Comissão Nacional para a Protecção dos Animais Utilizados para Fins Científicos (CPAFC) assinala o Dia Mundial do Animal do Laboratório com o lançamento do seu website.
A CPAFC tem como missão de promover a prática dos 3Rs e aconselhar os outros importantes atores no setor, ao nível central a autoridade comptente Direção Geral de Alimentação e Veterinária e ao nível institucional os Orgãos Responsáveis Pelo Bem-Estar dos Animais (ORBEA).
A constituição no terreno da CPAFC tem sido ansiosamente aguardada por muitos que trabalham com a questão dos animais de laboratório. Ficaremos atentos ao começo da sua atividade.
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terça-feira, 24 de abril de 2018
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
Tens frio? Então encolhe a cauda!
Um dos maiores desafios para quem estuda comportamento e bem-estar animal é o facto de que a nossa perspetiva é sempre a de uma espécie diferente daquele que estamos a estudar. Sendo seres humanos, inevitavelmente percebemos o mundo do ponto de vista de um mamífero bípede com pouca pelagem e sem cauda.
Por isso, fiquei primeiro não só surpreendida como de facto algo incrédula quando li que os ratinhos crescem caudas mais compridas se tiverem mais material de cama nas suas caixas.
Mas faz sentido se consideramos a biologia do ratinho, que com o corpo peludo e a cauda sem pelos assegura uma boa parte da sua termo-regulação pela cauda. Quanto maior a cauda, e quanto mais exposto a temperaturas baixas, mais calor o animal perde. Os ratinhos com mais material de cama (neste caso granulado de madeira) consegue um micro-ambiente mais adequado às suas necessidades térmicas e não precisam de adaptar a sua anatomia às temperaturas mais baixas.
Para nós os desgraçados sem cauda, só resta agasalhar-se!
Por isso, fiquei primeiro não só surpreendida como de facto algo incrédula quando li que os ratinhos crescem caudas mais compridas se tiverem mais material de cama nas suas caixas.
Mas faz sentido se consideramos a biologia do ratinho, que com o corpo peludo e a cauda sem pelos assegura uma boa parte da sua termo-regulação pela cauda. Quanto maior a cauda, e quanto mais exposto a temperaturas baixas, mais calor o animal perde. Os ratinhos com mais material de cama (neste caso granulado de madeira) consegue um micro-ambiente mais adequado às suas necessidades térmicas e não precisam de adaptar a sua anatomia às temperaturas mais baixas.
Para nós os desgraçados sem cauda, só resta agasalhar-se!
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quinta-feira, 17 de agosto de 2017
Segue a nossa investigação!
Já visitaram o nosso Alive Pup Project? Não, não começamos uma missão de salvar cachorros. Mas estamos a investigar porque ratinhos de laboratório morrem nos primeiros dias após nascimento. E podem seguir o nosso trabalho no blog, criado por Sophie Brajon que é investigadora de pós - doutoramento no projeto.
Não prometemos um thriller de alta velocidade, como a investigação tantas vezes é retratada na televisão com aquela jargão de "e ao mesmo tempo uma equipa em San Francisco está a fazer uma descoberta surprendente". Primeiro, a ciência raramente funciona assim. Segundo, mesmo quando funciona assim, demora tempo antes de se poder partilhar estas descobertas num espaço público. Só após um trabalho sólido de analise no laboratório e em seguida revisão por pares (outros cientistas) e publicação numa revista internacional, é que um novo dado está pronto para ser apresentado ao mundo.
Mas de vez em quando é possível de permitir um sneak-peak ao trabalho em curso. No mês passado, Sophie foi até Lisboa para falar do nosso trabalho no congresso da Sociedade Portuguesa de Etologia. Dai surgiu uma interessante discussão interdisciplinar, que ela conta aqui.
Não prometemos um thriller de alta velocidade, como a investigação tantas vezes é retratada na televisão com aquela jargão de "e ao mesmo tempo uma equipa em San Francisco está a fazer uma descoberta surprendente". Primeiro, a ciência raramente funciona assim. Segundo, mesmo quando funciona assim, demora tempo antes de se poder partilhar estas descobertas num espaço público. Só após um trabalho sólido de analise no laboratório e em seguida revisão por pares (outros cientistas) e publicação numa revista internacional, é que um novo dado está pronto para ser apresentado ao mundo.
Mas de vez em quando é possível de permitir um sneak-peak ao trabalho em curso. No mês passado, Sophie foi até Lisboa para falar do nosso trabalho no congresso da Sociedade Portuguesa de Etologia. Dai surgiu uma interessante discussão interdisciplinar, que ela conta aqui.
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
Reflexões sobre a discussão parlamentar sobre uso de animais em ciência e alternativas
No dia 19 de Janeiro de 2017 foi discutida no Parlamento a petição "Por uma Ciência mais Rigorosa", promovida pelos "Universitários pela Causa Animal" que exigia, entre outras, que animais de laboratório e os procedimentos fossem filmados 24 horas por dia, consequência directa da "Declaration of Lisbon", a qual tinha já merecido resposta da SPCAL. Uma explanação dos argumentos desta petição pode ser encontrada aqui.
A petição tinha já sido discutida com algumas peticionárias (havendo registo áudio e uma acta), onde chegou a ser proposto que os investigadores usassem "capacetes com câmaras" enquanto trabalharam.
Esta petição levou a iniciativas da parte do 'PAN-Pessoas-Animais-Natureza' (um projecto de lei e um projecto de resolução), do 'PEV-Partido Ecologista Os Verdes', 'BE-Bloco de Esquerda' e 'PCP-Partido Comunista Português'.
Antes de considerar estas propostas, devemos ter em conta que a actual legislação em vigor, que transpõe a Directiva 2010/63/EU, é sem dúvida a regulação mais exigente do uso de animais em ciência ao nível global, sendo que algumas das propostas discutidas ontem no parlamento era redundantes com a legislação ou irrealistas, sobretudo as de BE e PAN. Contudo, uma leitura atenta das propostas de PCP e PEV revelam uma atitude progressista, realista e baseada na promoção do desenvolvimento científico e tecnológico ao nível dos 3Rs (Replacement, Reduction, Refinement), que são de louvar.
Podem rever o debate sobre estas propostas neste vídeo de 25 minutos:
O balanço que tenho a fazer deste debate é positivo, uma vez que trouxe à discussão no Parlamento a questão do desenvolvimento de métodos não-animais, dos 3Rs e do cumprimento da legislação em vigor. Houve ainda um momento onde não pude deixar de sentir alguma satisfação pessoal, quando o Presidente da Comissão Parlamentar para a Educação e Ciência, o Prof. Alexandre Quintanilha, mencionou o I Simpósio Nacional de ORBEA e a recém-criada RedeORBEA.
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| Ouvir o Prof. Alexandre Quintanilha no Parlamento fez-me querer que houvesse mais deputados cientistas. |
Infelizmente, os pedidos de reforço dos meios humanos da Autoridade Competente, a DGAV, não foram aprovados, o que presumo se deva a contenções de ordem orçamental.
Havia já uma resolução aprovada - Resolução 96/2010 - aquando da discussão da construção do biotério da Azambuja, e três anos antes da publicação da actual legislação, que promovia a construção de um centro para os 3Rs, que seria muito bem-vindo. Algumas das reivindicações foram já satisfeitas pela publicação da legislação hoje vigente (DL 113/203), outras ficaram por concretizar, tendo este debate servido também para retomar a questão.
Após esta discussão, a Assembleia deliberou votar para rejeitar a maior parte das propostas em análise (pode consultar as votações aqui). Contudo, alguns dos pontos dos projectos de resolução foram aprovados, a saber:
Projecto de Resolução 614/XIII/2.ª (PCP) "Recomenda ao Governo a implementação de medidas no âmbito da utilização de animais em investigação científica"
Ponto 1: [A Assembleia da República recomenda ao Governo que] avalie e informe a Assembleia da República sobre a concretização das recomendações constantes na Resolução da Assembleia da República n.º 96/2010 e proceda à planificação da implementação do que ainda está por concretizar
Projecto de Resolução 612/XIII/2.ª (PEV) "Pela progressiva redução e eliminação do uso de animais para fins científicos"
Ponto 1: [A Assembleia da República recomenda ao Governo que] promova o investimento para o desenvolvimento de alternativas ao uso de animais para fins experimentais e outros fins científicos, dando cumprimento desta forma a uma efetiva implementação da política dos 3Rs, conforme plasmado no Decreto-Lei nº 113/2013.
Ponto 3: [A Assembleia da República recomenda ao Governo que] promova a divulgação de informação e a devida articulação entre as diversas entidades ligadas à experimentação animal, nomeadamente entre a Comissão Nacional e os órgãos responsáveis pelo bem-estar dos animais (ORBEA), pugnando para que nas instituições onde ainda não estejam criados estes órgãos, os mesmos sejam o mais rapidamente possível instituídos, no sentido de garantir que os protocolos autorizados e financiados, se encontram a ser devidamente implementados, maximizando assim o bem-estar animal.
Pode-se dizer, em jeito de conclusão, que Portugal deu mais um pequeno passo no tratamento ético dos animais em ciência e na promoção de alternativas. Possa a comunidade científica encontrar o devido apoio do Governo para concretizar os objectivos aqui definidos num futuro próximo.
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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
Debate parlamentar sobre experimentação animal e 3Rs
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| Fonte |
Decorre hoje (a partir das 15h, logo a seguir a curto debate com o Ministro da Saúde) uma discussão na Assembleia da República de particular interesse para a nossa comunidade ligada ao uso de animais e aos 3Rs, que pode ser seguida on-line no canal ARTV. Podem consultar aqui a agenda e documentos em discussão (mais para o fundo da pagina).
Estão em discussão:
Petição n.º 141/XIII/1.ª
Da iniciativa de Gonçalo Faria da Silva e outros - Solicitam mais rigor, transparência e objetividade na ciência que recorre ao uso de modelos animais na investigação, maximizando o bem-estar animal e o retorno do investimento público
Projeto de Lei n.º 372/XIII/2.ª (PAN)
Introduz normas mais rigorosas no que diz respeito à utilização de animais para fins de investigação científica
Projeto de Resolução n.º 612/XIII/2.ª (PEV)
Pela progressiva redução e eliminação do uso de animais para fins científicos
Projeto de Resolução n.º 614/XIII/2.ª (PCP)
Recomenda ao Governo a implementação de medidas no âmbito da utilização de animais em investigação científica
Projeto de Resolução n.º 615/XIII/2.ª (BE)
Medidas para a proteção de animais para fins experimentais e outros fins científicos
Projeto de Resolução n.º 616/XIII/2.ª (PAN)
Recomenda ao Governo a alocação de uma percentagem dos fundos de inovação e desenvolvimento da despesa pública distribuídos pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) em métodos não animais
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terça-feira, 20 de dezembro de 2016
Uma semana em Bruxelas dedicada à experimentação animal e suas alternativas
Na primeira semana deste mês, em Bruxelas, realizaram-se três importantes eventos para a regulação do uso de animais em ciência e a promoção dos princípios dos 3Rs para a sua substituição, redução e refinamento (Replacement, Reduction Refinement). Eu e Anna Olsson tivemos oportunidade de participar nestes eventos e não podia deixar de deixar aqui uma breve impressão dos mesmos.
O maior evento foi uma iniciativa da própria Comissão Europeia, o "Non-Animal approaches, the way forward", uma resposta à European Citizens Innitiative, "Stop Vivisection". Esta petição, que recolheu mais de um milhão de assinaturas, pretendia ab-rogar aquela que é a mais exigente legislação do mundo na regulação do uso de animais em ciência, porque a vêem como instrumento de legitimação desta prática. A ECI foi rejeitada pela Comissão Europeia, que não obstante se propôs a levar a cabo uma série de iniciativas que pudessem dar resposta a algumas reivindicações da petição, e esta conferência foi uma delas. Curiosamente, os organizadores da petição boicotaram esta conferência e organizaram uma pequena "contra-conferência" em paralelo, de carácter marcadamente político, ao invés de científico. A conferência da Comissão Europeia teve cerca de 400 participantes de toda a Europa e teve grande destaque no Twitter com o hashtag #NonAnimalScience.
A organização procurou um debate equilibrado, convidando cientistas, políticos e representantes de associações de doentes para fazer uma análise crítica dos actuais modelos, da qualidade e transparência da ciência baseada nestes modelos, e do potencial e limitações quer dos métodos com animais quer dos métodos alternativos hoje disponíveis.
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| Reyk Horland e o Human-on-a-chip, uma fascinante e promissora tecnologia para testes toxicológicos sem animais, mas que ainda carece de validação científica e aprovação regulatória (Fonte) |
A organização procurou um debate equilibrado, convidando cientistas, políticos e representantes de associações de doentes para fazer uma análise crítica dos actuais modelos, da qualidade e transparência da ciência baseada nestes modelos, e do potencial e limitações quer dos métodos com animais quer dos métodos alternativos hoje disponíveis.
O segundo evento tomou lugar no Parlamento Europeu e foi uma iniciativa da Comissão Nacional Holandesa para a Protecção dos Animais Usados para Fins Científicos (que terá uma congénere portuguesa). Esta conferência visou aspectos relacionados com a síntese de evidência de estudos em animais com vista a escolher os melhores modelos animais e desenho experimental, prevenir a duplicação desnecessária de estudos e aumentar a transparência dos mesmos.
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| Eu estou algures lá atrás... (Fonte) |
O terceiro evento foi a conferência final do projecto Europeu ANIMPACT financiado pelo 7º Programa-Quadro, e liderado pela Anna Olsson. Este projecto de três anos visou mapear e entender as múltiplas questões legais, sociais, éticas e científicas despoletadas pela Directiva 2010/63/EU que actualmente regula o uso de animais para fins científicos na União Europeia. Os slides das apresentações podem ser descarregados aqui (brevemente disponíveis em vídeo).
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| Peter Sandøe, colaboador ocasional do Animalogos: "How is current EU regulation perceived by bench scientists?" (Foto de Nuno Franco) |
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domingo, 18 de outubro de 2015
"Experimental Design Assistant" - Melhorar a fidedignidade dos estudos com animais!
Numa tertúlia sobre ética e experimentação animal na qual participei como convidado há uma semana, juntamente com Luísa Bastos (SPEdH e IBMC-INEB), houve um ponto em que concordámos: há muitos estudos em animais de má qualidade, e que não produzem dados fidedignos, por falhas fundamentais no seu desenho experimental e uma incorrecta análise e interpretação estatística dos resultados.
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| "When mice mislead" (Fonte: Science) |
O resultado? Milhões (ou mesmo milhares de milhões) de euros desperdiçados e milhares de animais usados sem real benefício científico e biomédico, para não falar das centenas de pacientes (e famílias) envolvidos em ensaios clínicos de drogas cuja eficácia, na verdade, nem em ratinhos tinha sido devidamente comprovada.
Evidentemente, esta questão coloca questões da maior importância científica, médica, ética e até financeira, e poderá pôr em causa a "licença social" dada aos cientistas para usarem animais em investigação biomédica.
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| O ALS Therapy Development Institute re-testou, seguindo elevados padrões metodológicos, mais de 50 drogas aparentemente promissoras em animais mas que tinham falhado em ensaios clínicos. A conclusão foi que, afinal, o seu efeito terapêutico tinha sido originalmente muito exagerado (Fonte: Nature) |
Tendo o(s) problema(s) que levam a que muitos dos resultados científicos publicados não sejam reprodutíveis sido devidamente identificados, cabe à comunidade científica resolvê-los da melhor maneira, envolvendo investigadores, institutos de investigação, revistas científicas, agências de financiamento e reguladores, entre outros
Uma nova ferramenta para auxiliar os investigadores a desenhar as suas experiências de modo a obter resultados sólidos, fidedignos e reprodutíveis vem da parte da comunidade dos 3Rs, nomeadamente do NC3Rs: O Experimental Design Assistant (EDA).
Esta ferramenta é disponibilizada gratuitamente on-line, e desempenha as seguintes funções:
- Construção de uma representação visual (em diagrama) das experiências
- Feedback e conselhos sobre o desenho experimental proposto
- Suporte para randomização, "análise-cega" e cálculo estatístico do tamanho da amostra necessário
- Informação prática para melhorar o desenho experimental
- Maior transparência sobre o desenho experimental, permitindo a partilha e discussão do plano com colegas e colaboradores.
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| Pode esquematizar desta (ou de outra forma) o seu estudo, e o EDA vai dar sugestões para o melhorar. |
Michael Festing escreveu há um par de anos que ninguém nasce sabendo delinear e analisar experiências científicas. Contudo, com o crescente número de recursos e ferramentas à disposição dos investigadores para colmatar essa falha, é cada vez mais difícil haver desculpas.
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segunda-feira, 27 de julho de 2015
Animalogos em congresso

Há duas semanas estivemos no congresso de UFAW - Universities Federation for Animal Welfare em Zagreb. Ou mais corretamente, estive, porque ao contrário de há 2 anos em que estivemos todos presente, fui sozinha em representação dos três animalogantes, para apresentar o nosso trabalho sobre quantidade e qualidade de vida (mais sobre isso abaixo).
Desde o primeiro em que participei (2001, em Londres), considero os congressos de UFAW uma prioridade profissional por vários motivos. São sempre excelentes, focando um tema com relevância e pertinência, com palestrantes de renome internacional. São inspiradores, tanto pela qualidade das palestras como pela diversidade da participação. Aqui encontra-se não só académicos, mas pessoas de todo o tipo de organismos governamentais e não-governamentais na área de bem-estar animal. Quem quer saber mais concretamente do que foi falado no congresso, encontra um relato no Twitter do UFAW.
Na nossa apresentação abordamos o dilema de quantidade e qualidade de vida, com base em três exemplos: a (redução em) longevidade da vaca leiteira, as formas de criar vitelos machos de raças de produção de leite e a tensão entre redução e refinamento na experimentação animal. O trabalho resulta do desafio que aceitamos em 2013, de contribuir para o livro Dilemmas in Animal Welfare (CABI Publishing, 2014).Além das palestras, consegui aproveitar um bocado da hora do almoço para visitar o Croatian Museum of Naïve Art e a sua coleção que não podia ser mais tematicamente relevante para um congresso onde a relação humano-animal está em enfoque.
terça-feira, 24 de março de 2015
Inovações na medição e avaliação de bem-estar animal: ecos do meeting NC3Rs/BBSRC
Na passada
semana, 17 de Março, o nosso grupo de investigação do IBMC esteve representado numa
conferência em Londres do National Centre for the
Replacement, Refinement and Reduction of Animals in Research (NC3Rs), uma agência governamental do Reino Unido dedicada a financiar e promover inovações em alternativas de Substituição, Redução e Refinamento da investigação com animais.
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| Duas sociedades científicas colaborando em prol do bem-estar de animais usados em ciência. |
Esta conferência apresentou os mais recentes desenvolvimentos em bem-estar animal, alguns dos quais serão merecedores de atenção especial neste blog por parte das colegas que me acompanharam (Ana Maria Valentim, Ana Catarina Castro, Ana Margarida Pereira e Joana Fernandes). É contudo de salientar que, por se tratarem de estudos ainda em curso, os resultados apresentados eram no geral ainda bastante preliminares.
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| Tiveram destaque nos estudos financiados pelo NC3Rs os roedores, peixes e primatas não-humanos |
Já o NC3Rs não têm paralelo em qualquer parte do mundo. Apesar de haver vários centros para os 3Rs no mundo industrializado - e em particular na Europa - nenhum deles tem a dimensão, o nível de financiamento e o alcance desta agência britânica, que deve mesmo a sua existência à própria iniciativa do governo, o que até nem é de estranhar num país com tão grande tradição na protecção dos animais usados para fins científicos, e de onde o conceito dos 3Rs é originário.
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| Os estudos financiados pelo BBSRC focavam-se mais na saúde e bem-estar de animais de produção |
Em termos gerais, e considerando que alguns dos trabalhos apresentados serão alvo de análise mais detalhada, destaco o seguinte:
- O destaque dado ao bem-estar de espécies emergentes como modelos em investigação biomédica, nomeadamente os peixes, para os quais muito há ainda a fazer ao nível do seu bem-estar.
- O recurso a novas tecnologias como instrumentos de eleição na medição e avaliação de bem-estar animal
- A apresentação da Animal Welfare Research Network, uma rede que integrará os investigadores em saúde e bem-estar animal do Reino Unido, e que será financiada pela BBSRC.
Em jeito de desabafo, não posso deixar de constatar o marcado contraste entre o panorama científico português e o britânico, relativamente ao nível de desenvolvimento e relevância dados à ciência em bem-estar animal, no Reino Unido.
O progresso científico em Portugal nos últimos vinte anos é absolutamente surpreendente, mas falta igual evolução na consideração dada à importância da saúde e bem-estar dos animais, sejam eles os de laboratório ou quaisquer outros.
O progresso científico em Portugal nos últimos vinte anos é absolutamente surpreendente, mas falta igual evolução na consideração dada à importância da saúde e bem-estar dos animais, sejam eles os de laboratório ou quaisquer outros.
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Portugueses investigando em bem-estar animal - Kelly Gouveia
Kelly Gouveia licenciou-se em medicina veterinária pelo ICBAS em 2007 e tem feito desde 2008 um percurso interessante e diversificado ao nível da investigação em bem-estar animal. Concluiu recentemente o seu projecto de doutoramento pela Universidade de Liverpool, sob a orientação de Jane Hurst e Paula Stockley no NC3Rs, e que se focou no refinamento do manuseamento de murganhos.
Nuno Franco - Olá Kelly, podes começar por fazer um breve resumo do teu projecto de doutoramento e das suas principais conclusões e implicações?
No meu projecto de doutoramento estudei formas práticas de reduzir o stress associado ao manuseamento, em ratinhos de laboratório. O stress associado ao manuseamento constitui um problema de bem-estar e pode induzir variação nos resultados experimentais. Animais de laboratório necessitam constantemente de ser manuseados, quer seja para efeitos de limpeza, simples inspecções diárias ou para fins experimentais. Dado que o ratinho é a espécie laboratorial mais usada neste momento, isto pode ter implicações para muitos milhões de animais utilizados em ciência mundialmente. Embora o método mais comum de manusear ratinhos seja levantá-los pela cauda, uma publicação relativamente recente (Hurst & West, 2010) demonstrou que este método induz aversão ao manuseamento e ansiedade, contrariamente a dois métodos alternativos: guiar o animal para dentro de um túnel presente na jaula ou usar a técnica da mão aberta em que o animal e apanhado com a mão aberta e segurado na palma da mão (hand cupping).
O meu projecto analisou a eficácia destes métodos relativamente ao método da cauda, a fiabilidade de os implementar na prática e modos de os integrar na prática laboratorial. Outra parte do meu projecto consistiu em testar os efeitos do método de manuseamento na fiabilidade de resultados experimentais, principalmente em experiências que aplicam testes comportamentais/cognitivos. O método do túnel contribui para uma redução significativa do stress associado ao manuseamento e pode ser implementado de forma prática, ou seja, não exigindo uma habituação prolongada e à parte do contexto laboratorial. A redução de stress associado ao manuseamento também pode melhorar a fiabilidade dos resultados experimentais e portanto constitui um método eficaz de introduzir os 2Rs (de refinamento e redução) nas práticas de laboratório.
Que desafios vês à adopção mais generalizada destas técnicas para o manuseamento de animais de laboratório?
Penso que ha vários desafios. O desconhecimento sobre os efeitos mais generalizados destes métodos, tanto a nível fisiológico como comportamental, e a sua influência nos resultados experimentais são desafios para a da adopção destes métodos como padrão. Poderá haver situações em que usar uma técnica menos aversiva possa reduzir a possibilidade de detectar um efeito experimental ou mesmo ser contra-indicada. Por exemplo, em psicofarmacologia pretende-se usar modelos animais que demonstrem elevada ansiedade. É possível que minimizando o stress ambiental associado ao manuseamento possa haver um efeito atenuante, e portanto influenciar o efeito farmacológico de um ansiolítico. É necessário haver mais investigação sobre os efeitos de manuseamento prática variação de resultados experimentais de forma a encaminhar para uma prática generalizada destes métodos. Também o uso destes métodos poderá ter algumas limitações, como por exemplo, para o manuseamento de múltiplos animais por jaula em que poucos animais cabem de uma vez no túnel ou o uso destas técnicas em animais muito jovens em que a habituação ao manuseamento não é imediata. O próprio processo de implementação generalizada destes métodos também constitui um desafio, pois é necessário que organizações científicas e entidades reguladoras reconheçam a importância do manuseamento menos aversivo e comecem a implementar as técnicas na formação de investigadores e pessoal técnico.
Antes de desenvolveres este projecto no NC3Rs, em que outros trabalhos na área de bem-estar animal estiveste envolvida?
Durante o meu estágio de veterinária fiz dois projectos sobre o bem-estar de animais no matadouro. Num deles investiguei a incidência de lesões post mortem em frangos criados em regime extensivo, e a sua associação com acontecimentos que antecedem ao abate. No outro estudei a fiabilidade de determinados comportamentos manifestados por bovinos durante o atordoamento, como indicadores de um atordoamento eficaz. Após ter completado o curso, estive envolvida na submissão da candidatura de um projecto de investigação a FCT, sobre estratégias para aumentar o uso dos parques em regime extensivo na criação de frangos. Fiz também um projecto numa sociedade protectora de animais de companhia no Porto, em que estudei o bem-estar de gatos alojados em grupos, relativamente a alguns factores, como por exemplo o tempo de estadia e composição do grupo. Pouco antes de começar o meu doutoramento também realizei um projecto na universidade de British Columbia (Vancouver, Canada) em que investiguei aprendizagem do uso de free-stalls em novilhas leiteiras.
Não há em Portugal nenhuma instituição científica nem orçamento dedicado ao desenvolvimento e promoção dos 3Rs, ao contrário do que acontece noutros países europeus. O que é que, na tua opinião, faria falta para que fosse criado um centro para investigação nestas áreas no nosso país?
Julgo que em parte falta haver investimento financeiro de grandes empresas em Portugal. Alias, esta diferença e muito notável entre países com baixo ou elevado sucesso na implementação de programas de bem-estar animal. Também era necessário haver envolvimento ou colaboração com os cientistas mais conceituados da área a nível internacional, para aumentar as hipóteses de aprovação dos projectos de investigação pelas organizações cientificas portuguesas e internacionais.
Para finalizar, que projectos tens para o futuro, no curto e médio prazo?
Gostaria de continuar a trabalhar nesta área e talvez um dia fazer parte de um centro de investigação científica em Portugal, quem sabe!
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Animalogante no Porto Canal
Veja aqui a entrevista com o investigador e animalogante Nuno Franco no programa Mentes que Brilham no Porto Canal dia 10 de fevereiro.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Curso de delineamento experimental e estatística para estudos com animais
O Fund for the Replacement of Animals in Medical Experiments - FRAME vai organizar de 30 de Março a 1 de Abril um curso de desenho experimental delineamento experimental e estatística na Universidade de Coimbra.
Ainda que seja contra-intuitivo pensar que uma organização criada especificamente para promover a substituição de animais em biomedicina se dedique a formar investigadores para usar animais, a verdade é que tal não constitui qualquer contradição com os princípios desta ONG.
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| Melhorar as experiências E diminuir o número de animais. Não só é possível como é um imperativo de ordem ética e científica. |
Acontece que a FRAME são se dedica apenas a promover e divulgar (na revista ATLA- Alternatives to Laboratory Animals) novos métodos e tecnologias que permitem a 'substituição' - Replacement - do uso de animais, mas também os restantes 3Rs de Russel e Burch, nomeadamente os de Reduction (Redução) e Refinement ('Refinamento').
Por Reduction entende-se o uso do menor número possível de animais para atingir um determinado objectivo científico (sem prejuízo da validade científica) ou, em alternativa, a extrair mais e melhor informação aumentar o número de animais necessário. Isto é conseguido, por exemplo, através de desenho experimental sofisticado, estudos longitudinais (estudando o mesmo indivíduo, que se torna o seu próprio 'controlo') ou reduzindo o 'ruído' experimental que afecta a validade interna das experiências e pode levar a falseamento dos resultados.
Já por Refinement entende-se o 'refinamento' das experiências nos sentido de minimizar (ou mesmo eliminar) a dor e desconforto dos animais, bem como providenciar experiências positivas e uma vida confortável, sem prejuízo dos resultados experimentais.
A importância destes dois Rs não pode ser menosprezada, por razões éticas, mas também científicas. Tem sido demonstrado que uma grande parte dos estudos com animais publicados apresentam resultados não-reprodutíveis, ou exagerados, por serem mal concebidos, executados e interpretados. Isto leva a que muitos milhões de euros e vários milhares de animais sejam desperdiçados em estudos de relevância médica limitada.
Assim, a FRAME dedica-se não só a financiar projectos para desenvolvimento de métodos não-animais - inclusive no seu próprio laboratório na Universidade de Nottingham - como também oferece cursos de delineamento experimental para ensinar aos investigadores a tirar o melhor partido dos animais que são usados, através da redução de variabilidade indesejada (incluindo a negligência pelo bem-estar animal) e de enviesamentos comuns resultantes da falta de conhecimento de princípios básicos de desenho experimental e estatística.
Isto deve-se ao facto desta organização se orgulhar de fundamentar a sua actividade em princípios científicos - e não na opinião pública - pelo que não exige uma abolição imediata do uso de animais que pusesse em risco o desenvolvimento biomédico (bem como da medicina veterinária), mas uma redução progressiva através do desenvolvimento científico.
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| A FRAME tem uma abordagem científica como um dos seus princípios basilares. |
Quanto a este curso em si, posso falar da minha própria experiência, como alumnus. Participei na edição de 2009, em Manchester, e posso assegurar que o meu conhecimento e perspectiva relativamente ao desenho de experiências com animais mudou significativamente, e para melhor. Recomendo-o vivamente a todos aqueles que se interessam na validade e ética dos seus estudos.
Mais informações aqui.
Mais informações aqui.
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terça-feira, 30 de dezembro de 2014
2º Conferência Internacional de Alternativas à Experimentação Animal
A Sociedade Portuguesa para a Educação Humanitária organiza a 2º Conferência Internacional de Alternativas à Experimentação Animal dias 8 e 9 de Maio de 2015, no Fórum Picoas em Lisboa.
O principal objetivo desta conferência é o de promover o debate e a troca de
informação relativamente às alternativas à experimentação animal.
Submissão de posters até 6 de Fevereiro de 2015
e a inscrição a preço reduzido até 27 de Fevereiro de
2015 através do site oficial da conferência em www.icaae.com.
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terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Doutoramento em bem-estar de animais de laboratório
Procuramos candidatos com um mestrado em ciências de vida para trabalhar neste projeto. As tres partes envolvidas no trabalho são na Dinamarca Universidade de Copenhaga onde o doutorando terá a sua base de trabalho e Novo Nordisk e em Portugal Instituto de Biologia Molecular e Celular.
Mais detalhes sobre o projeto e como candidatar-se.
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terça-feira, 29 de abril de 2014
ARRIVE Guidelines em Português
As ARRIVE (Animal Research: Reporting of In Vivo Experiments) Guidelines, um conjunto de directrizes subscritas por mais de 300 revistas científicas, universidades e sociedades científicas, visam promover um relato mais pormenorizado de estudos em animais. As mesmas surgiram para dar resposta a problemas de replicação de resultados publicados, por falta de informação acerca de todas as potenciais variáveis envolvidas em qualquer estudo com animais. Permitem ainda um escrutínio mais informado dos trabalhos publicados, pela comunidade científica.
| Fonte |
O escrutínio pelos pares e a replicação dos resultados são dois pilares fundamentais do processo científico. Se não há informação fidedigna acerca de um protocolo experimental e os seus resultados, estes vêem-se seriamente comprometidos. Isto é particularmente importante em estudos em animais devido à quantidade de factores que nestes podem influenciar o decorrer e o resultado de uma experiência, e que incluem a humidade, luminosidade, ração, frequência de limpeza das caixas ou tipo de alojamento (individual, em grupos, aos pares, com ou sem material de ninho, etc.), para não falar de atributos fundamentais como o sexo e a idade dos animais, estes frequentemente omitidos nas publicações, como dois estudos por autores deste blog (a par de outros) têm vindo a demonstrar.
Estas directrizes ARRIVE foram recentemente publicadas em Português e Italiano, estando já na calha versões para outras línguas. Apesar de se esperar que a generalidade dos investigadores lusófonos seja suficientemente proficiente na língua inglesa para recorrer às ARRIVE na sua versão original, não deixa de meritório o esforço do NC3Rs em promover estas directrizes pela tradução noutras línguas, sendo de salientar o facto do português (europeu) ser uma das primeira línguas escolhidas.
Torna também mais fácil a inclusão destas directrizes como recurso educativo em cursos na língua portuguesa e como referência nas instruções para os autores de revistas científicas no mundo lusófono.
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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
9º congresso mundial sobre alternativas e uso de animais
World Congress on Alternatives and Animal Use in the Life Sciences é o
congresso mais importante na area dos 3Rs de experimentação animal. Tem lugar de 3 em 3 anos, e em 2014 vai ser em Praga.O website do congresso já apresenta os temas principais e resumos de trabalhos podem ser enviados até 1 de Abril de 2014.
O conjunto de oradores convidadados ilustra a interdisciplinaridade do congresso, incluindo industria, ciências da vida e saúde e ONGs.
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quarta-feira, 27 de novembro de 2013
“Não testado em animais”
A partir de Março de 2013 não se poderão usar animais para testar produtos ou ingredientes para produtos de cosmética para venda na EU. Ou seja, todos os produtos de cosmética que podemos comprar no espaço europeu poderão, em teoria, ser rotulados como “Não testado em animais”.
O caminho até aqui foi muito longo, com sucessivas alterações da legislação e sucessivas alterações das datas de fim final de testes em animais. (Ilustrativo disto é que só a lista de alterações na versão consolidada da Diretiva de Cosméticos ocupa mais do que 2 páginas!) A falta de métodos alternativos validados e o receio da indústria das consequências de regras mais restritas do que no resto do mundo têm sido os problemas principais.
Apesar do processo ter sido lento, o facto de haver legislação que exige uma extinção faseada dos testes em animais tem sido importante para criar um mercado para sistemas alternativos de teste, como relata um artigo da revista Nature de 2011:
The company’s most important task is picking systems that scientists want to buy. For example, a European Union directive to phase out animal testing for cosmetics from 2009 has created a market for in vitro evaluation of skin irritants, so Hurel is working with the world’s largest cosmetics company, L’Oréal in Paris, to develop a replacement for a test in which a potential allergen is rubbed behind a mouse’s ear. The ‘allergy test on a chip’ holds skin and immune cells. “Once you work out all the kinks, it will be better than the animal test because you’ll use all-human materials,” says Martin Yarmush, chief scientific adviser at Hurel.Enquanto a proibição na UE inclui tanto a realização de testes aqui como a importação de produtos e ingredientes testados noutros países, o uso de animais para testar cosméticos continua legal no resto do mundo. Leia ainda o blogger DNA Cético sobre o tema.
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sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Nova legislação nacional reforça a protecção aos animais usados para fins científicos
Depois de uma longa espera, foi finalmente publicado a 7 de Agosto o Decreto-lei n.º 113/2013, que transpõe a Directiva 2010/63/EU para a protecção dos animais usados para fins científicos.
Como já tinha sido avançado pela responsável da DGAV. o novo Decreto-lei representa uma transposição quase literal da Directiva, sendo acrescentadas as devidas alterações para o contexto nacional, e que incluem a criação e definição de competências de órgãos locais e nacionais para a regulação e supervisão do uso de animais em ciência e o estabelecimento das sanções previstas para as violações a esta lei.
É de salientar, contudo, que apesar da protecção conferida pela anterior legislação portuguesa (Decreto-lei 129/92 e Portaria 1005/92, alterada pelas Portarias 466/95 e 1131/97) aos animais de laboratório ficar aquém das suas congéneres europeias, na prática os padrões de bem-estar animal de vários laboratórios associados nacionais eram já há bastante tempo equiparáveis aos da generalidade dos países europeus. Seja como for, a nova legislação representa uma passo em frente no espaço comunitário europeu para a generalidade dos Estados-Membros inclusive, em vários aspectos, naqueles com mais historial na regulação de protecção animal.
O preâmbulo deste decreto-lei, reflectindo o da Directiva, enquadra esta legislação no plano da necessidade de nivelar as diferenças que existiam na regulamentação da experimentação animal no espaço europeu, que levava não só a diferenças no tratamento dos animais entre os diferentes países, com consequências também ao nível concorrencial, quer na academia, quer na indústria. O preâmbulo vinca ainda muito explicitamente os princípios fundamentais que regem a nova legislação, como o do "valor intrínseco" dos animais - conceito com o qual aliás discordo, mas também para os seres humanos - e o dos 3Rs, apresentados como "Substituição [de Replacement], Redução e Refinamento".
É de salientar, contudo, que apesar da protecção conferida pela anterior legislação portuguesa (Decreto-lei 129/92 e Portaria 1005/92, alterada pelas Portarias 466/95 e 1131/97) aos animais de laboratório ficar aquém das suas congéneres europeias, na prática os padrões de bem-estar animal de vários laboratórios associados nacionais eram já há bastante tempo equiparáveis aos da generalidade dos países europeus. Seja como for, a nova legislação representa uma passo em frente no espaço comunitário europeu para a generalidade dos Estados-Membros inclusive, em vários aspectos, naqueles com mais historial na regulação de protecção animal.
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| Foto: Robert Erikson |
O documento em si é extenso e detalhado. Surgem contudo algumas redundâncias ao longo do texto, ao passo que outras informações relevantes estão omissas, algo que poderá em breve ser colmatado pelos despachos previstos na lei, ou justificar posteriores portarias.
Da nova legislação para protecção dos animais em ciência, saliento os seguintes aspectos:
1- No preâmbulo é assumida a visão que a nova lei constitui "...um importante passo para alcançar o desiderato de substituir totalmente os procedimentos com animais vivos para fins científicos e educativos". Ora eu confesso que não sei como se conseguirá alcançar esse objectivo por decreto. Uma possível interpretação é a de que o legislador acredita fazê-lo colocando o ónus da prova da necessidade do uso de animais nos investigadores. Ora esta abordagem parece assentar em dois pressupostos:
a) Que os cientistas usam animais quando o mesmo objectivo pode ser alcançado por outros métodos
b) Que os mecanismos impostos pela nova legislação irão contrariar essa suposta prática
c) Que os reguladores terão a competência de avaliar da legitimidade científica e ética de usar animais para cada projecto sujeito à sua avaliação.
Duvido que algum destes pressupostos tenha fundamento. Ademais, um claro indicador de que a regulação, por si, não se traduz no uso de alternativas é o caso do Reino Unido, onde há o maior acompanhamento e fiscalização do uso de animais, mas onde também o número de animais utilizados tem crescido em anos recentes.
Sou evidentemente solidário com a ambição de substituir o uso de animais em ciência, mas não vejo outro modo de o conseguir que através da própria ciência. Como Horst Spielman referiu no Congresso em Alternativas em Janeiro deste ano em Almada, há alternativas para apenas 3% dos actuais testes toxicológicos obrigatórios. Já em investigação básica e aplicada, as abordagens metodológicas sem animais têm um lugar importante, mas essencialmente complementar, podendo ter no entanto influência na Redução do uso de animais. Face aos desafios médicos e científicos à nossa frente não creio que deixaremos de recorrer ao uso de animais em investigação neste século, se alguma vez o fizermos. Como o fazemos deverá assim assumir maior importância, algo a abordar em posts futuros.
2 - O conceito de "procedimento" surge no contexto da directiva como tudo que acontece ao animal no decorrer de um projecto científico (a não ser que seja reutilizado, o que será constituirá novo procedimento), diferindo assim da interpretação habitual do termo. Isto poderá geral alguma confusão inicial, acentuada pelo facto da definição de "procedimento" na lei não esclarecer devidamente esta questão. Isto é no entanto esclarecido num dos consensus documents referentes à directiva.
3- É instituída uma Escala de Severidade, que contempla os níveis "Ligeiro", "Moderado", "Severo" e "Não Recuperação", e a obrigatoriedade de atribuir prospectivamente um grau de severidade a cada procedimento dos projectos submetidos a aprovação pela autoridade competente. Consoante os procedimentos em questão, poderá ainda haver lugar a avaliação retrospectiva dessa mesma severidade.
Tendo eu desenvolvido escalas de severidade para alguns trabalhos científicos e fazendo parte do Grupo de Trabalho para a classificação da severidade ao abrigo da Directiva, confesso que não gosto da escala proposta. Retiraria a categoria "Não recuperação" (pois fica aquém do limiar definido para a classificação de "procedimento") e colocaria um grau intermédio entre "ligeiro" e "moderado", renomeando este último como "substancial", pois muitos procedimentos que envolverão desconforto que considero substancial, serão não obstante classificados como "moderados", por força da escala em vigor.
4 - É instituído um "Órgão Responsável pelo Bem-estar Animal" - ORBEA - em cada estabelecimento criador, fornecedor ou utilizador (por ex. um Laboratório Associado). No entanto, para além do veterinário, não é claro quem mais deva integrar este órgão.
Acrescento que, a julgar pelo conjunto de competências necessário e o número de responsabilidades atribuídas aos ORBEA, estes deveriam ser constituídos por equipas multidisciplinares, pelo menos em estabelecimentos de média a grande dimensão. No entanto, a julgar pelo que conheço deste país, temo que alguns estabelecimentos poderão optar por atribuir esta função a uma ou duas pessoas que assim não terão as condições necessárias para mais que prestar "serviços mínimos", indo assim contra o próprio espírito da legislação: o de garantir uma maior protecção e acompanhamento aos animais usados em ciência.
5- É criada junta da DGAV uma Comissão Nacional para a Protecção dos Animais Utilizados para Fins Científicos, com funções consultivas.
6 - São proibidos procedimentos em animais para o ensino básico e no secundário. Este é um ponto que até há pouco tempo me tinha passado despercebido, mas que é confirmado num documento disponibilizado pela Comissão Europeia. Isto não deverá excluir, pelo que entendo, o uso não invasivo de animais no ensino.
7 - É dado, e bem, particular ênfase ao modo como os animais são eutanasiados, e à implementação de humane endpoints - "limites críticos humanos". Mas não posso deixar de estranhar o uso no Decreto-lei de um termo tão obscuro como "occisão" (e não sou o único), palavra que nunca ouvi nenhum investigador, técnico ou veterinário alguma vez usar neste contexto. Até porque o significado etimológico de eutanásia reforça a ideia de que a morte dos animais seja rápida e indolor.
8 - É contemplada a possibilidade de reabilitação e realojamento de animais usados para fins científicos. No Decreto-lei, aliás, essa possibilidade não é limitada apenas aos primatas não-humanos e aos animais de companhia, como estabelece a Directiva. Isto abre, na minha interpretação, a possibilidade da reabilitação de ratos e murganhos usados em ciência e educação, algo já abordado neste blog, e até alvo de uma comunicação em poster pelos autores.
Estes são apenas algumas novidades, de entre várias, trazidas à luz pela nova directiva. Ainda que - como eu e Anna já propusemos num artigo na ATLA - a regulação e supervisão da experimentação animal têm um papel limitado na promoção do bem-estar animal, a mensagem que esta legislação veicula e os princípios que a regem atestam do considerável progresso no tratamento ético do uso de animais no espaço europeu e serve de exemplo para o resto do mundo.
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terça-feira, 20 de agosto de 2013
Novo prémio reconhece a importancia de tecnicos e tratadores para o bem-estar de animais de laboratório
“Enquanto
a maioria dos premios existentes na área dos 3Rs tem cientistas como
destinatários, muitos dos procedimentos em que animais são usados são de facto
executados por tecnicos e tratadores de animais”. É com estas palavras que a
EPAA (European Partnership for Alternative Approaches to Animal Testing) lança um novo prémio destinado especificamente a tecnicos: EPAA 3R
Laboratory Animal Technician Prize.O premio de 3000 euros vai ser atribuido em reconhecimento de trabalho que refina procedimentos com animais de modo a melhorar o bem-estar destes animais em situações onde o uso de animais não pode ser substituido.
Pode concorrer quem trabalha como tecnico ou tratador num dos Estados-Membros da UE e que tem contribuido significativamente ao desenvolvimento de novas ou refinadas tecnicas. Mais informação sobre o concurso – aberto até 16 desetembro – aqui.
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segunda-feira, 27 de maio de 2013
É menos ético usar animais para estudar obesidade?
O uso de animais na investigação é controverso. Segundo
alguns filósofos, nunca
ou
quase nunca é eticamente justificado
realizar experimentação animal para o benefício de outros. Do outro lado defende-se o valor
científico de experiências com animais.
“Embora seja desejável substituir a utilização de animais vivos em procedimentos por outros métodos que não impliquem a sua utilização, o recurso a animais vivos continua a ser necessário para proteger a saúde humana e animal, assim como o ambiente.” (recital 10)“os animais deverão ser sempre tratados como criaturas sencientes e a sua utilização em procedimentos deverá ser limitada a domínios que, em ultima análise, tragam benefícios para a saúde humana ou animal, ou para o ambiente” (recital 12)“A escolha dos métodos e das espécies a utilizar tem impacto directo tanto no número de animais utilizados como no seu bem-estar. Por conseguinte, a escolha dos métodos deverá assegurar a selecção do método susceptível de proporcionar resultados mais satisfatórios e provocar o mínimo de dor, sofrimento e angustia.” (recital 13)
Ou seja, investigação com animais é legalmente (e portanto
segundo a visão em que a legislação se baseia, também eticamente) aceitável quando não existir
outro método, quando o sofrimento animal é minimizado e quando produz benefícios
para a saúde ou ambiente. E – o que na Diretiva tem que ser lido nas entrelinhas
– quando o beneficio ultrapassa o custo.
E é com referência ao último aspeto que académicos
e ONGs
têm argumentado que investigação sobre obesidade não justifica o uso de
animais. Nas palavras do Marc Bekoff:
Num primeiro olhar, parece coerente. Baniu-se (na Europa) o uso de animais para testar cosméticos e há uma visão quase
unânime que os animais não devem pagar pela a vaidade humana. Mas aguentará um
argumento semelhante contra estudos de obesidade uma análise mais aprofundada?
A
resposta é "Não", como argumentamos num
artigo recentemente publicado na revista Journal of Medical Ethics.
Neste artigo analisamos os dois principais argumentos contra o uso de animais na investigação em obesidade: o
argumento da responsabilidade pessoal
e o argumento da distração.
Central no argumento
de responsabilidade pessoal é a afirmação que as pessoas são responsáveis
pela sua obesidade. Comida a mais e exercício a menos resultam em peso a mais,
e os problemas de saúde relacionados poderiam ser resolvidos ou prevenidos com
uma mudança de hábitos. Isto parece ser um facto, mas implica isto que o estilo
de vida de uma pessoa é a sua responsabilidade moral? No que diz respeito a hábitos
alimentares, estes são em grande medida adquiridos na infância,
não se tratando assim de algo que escolhemos conscientemente, como quando escolhemos
investir o nosso dinheiro num videojogo ou numa mensalidade no ginásio. E tão
pouco como podemos escolher os nossos pais, podemos escolher os hábitos com que
somos criados. Isto não implica que não possamos alterar os nossos hábitos (quanto a
pais, creio que continua impossível...), mas implica que é muito mais difícil e
que o sucesso não é garantido – como muita gente confirma repetidamente. Mas, para além disto, os hábitos alimentares na infância não afetam só os hábitos alimentares do adulto, havendo evidência clara de que se traduzem em alterações biológicas. Por exemplo, a amamentação parece reduzir o risco de obesidade em crianças.
O argumento de distração toma como ponto de partida a
observação que hábitos pouco saudáveis, e sobretudo os associados com
obesidade, podem ser prevenidos. Assim sendo, argumenta que se a ênfase deve ser dada às medidas de prevenção. Novamente, é um facto que hábitos pouco saudáveis podem ser alterados e que isto reduz os problemas de saúde que deles derivam.
Mas não é óbvio que isto seja um argumento contra a investigação com animais na
área. A conclusão de que é errado investir em investigação com animais sobre
obesidade necessita que duas condições sejam cumpridas:
a) investigação com o objetivo de desenvolver terapias para
obesidade (e outras doenças relacionadas com estilo de vida) retira atenção e
recursos das medidas de prevenção
b) todos os problemas com obesidade podem ser resolvidos através
de estratégias de prevenção
Não existe evidência que sugere que a primeira condição
seja verdade. Na área de investigação sobre obesidade, o nº de artigos científicos
sobre estratégias de prevenção e controlo aumentou quase 10 vezes num período
de 12 anos (1995/98-2007/10), e este tipo de investigação tem crescido mais do
que qualquer outro tipo na área.
É também altamente questionável que seja possível resolver o problema de obesidade apenas através de prevenção. Esta poderá ser uma ferramenta eficiente para controlar fatores que tenham a ver com a conduta individual. E com mais pais
com hábitos saudáveis, menos crianças serão criadas com hábitos pouco saudáveis.
Mas mesmo se esta abordagem viesse a ter sucesso completo (o que em si é muito
pouco provável), antes de os seus efeitos terem penetrado toda a população, muita
gente virá desenvolver problemas de saúde relacionados com obesidade.
Face ao que é sabido da patobiologia e epidemiologia de obesidade humana, não se pode argumentar que experimentação animal seja menos aceitável para estudos desta doença do que para outras doenças humanas. Claro que isto não implica carta-branca para
cada experiência animal com objetivo de estudar obesidade. Há ainda espaço
amplo para uma discussão critica sobre que aspectos desta doença que são
adequados a estudar em animais.
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Peter Sandoe
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