quarta-feira, 29 de junho de 2016

Porque é que os porcos mordem as caudas uns dos outros?

Anna Olsson: Rick D'Eath, olá e parabéns pelo teu artigo sobre a mordedura da cauda em suínos, recentemente publicado na revista Animal Welfare. Neste estudo, descreves como o comportamento diferiu entre grupos onde os suínos tinham a cauda cortada (mutilados) e grupos de suínos com caudas intactas. Antes de discutirmos o próprio estudo, pode dizer-nos um pouco mais sobre o problema por trás do estudo?

RD: Morder a cauda é um problema comportamental que afeta suínos em crescimento alojados em parques, um pouco por todo o mundo. Embora existam muitos fatores de risco conhecidos, o mais importante parece ser o acesso limitado a recursos (como espaço no comedouro), mas também o acesso limitado a algum material para mastigar, focinhar e explorar. A mordedura da cauda ocorre em 'surtos' esporádicos, que são difíceis de prever ou controlar. É sabido que cortar as caudas bem curtas quando os leitões têm poucos dias de idade reduz o risco posterior de mordedura da cauda, mas é um procedimento doloroso, e visto por muitos como sendo não-ético, sendo que devíamos melhorar o ambiente, em vez de depender de uma mutilação como "solução". Seria ótimo se pudéssemos avançar para uma redução no corte da cauda, proporcionando simultaneamente as necessidades comportamentais dos suínos de focinhar e mastigar. No entanto, há muita coisa que ainda não se sabe sobre a mordedura de cauda.

AO: Obviamente que o comportamento desempenha um papel importante na mordedura da cauda. Tinhas algumas hipóteses muito concretas para este estudo. Explica-nos, por favor, quais eram elas e no que se baseavam.

RD: O corte da cauda reduz o risco de mordedura da cauda (embora não completamente), mas a razão pela qual é eficaz não é clara. Uma hipótese diz que as caudas cortadas são mais sensíveis, o que significa que os porcos são mais propensos a afastar-se de um potencial mordedor. Outra hipótese é as caudas curtas serem menos atraentes para os mordedores. Comportamentos como investigar causas ou colocá-las na boca sao potencialmente percursores do comportamento efectivo de morder. Por isso, a frequência com que eles ocorrem é susceptível de afectar o risco de um surto prejudicial de mordedura da cauda. No nosso estudo observámos porcos mutilados e não mutilados na mesma exploração, mas que ainda não estavam envolvidos em mordedura da cauda. Comparámos seu comportamento lado a lado para investigar se caudas cortadas eram mais sensíveis ou menos atractivas do que caudas intactas.

Devo acrescentar que este projecto foi uma colaboração entre mim e os investigadores Helle Lahrmann e Torben Jensen- no Danish Pig Research Centre (SEGES), e que o trabalho foi realizado por Mallary Paoli, numa exploração comercial dinamarquesa, para seu projeto de dissertação para o Mestrado em Comportamento Animal Aplicado e Bem-Estar animal (Universidade de Edimburgo).


AO: E o que é que descobriram?

RD: Nenhuma das hipóteses se verificou. Os porcos mutilados não eram mais propensos do que os porcos intactos em afastar-se quando a sua cauda era investigada por (ou colocada na boca de) outro porco, sugerindo que as suas caudas não são mais sensíveis. Além disso, comportamentos dirigidos à cauda não foram mais comuns nos porcos mutilados do que nos porcos intactos, e também não houve evidência de que porcos mutilados posicionem as suas caudas de forma diferente ou mudem o seu nível geral de atividade, o que poderia afetar a capacidade de atratividade ou a disponibilidade das caudas para outros porcos. Portanto, também não há suporte para a ideia de cauda com reduzida atratividade.

Ao invés, Mallary defendeu outra explicação: quando as caudas são mais longas, os porcos são capazes de mantê-las ao longo da boca e mordê-las com mais força usando os dentes molares. As caudas cortadas são demasiado curtas para isso, e os mordedores usam apenas os incisivos, resultando em menos danos. Esta hipótese merece uma investigação mais aprofundada.

Inesperadamente, também descobrimos que os porcos intactos usaram mais os objectos de enriquecimento ambiental (cordas, pedaços de madeira, correntes) do que porcos mutilados, e não temos nenhuma explicação para isso. Também descobrimos que os porcos de maior dimensão passam mais tempo em comportamentos exploratórios e em comportamentos dirigidos à cauda, assim como as marrãs (fêmeas) em comparação com os machos castrados.

Por fim, num dos grupos de porcos mutilados houve um surto de mordedura da cauda perto do fim do estudo. Mallary mapeou os comportamentos neste parque e descobriu que nos dias anteriores ao surto a atividade do grupo foi comparável à de outros grupos, mas os comportamentos dirigidos à cauda foram maiores, e os porcos eram mais propensos a baixar as suas caudas (que é provavelmente um comportamento protetor e um sinal de dor). Embora estes dados digam respeito a um único parque, estas mudanças comportamentais pré-surto foram relatadas por alguns outros estudos utilizando mais grupos e têm o potencial para ser usadas pelos produtores como "sinais de alerta" para intervir e reduzir, ou evitar, danos de mordedura da cauda.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O estranho caso do homem-cabra

Esta é a estranha estória de Thomas Thwaites, o designer britânico que se fartou de todas as complexidades inerentes a ser um humano, e procurou durante um ano desenvolver uma forma de se deslocar como uma cabra, e que lhe permitisse co-existir num prado com demais cabras.

Thomas Thwaites, o "Homem-Cabra", faz amizade com uma "congénere".
A ideia surgiu-lhe quando fazia pet-sitting de cães. Então desempregado e vivendo com o pai, pensou no quão maravilhoso seria poder viver como um animal (não-humano) durante algum tempo, sem preocupações. Mas enquanto muitos de nós já pensamos de forma hipotética como seria ser um animal, Thwaites decidiu mesmo levar essa idea em frente.

Estranho? Sem dúvida. Mas fica ainda mais estranho. A ideia de se "tornar" uma cabra veio, segundo Thwaites, de uma "xamã", que o aconselhou a não se tornar um elefante, a sua ideia original. Ainda mais estranho é ter recebido financiamento do Wellcome Trust para esta empreitada. 


Com a ajuda de especialistas em distintas áreas, eventualmente conseguiu fazer patas prostéticas que lhe permitiam deslocar, tão próximo quanto possível, como uma cabra, e conseguiu que um proprietário suíço lhe permitisse pastar junto das suas cabras durante três dias, nos alpes. 

Entendo toda a ideia de juntar design, ciência e arte, mas, correndo o risco de ser visto como pouco sofisticado, acho que há projectos muito mais meritórios do dinheiro do Wellcome Trust que este bizarro projecto que, segundo o autor, não fica por aqui, uma vez que procura uma maneira de deslocar o seu campo de visão para se assemelhar ao das cabras, bem como arranjar forma de digerir ervas. Até agora, apenas as consegue reunir num saco e comê-las depois de cozidas, à noite (!). 

Por mais que o autor considere que se pode aprender mais sobre o modo de pensar e o comportamento destes animais, continuo convencido que este projecto tem pouco de científico, e muito de golpe publicitário. E a verdade é que tempo de antena não lhe tem faltado. 

O livro que relata a sua experiência está já disponível. Não que esteja muito interessado em o ler.