segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Marius - uma Girafa a mais no Zoo de Copenhaga

A notícia do abate da girafa (ou antes, do girafo) Marius no Jardim Zoológico de Copenhaga tem feito as manchetes dos jornais de hoje. O juvenil de 18 meses foi abatido com um tiro, necropsiado perante o olhar dos visitantes (incluindo crianças), esquartejado e dado de comer aos leões do zoo. Segundo a direcção do parque zoológico, não haveria espaço para mais um animal e o risco de consanguinidade caso o Marius viesse a acasalar seria elevado. O mesmo risco existiria caso o Marius fosse transferido para outro Zoo, como chegou a ser proposto.
É natural que muitos se insurjam contra esta violação dos direitos das girafas. A forma rápida, desapaixonada e funcional como o Zoo tratou do assunto choca alguns mas ajudou a impedir que a indignação crescesse e a pressão da opinião pública colocasse em risco a operação. Mas como é possível que uma instituição com responsabilidades em proteger animais selvagens, os trate de forma tão instrumental?
Para o compreender é preciso perceber o que é um Jardim Zoológico. Um Zoo moderno serve dois propósitos principais: plataforma de preservação de espécies selvagens, especialmente daquelas em risco de extinção, e estrutura educativa sobre zoologia, biologia, ambiente e conservação. Os animais são as peças mais importantes deste processo mas não são o seu fim. Por outra palavras, num zoo os animais são instrumentais para a finalidade de conservar a espécie a que pertencem e educar - e entreter - os visitantes. Os interesses das espécies (onde se inclui também os cohabitantes de Marius que já não terão de dividir o espaço com ele e os leões que o comeram) e os interesses dos seres humanos sobrepõem-se aos dos indivíduos. Pela imagem percebe-se que a necrópsia foi feita pública com propósitos didácticos e não de forma precipitada ou com o intuito de chocar. A mensagem que passa para aquelas crianças é a de que para com os animais só temos deveres indirectos: os animais não têm direitos por si próprios e podem ser usados como um meio para atingir um fim. Essa finalidade é ecocêntrica (a espécie) ou antropocêntrica (o ser humano). E isso ajudará a preservar a cultura dos jardins zoológicos.

Ainda assim, questões mais profundas se levantam: num contexto de espaço e outros recursos limitados porque deixaram os pais de Marius reproduzir-se? E porque deixaram Marius nascer? Quanto vale o nascimento de uma nova cria num zoo em termos de visitantes? Terá sido este o propósito de Marius, que agora juvenil já não serve? E qual a urgência em abatê-lo agora? Segundo a Encyclopedia of Life, a maturidade sexual em girafas ocorre pelos 3-4 anos de idade, mas os machos (em liberdade) raramente têm a oportunidade de procriar antes dos sete. É possível que a forma funcional como o Zoo tratou do assunto lhes tenha evitado maior contestação a curto prazo, mas também pode acontecer que esta forma contractualista de lidar com os seus animais lhes traga oposição acrescida a médio ou longo prazo.

15 comentários:

  1. "Um Zoo moderno serve dois propósitos principais: plataforma de preservação de espécies selvagens, especialmente daquelas em risco de extinção, e estrutura educativa sobre zoologia, biologia, ambiente e conservação."

    A não ser que o Zoo seja gerido por uma organização sem fins lucrativos (honesta), falta aí outro propósito, que é talvez o mais procurado pelos administradores dos Zoos, numa economia de mercado: dar lucro a quem explora o Zoo. Aliás, se estivermos a falar de roadside zoos, esse é geralmente o único objetivo.

    É importante notar que houve Zoos europeus que não fazem parte da EAZA, e do programa de reprodução de girafas promovido por esta, que se ofereceram para acolher Marius, e mesmo assim o Zoo recusou. Não percebo porquê. Mesmo que o Marius viesse a acasalar com girafas desses Zoos, mesmo que o grau de inbreeding excedesse aquele permitido no programa de reprodução da EAZA, as crias resultantes não seriam libertadas no seu habitat natural, nem teriam de ser emparelhadas com outras girafas do programa. E isto só aconteceria se o Marius viesse efetivamente a acasalar, o que não é necessariamente o caso.

    A eficácia dos Zoos quer na preservação de espécies em risco quer na educação ambiental e científica é, no mínimo, discutível. Bem sei que algumas espécies só existem em cativeiro, que algumas espécies extintas na natureza foram reintroduzidas com sucesso a partir de zoos, mas permance a dúvida se são o melhor investimento, em termos de conservação, para muitas das espécies lá mantidas. Quanto à educação e sensibilização, a sua eficácia deve ser avaliada com estudos rigorosos, e não apenas intuída. Provavelmente já foram feitos alguns estudos sobre este assunto, irei procurar isso em breve.

    De qualquer forma, avaliando pelas reações nos media e nas redes sociais de hoje, o Zoo de Copenhaga ainda se pode vir a arrepender desta decisão, a curto prazo até.

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  2. O caso deixa-me perplexa. Para caso de discussão de ética animal, parece perfeito. Teve um efeito magnífico no que diz respeito a estimular o debate sobre o que determina as nossas escolhas sobre a vida dos outros animais que dependem de nos. Se tivesse que desenhar um caso de estudo para aulas de ética animal, não podia sonhar em fazer melhor do que este.

    Entre as multiplas perguntas que surgem, a minha primeira é: o que comem os leões quando não comem girafas? A esta não tenho resposta, mas quem conhece melhor o funcionamento do zoo saberá. A minha segunda pergunta é: o que faz de Marius diferente do que os milhares e milhares de cães neste mundo que são eutanasiados por conveniência?

    Bem, se consideramos as alternativas à eutanasia, no imediato não parecem favoraveis ao Marius. Digamos que se é difícil encontrar uma boa família de acolhimento para um cão, então imagina para um girafa. Mas, sendo que houve zoos que se ofereceram para ficar com Marius (enquanto não há normalmente filas de potenciais donos-adotivos de cães a espera fora das clinicas veterinárias), não haverá de facto alternativa?

    Será que parte da intenção era mesmo provocação, levantar a discussão sobre o que de facto acontece com alguma frequência?

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  3. Voltarei para discutir o tema mais detalhadamente, mas por enquanto fiquem com uma série de comentários ao caso, disponíveis nesta página

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    1. Boa. Gostei especialmente deste:

      "Tomorrow's headline: PETA Riot at Copenhagen Zoo results in feeding PETA members to the Lions."

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  4. Outro possível headline:
    "Hundreds of thousands of male dairy calves destroyed every year while the world goes ballistic about one giraffe"

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  5. Acho impressionante como é possível que, actualmente, casos de barbaridade como este ainda aconteçam, especialmente num país como a Dinamarca.

    Tratando-se ainda por cima de um animal selvagem, com isto se observa o quão errado é a instrumentalização de seres vivos em espaços que, muitas vezes, se preocupam mais com o entertenimento e o rendimento do que a conservação da espécie.

    A frieza da situação a que a girafa esteve sujeita continua a demonstrar, infelizmente, a falta de sensibilidade, respeito e compaixão que ainda existe para com animais. Pior que isto, só o facto de o terem feito à frente de visitantes, entre eles crianças, que curiosamente observaram tal acto supostamente justificado e inserido num contexto educativo. E este caso não é isolado.

    Pergunto então, porque não inserirem e reabilitarem o animal de volta ao seu habitat selvagem, ou investirem em profissionais competentes que prevejam, planeiem e controlem as populações nestes parques? Aqui e em tantos outros casos, a questão monetária vai previsivelmente pesar mais nas cabeças dos responsáveis, mas será assim tão fácil pôr um preço à vida e bem-estar de um animal?

    Estando animais de zôo fora do seu ambiente natural e à confiança dos seus tratadores, merecem portanto o melhor dos cuidados e não serem utilizados como meros produtos insensíveis, já que estes não têm escolha sobre aquilo que o Homem decide sobre eles.

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  6. Obrigado pelo seu comentário, João.

    A justificação apresentada pelo jardim zoológico aqui
    http://zoo.dk/BesogZoo/Nyhedsarkiv/2014/Februar/Why%20Copenhagen%20Zoo%20euthanized%20a%20giraffe.aspx
    apresenta a visão deles sobre alguns dos aspetos que levanta no seu comentário.

    Quanto à instrumentalização, é importante lembrar que o girafa não foi eutanasiado com o fim de servir para demonstrar anatomia a crianças e para alimentar leões. Foi eutanasiado porque se considerou não haver melhor alternativa. Concordo que esta alegada falta de alternativas pode ser discutível, mas não estou convencida que é justo criticar o jardim zoológico de instrumentalizar os seus animais.

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    1. Eu não concordo contigo, Anna. Penso que a referência à instrumentalização da girafa é absolutamente legítima. O facto da eutanásia não ter sido efectuada para efeitos educativos - mas sim para gestão da manada - nada muda. O facto é que os animais num zoo não nascem, crescem e morrem naturalmente. São geridos em função dos melhores interesses do zoo, da mesma forma que um produtor de leite gere o seu efectivo leiteiro para maximizar a produção.

      Respondendo ao João: concordo que há falta de sensibilidade e compaixão na atitude do zoo (aliás, o press release que a Anna partilhou datado do próprio dia do abate dá mais a impressão de ser reactivo às críticas do que proactivo). Mas já não concordo que seja bárbaro ou mesmo que a instrumentalização seja errada. Ter animais num zoo implica tratá-los como um meio para se atingir um fim.

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    2. Tens razão. O que queria dizer e que devia ter escrito é que não acho que há razão para criticar o Jardim Zoológico de Copenhaga para instrumentalizar _mais_ os seus animais do que outros jardins zoológicos.

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    3. A função de um zoo deve ter como base a perservação e conservação dos animais, sendo que a educação e entretenimento funcionam apenas em segundo plano. Quando a última sobrepõe-se aos princípios que a primeira defende, irá sempre existir algum conflito.

      O zoo não deve portanto tratá-los como um meio para se atingir um fim, já que a finalidade consegue ser alcançada sem a sua instrumentalização.

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  7. Apesar da petição online e das várias alternativas o Zoo preferiu abater Marius. Qualquer uma das alternativas seria melhor opção do que a eutanásia. A verdade é que desconsideraram por completo a vida daquele animal senciente, assim como o facto de ele estar perfeitamente saudável. Afinal, quem somos nós para decidir sobre o direito à vida de outro ser?

    Todos os anos são sacrificados 20 a 30 animais para ajudar a gerir as populações de animais do Zoo. Também este mês, no Longleat Safari Park, seis leões foram mortos por possuírem defeitos genéticos graves causados por consanguinidade. Porque é que estas instituições deixaram os pais destes animais se reproduzirem se sabiam à partida o risco de consanguinidade? É evidente a falta de um planeamento e controlo de natalidade ou uma gestão populacional adequada dos animais nestas instituições. Estas éticas de reprodução têm de ser reavaliadas, assim como o papel e os verdadeiros interesses destas instituições devem ser repensados.

    Porque deixaram estes animais nascer para mais tarde os matarem? Ao que parece, a maior atração em termos de número de visitantes num zoo é o nascimento de uma nova cria. Seguindo este raciocínio, as duas instituições nunca tiveram realmente interesse em proteger e cuidar destes animais, uma vez que sobrepuseram o lucro à vida e ao bem-estar dos mesmos.

    A forma fria, contratualista e egocêntrica como estas instituições agiram demonstra uma chocante falta de compreensão, sensibilidade, respeito e compaixão para com os animais, bem como uma grave violação dos direitos dos mesmos.

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    1. Obrigado Márcia,

      Concordo que a vida de um animal senciente foi desvalorizada (valores mais altos se impuseram) mas eu ando aqui às voltas a ler o seu argumento sobre a violação dos direitos dos animais e fico na dúvida: haverá alguma forma de ter animais em cativeiro sem violar os seus direitos? E a que 'verdadeiros interesses' se refere?

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    2. Parece evidente que as instituições em causa não estão a cumprir o papel para o qual foram criados, visível pela falta de planeamento e gestão populacional adequada. Será que para eles o que importa é mesmo a conservação e proteção dos animais ou são mais as ambições económicas? Darão eles mais valor ao dinheiro do que à vida de um animal? Tal como disse “valores mais altos se impuseram”. Respondendo a uma das questões que me fez: Estas instituições usaram-se do papel que tinham na conservação dos animais para camuflar os seus verdadeiros interesses, o lucro. Estas instituições regem-se assim por uma ética egocêntrica, focada no interesse individual e na prioridade do auto benefício. Afinal, são estes os verdadeiros interesses destas instituições? Foi com base nesta ética egocêntrica que foram criados? Acho necessário que o papel e os verdadeiros interesses destas instituições devam por isso ser repensados.

      Respondendo à outra questão: Haverá alguma forma de ter animais em cativeiro sem violar os seus direitos? Penso que não porque um animal em cativeiro nunca nasce, cresce e morre de forma natural, ou seja, são privados de viver livremente no seu ambiente natural. Estes animais estão assim sob o cuidado dos seres humanos, estando dependentes deles. Mas, uma vez que permitem a existência deste tipo de instituições e estando os animais assim confinados, que estes sejam respeitados, cuidados e bem tratados pelos seus tratadores, pois estes têm assim o dever e a obrigação moral de gerir, proteger e de empregar os seus conhecimentos ao serviço dos animais. Já que privaram os animais da sua liberdade ao menos que os tratem de forma digna e lhes proporcionem o máximo de bem-estar possível.

      A vida de cada individuo importa e nenhum animal deve ser prejudicado ou morto só porque não se encaixa num programa de procriação ou de conservação. Os animais são seres sencientes que merecem viver em segurança e com dignidade.

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  8. Só a título de curiosidade

    http://curiosidadeterra.blogspot.com.br/2014/02/o-inferno-dos-animais-conheca-o-pior.html

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    1. O Tigre de Sumatra é porventura o animal mais emblemático de toda a fauna indonésia mas vê-lo assim não parece incomodar os visitantes. É difícil fazer comparações com a realidade europeia mas, diferenças culturais à parte, o retrato é desolador. A Indonésia é um dos hotspots de biodiversidade do planeta e, por isso, o papel de um Zoo em termos de educação ambiental torna-se muito mais relevante.

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