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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

PeTA leva TAP a recusar transportar animais para investigação biomédica.

[Nota: uma versão deste post foi publicado como artigo no jornal Público, a 4 de Fevereiro de 2016)]

Esta semana a TAP-Air Portugal retweetou este tweet da PeTA:
O mesmo faz menção à notícia que a TAP vai deixar de transportar troféus de caça, barbatanas de tubarão e outras partes de animais em risco, bem como animais para uso em investigação, após um compromisso assinado com a PeTA-US. A própria TAP, contudo, não faz menção a este acordo com a sociedade activista pelos direitos dos animais nos seus canais de comunicação. 

Protesto em Vancouver, em 2012
(Fonte: Nature)
A PeTA tem focado os seus esforços na oposição ao transporte de primatas, sob o argumento (falso) que estes são retirados de habitats naturais ou criados em condições deploráveis. Contudo, o sucesso extraordinário destas iniciativas levou à ambição de estender este boicote ao transporte de invertebrados (como moscas) nas suas exigências às companhias transportadoras.





Protesto contra a United Airlines
As elevadas exigências ao nível de bem-estar destes animais faz com que o transporte por via aérea seja o ideal, por ser o mais rápido e menos stressante. É, contudo, logisticamente complexo, razão pela qual poucas companhias reúnem as condições para o fazer. Sendo poucas, são mais vulneráveis a tácticas de intimidação por parte da PeTA, por falta de solidariedade (ou receio de represálias) das demais. Não sabemos, contudo, se foi o receio de serem um alvo das acções de activistas, ou por razões de imagem pública (improvável, já que não foi divulgado) que levou a este acordo.

O medo é uma arma muito poderosa, e o receio de perder passageiros levou a que várias companhias que transportavam animais para estudos biomédicos tenham cedido a pressões da parte de um pequeno número de indivíduos, que não representam, de todo, o sentimento geral do público. Pior ainda é que o tenham feito sem terem consultado as instituições médico-científicas com que trabalhavam, ou associações de doentes. Tenho vivamente gravada a revolta de uma mãe de uma menina com síndrome de Rett e presidente da respectiva associação de doentes, que emocionada perguntou  numa conferência em Roma "com que direito podem estes pequenos e marginais grupos se interpor aos direitos dos demais, à descoberta de uma cura para a minha filha?". E ainda que a questão não seja linear, é difícil sermos insensíveis a este tipo de apelo.

Seja qual for a razão que levou a este acordo, o que isto significa é que se pode interpretar que a TAP considera a caça de animais ameaçados moralmente equivalente ao transporte de animais criados propositadamente para uso em investigação biomédica, isto é, para dar resposta a doenças que causam sofrimento e morte de milhões de humanos e outros animais.

Falta de discernimento?

Associar causas quase consensuais (como o combate ao tráfico ilegal de animais) à experimentação animal é uma estratégia recorrente da PeTA e de outros grupos animalistas, tentando com que o público considere ambas igualmente meritórias de censura. Outra estratégia comum aqui também presente é explorar o facto do público se opor mais fortemente ao uso de primatas e animais de companhia do que ao uso de roedores. Por essa razão, e ainda que nenhuma espécie de primata ou animal de companhia seja usada em Portugal em investigação (e em toda a Europa representem juntas uma percentagem ínfima do total de animais usados, com total proibição do uso de grandes primatas), são estas as espécies usadas em propaganda política contra o uso de animais, no nosso país.

O bem-estar dos primatas usados em investigação é cada vez mais uma prioridade
(Fotos do  California National Primate Research Center)

Apesar de serem usados em pequeno número, os primatas são fundamentais para a compreensão de doenças que afectam quer humanos, quer os próprios primatas na natureza, como o HIV (e vírus semelhantes) ou o Ébola, e para o desenvolvimento e teste de vacinas e terapias para as mesmas. E apesar das limitações ao transporte destes, ou de outros animais usados em ciência, poderem até certo ponto ser colmatadas por criação in situ, em muitas circunstâncias é logisticamente proibitivo, e em qualquer caso levará a um aumento considerável do número de animais em laboratórios e ao custo destes estudos. Em todo o caso, parece que o acordo a que a TAP anuiu inclui todas as espécies animais, desde que o seu destino seja o uso em ciência, alheios aos nível de cuidados prestados, que vai frequentemente além do que beneficiam os animais de companhia que transportam.

Em suma, sou o primeiro a admitir que o uso de animais em ciência é cientifica e eticamente complexo, mas considerá-lo equivalente ao tráfico de barbatanas de tubarão ou de presas de elefante é de uma profunda desonestidade intelectual. Nada a que não esteja habituado

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

"Cientista fotografou pela primeira vez ave que não era vista há mais de 50 anos. E depois matou-a."

É mais ou menos nestes moldes que tem sido contado o episódio protagonizado por Christopher Filardi, ornitólogo do Centro de Biodiversidade e Conservação do Museu Americano de História Natural, numa expedição às Ilhas Salomão, um incidente que contudo requer uma análise mais atenta. 

Casal de A. bougainvillei
Fonte: Wikipedia Commons
A ave em questão é um Actenoides bougainvillei, chamada Mbarikuku para os indígenas e Moustached Kingfisher em inglês (em português será qualquer coisa como "Martim Pescador de Bigode" ou "Guarda-rios de Bigode"), sendo endémica da ilha de Guadalcanal e estando classificada pelo IUCN como "vulnerável".
Esta foi a primeira vez que um exemplar vivo de um macho foi fotografado, tanto que a imagem que neste momento ainda ilustra a sua entrada na Wikipedia é um desenho de 1905 de um casal de uma variedade próxima, pertencente à mesma espécie, mas de uma outra ilha. É o próprio Filardi, aliás, que o descreve como uma "ave fantasma", no seu blog de campo, onde as circunstâncias da sua descoberta e captura - proeza que tentava alcançar há 20 anos - são relatadas.  


A origem da polémica centra-se no facto de, após a captura, os cientistas terem eutanasiado a ave (não sei através de que método) para a integrarem na colecção do museu. Segundo os mesmos, isto permite que o estudo da espécie se prolongue e aprofunde além do número limitado de dias da expedição, permitindo recolher informações sobre o seu genoma, anatomia, dieta, fisiologia, plumagem ou a exposição a substâncias tóxicas.

Esta decisão parece baseada numa perspectiva de "respeito pela natureza" onde o valor de um animal não-humano, como indivíduo, se dilui face ao da sua espécie e ecossistema, uma perspectiva que é transparente  nas declarações do cientista.

Filardi, momentos antes de eutanasiar a ave para a adicionar
à colecção de espécimes do Museu Americano de História Natural

O "guarda-rios de bigode" em questão. 
Mark Bekoff (que esteve em Portugal aquando do primeiro congresso em alternativas da SPEdH), declarou a este respeito que "Killing 'in the name of conservation' or 'in the name of education' or 'in the name of whatever' simply needs to stop", uma opinião profundamente influenciada pela sua conhecida perspectiva afeita aos direitos dos animais, stricto sensu, e que se centra no valor e dignidade invioláveis e inalienáveis de cada animal, como indivíduo. Mas Bekoff é conhecido pelas suas opiniões mais radicais, pelo que esta não constitui surpresa.


Esta prática tem, no entanto, detractores mais insuspeitos no seio da comunidade científica, como patente neste artigo de opinião na revista Science. Já Filardi, na sua resposta às críticas de que foi alvo, assegura que a decisão tomada no local não foi tomada de ânimo leve, e que teve por base o número de indivíduos que conseguiram estimar (~4000 indivíduos, um número que consideram robusto para uma ave insular), através de um método que, a julgar pelos comentários à sua resposta, não é consensual.

A questão, assim, impõe-se: esta prática não poderá constituir, em si, uma ameaça à preservação da espécie? Para lhe dar resposta pedimos a opinião do Prof. João Alexandre Cabral, biólogo/ecólogo, professor associado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), coordenador científico do Laboratório de Ecologia Aplicada da UTAD e investigador no CITAB, e que aqui partilhamos:

"Partilho da perplexidade da generalidade das opiniões expressas a propósito desta controvérsia, particularmente no que respeita a este bizarro e extemporâneo ímpeto coleccionista, que nos faz regressar aos paradigmas de um passado "Vitoriano". À primeira vista, parece ser um acto completamente injustificado e negligente, que encerra uma potencial ameaça para o estado de conservação (desconhecido) das populações  de Guarda-Rios de Bigode. Considerando que quase nada se sabe sobre os requisitos ecológicos desta espécie, do seu efectivo e condição dos seus indivíduos, bem como sobre o nível de ameaça aplicável às respectivas populações, então estamos perante um indesculpável acto de irresponsabilidade, incompatível com uma investigação que se presume ética e respeitável."

Eu tendo a concordar. 

domingo, 18 de outubro de 2015

"Experimental Design Assistant" - Melhorar a fidedignidade dos estudos com animais!

Numa tertúlia sobre ética e experimentação animal na qual participei como convidado há uma semana,  juntamente com Luísa Bastos (SPEdH e IBMC-INEB), houve um ponto em que concordámos: há muitos estudos em animais de má qualidade, e que não produzem dados fidedignos, por falhas fundamentais no seu desenho experimental e uma incorrecta análise e interpretação estatística dos resultados. 

"When mice mislead" (Fonte: Science)
Isto tem sido particularmente notório no teste de eficácia de drogas experimentais, levando a que um grande número de ensaios clínicos seja baseado num corpo de 'evidência' distorcido, onde o efeito terapêutico é sobre-estimado. Assim, os ensaios em humanos - que habitualmente seguem padrões de exigência bastante superiores - não reproduzem os promissores resultados previamente obtidos em animais, muito provavelmente porque estes eram falsos-positivos logo à partida. 

O resultado? Milhões (ou mesmo milhares de milhões) de euros desperdiçados e milhares de animais usados sem real benefício científico e biomédico, para não falar das centenas de pacientes (e  famílias) envolvidos em ensaios clínicos de drogas cuja eficácia, na verdade, nem em ratinhos tinha sido devidamente comprovada. 

Evidentemente, esta questão coloca questões da maior importância científica, médica, ética e até financeira, e poderá pôr em causa a "licença social" dada aos cientistas para usarem animais em investigação biomédica.

O ALS Therapy Development Institute re-testou, seguindo elevados padrões
metodológicos, mais de 50 drogas aparentemente promissoras em animais
mas que tinham falhado em ensaios clínicos. A conclusão foi que, afinal, o
seu efeito terapêutico tinha sido originalmente muito exagerado (Fonte: Nature)

Tendo o(s) problema(s) que levam a que muitos dos resultados científicos publicados não sejam reprodutíveis sido devidamente identificados, cabe à comunidade científica resolvê-los da melhor maneira, envolvendo investigadores, institutos de investigação, revistas científicas, agências de financiamento e reguladores, entre outros 

Uma nova ferramenta para auxiliar os investigadores a desenhar as suas experiências de modo a obter resultados sólidos, fidedignos e reprodutíveis vem da parte da comunidade dos 3Rs, nomeadamente do NC3Rs: O Experimental Design Assistant (EDA)

Esta ferramenta é disponibilizada gratuitamente on-line, e desempenha as seguintes funções:

- Construção de uma representação visual (em diagrama) das experiências
- Feedback e conselhos sobre o desenho experimental proposto
- Suporte para randomização, "análise-cega" e cálculo estatístico do tamanho da amostra necessário
- Informação prática para melhorar o desenho experimental
- Maior transparência sobre o desenho experimental, permitindo a partilha e discussão do plano com colegas e colaboradores. 

Pode esquematizar desta (ou de outra forma) o seu estudo,
e o EDA vai dar sugestões para o melhorar. 
Michael Festing escreveu há um par de anos que ninguém nasce sabendo delinear e analisar experiências científicas. Contudo, com o crescente número de recursos e ferramentas à disposição dos investigadores para colmatar essa falha, é cada vez mais difícil haver desculpas. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Workshop "Sensibilidade e Bom-senso" - Comunicar investigação com animais ao público

Os centros de investigação há muito compreenderam a importância de fazer chegar informação científica ao público. Para além da consequência mais directa de promover o conhecimento e compreensão de factos e conceitos científicos por parte do público, há um conjunto de outros benefícios, como sendo uma maior abertura à inovação, uma compreensão mais abrangente da necessidade de investir em ciência, maior capacidade de intervir de modo informado e participativo em importantes decisões pessoais (de saúde, por exemplo) e nacionais ou, como neste caso, maior receptividade ao uso de animais para fins científicos. 

Assim, a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova irá realizar um workshop para ajudar cientistas, jornalistas e comunicadores de ciência a comunicar os resultados de investigação biomédica realizada em animais. 

Um workshops dirigido a cientistas, jornalistas e comunicadores de ciência.
Mais informação aqui
Mas é legítimo questionar: devemos advogar e promover uma maior aceitabilidade do uso de animais em ciência? Não está a substituição do uso de animais explicitamente definida como um objectivo da União Europeia, patente no investimento nesta área e na própria legislação

A esse respeito, convém clarificar que o objectivo não é fazer uma campanha para advogar o uso de animais, mas antes promover a compreensão que o uso de animais em investigação fundamental e aplicada é ainda, infelizmente, uma necessidade, face ao número de doenças que ainda são causa de sofrimento quer de humanos, quer de outros animais. 

Sabe-se que a grande maioria da população faz uma avaliação positiva da experimentação animal, se tiver uma percepção que o a mesma é devidamente justificada, com respeito pelo bem-estar animal e devidamente legislada. E assim importa dar a conhecer as razões pelas quais os animais são utilizados, como são utilizados e como isto é regulado e supervisionado, tema que eu e a Anna Olsson (e dois outros investigadores) já levámos às páginas do jornal Público

Face à importância de continuar a granjear a confiança e apoio do público na investigação biomédica, vem este workshop contribuir para ajudar os investigadores que usam animais no seu trabalho a falarem do mesmo na primeira pessoa, de modo transparente, acessível, eficaz e empático. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

"Rat Park" - Uma história ilustrada sobre ratos, drogas, ciência e sociedade

Um aspecto central para avaliar a aceitabilidade ética do uso de animais em ciência é a importância atribuída aos benefícios científicos ou médico que se espera daí poderem advir. 

Um exemplo da aplicação deste raciocínio foi o da proibição de testes de cosméticos em animais na União Europeia, uma vez que o consenso atingido - por legisladores, cidadãos, indústria, academia e grupos de protecção animal - foi que o fim não justificava os meios. Também pela mesma razão, a investigação em doenças humanas vistas como resultantes de "más escolhas" por parte dos pacientes - como as associadas ao tabagismo ou à obesidade -  é frequentemente alvo de crítica por alguns segmentos da sociedade, algo que contudo foi já posto em causa neste blog. 

Rat Park - Um estudo clássico que contribuiu para
mudar o modo como vemos a adição às drogas. 
Mas que dizer então da toxicodependência? O actual paradigma para lidar com este problema é o de o encarar como uma doença - ainda que com contornos particulares - reconhecendo contudo a influência de aspectos comportamentais, genéticos e sociais que não podem ser menosprezados. Mas o estigma persistente na sociedade civil, religiosa, política e até académica da toxicodependência como o resultado de uma escolha intrinsecamente ligada a estilos de vida censuráveis e à marginalidade, poderá levar a que muitos coloquem em causa a legitimidade moral e científica do seu estudo em animais.  

Na minha opinião, é precisamente a complexidade do problema que exige uma análise atenta e sobre diferentes perspectivas, que poderá incluir estudar isoladamente alguns aspectos da adição em animais. E é um estudo clássico nesta áreas, por Bruce Alexander e colegas, que aqui apresento, sob a forma de banda desenhada pela mão do artista Stuart McMillen. 

Gosto particularmente desta banda desenhada, que se coíbe de fazer quaisquer juízos morais sobre o uso de animais para estudar a dependência, ficando isso ao critério do leitor. É ainda um excelente exercício de comunicação de ciência que descreve eficazmente uma série de estudos, sem contudo se perder em aspectos técnicos, que destaca o potencial impacto médico e social das conclusões obtidas sem cair no erro de o sobrestimar e que consegue um bom equilíbrio no destaque dado a investigadores, animais, pacientes e à própria ciência e suas conclusões. 

Ao invés de procurar descrever esta estória aos leitores, convido-os antes a ler na íntegra a banda desenhada, que se encontra disponível em Português (sob o título Ratolândia). 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Animalogos em congresso



Há duas semanas estivemos no congresso de UFAW - Universities Federation for Animal Welfare em Zagreb. Ou mais corretamente, estive, porque ao contrário de há 2 anos em que estivemos todos presente, fui sozinha em representação dos três animalogantes, para apresentar o nosso trabalho sobre quantidade e qualidade de vida (mais sobre isso abaixo).

Desde o primeiro em que participei (2001, em Londres), considero os congressos de UFAW uma prioridade profissional por vários motivos. São sempre excelentes, focando um tema com relevância e pertinência, com palestrantes de renome internacional. São inspiradores, tanto pela qualidade das palestras como pela diversidade da participação. Aqui encontra-se não só académicos, mas pessoas de todo o tipo de organismos governamentais e não-governamentais na área de bem-estar animal. Quem quer saber mais concretamente do que foi falado no congresso, encontra um relato no Twitter do UFAW.

Na nossa apresentação abordamos o dilema de quantidade e qualidade de vida, com base em três exemplos: a (redução em) longevidade da vaca leiteira, as formas de criar vitelos machos de raças de produção de leite e a tensão entre redução e refinamento na experimentação animal. O trabalho resulta do desafio que aceitamos em 2013, de contribuir para o livro Dilemmas in Animal Welfare (CABI Publishing, 2014).

Além das palestras, consegui aproveitar um bocado da hora do almoço para visitar o Croatian Museum of Naïve Art e a sua coleção que não podia ser mais tematicamente relevante para um congresso onde a relação humano-animal está em enfoque.






sexta-feira, 29 de maio de 2015

Curso: Bioética - resposta para velhos e novos desafios

Entre 16 de Junho e 3 de Julho, ir-se-á realizar na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro o curso Bioética: resposta para velhos e novos desafios.  Segundo os organizadores: 

O curso pretende responder à necessidade crescente de desenvolver um conjunto de atitudes, pensamentos e argumentos capazes de aumentar a compreensão de questões éticas/morais “novas” e “velhas”, à luz de um desenvolvimento tecnológico crescente. As opiniões e o pensamento moral são analisados cientificamente, estimulando a argumentação, sofisticação do raciocínio e a reflexão ética dos formandos. 


O curso destina-se a estudantes, professores e investigadores de áreas ligadas às Ciências Naturais, Saúde, Humanidades e Ciências Sociais à Filosofia e Ética, mas está também aberto ao público em geral que esteja interessado em perceber e debater as questões éticas, desenvolvendo em consciência a sua capacidade de intervenção. 

O curso é de 85 horas, no total, sendo 30 horas de contacto e atribui 3 ECTS. 

terça-feira, 26 de maio de 2015

O gato-helicóptero!

Por falar em gatos, partilho aqui mais um caso polémico, ao qual fui chamado à atenção por uma amiga que, por acaso, é defensora acérrima dos direitos dos animais. 

Esta é a estória do artista plástico holandês Bart Jansen, que desgostoso pela perda do seu gato por atropelamento, decidiu após um período de luto dar-lhe uma "oitava vida", desta feita como "gato-voador". Para isso, instalou um rotor em cada uma das patas do cadáver embalsamado de "Orville" e o equipamento que lhe permite controlá-lo à distância. 

O "Orvillecopter"(Fonte)
A face embalsamada do animal parece até ter um ar de estupefacção, como se um animal vivo ali estivesse, interrogando-se sobre o que se está a passar. E é por este cadáver embalsamado parecer reter tanto do animal original (na verdade, é só mesmo a pele e o pêlo) que esta obra nos surpreende e joga com os nossos sentimentos de empatia para com os animais. 

A arte contemporânea tem sido definida como tudo que nos suscitar emoções, mas aparte a discussão sobre o que é ou não é arte, podemos interrogar-nos sobre a moralidade deste tipo de intervenção póstuma. Será uma degradação da dignidade do animal? Se sim, quais os limites para o que podemos fazer com os 'restos mortais dos animais'? Estará fazer sapatos, cintos e malas do couro, ou consumir a sua carne dentro desses limites, mas obras de arte não? 



Se seguirmos uma linha de pensamento contratualista, esta peça é sem dúvida um faux pas, já que desperta fortes sentimentos negativos em muitos daqueles que gostam de gatos, e essas pessoas importam, claro. Mas se apenas estamos perante arte se nos despertar emoções, deve um artista preocupar-se com que essas não sejam negativas?

Já um utilitarista poderia considerar que nenhum dano está a ser feito, e interrogo-me sobre o que Peter Singer (um 'utilitarista de interesses') diria disto, já que o animal não foi morto para este efeito, e assim o seu interesse em permanecer vivo não foi contrariado deliberadamente.

Mas que dirá um apologista dos direitos dos animais, à laia de Tom Regan?  Têm os animais direitos sobre os seus próprios cadáveres? A ser o caso, o consumo natural destes pelos necrófagos e outros decompositores não constituiria uma violação destes direitos? Confesso que tenho alguma dificuldades com o conceito de dignidade intrínseca dos animais, até porque o próprio conceito de dignidade humana é uma construção social, que valorizo muitíssimo, mas não é natural e intrínseca à espécie humana ou a qualquer outra (não me parece que o Universo se importa com tal conceito, ou com qualquer outros), no meu entender. E se para um 'bem-estarista' (não gosto muito de rótulos, mas vou usar este aqui, como faço amiúde) como eu, que se preocupa com a qualidade de vida dos animais (vivos), o conceito de dignidade animal é vago e quasi-esotérico, que dizer do de um cadáver? 

Afinal de contas, isto poderá resumir-se a uma questão estética. Mas a estética importa, principalmente se afectar o modo como percepcionamos os animais. E tratar como objecto um corpo embalsamado que retém a aparência de um animal vivo poderá como ser visto como uma contribuição para a instrumentalização dos animais. Não concordo necessariamente com esta conclusão, mas  há algo que me incomoda, nesta 'obra'. 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

O "caso" da queda do gato hipotético

[Actualização: foi hoje também notícia no Público]

Foi postado recentemente no blog Aventar um post  do professor de história do ensino secundário João José Cardoso  intitulado "Quando os animais escrevem manuais", e no qual o autor manifesta a sua repulsa por um exercício de um livro de Físico-Química do 9º ano (Zoom, Areal Editores), sendo o cerne do problema o lançamento de um gato de uma altura de 5 metros.


No mesmo post, destila fel pelos presumíveis autores do exercício, os quais refere pelo nome, lamentando a impossibilidade de os poder largar de uma janela abaixo, acto que o autor presume que fosse causar danos substanciais (ao piso, claro está) pela densidade do "calhau rolado" que presume possuírem (confesso não conhecer a expressão, só os propriamente ditos). No chorrilho  de comentários ao post incendiário, alguns do próprio autor, sobe-se a fasquia: os autores são agora bestas, dever-se-ia atirá-los e medir a profundidade do buraco no chão. 

O exercício polémico
Segundo o autor, apela-se neste exercício ao incumprimento de uma lei. Não vejo como, confesso, já que sendo claramente ilegal atirar um animal de uma janela, não vejo que o exercício faça qualquer apelo nesse sentido. Carecerá este livro de um disclaimer à laia de "nenhum animal foi magoado na escrita deste manual"? Ou "não tentem isto em casa"? Porventura considerará o autor mais benigno incitar à violência contra autores de manuais escolares, pessoas que existem, de facto, com direitos (inclusive ao bom nome) que alguém que presumo de esquerda deveria ter na mais alta consideração?

É assustador como um simples exercício num manual (ainda que um tanto ou quanto infeliz) de imediato faça com que estes professores, e colegas do autor do post, passem a "bestas". Já vi este exercício de alterização por estigmatização 'do outro', e das consequências que pode ter, como é o caso dos ataques (na forma tentada, concreta e até virtual) a investigadores que usam animais nas suas experiências. Se estas pessoas forem apresentadas como sub-humanos, haverá quem não veja problema em tratá-los da mesma forma. 

E, ainda que de mau-gosto, será tão desumano o exercício em questão? É de notar que:

  1. Há um problema clássico da Física relacionado com o modo dos gatos caírem "de pé" 
  2. A imagem ilustra o righting reflex, mostrando que o animal cai com as quatro patas no chão. 
  3. Uma queda desta altura em princípio não teria consequências de maior para o animal (mas por favor não tentem isto em casa, OK?) **
  4. É um gato hipotético. Get over it. 

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*[Mas não é o caso do exercício apresentado, que é somente um problema de queda de graves] 
Há uma aparente contradição do princípio da conservação do momento angular, pois o gato começa com momento angular zero, mas roda 180º, quando o momento angular deveria continuar a ser zero durante a queda. Isto explica-se pelo facto de um gato não ser um sólido inerte e ter ossos e músculos cuja acção conjunta permite exercer a necessária torção. O popular podcast "Smarter Everyday" exemplifica esta experiência neste vídeo

** Mais intrigante ainda é o facto de ser mais seguro para um gato cair de alturas superiores a sete andares. Presume-se que o seu rácio peso/área de superfície em queda (ao estenderem o corpo como "pára-quedas") lhes permita uma velocidade terminal não fatal, como ocorre com os esquilos-voadores. Isto, associado à combinação de  flexibilidade, força e leveza das suas patas (que permite dissipar muita da a energia do impacto), leva a que possam cair de dezenas de andares de altura, ainda que frequentemente com mazelas a merecerem atenção de um veterinário. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

São os chimpanzés pessoas?

O que define uma pessoa?

Fonte
É o facto de pertencer a uma dada espécie? É uma característica intrínseca e inalienável do ser humano? Qualquer ser remotamente humano será uma pessoa, de plena dignidade, direitos e personalidade jurídica? Se tal é o caso, como justificar a interrupção voluntária da gravidez? Ou a morte assistida/eutanásia? Quando começamos, ou deixamos de ser pessoas?

Isso são questões para a Bioética clássica, como definida por Potter nos anos 1950s. Mas podemos ir mais longe: serão os não-crentes, aos olhos do "Estado Islâmico", pessoas? Eram-no os Judeus para os Nazis ou os Arménios para o Império Otomano? Ou os escravos de tempos idos, ou os modernos? Ou as mulheres no Médio-Oriente, ou na antiga Roma?

Parece que, aparte a discussão filosófica, na prática o estatuto de "pessoa" não tem sido atribuído automaticamente a todos os seres humanos. Ao longo dos tempos, e até mesmo hoje, para que um grupo de seres humanos reconheça o estatuto de "pessoa" a um outro, este deverá ter características afins a esse grupo. Deverá ser então de certa nacionalidade, cor, etnia, sexo, religião, ou ______________ [INSERIR CARACTERÍSTICA AQUI].  

Mas até recentemente não se questionou um requisito fundamental: ser humano

Acontece que alguns seres humanos pretendem abrir a porta do clube a outras espécies, nomeadamente a cetáceosprimatas, psitacídeos e elefantes, reconhecendo-lhes inteligência, complexidade comportamental e autonomia suficientes para que possam partilhar connosco (ou, melhor dizendo, com os humanos a quem é reconhecido) este estatuto. Na linha da frente desta batalha está o NonHuman Rights Project.

É este movimento que esta semana conseguiu que uma juíza de Nova Iorque, nos Estados Unidos emitisse um habeas corpus, a dois chimpanzés usados como modelos em investigação na Universidade de Stony Brook - nomedamente em evolução do bipedalismo - e atribuindo-lhes assim o estatuto de "pessoa", declarando a sua situação como "aprisionamento ilegal". A juíza acabou por, passadas uma horas, emendar a mão e rectificar (ou clarificar) a sua decisão, retirando-lhes esse estatuto, que num sistema baseado largamente na jurisprudência, como o Americano, poderia ter tido consequências importantes.

Neste momento, há uma série de recursos e contra-recursos para decidir o futuro deste par de animais (ou deveria dizer "pessoas"?). Mas, seja qual for o desfecho, é um marco importante na história da nossa convivência com outros animais, sejam eles pessoas ou não. 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Mariano Gago - Cientista, político, homem de visão e exemplo de dedicação ao Serviço Público

"Sem pensamento, sem diálogo estruturado sobre o porquê das coisas, sem controvérsia, sem enigma, sem verdadeira experimentação, não há ciência nem educação científica."


- José Mariano Gago (1948-2015)
Palavras finais do discurso de abertura do primeiro fórum Ciência Viva

Faço pela primeira vez um off-topic neste blog, mas que considero essencial, uma vez que se hoje sou um investigador, se tenho um doutoramento (financiado por uma bolsa FCT) e mesmo se escrevo estas linhas como profissional nesta área, em muito o devo a José Mariano Gago. 

O bem-estar animal não seria nunca em Portugal uma área prioritária, e foi exactamente por Mariano Gago se ter recusado a definir as tais famigeradas "áreas estratégicas" mas antes valorizado a qualidade das equipas e dos projectos, que tive esta e outras oportunidades para desenvolver trabalho académico neste domínio, trabalho que deu frutos e foi inclusive reconhecido internacionalmente. 

Há, claramente, um país antes e depois de Mariano Gago, pois foi ele que pôs a ciência definitivamente no mapa - político e social - em Portugal, bem como a ciência nacional no  mapa europeu e mundial. Esteve à frente da pasta da ciência e tecnologia (que antes nem existia) em quatro governos socialistas, e foi sua a visão que permitiu o "choque-cientifico" nacional, aquela que foi a decisão política mais consensual e com melhores resultados no país, tanto que nem mesmo o PSD ousara mudar, até à chegada de Nuno Crato. 

Eminente cientista, tinha a convicção (que partilho) de que quanto maior a cultura científica de um povo, maior a sua capacidade de intervir de modo informado e participativo nas importantes decisões de um país. Mas não se ficou pela ideologia, e criou a Agência Ciência Viva, inovadora em toda a Europa, e ainda hoje um motor da promoção e democratização da ciência. Pois é isso mesmo que acontece quando o público e a ciência se aproximam: melhor cidadania e mais democracia. E já perdi a conta ao número de diferentes iniciativas no âmbito da Ciência Viva em que colaborei, para não falar nos muitos centros Ciência Viva que visitei, primeiro sozinho, e depois já com o meu filho. 

Foi perfeito? Não. Há muito que o estatuto dos bolseiros de investigação precisa de ser mudado, e nada fez nesse nesse sentido. Quando deixou a pasta em 2011, já o valor das bolsas estava congelado há dez anos. Mais, foi responsável pelo modo (na minha opinião estapafúrdio) como o processo de Bolonha foi implementado em Portugal. E outros pecados houve, certamente. Afinal, era humano...

E, apesar de todas estas falhas foi, na minha opinião, o melhor ministro da nossa democracia. Se, por um lado, isto poderá dizer algo sobre a qualidade média dos governantes em Portugal, por outro não nos podemos esquecer da sua visão para Portugal a longo prazo, sem imediatismos, populismos e eleitoralismos; da sua dedicação e sentido de dever cívico; do modo como afincadamente trabalhou para fazer da Ciência e do Conhecimento em Portugal uma prioridade, e dos frutos que hoje colhemos (e que continuaremos a colher)  da sua acção governativa. 

Hoje junto-me a centenas (milhares, talvez) de cientistas que o homenagearão à porta dos seus institutos. Tal gesto é absolutamente inédito em Portugal e presumo que raro no mundo, mas absolutamente merecido. 

terça-feira, 24 de março de 2015

Inovações na medição e avaliação de bem-estar animal: ecos do meeting NC3Rs/BBSRC

Na passada semana, 17 de Março, o nosso grupo de investigação do IBMC esteve representado numa conferência em Londres do National Centre for the Replacement, Refinement and Reduction of Animals in Research (NC3Rs), uma agência governamental do Reino Unido dedicada a financiar e promover inovações em alternativas de Substituição, Redução e Refinamento da investigação com animais.

Duas sociedades científicas
colaborando em prol do bem-estar
de animais usados em ciência.
A conferência teve organização conjunta com a BBSRC, a principal agência financiadora de investigação biomédica fundamental e aplicada no Reino Unido, e que através da NC3Rs apoia projectos de investigação em saúde e bem-estar animal. Esta conferência destinou-se assim a apresentar o progresso de estudos em curso promovidos pelas duas entidades financiadoras nesta área, tendo assim sido primariamente focada em Refinement, em detrimento dos outros Rs. Um conjunto de prestigiados investigadores da área estiveram assim presentes, dos quais destaco Marian Dawkins, Mike Mendl, Jane Hurst e Georgia Mason. 

Esta conferência apresentou os mais recentes desenvolvimentos em bem-estar animal, alguns dos quais serão merecedores de atenção especial neste blog por parte das colegas que me acompanharam (Ana Maria Valentim, Ana Catarina Castro, Ana Margarida Pereira e Joana Fernandes). É contudo de salientar que, por se tratarem de estudos ainda em curso, os resultados apresentados eram no geral ainda bastante preliminares.

Tiveram destaque nos estudos financiados pelo NC3Rs
os roedores, peixes e primatas não-humanos
Acho pertinente começar pela própria natureza das instituições organizadoras. A BBSRC tem uma dotação anual de cerca de 600 milhões de Euros para financiar projectos e bolsas de investigação (já por si superior aos 400 milhões da FCT, practicamente a única fonte de financiamento público da ciência em Portugal), num país onde dezenas de outras agências públicas e privadas financiam investigação biomédica, para não falar do avultado investimento da indústria. O orçamento para o bem-estar animal é contudo, e compreensivelmente, uma pequena fracção do total (cerca de 7 milhões de euros).

Já o NC3Rs não têm paralelo em qualquer parte do mundo. Apesar de haver vários centros para os 3Rs no mundo industrializado - e em particular na Europa - nenhum deles tem a dimensão, o nível de financiamento e o alcance desta agência britânica, que deve mesmo a sua existência à própria iniciativa do governo, o que até nem é de estranhar num país com tão grande tradição na protecção dos animais usados para fins científicos, e de onde o conceito dos 3Rs é originário.

Os estudos financiados pelo BBSRC focavam-se mais na saúde
e bem-estar de animais de produção
O orçamento anual do NC3Rs é de cerca de 10 milhões de Euros, e é responsável actualmente por alguns dos principais avanços científicos nos 3Rs. A ciência é aliás, o foco principal desta organização, cuja política se centra em promover uma ciência mais humana, mas também mais fidedigna e com maior valor translacional (i.e., com maior e mais directo benefício para as medicinas humana e veterinária).  E foi exactamente essa a imagem que me veiculou Mark Prescott, numa breve reunião informal (a propósito de um projecto de promoção dos 3Rs para Portugal, ainda numa fase muito embrionária) onde fez questão de salientar a primazia dada à ciência e o enquadramento da actividade do NC3Rs no progresso científico, não só como políticas centrais da organização, mas também como o seu principal cartão de visita.

Em termos gerais, e considerando que alguns dos trabalhos apresentados serão alvo de análise mais detalhada, destaco o seguinte:
  • O destaque dado ao bem-estar de espécies emergentes como modelos em investigação biomédica, nomeadamente os peixes, para os quais muito há ainda a fazer ao nível do seu bem-estar.  
  • O recurso a novas tecnologias como instrumentos de eleição na medição e avaliação de bem-estar animal
  • A apresentação da Animal Welfare Research Network,  uma rede que integrará os investigadores em saúde e bem-estar animal do Reino Unido, e que será financiada pela BBSRC. 
Em jeito de desabafo, não posso deixar de constatar o marcado contraste entre o panorama científico português e o britânico, relativamente ao nível de desenvolvimento e relevância dados à ciência em bem-estar animal, no Reino Unido.

O progresso científico em Portugal nos últimos vinte anos é absolutamente surpreendente, mas falta igual evolução na consideração dada à importância da saúde e bem-estar dos animais, sejam eles os de laboratório ou quaisquer outros. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Portugueses investigando em bem-estar animal - Kelly Gouveia

Kelly Gouveia licenciou-se em medicina veterinária pelo ICBAS em 2007 e tem feito desde 2008 um percurso interessante e diversificado ao nível da investigação em bem-estar animal. Concluiu recentemente o seu projecto de doutoramento pela Universidade de Liverpool, sob a orientação de Jane Hurst e Paula Stockley no NC3Rs, e que se focou no refinamento do manuseamento de murganhos. 

Nuno Franco - Olá Kelly, podes começar por fazer um breve resumo do teu projecto de doutoramento e das suas principais conclusões e implicações?

No meu projecto de doutoramento estudei formas práticas de reduzir o stress associado ao manuseamento, em ratinhos de laboratório. O stress associado ao manuseamento constitui um problema de bem-estar e pode induzir variação nos resultados experimentais. Animais de laboratório necessitam constantemente de ser manuseados, quer seja para efeitos de limpeza, simples inspecções diárias ou para fins experimentais. Dado que o ratinho é a espécie laboratorial mais usada neste momento, isto pode ter implicações para muitos milhões de animais utilizados em ciência mundialmente. Embora o método mais comum de manusear ratinhos seja levantá-los pela cauda, uma publicação relativamente recente (Hurst & West, 2010) demonstrou que este método induz aversão ao manuseamento e ansiedade, contrariamente a dois métodos alternativos: guiar o animal para dentro de um túnel presente na jaula ou usar a técnica da mão aberta em que o animal e apanhado com a mão aberta e segurado na palma da mão (hand cupping). 

O meu projecto analisou a eficácia destes métodos relativamente ao método da cauda, a fiabilidade de os implementar na prática e modos de os integrar na prática laboratorial. Outra parte do meu projecto consistiu em testar os efeitos do método de manuseamento na fiabilidade de resultados experimentais, principalmente em experiências que aplicam testes comportamentais/cognitivos. O método do túnel contribui para uma redução significativa do stress associado ao manuseamento e pode ser implementado de forma prática, ou seja, não exigindo uma habituação prolongada e à parte do contexto laboratorial. A redução de stress associado ao manuseamento também pode melhorar a fiabilidade dos resultados experimentais e portanto constitui um método eficaz de introduzir os 2Rs (de refinamento e redução) nas práticas de laboratório.  


Que desafios vês à adopção mais generalizada destas técnicas para o manuseamento de animais de laboratório?

Penso que ha vários desafios. O desconhecimento sobre os efeitos mais generalizados destes métodos, tanto a nível fisiológico como comportamental, e a sua influência nos resultados experimentais são desafios para a da adopção destes métodos como padrão. Poderá haver situações em que usar uma técnica menos aversiva possa reduzir a possibilidade de detectar um efeito experimental ou mesmo ser contra-indicada. Por exemplo, em psicofarmacologia pretende-se usar modelos animais que demonstrem elevada ansiedade. É possível que minimizando o stress ambiental associado ao manuseamento possa haver um efeito atenuante, e portanto influenciar o efeito farmacológico de um ansiolítico. É necessário haver mais investigação sobre os efeitos de manuseamento prática variação de resultados experimentais de forma a encaminhar para uma prática generalizada destes métodos. Também o uso destes métodos poderá ter algumas limitações, como por exemplo, para o manuseamento de múltiplos animais por jaula em que poucos animais cabem de uma vez no túnel ou o uso destas técnicas em animais muito jovens em que a habituação ao manuseamento não é imediata. O próprio processo de implementação generalizada destes métodos também constitui um desafio, pois é necessário que organizações científicas e entidades reguladoras reconheçam a importância do manuseamento menos aversivo e comecem a implementar as técnicas na formação de investigadores e pessoal técnico.

Antes de desenvolveres este projecto no NC3Rs, em que outros trabalhos na área de bem-estar animal estiveste envolvida?

Durante o meu estágio de veterinária fiz dois projectos sobre o bem-estar de animais no matadouro. Num deles investiguei a incidência de lesões post mortem em frangos criados em regime extensivo, e a sua associação com acontecimentos que antecedem ao abate. No outro estudei a fiabilidade de determinados comportamentos manifestados por bovinos durante o atordoamento, como indicadores de um atordoamento eficaz. Após ter completado o curso, estive envolvida na submissão da candidatura de um projecto de investigação a FCT, sobre estratégias para aumentar o uso dos parques em regime extensivo na criação de frangos. Fiz também um projecto numa sociedade protectora de animais de companhia no Porto, em que estudei o bem-estar de gatos alojados em grupos, relativamente a alguns factores, como por exemplo o tempo de estadia e composição do grupo. Pouco antes de começar o meu doutoramento também realizei um projecto na universidade de British Columbia (Vancouver, Canada) em que investiguei aprendizagem do uso de free-stalls em novilhas leiteiras.  

Não há em Portugal nenhuma instituição científica nem orçamento dedicado ao desenvolvimento e promoção dos 3Rs, ao contrário do que acontece noutros países europeus. O que é que, na tua opinião, faria falta para que fosse criado um centro para investigação nestas áreas no nosso país?

Julgo que em parte falta haver investimento financeiro de grandes empresas em Portugal. Alias, esta diferença e muito notável entre países com baixo ou elevado sucesso na implementação de programas de bem-estar animal. Também era necessário haver envolvimento ou colaboração com os cientistas mais conceituados da área a nível internacional, para aumentar as hipóteses de aprovação dos projectos de investigação pelas organizações cientificas portuguesas e internacionais.

Para finalizar, que projectos tens para o futuro, no curto e médio prazo?  

Gostaria de continuar a trabalhar nesta área e talvez um dia fazer parte de um centro de investigação científica em Portugal, quem sabe!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Curso de delineamento experimental e estatística para estudos com animais

Fund for the Replacement of Animals in Medical Experiments - FRAME vai organizar de 30 de Março a 1 de Abril um curso de desenho experimental delineamento experimental e estatística na Universidade de Coimbra. 

Ainda que seja contra-intuitivo pensar que uma organização criada especificamente para promover a substituição de animais em biomedicina se dedique a formar investigadores para usar animais, a verdade é que tal não constitui qualquer contradição com os princípios desta ONG. 


Melhorar as experiências E diminuir o número de animais.
Não só é possível como é um imperativo de ordem ética e científica.
Acontece que a FRAME são se dedica apenas a promover e divulgar (na revista ATLA- Alternatives to Laboratory Animals) novos métodos e tecnologias que permitem a 'substituição' - Replacement - do uso de animais, mas também os restantes 3Rs de Russel e Burch, nomeadamente os de Reduction (Redução) e Refinement ('Refinamento'). 

Por Reduction entende-se o uso do menor número possível de animais para atingir um determinado objectivo científico (sem prejuízo da validade científica) ou, em alternativa, a extrair mais e melhor informação  aumentar o número de animais necessário. Isto é conseguido, por exemplo, através de desenho experimental sofisticado, estudos longitudinais (estudando o mesmo indivíduo, que se torna o seu próprio  'controlo') ou reduzindo o 'ruído' experimental que afecta a validade interna das experiências e pode levar a falseamento dos resultados. 

Já por Refinement entende-se o 'refinamento' das experiências nos sentido de minimizar (ou mesmo eliminar) a dor e desconforto dos animais, bem como providenciar experiências positivas e uma vida confortável, sem prejuízo dos resultados experimentais. 

A importância destes dois Rs não pode ser menosprezada, por razões éticas, mas também científicas. Tem sido demonstrado que uma grande parte dos estudos com animais publicados apresentam resultados não-reprodutíveis, ou exagerados, por serem mal concebidos, executados e interpretados. Isto leva a que muitos milhões de euros e vários milhares de animais sejam desperdiçados em estudos de relevância médica limitada. 

Assim, a FRAME dedica-se não só a financiar projectos para desenvolvimento de métodos não-animais - inclusive no seu próprio laboratório na Universidade de Nottingham - como também oferece cursos de delineamento experimental para ensinar aos investigadores a tirar o melhor partido dos animais que são usados, através da redução de variabilidade indesejada (incluindo a negligência pelo bem-estar animal) e de enviesamentos comuns resultantes da falta de conhecimento de princípios básicos de desenho experimental e estatística. 

Isto deve-se ao facto desta organização se orgulhar de fundamentar a sua actividade em princípios científicos - e não na opinião pública - pelo que não exige uma abolição imediata do uso de animais que pusesse em risco o desenvolvimento biomédico (bem como da medicina veterinária), mas uma redução progressiva através do desenvolvimento científico. 

A FRAME tem uma abordagem científica como um dos seus princípios basilares.

Quanto a este curso em si, posso falar da minha própria experiência, como alumnus. Participei na edição de 2009, em Manchester, e posso assegurar que o meu conhecimento e perspectiva relativamente ao desenho de experiências com animais mudou significativamente, e para melhor. Recomendo-o vivamente a todos aqueles que se interessam na validade e ética dos seus estudos.

Mais informações aqui

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A "Ilha do Dr. Moreau" é um laboratório na Universidade de Rochester?

Esta poderá ser a primeira reacção de muitas pessoas ao descobrirem que investigadores nessa universidade injectaram células gliais humanas precursoras de astrócitos em cérebros de ratinhos, produzindo animais mais inteligentes e com melhor memória que os seus irmãos "normais". 

Crédito da imagem: Scientific American (Fonte)
Até ao século XXI, o papel das células gliais no sistema nervoso central (SNC) era tido como fundamental, mas secundário, como que prestando "vassalagem" aos personagens principais do SNC, os neurónios, dando-lhes sustentação, protecção e isolamento, nutrientes e oxigénio, defesa contra agentes infecciosos e remoção de neurónios mortos. 

Contudo, no nosso século descobriu-se que podem também ter um papel directo na neurotransmissão, sendo ainda vitais para o pensamento consciente pelo seu papel na modulação da actividade dos neurónios e coordenação da transmissão de sinais entre estes, no espaço sináptico.

Ilustração representativa de células gliais (fonte)
Como os astrócitos humanos são até  vinte vezes maiores que os dos ratinhos e muitíssimo mais ramificados, este grupo de cientistas questionou se as nossas células gliais evoluíram no sentido de contribuir para uma maior inteligência humana, justificando as diferenças com a de outras espécies.
Num estudo conduzido por esta equipa e publicado no ano passado, células precursoras de astrócitos foram implantadas em ratinhos imunodeficientes  (para evitar rejeições do xenotransplante) neonatos.

Como descrito no vídeo, os resultados foram surpreendentes!


A grande diferença entre o estudo descrito no vídeo e o mais recente estudo desta equipa foi que, no primeiro, as células gliais humanas encontravam-se numa fase mais madura e integraram-se no cérebro dos animais sem se desenvolverem ou multiplicarem mais (mas foram suficientes para alterar dramaticamente a capacidade cognitiva e memória dos ratinhos), ao passo que no segundo as células gliais humanas fetais usadas desenvolveram-se e dividiram-se no cérebro dos ratinhos ao ponto de substituírem completamente as previamente existentes no espaço de um ano. Em termos da quantidade bruta de células, estes cérebros são assim "metade humanos", até porque há mais células gliais que neurónios.

Representação artística de um
oligodendrócito revestindo axónios 
com baínhas de mielina.(fonte)
É de salientar que num estudo paralelo a este transplantaram estas células para ratinhos neonatos com uma deficiência na produção de mielina. Neste caso, as células humanas diferenciaram-se em oligodendrócitos, especialistas no envolvimento dos axónios neuronais com camadas de mielina. De alguma maneira, as células reconheceram o defeito e procuraram compensá-lo, sendo ainda mais surpreendentemente se considerarmos que fizeram no cérebro de um animal de outra espécie! Isto abre possibilidades para o tratamento de doenças como a esclerose múltipla, sendo que esta equipa já pediu autorização para conduzir ensaios clínicos para testar se o recurso a esta biotecnologia pode ajudar no tratamento desta doença.

Contudo, a Scientific American coloca a pergunta: Isto ainda é um ratinho? Eu não tenho dúvidas que apesar de estarmos a falar de ratinhos mais inteligentes estes não deixam de ser, fundamentalmente, ratinhos. Apenas são mais eficientes a fazer aquilo que os ratinhos conseguem fazer. 

Aparte o uso de células fetais humanas (que vou deixar para discussão pelos bioeticistas stricto sensu), questões éticas prementes poderão surgir se células gliais humanas forem implantadas em chimpanzés, ou até neurónios humanos, em qualquer espécie.

Devemos assim questionar se existem limites para o que se poderá fazer neste domínio, independentemente da nossa capacidade técnica para o fazer? Poderá estar de alguma maneira em risco a dignidade humana? E a dignidade do animal?

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"E se os animais do Biotério entrassem em greve?"

Esta é uma das muitas questões colocadas na peça "Biodegradáveis", em palco no Teatro Carlos Alberto no Porto até dia 16 de Novembro. Esta peça original é da responsabilidade da companhia Visões Úteis.

Segundo a companhia, não se pretende retratar o quotidiano do investigador, mas antes "reflectir sobre as expectativas e alguns dos estereótipos que o grande público parece partilhar em torno do que é a prática do cientista." Segundo os criadores, pretende-se ainda celebrar algumas características que acreditam serem comuns a artistas e cientistas: "a persistência, o sacrifício, a paixão, a constante dúvida e o permanente desejo de perceber e ajudar a melhorar o humano."

A peça aborda temas sérios - como o cancro e o testamento vital - recorrendo à comédia, sendo de destacar o papel que cientistas do IPATIMUP da Universidade do Porto e o 3Bs da Universidade do Minho tiveram como consultores para esta peça. 

Crédito da foto: Susana Neves. Fonte
Os actores partilham o palco com diversos animais, nomeadamente peixes e gerbos, que presumo serem proxys para os peixe-zebra e murganhos e ratos utilizados como modelos em investigação biomédica. Não sei o suficiente porque ainda não assisti à peça, mas interrogo-me porque razão não utilizaram estas mesmas espécies. 

Já agora, que destino terão estes animais utilizados como décor? É o seu uso justificado para este propósito? Não me opondo, a priori, com este tipo de utilização - desde que responsável - preocupa-me que não haja nenhuma informação disponível acerca da manutenção e futuro destes animais, o que não deixa de ser irónico face à apertada regulamentação do uso dos animais de laboratório que se procura aqui representar. 

Crédito da foto: Susana Neves. Fonte
Já que se abordam nesta peça questões de foro ético, ficará ironicamente a ética animal de lado, aqui? Se tiver oportunidade de ver a peça, voltarei a este tema no Animalogos

sábado, 8 de novembro de 2014

"I don't like you" - Jane Goodall e John Oliver

Numa curta entrevista com o brilhante John Oliver - o apresentador e humorista britânico que é hoje um fenómeno de popularidade nos Estados Unidos -  Jane Goodall revela o seu bom-humor (e paciência), sendo o mesmo utilizado como veículo para divulgar as principais descobertas da primatóloga ao longo da sua vida dedicada ao estudo dos chimpanzés. 

O que eu gosto mais desta entrevista é que, ao passo que a maioria das peças televisivas "sérias" tendem a romantizar a vida e trabalho desta investigadora, aqui não só isso não acontece, como é dada oportunidade a Goodall de de não se levar demasiado a sério, ao mesmo tempo que são abordadas questões sensíveis ao nível da investigação destes primatas, como a atribuição de nomes aos indivíduos, ao invés de números de referência. 



Goodall também não se coíbe de designar os seus comportamentos com a mesma terminologia com que nós, humanos, descrevemos os nossos comportamentos. Assim, para Goodall, comportamentos sociais como dar abraços, beijos e as mãos não são  "parecidos" ou "análogos" aos dos humanos, mas a mesma coisa, de facto. 

Eu não sou nada de antropomorfismos, mas acho que no caso de animais tão biologicamente próximos, estamos de facto perante comportamentos homólogos, salvas as devidas distâncias. 

Uma peça despretensiosa, interessante, didática e cativante como a comunicação de ciência deverá ser. Uns cinco minutos bem passados.