segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A tecnologia ao serviço de bem-estar animal

Por Ana Margarida Pereira, médica veterinária e colaboradora do grupo Ciências de Animais de Laboratório, IBMC.

A monitorização do estado de saúde dos animais de interesse pecuário tem um impacto no bem-estar animal e na saúde publica. Em relação ao primeiro, está em causa uma das cinco liberdades, apontadas pelo Farm Animal Welfare Council (FAWC), que afirma que, os animais deverão ser mantidos em condições que lhes permitam estar livre de dor, lesões e/ou doença, através de procedimentos de prevenção e diagnóstico seguidos de tratamento célere. O impacto na saude publica por seu lado, envolve a prevenção da transmissão de zoonoses, bem como a garantia da qualidade das carnes ou outros subprodutos para consumo humano.

De acordo com a legislação vigente, Decreto-Lei n.º 157/2008, a inspeção dos animais deve ser efetuada diáriamente. No entanto, a elevada densidade de frangos coloca dificuldades à inspeção. A rotina de inspeção deve seguir os Welfare Quality® Assessment Protocols, que se encontram disponiveis online. A dor é associada a lesões gerais que, causam claudicação, ou mais especificas como dermatites nos membros e/ou queimaduras na região do jarrete. A mortalidade dos bandos, bem como o numero de animais abatidos em consequência de lesões graves anteriormente descritas, são utilizados como indicadores de doença.


Frango com claudicação grave. (Fotografia: Charlotte Berg, Universidade Sueca de Ciências Veterinárias).
Por forma a melhorar a monitorização do bem-estar de frangos de carne, investigadores da Universidade de Oxford, estão a desenvolver um projeto financiado pela Biotechnology and Biological Sciences Research Council (BBSRC), intitulado ‘’Automated assessment of broiler chicken welfare using optical flow patterns in relation to behaviour, disease risk, environment and production’’. A proposta passa por complementar a inspeção diária com de videos, capturados por camaras estrategicamente montadas nos pavilhões. Estas registam os movimentos do bando, produzindo um optical flow cujo padrão é analisado em tempo-real. A análise é feita com base em estatistica descritiva, nomeadamente média e curtose. Assim, o método usado, não incide sobre a existência ou ausência de movimentos, mas sim sobre a hetero/homogenidade dos mesmos. O principio baseia-se no conhecimento de que, um bando saudável, com uma marcha normal caracteriza-se por um optical flow homogéneo, contrariamente ao que acontece em bandos afetados com claudicação que, por se movimentarem mais devagar, originam um optical flow heterogéneo, com velocidades de movimentos muito disparos. Artigos publicados pela investigadora principal, MS Dawkins, e seus colegas, em 2009, 2012 e 2013 apresentam uma relação entre a média e a curtose do optical flow e problemas de bem-estar relacionados com a marcha. O desafio consiste agora, em relacionar a existência de doença do foro intestinal (frequentemente diagnosticadas em exame post mortem) com o optical flow. Os investigadores acreditam ser possível encontrar esta relação uma vez que, secundáriamente à infeção e dadas as caracteristicas dos sinais clinicos (diarreia profusa, fraqueza) existe predisposição para lesões nos membros com marcha e comportamento consequentemente alterados.

Apesar das perspectivas serem favoráveis, a validação do sistema requer ainda o desenvolvimento de equipamento mais fiável e da realização de testes no terreno. No entanto, esta tecnologia e a forma como irá objetiva, continua e automáticamente monitorizar o bando, poderá contribuir para o envio de alerta atempado de mau-estar e consequente tomada de atitude.


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