em sua casa geralmente as pessoas a esmagam. Este "experimento" que pra mim está mais pra brinquedo e fonte de lucro pra uma empresa, tem algo de bom que é insentivar o estudo de neurociencia e até mesmo biologia em geral. A Barata nao tem poder de decisão, a vida dela é importante num ecossistema equilibrado, diferente das cidades onde nao tem equilibrio, elas acabam se tornando pragas, talvez por isso nao parece eticamente incorreto o uso deste dispositivo. Mas queria ver se o brinquedo fosse com um macaco, cachorro ou qualquer mamifero ou animal cujo parentesco genético é mais proximo ao dos humanos do que o da barata barata. Com certeza veríamos uma intervenção nacional. É a teoria que talvez melhor explique o porque as pessoas que utilizam este dispositivo nao se sintam mal pelo uso de um animal que está à mais tempo neste planeta que toda nossa especie e até mesmo as especies que nos antecederam.

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  2. Caro Helton, obrigado pelo seu comentário.

    Não concordo que possamos equiparar insectos e vertebrados. É mais do que legítimo considerar que os primeiros mereçam menor consideração da nossa parte, fundamentalmente pelas óbvias e vastas diferenças ao nível da complexidade cognitiva e comportamental. Mas podemos julgar este caso em si mesmo, sem necessidade de conjecturar o que pensaríamos do uso de vertebrados no contexto de uma sala de aula (uma discussão que merece também, sem dúvida, uma reflexão à parte).

    Não considero que os animais tenham direitos intrínsecos, à luz de qualquer "direito natural". Mas acho que isso é verdade também para os humanos. A natureza não se importa com os direitos deste ou daquele indivíduo, desta ou aquela espécie. Não obstante, o Homo sapiens evoluiu como ser moral, o que o levou a estabelecer códigos morais que regulam a conduta dos humanos entre si, mas também (mais recentemente), as nossas obrigações (?) morais para com outras espécies.

    Ou seja, têm direitos (em maior ou menor extensão) os animais a quem nós entendemos conferir direitos, já que esta é uma concepção estritamente humana. Estes direitos, por vezes muito limitados, estão consagrados na legislação, mas também em 'contratos' de cariz informal entre os seres humanos. Podem também estar abrangidos por direitos de protecção à propriedade, do género "não posso fazer mal à vaca do meu vizinho porque é propriedade sua". Podem ainda estar protegidos por regras que emanam de de convicções religiosas, como no janaísmo, hinduísmo e budismo, estando assim convencionado o que se pode ou não fazer a outros animais entre os praticantes dessas religiões.

    Partindo as regras morais do seio da reflexão humana, é natural que tenhamos mais consideração para com umas espécies que outras, obedecendo a critérios como a utilidade, por exemplo, como observável na nossa motivação para a conservação da abelha melífera em detrimento das vespas apicidas. Seguindo esse critério da utilidade, a barata fica claramente a perder. (CONTINUA...)

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  3. (...CONTINUAÇÃO)

    Mas pode haver crueldade, ainda que não haja violação de direitos? Mais ainda, podemos falar de crueldade quando não há dor infligida, nem percepção do sujeito passivo de qualquer violação dos seus direitos ou bem-estar?

    William Hogarth, no séc. XVII popularizou uma série de quatro gravuras que designou por "The four stages of cruelty", ou as "Quatro etapas da crueldade", sendo a primeira a crueldade com os animais. Segundo esta perspectiva, o maltrato aos animais era prejudicial à formação dos jovens, porque levaria à insensibilidade e crueldade para com os humanos quando adultos, uma ideia corroborada por Kant. Mas aqui a crueldade não só era óbvia, como assumida. Parte do comportamento "transgressor" das crianças de rua (e não só) que maltratavam animais assentava no pressuposto que as suas acções tinham um efeito nefasto nos animais.

    Mas tudo indica que não há dor infligida. São ainda veiculados alguns valores de cuidado com os animais: a "anestesia" faz parte do protocolo experimental e há recomendações sobre como cuidar das baratas. Assim, não havendo dolo, e estando as crianças conscientes desse pressuposto, podemos fazê-las interpretar este procedimento à luz deste contexto, alertando-as que os mesmos pressupostos poderão não ser válidos para outras espécies, ou outras intervenções? Penso que sim, mas tudo dependerá da sensibilidade e conhecimento do professor.

    A Humane Society dos estado unidos interroga-se se isto não equivale a queimar uma mosca com uma lupa e depois analisar o tecido queimado. Não há comparação. Não só este animais permanecem vivos e capazes de executar normalmente as suas funções habituais (nas palavras dos responsáveis por este projecto: "reproduce, eat and poop"), como ainda os criadores de baratas para este efeito não as matam. Isto é mais consideração do que aquela que frequentemente são alvo vertebrados usados para fins científicos. Ademais, estão bem cientes das potenciais implicações éticas da criação de baratas-ciborgues, como podem consultar em http://wiki.backyardbrains.com/Ethical_Issues_Regarding_Using_Invertebrates_in_Education. Para além disso, há uma clara preocupação em contextualizar devidamente esta intervenção com objectivos científicos e pedagógicos claros, algo muito diferente de "queimar moscas para observar o resultado".

    Resumindo, isto é algo que não me choca, de todo. Mas, já se sabe, o que entendemos por "crueldade" é frequentemente subjectivo e há que discutir obrigatoriamente os aspectos éticos com os alunos. A própria oportunidade de o fazer proporcionada por este projecto não deve ser enjeitada.

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  4. É normal que muitas pessoas não apreciem este insecto, basta tentar pesquisar algo sobre ele que a maior parte da informação é negativa, pragas, vectores de doenças são apenas algumas características enunciadas.

    Não duvido que seja um estudo com bons resultados para as neurociências mas e o “resultado” da barata? Poderiam usar esta experiência em estudos e investigação interna, mas fazer propaganda e comercializar? "This product is not a toy" afirmam, então porquê vender este kit, e as baratas individualmente, e até mesmo promoções? Depois da sua utilização (em excesso, pois telecomandar uma barata será o mesmo que telecomandar um carro, a típica expressão “até as pilhas acabarem”) para retirar todo o material provocará certamente alterações no animal. As antenas são cortadas na cirurgia, após a "dispensa" da barata, como é que ela se orientará a partir desse momento? Continuarão a ser os seus estímulos como antes, ou o excesso de utilização causará danos?

    Será um bom controlo de pragas e doenças provenientes das baratas, evitará a morte a muitas delas talvez. As pessoas irão ganhar outra visão em relação ao animal e quem sabe um animal de estimação dos próximos tempos. Mas a invasão que o animal é submetido será uma solução para a invasão das baratas?

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  5. Inicialmente julguei que se tratava de um robô-barata… fiquei chocada quando percebi que afinal era uma barata-robô...
    Ao longo de vários anos em que tenho trabalhado como professora do ensino básico e secundário, procurei sempre alternativas às experiências sugeridas nos manuais, em que são usados animais, apesar de serem em geral invertebrados. Considero importante educar para o respeito pela natureza e pela vida, e os meus valores éticos e morais não me permitem usar animais para esses fins. No entanto, questiono-me, tenho o direito de privar os meus alunos de determinadas experiências educativas por causa da minha ética em relação aos animais? Essas experiências seriam assim tão relevantes e insubstituíveis? A ética profissional deve sobrepor-se à ética pessoal? Imagino que cada um faça a sua própria opção. A minha é manter-me fiel às minhas convicções (acreditando que elas são em si mesmas também educativas) e procurar outras alternativas que possam ser igualmente interessantes e estimulantes. E claro, não se mata nenhum invertebrado que entre inadvertidamente na sala de aula.

    A empresa argumenta repetidamente que este é um projeto educativo que pretende motivar os jovens para a aprendizagem das neurociências e afirma que os jovens que têm adquirido este kit, realizaram as experiências sob supervisão de um adulto e que se trata de jovens que desejam prosseguir uma carreira nas neurociências. Mas será que neste caso os meios justificam os fins? Qual é o limite entre uma ferramenta educativa e um brinquedo? Será que não era possível obter os mesmos resultados com outro tipo de recursos, informáticos, por exemplo? Em especial tendo em conta que não se destina apenas a escolas ou a estudantes universitários, mas ao público em geral.
    O procedimento cirúrgico é demorado e com algum grau de complexidade. Quantas vezes correrá mal? A presença de um adulto, professor ou pai/mãe, será a garantia que a barata precisa para sair viva deste processo? O facto de a barata de adaptar aos implantes e de manifestar os comportamentos normais significa que não é afetada pelo procedimento? A utilização repetida e continuada do animal em várias experiências não lhe provocará danos?
    A empresa aparenta mostrar preocupações éticas e com o bem-estar das baratas e alerta para não se magoar o animal e usa até, em determinada altura, a expressão baratas “mais felizes”, apesar de chamar a atenção para os perigos de antropomorfizar os insetos.
    Em minha opinião a barata tem o direito a não ser instrumentalizada e manipulada desta forma invasiva, nesse sentido considero que este projeto não é eticamente aceitável.

    Coloco ainda mais uma questão…qual seria a aceitação do kit se o animal em causa fosse uma borboleta ou uma joaninha? (Em época de Carnaval podemos esperar ver muitas meninas mascaradas de joaninha, mas aposto que nenhum rapaz mascarado de barata). As baratas têm à partida uma conotação negativa para a maior parte das pessoas, são animais indesejados, associadas a doenças, lixo, cantos escuros… em que medida esta imagem não tornará mais fácil a aceitação deste tipo de manipulação?
    Talvez não seja por acaso que Kafka escolheu uma criatura semelhante a uma barata para a metamorfose da sua famosa personagem…

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  6. Obrigada pelos comentários.

    Florbela traz para a discussão muitos aspetos relevantes que não tem tanto a ver com o eventual mal fisico que a manipulação pode causar a barata, mas antes com o que isto faz com a maneira como se olha os animais. O facto de que se trata de kits destinado a crianças torna isto pertinente ao meu ver, e torna a questão outrao do que se a manipulação fosse feito com fins científicos e em laboratórios. Isto não tem a ver com uma menor ou maior valorização da ciência versus educação como um fim, mas com o facto que o professor ou educador que opta por usar um animal no ensino vai servir de alguma forma como um exemplo para os seus alunos na maneira como manipula este animal.

    Leio nas entre-linhas do post da Márcia outra consideração interessante - se pudessemos usar este tipo de manipulação para controlar as pragas de baratas? As questões éticas de controlo de pragas tem sido abordadas pelos investigadores (entre outros) James Yeates http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19890947 e Kate Littin http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15768076

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  7. Obrigado pelos comentários.

    A propósito do "direito" da barata, vide por favor os meus comentários a esse respeito.

    De facto, o uso de invertebrados (habitualmente insectos e sua formas larvares, com é o caso do bicho-da-seda) como recursos educativos é recorrente. Relativamente a este, confesso, apenas tenho reservas no que diz respeito à "mensagem" veiculada aos alunos.

    Já o uso de vertebrados está vedado nos níveis básico e secundário pela Directiva 2010/63/EU que entrou em vigor a 1 de Dezembro de 2013, ao não estar contemplado no artigo 5º (ver alínea d, que contempla apenas o seu uso no ensino superior). Esta consequência da Directiva é desconhecida pela generalidade dos professores, não obstante a sua relevância para o ensino das ciências naturais.

    Com uso de animais, neste contexto, entende-se toda e qualquer actividade que resulte em desconforto igual ou superior ao causado por uma injecção intravenosa realizada por pessoa competente a animais vertebrados. Animais de estimação de sala de aula continuam não obstante assim a ser permitidos.

    Estes animais podem contudo ser sujeitos a grande (e inaceitável) sofrimento por negligência, como pude constatar quando me deparei com um peixe (um vertebrado protegido pela legislação referida) em péssimo estado de saúde, num aquário desprovido de qualquer enriquecimento (nem areia, sequer) e colocado ao sol na escola primária do meu filho.

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