terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Crudiveganismo – uma estranha forma de vida.



Esta história – que não inclui animais – soube-a pela Alexandra Prado Coelho, a jornalista do Público responsável pelas crónicas de culinária e hábitos alimentares. Francis Kenter é uma cidadã holandesa que vive numa comunidade animista, professando um estilo de vida que inclui o crudiveganismo (ou crudivorismo), isto é, o consumo exclusivo de alimentos de origem vegetal não cozinhados (pelo efeito do calor, portanto). A história não seria merecedora de atenção mediática não fosse esta mãe alimentar o seu filho, Tom, segundo os mesmos proverbiais preceitos e o caso ter ido parar aos tribunais por uma queixa de maus-tratos interposta pelos serviços de acção social. A crónica de Mikel López Iturriaga, no blog El Comidista do Jornal El País, desenrola o novelo da história.

O insólito caso foi seguido pela documentarista holandesa Anneloek Sollart durante vários anos, dando origem a dois filmes: Raw (Cru), de 2008 - quando Tom tinha 10 anos - e Rawer (mais cru), de 2012, com Tom já na adolescência. Segundo os médicos, Tom terá um crescimento 10-15 cms inferior ao esperado para um rapaz da sua idade e apresenta um quadro nutricional característico de crianças da África subsariana. A sua mãe, por outro lado, interroga-se porque é que o Estado quer retira-lhe a custódia do filho ao mesmo tempo que permite que milhares de pais alimentem os seus filhos com junk food, cujos malefícios para a saúde estão sobejamente demonstrados. Nas palavras de Alexandra Prado Coelho, este:
“É um caso que levanta uma série de questões. Devem os pais, por convicção de que estão a fazer o melhor para os filhos, ser autorizados a alimentá-lo de uma forma que os poderá prejudicar? Será legítimo o Estado intervir nestes casos? Tom será mais feliz a viver separado da mãe e a comer comida com a qual não concorda? Terá o rapaz sofrido uma lavagem ao cérebro desde pequeno ou terá capacidade para ter opinião própria neste assunto? E os pais que alimentam os filhos exclusivamente com junk food, devem ver-se também privados do poder paternal?”
Este caso está em contraste gritante com a epidemia de obesidade que grassa no mundo desenvolvido (e não só) mas as questões que coloca são semelhantes. Onde acaba a nossa liberdade como agentes (morais) autónomos em fazer o que entendemos pela nossa saúde e a dos nossos filhos e começa o dever da sociedade em pôr cobro a hábitos alimentares que considera inaceitáveis (e, portanto, imorais)? E onde está a linha que os separa?

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Meat Atlas - factos e números sobre os animais que comemos


A ONG ambientalista Friends of the Earth (Amigos da Terra) publicou, em colaboração com a Fundação Heinrich Böll, o Atlas da Carne - factos e números sobre os animais que comemos. Dividido em 26 curtos capítulos ilustrados por 80 gráficos, trata-se de um relatório extremamente pedagógico e de fácil leitura.
O retrato, como seria esperado, não é nada abonatório para a indústria da carne. O mercado global de carne é guiado pelo preço e está cada vez mais na mão de mega-empresas como a americana Tyson Foods, a dinamarquesa Danish Crown e a brasileira JBS. O preço da carne ao consumidor tem vindo a descer em detrimento dos custos sociais, ambientais e de bem-estar animal.
Ainda assim, o relatório dos Amigos da Terra adopta uma postura conciliatória ao considerar que comer carne não resulta forçosamente em dano para o clima e para o ambiente. Pelo contrário - e estou a citar - o uso apropriado de terrenos agrícolas pelos animais pode até trazer benefícios ambientais. A solução para um consumo 'saudável' de carne passa pela adopção de esquemas de certificação ambiental e, claro está, pela diminuição da quantidade que comemos. O relatório introduz o conceito - que eu desconhecia - de  'flexitarian diets', e que consiste em comer menos e melhor carne e mais proteína de origem vegetal.
De realçar que as preocupações dos Amigos da Terra são acima de tudo do foro ambientalista e não propriamente de bem-estar animal. Embora não dedique nenhum capítulo ao bem-estar animal, o relatório não ignora por completo este tema. No capítulo do abate, o relatório procura contextualizar as posições dos movimentos de bem-estar animal (reformistas) e de direitos dos animais (abolucionistas). As suas conclusões incluem, também, mais e melhores regras de bem-estar para espécies pecuárias.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Controlo de Animais Errantes na Praia de Faro


A Associação Animais de Rua (AAR), está a desenvolver o Projecto da Praia de Faro que visa controlar as populações de cães e gatos errantes naquela emblemática zona balnear da Ria Formosa. Já aqui elogiei o trabalho da AAR numa mensagem anterior e volto a fazê-lo. Este é um projecto pensado e estruturado, que conta com a colaboração, entre outros, da Dogs Trust e da Universidade Lusófona. Isso é bem visível na forma como o projecto inclui o recenseamento de todos os animais - com recurso a uma aplicação android especialmente desenvolvida para o efeito - e um inquérito à comunidade.

Para quem não conhece, a Praia de Faro é uma das ilhas-barreira que formam a Ria Formosa e aquela que mais pressão humana tem sofrido ao longo dos anos (e também a mais vulnerável). Mas a Praia de Faro não é só local de veraneio; nela também habita uma comunidade que vive da actividade piscatória (em especial mariscadores) que actua numa área protegida pelo estatuto de Parque Natural. Identificar, monitorizar, alimentar e esterilizar os animais errantes vai não só beneficiar o bem-estar destes mesmos animais como permitir controlar o seu efeito sobre as espécies selvagens e promover a relação homem-animal, nomeadamente para quem vive sozinho ou isolado, algo comum por esta bandas. E é por isso que este projecto é tão importante pois contribui activamente para a sustentabilidade ambiental e social da região.

Caso pretenda dar o seu contributo, faça-o por favor através do NIB da AAR (0065 0921 00201240009 31) e envie um email para o geral@animaisderua.org, mencionando que o mesmo se destina ao Projecto da Praia de Faro.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Bem-estar Animal: recursos educativos para o ensino superior

Um artigo publicado na última edição do Perspectives in Animal Welfare (ATLA) apresenta a mais recente adição ao portal Animal Mosaic: um conjunto de recursos para o ensino de Bem-estar Animal em Medicina Veterinária. 

Animal Mosaic Tertiary Education resources

Estas ferramentas didácticas foram idealizadas para dar suporte à abordagem curricular proposta para o ensino de Bem-estar Animal em Medicina Veterinária Concepts in Animal Welfare - fruto da colaboração entre a Universidade de Bristol e a WSPA - e assim complementar os conteúdos já disponíveis para este programa. A lista de contribuidores para esta Toolbox inclui ONGs, instituições de ensino superior e associações profissionais. Nestas contam-se a World Organisation for Animal Health, a British Veterinary Association e a Federation of Veterinarians of Europe

A pesquisa de ferramentas de apoio ao ensino de bem-estar animal
pode ser refinada por tema, categoria, língua e região 

Alguns destes recursos estão já disponíveis em chinês, prevendo-se em breve também conteúdos em português e castelhano.  O acesso é livre, gratuito e não requer registo prévio nem filiação académica.