sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Outra vez Marius, e o abate de animais saudáveis em Zoos.



O caso de Marius - a girafa que foi abatida no Zoo de Copenhaga, necropsiada em público e dada de comer aos leões - continua a dar que falar. No vídeo aqui reproduzido podemos observar como o Director do Zoo de Copenhaga, Bengt Holst, procura defender-se de forma serena do criticismo apaixonado por parte do jornalista do Channel 4, Matt Frei. Esta entrevista espelha bem o confronto de valores entre duas formas muito diferentes de entender o papel dos animais na sociedade.

O Director do Zoo justifica a prática como sendo uma aproximação à natureza. No estado selvagem a girafa também é comida por leões e a autópsia pública permite um exame naturalista do interior de uma girafa, com evidentes benefícios pedagógicos. Em resposta à pergunta ‘Gosta de animais?’ Bengt Holst responde que sim, em função de manter populações saudáveis. Para Bengt Holst, o valor moral está no grupo ou população e não tanto nos indivíduos que compõem o grupo. Por outras palavras, o todo vale mais do que a soma das suas partes.

O jornalista, por seu lado, procura enfatizar a componente emocional, usando termos como ‘crueldade’, ‘desmembramento’, ‘crianças horrorizadas’, e acusando o entrevistado de usar uma linguagem ‘clínica e fria’. Para ele, o valor parece estar nas relações que nós humanos estabelecemos com os outros animais. No entanto, Matt Frei não é capaz de articular um único argumento válido para contrapor as justificações do entrevistado. Mais do que o abate em si, o jornalista parece chocado com o facto de Marius ter apenas dois anos e ser saudável. Mas não parece fazer sentido esperar que os animais fiquem doentes ou velhos para que o seu abate se torne permissível.

A discussão enfatiza a diferença fundamental entre o abate de Marius e o abate de outros animais selvagens (como coelhos e roedores) para controlo das suas populações: a qualidade de “praga”. Aqueles mamíferos silvestres que são considerados pragas podem ser abatidos, mas o mesmo não se passa com girafas em zoos. A resposta de Holst espelha bem este dilema: mas quem decide o que é uma praga?

Uma crónica publicada ontem por Hannah Barnes, jornalista da BBC, procura contextualizar o abate de animais em Zoos. Trata-se de uma prática recorrente na gestão de um Zoo, nomeadamente daqueles que são membros da Associação Europeia de Zoos e Aquários (EAZA). Segundo a jornalista, na semana anterior ao escândalo de Marius um outro Zoo dinamarquês, o Odense Zoo, tinha abatido dois leões. Os exemplos de abate incluem ainda zebras no Reino Unido, hipopótamos em Portugal ou crias de tigre na Alemanha. Para mim, o mais curioso desta história é que à medida que os Zoos melhoram as usas práticas e a qualidade de vida dos animais em cativeiro aumenta, mais hipóteses existem destes se reproduzirem e maior número de animais terá de ser abatido para manter populações captivas saudáveis.

2 comentários:

  1. Isto tudo envolve um grande dilema ético em relação à gestão dos zoos. Que tipo de decisões são então aceitáveis quando falamos de bem-estar animal? E até que ponto estão de acordo com o sucedido outros Zoos que eventualmente poderiam ter acolhido esta girafa e que pertençam a esta associação? Sinceramente não creio que todos os Zoos na Europa tenham girafas com a mesma descendência de Marius, isto para não falar em todos os Zoos no mundo, mas visto ser um membro EAZA, e haver uma certa limitação de transferência de animais...
    Mas afinal se geneticamente não tinha interesse, porque é que foi permitido o cruzamento das duas girafas que deram origem a Marius? Ok. O Zoo de Copenhaga, ou será melhor dizer, o director do zoo, Bengt Holst, refere que recorrer a contraceptivos vai contra a ideologia do Zoo, pois acha que os animais se devem reproduzir livremente. Então mas se não há condições para manter mais animais, se não há interesse em reintrodução, em troca, nem há potencial genético, e se ainda por cima os progenitores da girafa em questão já tinham dado origem a outra girafa, residente num Zoo em Inglaterra, afinal qual a razão para permitirmos reprodução deste tipo de animais? Porque não recorrer a vasectomia do macho? Até que ponto estamos a influenciar o bem-estar de um animal só porque não permitimos que ele se reproduza? Afinal continua a apresentar comportamentos naturais da sua espécie. Tudo bem que seria permanente, mas também com a quantidade de girafas que devem existir com os mesmos genes, em casos extremos, não deveria ser difícil encontrar alguma outra que a substituísse, afinal Marius foi abatido.
    Portanto será que Marius nasceu apenas com dois propósitos? O de atrair visitantes; tanto com o seu nascimento, como 18 meses mais tarde com o seu abate e posteriormente servir de alimento a outros animais do zoo?

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    1. Concordo consigo, Soraia. A questão do cruzamento dos pais de Marius é para mim o ponto central da discórdia. É na contracepção que se devem reunir esforços para evitar situações destas no futuro.

      Mas gostava também de focar um aspecto que referiu no primeiro parágrafo. Bengt Holst deixou muito claro que, do seu ponto de vista, transferir Marius não era solução. Mas imaginemos que existe um Zoo na Nova Zelândia que estaria disponível para receber Marius sem violar nenhuma das regras da EAZA. Tendo em conta os custos inerentes a uma transferência dessa natureza - com dinheiro que poderia ser usado em benefício de outros animais - e os riscos consideráveis em termos de saúde e bem-estar para Marius ao efectar tal viagem (manipular girafas é muito arriscado para operadores e animal), será que o Zoo dinamarquês teria o dever moral de transferir Marius em vez de o abater?

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