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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Porque é importante medir a dor em murganhos? - Entrevista a Matthew Leach

No seguimento do nosso último post, apresentamos uma entrevista ao primeiro autor do recente artigo The Assessment of Post-Vasectomy Pain in Mice Using Behaviour and the Mouse Grimace Scale, Matthew Leach, da Universidade de Newcastle (tradução por Nuno Franco). 


Matthew Leach, 2012

Anna Olsson – Olá Matt. Antes de mais parabéns pelo teu artigo recentemente publicado na PLoS One. Neste artigo vocês comparam diferentes métodos de avaliar a dor em murganhos.  Podias por favor descrever brevemente como este trabalho foi realizado?

Matthew Leach – Neste estudo nós comparamos as mudanças nas expressões faciais de murganhos usando a Mouse Grimace Scale (MGS) [1] com outros métodos validados de avaliação de dor baseados no comportamento dos animais. Neste caso, os animais avaliados foram murganhos [ratinhos] macho sujeitos a vasectomia de rotina [2]. Para isso foram recolhidos vídeos do comportamento dos animais um dia antes e uma hora após a cirurgia, tendo sido usadas imagens estáticas retiradas dessas gravações para a avaliação com base na MGS.
Os animais foram divididos em três grupos, um tendo recebido solução salina [grupo controlo], outro meloxicam, e outro bupivacaína [3], administradas 30 minutos antes da cirurgia. Foi estabelecido que, se necessário, os animais receberiam ainda analgesia de intervenção, no pós-operatório



A.O. – Quais foram as principais conclusões?

M.L. – Fomos capazes de detectar e avaliar a dor após vasectomia em murganhos através da MGS, tendo-se registado entre os momentos pré e pós-cirurgia um aumento significativo na classificação com este método. Através da MGS, foi também possível aferir a eficácia do uso de analgésicos, que se reflectiu numa menor classificação MGS após a vasectomia nos grupos que a receberam.  Observamos ainda que a MGS foi tão eficaz na avaliação da dor pós-vasectomia e eficácia analgésica em murganhos como  métodos de avaliação comportamental validados.

A.O. - Porque, e para quem, é isto é importante?

M.L. – Nós pensamos que o desenvolvimento de melhores métodos para avaliação e alívio da dor em animais, e murganhos em particular, é crucial. Presentemente sabemos muito pouco sobre o modo como avaliar e aliviar a dor induzida por procedimentos rotineiramente realizados nestes animais. A identificação e redução da dor em animais usados em investigação não só é importante para o seu bem-estar, mas também para a validade dos dados recolhidos desses animais.

A MGS parece oferecer um meio simples e rápido de avaliar dor pós-cirúrgica em murganhos, e que supera algumas das limitações associadas aos métodos actualmente utilizados com base em indicadores comportamentais

Nós esperamos que este método seja utilizado por todos aqueles de alguma maneira responsáveis pela avaliação de dor em murganhos, sejam eles veterinários, técnicos, tratadores ou os próprios investigadores que usem murganhos nos seus estudos. 


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[1] N.T. - A Mouse Grimace Scale é uma escala desenvolvida para interpretação e avaliação de “expressões faciais” em murganhos, e já apresentada neste blog

[2] N.T. - A vasectomia de murganhos é usada para implantação de embriões em fêmeas. Após a cópula, e uma vez que os machos são estéreis, as fêmeas ficam num estado de "pseudo-gravidez" e assim prontas para receberem os embriões a implantar. O uso estes animais é eticamente relevante, pois significa que nenhum foi submetido a intervenções dolorosas como resultado directo deste estudo, mas antes foram usados animais que seriam, de qualquer maneira, intervencionados para um programa de modificação genética. 

[3] Analgésicos frequentemente utilizados

terça-feira, 11 de outubro de 2011

As "cãominhadas" - Activismo Animal solidário e não-associativo

Nem todo o activismo pelos animais consiste em grandes manifestações, campanhas polémicas ou actos ilegais. Aliás, não obstante a pior faceta de algum activismo animal ser a que tem mais destaque, a maior parte dos activistas opta por uma acção pacífica, imaginativa, didáctica, verdadeiramente solidária e, assim, realmente produtiva e com impacto directo na vida e bem-estar dos animais.

Um exemplo deste tipo de actividade são as "cãominhadas", que nada mais são que passeios organizados de cães e seus donos, nos quais os mesmos dão uma doação para um abrigo de animais (ou outro projecto), que pode ser sob a forma de géneros ou dinheiro. O que mais me cativa nestes eventos é o facto das "cãominhadas" se poderem organizar de forma espontânea em qualquer parte do país, por iniciativa de particulares e com recurso às redes sociais, sem a intervenção de quaisquer associações de protecção aos animais ou outra estrutura organizada.

CÃOMINHADA a favor da Assoc. Senhores Bichinhos - 1 Out 2011
Parque da Cidade (Porto) Cerca de 45 participantes.
Resultado final: 200€ + 3Kg ração gato + 1 casota + 2 mantas
A propósito das mesmas, pedi a uma antiga colega de curso, Manuela Vilares - actualmente colaboradora de projectos europeus na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, filiada no PAN e grande entusiasta e dinamizadora destes eventos - que me dissesse um pouco mais acerca da sua experiência como organizadora de "cãominhadas".

Manuela Vilares
MV - As cãominhadas consistem num passeio a pé em que quem tem cães já sabe que pode e deve levar o seu cãozito. Se forem animais já muito idosos, os donos costumam preferir não os levar ou então fazem com eles só metade do percurso (nas que eu organizo o passeio costuma ser de 2h, 1h para um lado e 1h para o outro. Se o cão for muito idoso ou doente mas de porte pequenino, costumam trazê-los ao colo.
Todos os animais têm obrigatoriamente de ser conduzidos com trela, de acordo com a lei e os que são de raça perigosa (e os que não são mas que possam representar algum perigo) vêm de açaime. Claro que os donos, de vez em quando, tiram o açaime para lhes darem água e para o animal respirar um bocado melhor.
Geralmente, o objectivo destes eventos é ajudar a angariar fundos para alguma causa. A maior parte das que organizei foram para ajudar associações animalistas que ajudam animais de rua ou animais dos canis mas também já organizei uma a favor da Loja Social de Paranhos em que as pessoas eram convidadas a levar produtos alimentares de valor, no mínimo, 3€. Nas que tenho organizado a favor dos animais, o custo de participação é de 3€, que reverte na íntegra para a associação/projecto e quem quiser pode levar também ração. Nas que eu organizo, quem não tiver possibilidades de pagar os 3€ pode participar na mesma, mesmo que não leve nada.
Para além da faceta benemérita das cãominhadas, Manuela Vilares apresenta ainda outros importantes benefícios destes eventos:

MV - As cãominhadas proporcionam um excelente momento de convívio entre pessoas que partilham as mesmas preocupações pela causa animal/ambiental/humanitária. Costumam aparecer pessoas de diferentes associações, o que é óptimo porque se ficam a conhecer e muitas vezes trocam contactos para se ajudarem em determinadas situações (isto é muito importante porque infelizmente a maior parte das associações trabalham sozinhas e não têm à vontade para pedir ajuda a outras associações). Em quase todas vêm sempre alguns animais que estão para adopção e às vezes conseguem-se adopções, e já até houve casos de pessoas que trouxerem fotografias de gatos que tinham para adopção e conseguiram adoptantes.

Conhecem-se sempre novas pessoas e novos cães. São um excelente momento de convívio com a natureza, onde se faz exercício (numa altura em que as pessoas e os seus animais são cada vez mais sedentários) e se apanha sol (coisas que as pessoas das grandes cidades que trabalham muitas horas por dia raramente fazem e que é fundamental, para gerar vitamina D) porque geralmente são sempre realizadas à beira-mar, à beira-rio ou em espaços verdes amplos.
Costumam vir crianças, também, o que é óptimo, e para além de tudo isto ainda se ajuda uma determinada causa.



Há benefícios neste modelo de organização das "cãominhadas" por iniciativa de indivíduos, ao invés de associações, que originalmente promoviam estes eventos.

MV - Já existem cãominhadas há alguns anos mas eram poucas porque geralmente eram organizadas por associações e perdiam sempre muito tempo porque pediam patrocínios, envolviam as câmaras, divulgavam em vários meios de comunicação, etc... ou seja dava-lhes tanto trabalho que só organizavam de vez em quando. Eu, com a ajuda do facebook, tenho conseguido organizar cãominhadas para todos os sábados e todos os domingos na zona do Grande Porto, desde Julho. Já ajudei a organizar três em Lisboa, uma em Aveiro e estou a ajudar a organizar uma em Setúbal. Agora vou passar a marcar só uma cãominhada por fim-de-semana porque o tempo vai começar a piorar e assim, sempre que chover adia-se. Vou também começar a organizar jantares solidários, sempre em restaurantes vegetarianos, claro, para promover o vegetarianismo e ajudar a divulgar os imensos restaurantes vegetarianos que existem e que são pouco conhecidos.

Sendo um tipo de actividade que exige iniciativa individual, não é raro, contudo, que muitos peçam a outrem para organizarem cãominhadas na sua área de residência, ainda que o esforço logístico seja pouco. Será isto reflexo de desconhecimento da actual natureza da iniciativa destes evento, ou mero laxismo?

MV - Não pertenço e nem quero pertencer a nenhuma associação animalista nem humanitária porque quero continuar a tentar ajudar todas (claro que nunca vou conseguir ajudar todas mas tento ajudar o máximo de associações/projectos que conseguir). Ajudar a divulgá-los é muito importante e fazer com que se conheçam uns aos outros e comecem a colaborar mais uns com os outros é fundamental para todos, animais e humanos. Gostava mesmo que houvesse mais gente a fazer o que eu faço. Faço isto nos meus tempos livres. Gostava que houvesse mais gente a organizar eventos de convívio solidários pelo país fora e que depois me dissessem o link do evento no para eu adicionar à página do calendário geral que criei no Facebook.
Há muita gente que pergunta "porque não organizam aqui, porque não organizam ali... ?", e às vezes dá-me vontade de responder "e porque não organiza você? Eu não consigo fazer tudo!" . Mas claro que não digo. Eu sei que as pessoas não dizem por mal., mas sinceramente fico irritada quando me vêm com comentários a dizer "organizem também cãominhadas em Paços de Ferreira", "organizem em Aveiro"... "pensem nisso"... "porque organizam só no litoral?"... organizem aqui, organizem ali... "

Portanto, já sabe, se quiser fazer algo pelos animais na sua área de residência, de um modo económico, divertido e saudável, porque não organiza uma "cãominhada", um jantar ou qualquer outro evento que fomente o convívio para ajudar os que mais precisam (pessoas ou animais)?

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Trabalhar com Bem-Estar Animal em Portugal: Gonçalo Pereira, Universidade Lusofona e PsiAnimal

Gonçalo Pereira, professor auxiliar, Universidade Lusofona de Humanidades e Tecnologia

Olá Gonçalo, lançaste recentemente a PSIANIMAL - Associação Portuguesa de Terapia do Comportamento e Bem-estar Animal. Podes contar um pouco mais sobre esta associação?
Esta associação surgiu de um grupo de vários investigadores, clínicos, etólogos e "welfarists" que tinham um desejo comum... poder contribuir na divulgação e desenvolvimento da terapia comportamental e bem-estar em animais (não humanos) em Portugal. Assim, somos uma equipa multidisciplinar (tal como é requerido para o desenvolvimento do Comportamento e Bem-estar Animal), constituída por veterinários, biólogos, etólogos, psicólogos, antropólogos, entre muitos outros profissionais. Todos nós temos um mesmo propósito: a concretização duma associação portuguesa forte com projecção nacional e internacional em comportamento e bem-estar.
Porque é que esta associação fazia falta em Portugal?
Até ao momento não havia nenhuma organização em Portugal que fizesse o trabalho a que nos propomos. Ou seja, associações de Etologia há, associações profissionais nas diferentes áreas também há, associações de protecção animal há, mas queremos ser mais do que isso. E porque somos uma equipa multidisciplinar que engloba várias áreas profissionais e científicas acreditamos poder ser uma entidade que possa apoiar, em frentes diversas, entidades públicas e/ou privadas, podendo inclusivamente participar em projectos de regulamentação de actividades relacionadas com o bem-estar animal (como órgão consultivo) e com a terapia comportamental. A PsiAnimal tenciona assim valorizar e dar a conhecer toda a riqueza desta área ainda muito pouco desenvolvida em Portugal. Felizmente, a procura crescente junto da população em geral e a nível académico fortaleceu estas nossas convicções na necessidade imperativa da criação desta associação.
Quem se pode fazer sócio?
Temos 3 tipos de sócios:
1. Os sócios efectivos, que são os profissionais que trabalham e investigam na área do Comportamento e Bem-estar (todos os diferentes académicos, investigadores ou profissionais que tenham um trabalho relacionado com esta área);
2. Os sócios afiliativos, que são os profissionais que trabalham em conjunto com os anteriores, no sentido de darem continuidade ao trabalho nesta área (treinadores, tratadores, pessoal técnico que trabalhe directamente com o Comportamento e Bem-estar);
3. Os sócios estudantes de cursos relacionados com o Comportamento e Bem-estar (que serão futuros sócio efectivos).
Para mais informações poderão contactar a PsiAnimal para: psianimal.geral@gmail.com Estamos a preparar já o I Congresso da Associação para 17 e 18 de Dezembro!
És pioneiro nesta área de actividade em Portugal. Há quanto tempo trabalhas com terapia comportamental em animais de companhia? Como começou?
Não sei se serei pioneiro, mas sei que estou cá para o que for necessário e defender aquilo em que acredito! Comecei ainda como estudante de medicina veterinária a trabalhar em Bem-estar Animal com organizações não-governamentais de Bem-estar e Protecção Animal, nacionais e Internacionais. Em terreno nacional, comecei por trabalhar para a Liga Portuguesa dos Direitos do Animal (1995). Depois tive um convite para ser consultor da Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA), e a partir daí passei a trabalhar com várias organizações nacionais e internacionais (entre as quais a World Society for the Protection of Animals, Cat Protection League, Eurogroup for Animal Welfare, entre muitas outras). Nessa altura estava a terminar o curso de medicina veterinária e achei que a área do Comportamento e Bem-estar era mesmo o que eu queria e acreditava que podia ajudar ao desenvolvimento do meu país. Na altura não havia nada pelo país, e tive que ir fazer formação para o estrangeiro.... Fui então para a Universidade Complutense de Madrid, onde fiz o meu Mestrado em Etologia Clínica e Bem-estar Animal. Depois tive um convite para ser responsável da Disciplina de Comportamento, Bem-estar e Protecção Animal na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, o qual aceitei de imediato. A partir daí comecei a participar em grupos nacionais e internacionais nesta área de investigação e fui convidado para pertencer à Direcção da European Society of Veterinary Clinical Ethology, da qual sou o actual Vice-Presidente. Agora estou a fazer o meu Doutoramento no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, agrupando na minha tese várias áreas que adoro: gatos, comportamento e bem-estar e medicina interna. Acho que vou conseguir provar algumas hipóteses minhas que poderão dar um grande avanço nesta área.... Assim espero!
Como estão os animais de companhia em Portugal – bem ou mal? Melhor ou pior do que há 15 anos?
As mudanças nos últimos anos têm sido muitas mesmo! Em todas as áreas, desde profissionais, como académicos, como investigadores, como políticos, chegando esta mudança ao público em geral (onde se incluem as crianças!). A preocupação com o Comportamento e Bem-estar Animal tem tido um crescente aumento, e exemplo disso são as várias mudanças que imperam desde a nível legislativo, como o aparecimento de um novo partido, pelos animais.... Acho que está tudo mesmo a mudar! Quero acreditar que as mudanças têm sido tantas que dentro de pouco tempo conseguiremos apanhar os mais avançados da Europa. O surgimento da PsiAnimal é também reflexo destas mudanças e que irá certamente contribuir para uma evolução mais rápida e sólida
Há pouco mais do que 2 meses, Assunção Cristas tomou posse como a nova ministra de Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento. Quais consideras ser os assuntos mais urgentes para esta nova responsável máxima de bem-estar animal em Portugal?
Urgentes? Há algo nesta área que não seja urgente? Antes demais, aproveito para desejar à nova Ministra o maior sucesso. Quero acreditar que o bom senso irá imperar, mas tem uma casa imensa para arrumar. Esperemos que dê continuidade a alguns assuntos que foram deixados pelo anterior executivo e que se saiba rodear de quem possa ser uma boa influência para o avanço nacional. Os problemas são muitos, que vão desde áreas como a produção, passando pela área da experimentação animal, animais de companhia (onde se incluem os supostos "novos animais de companhia"), e animais selvagens em cativeiro (parques zoológicos e afins). Enfim, o que poderei dizer à Dr.ª Assunção Cristas, é que se necessitar de apoio consultivo da PsiAnimal, temos entre os nossos sócios vários profissionais que poderão ser a boa influência que anteriormente referi. Por isso, a PsiAnimal dispõe-se desde já a apoiar tanto o Ministério como qualquer outra entidade que de nós precise.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Trabalhar com Bem-Estar Animal em Portugal: George Stilwell, FMV





George Stilwell, professor auxiliar Faculdade de Medicina Veterinäria

Olá George, tens um novo projecto de investigação em curso. Podes nós contar um pouco mais sobre
Animal Welfare Indicators?

O Animal Welfare Indicators (AWIN) é um grande projecto europeu que vem na sequência de um outro chamado Welfare Quality. O AWIN irá estudar os indicadores de bem-estar nas espécies que não foram abordadas pelo projecto anterior, ou seja, os ovinos, caprinos, equídeos (cavalos e burros) e ainda perus. Será ainda um dos principais objectivos do AWIN criar uma plataforma online de ensino e divulgação de temas de bem-estar animal.
O AWIN é coordenado pelo Scottish Agriculture College, e envolve 11 parceiros em 10 países (9 na Europa e Brasil).
Em Portugal a instituição envolvida é a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa. Durante os próximos 4 anos irei orientar as actividades de dois estudantes de doutoramento, para além de uma estudante de doutoramento em parceria com a Universidade de Milão.
A área de estudo em Portugal será a de bem-estar de pequenos ruminantes e principalmente de cabras leiteiras em regime intensivo.

Que resultados esperam deste projecto?

Os estudos a serem conduzidos em Portugal irão dividir-se em duas áreas principais: a) criação de um modelo de certificação de bem-estar nas explorações de pequenos ruminantes através de indicadores validados; b) avaliar o impacto de certas doenças sobre o bem-estar, nomeadamente através da dor.
No primeiro grupo de estudos pretendemos identificar os sinais que permitirão a produtores, investigadores e avaliadores reconhecer, de forma rápida e prática, problemas de bem-estar a nível das explorações. A validade, repetibilidade e exequibilidade destes indicadores de bem-estar serão testadas em diversas explorações com sistemas de produção e raças diferentes. De seguida o modelo será testado a nível dos outros países europeus. Com este estudo será possível criar as ferramentas necessárias para distinguir as explorações onde o bem-estar animal está garantido, podendo assim comunicar ao consumidor que um determinado produto respeita as normas mais exigentes de respeito pelos animais.
O segundo grupo de trabalho estudará a dor em doenças e práticas de rotina como a peeira, laminite, mastites, artrites, descorna etc… Pretende-se com estes estudos perceber se a dor é uma vertente importante na patogenese das doenças e se a analgesia deverá ser considerada como parte essencial do tratamento facilitando a recuperação do animal.

Penso que é a primeira vez que uma universidade portuguesa participa num projecto europeu desta dimensão sobre bem-estar animal na pecuária. É importante haver esta participação de investigadores nacionais em projectos internacionais?
Também julgo que se trata da primeira colaboração desta dimensão na área do bem-estar animal. Com esta parceria Portugal deverá demonstrar à comunidade internacional duas coisas: que o estudo e a preocupação com o bem-estar animal não é um exclusivo dos países do norte da Europa, que geralmente lideram nestas áreas; e que existe em Portugal conhecimentos, experiência e vontade suficiente para investigar em temas complexos como o da área do bem-estar em explorações de pecuária.
Olhando a questão pelo outro lado, podemos dizer que estes projectos vêm mostrar aos produtores, empresas do sector da pecuária e políticos de Portugal, que esta é uma área com eles se devem preocupar e que podem contar com os cientistas das instituições nacionais para responder às suas questões e apresentar soluções que protejam o bem-estar animal sem inviabilizar actividade pecuária. Aquela ideia de que as regras de bem-estar são criadas para que os países do norte acabem com a produção dos países do sul, tem de ser combatida com urgência.

George, já trabalhas com bem-estar animal há muito tempo na Faculdade de Medicina Veterinária em Lisboa e também em colaborações internacionais de diferentes tipos. Como estão os animais em Portugal – bem ou mal? Melhor ou pior do que há 15 anos?
Vou falar essencialmente do bem-estar de animais de pecuária já que são aqueles com os quais trabalho diariamente. Não tenho a menor dúvida de que o bem-estar destes animais está melhor do que há 15 anos. Isto não quer dizer que esteja perfeito ou mesmo bom para todos eles. Muito ainda há a fazer!
Quando consideramos o bem-estar de animais de produção temos de perceber que nunca será possível garantir que os animais viverão sem ameaças ao seu bem-estar. Pensemos em ovelhas em pastagem – aparentemente uma situação óptima em termos de bem-estar – e nas importantes ameaças que surgem com o clima, intempéries, parasitas e doenças, que serão sempre mais graves do que em sistemas intensivos.

Dito isto, acho que podemos afirmar que avançámos muito em termos de bem-estar por via de regras impostas pela legislação (infelizmente quase sempre imposta pela UE e raramente por nossa iniciativa), mas também porque os próprios produtores perceberam que as performances dos animais são muito superiores quando o conforto e bem-estar dos seus animais estão garantidos. Outro factor importante e relativamente recente é a pressão dos consumidores que, pelas razões certas ou erradas, associaram a segurança e qualidade dos produtos a certos sistemas e práticas que são mais amigas dos animais. Também a evolução económica e financeira permitiu que o consumidor passasse a integrar outros requisitos nas suas exigências, sendo a ética uma das que mais influenciou a forma como passamos a lidar com os animais. Ou seja, a produção teve de alterar certas práticas ou arriscar-se a não conseguir escoar os seus produtos. Características do abate, do transporte, da alimentação, das instalações e do maneio são hoje em dia (também) baseadas nos seus efeitos sobre o bem-estar dos animais.

Bem-estar animal não é apenas ciência, tem também uma clara conotação política. Temos uma nova ministra de Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento. Que assuntos consideras mais urgentes para esta nova responsável máxima pelo bem-estar animal em Portugal?

Como já referi o bem-estar animal não é apenas uma preocupação para os animais, produtores e certas pequenos grupos, mas é um assunto que desassossega cada vez mais a sociedade em geral e os consumidores em particular. Sendo assim é uma obrigação de qualquer governante dar resposta a estas inquietações. O maior desafio que se põe neste momento de crise (afectando consumidores e produtores) é não deixar subjugar as preocupações com o bem-estar animal pelas questões económicas. Esta será uma tentação para quem tiver uma visão muito limitada já que a médio prazo as perdas previsíveis em qualidade, quantidade e segurança dos produtos de origem animal conduzirão a menores consumos ou procura de alternativas. Será preferível ajudar as explorações a superar estes momentos difíceis exigindo em troca a manutenção (aumento) das acções em prole do bem-estar, ambiente e sustentabilidade da produção.

As maiores prioridades serão de aplicar as regras e recomendações de bem-estar que a UE propõe – e.g. eliminação das celas para porcas e introdução de gaiolas melhoradas para galinhas poedeiras. Igualmente importante será a formação de produtores, tratadores e transportadores de animais na área do comportamento e bem-estar animal. É óbvio que a simples transcrição das directivas sem a fiscalização subsequente é como chover no molhado. É aqui que o Ministério deve apostar nos próximos tempos.

domingo, 26 de junho de 2011

Trabalhar com Bem-Estar Animal em Portugal: Leonor Galhardo, ISPA


Na primeira entrevista desta serie, falamos com a etologa Leonor Galhardo sobre o curso que ela dirige e ainda sobre o cenário atual de bem-estar animal em Portugal.

Bom dia Leonor, estás a planear a Sessão de Encerramento da primeira edição da Pós-Graduação em Comportamento e Bem-Estar Animal no ISPA em Lisboa, não é?
Sim, será no dia 2 de Julho, no ISPA.
Podes contar um pouco mais sobre este curso?
Trata-se de um curso geral em Comportamento e Bem-Estar Animal que pretende dar formação em aspectos biológicos, sociais e éticos relacionados com o conceito de bem-estar animal, ao mesmo tempo que aborda aspectos particulares de áreas bem definidas como a pecuária, incluindo a aquacultura, os animais de companhia, os animais selvagens e o uso de animais para fins experimentais. O curso tem uma acentuada componente prática com várias visitas de estudo e trabalho efectuado pelos alunos. Destaco em particular o Projecto em Bem-Estar Animal que é uma unidade curricular onde os alunos realizam um projecto na sua área de interesse. Este projecto é desenvolvido ao longo de 10 meses sob a nossa orientação e constitui uma oportunidade para aprofundar conhecimentos ou resolver problemas decorrentes de actividades profissionais ligadas a animais. A segunda edição deste curso irá também incluir um módulo em didáctica do bem-estar animal e outro em interacções humanos-animais.

Quais são os alunos e as suas motivações par a procurar formação especializada nesta área?

Temos alunos de formação diferente, mas em particular médicos-veterinários. Na primeira edição do curso tivémos também biólogos, zootécnicos e enfermeiros veterinários. Pensamos que este curso pode também ser de grande interesse para professores, bem como para psicólogos interessados nas relações entre humanos e animais. As motivações dos nossos alunos são a necessidade de aprofundar conhecimentos científicos e técnicos em comportamento e bem-estar animal e poderem adquirir formalmente competências para trabalhar nesta área, dando formação ou de alguma forma esteja ou venha a trabalhar com animais na área da inspecção, maneio, aplicação de legislação, etc.
Haverá uma nova edição do curso no ano lectivo de 2011/12?
Sim, já temos várias pessoas interessadas no curso e portanto pensamos que existe grande probabilidade de o re-editar no próximo ano lectivo.

Que papel têm, na tua opinião, eventos de formação profissional para promover e melhorar o bem-estar animal em Porugal?
Tem um papel fundamental. Na minha opinião, em qualquer área em que os animais sejam utilizados por humanos, são as decisões que tomamos acerca da sua manutenção, a forma como os manuseamos, a competência com que os compreendemos e manipulamos o seu comportamento que ditam as principais directrizes daquilo que pode ou não constituir o bem-estar dos animais em causa. Por isso é imprescíndivel que haja formação profissional e conhecimentos nesta área em qualquer sector do uso de animais. Para além disso é já uma exigência das entidades competentes que as pessoas tenham formação teórica e prática para manipular animais por exemplo na pecuária e na e investigação.

Leonor, foste provavelmente a primeira portuguesa a concluir formação superior em bem-estar animal e trabalha com esta questão em Portugal há mais do que uma década. Como estão os animais em Portugal – bem ou mal? Melhor ou pior do que há 15 anos?

Embora eu ache que os animais em Portugal precisam da nossa intensa preocupação e cuidados, a sua situação melhorou em alguns aspectos quando comparando com há 15 anos atrás. Antes de dar exemplos de mudanças positivas e situações em que penso que não houve evolução nenhuma, gostaria de começar por referir que a protecção dos animais é uma atitude social de carácter civilizacional e como tal exige tempo; é lenta; atravessa gerações… Uma das áreas em que pouco ou nada mudou nos últimos 15 anos, apesar do carácter estruturante que tem para a protecção dos animais em Portugal, foi o conteúdo e a aplicabilidade da Lei de Protecção dos Animais (92/95). Precisamos de um formato legal que permita uma protecção real dos nossos animais - maus-tratos, negligências, abusos, e outras agressões que causam grande sofrimento praticamente não são ainda penalizadas em Portugal. Na área da pecuária, em função da evolução da legislação houve vários como progressos, embora muita fiscalização e formação técnica seja necessária para atingir níveis aceitáveis de bem-estar animal. Exemplos de requisitos que melhoraram na pecuária: alteração das baterias de galinhas poedeiras para sistemas melhorados; proibição das celas individuais para porcas reprodutoras e melhoramento dos sistemas intensivos para suínos; identificação, controlo e fiscalização do transporte dos animais para o matadouro; maior preocupação com o atordoamento no abate. Na investigação, há um lento progresso no sentido do registo e pedido de autorização para levar a cabo experiências feitas em animais. Actualmente, muitas centenas de investigadores fizeram cursos para se tornarem competentes no manuseamento e redução do sofrimento de animais em experiências. Há 15 anos atrás não havia qualquer espécie de controlo nesta matéria. Na área dos animais de companhia continua a não haver dados oficiais que nos permitam conhecer taxas de abandono e suas causas. Mas aparecem agora pessoas interessadas no assunto (no nosso curso, foi feito um trabalho neste sentido) e, de qualquer forma, o sistema de identificação obrigatório e a base de dados que foi criada permitem um controlo muito diferente do que existia há 15 anos, que era nulo. Não obstante, muito há para fazer para tornar os donos dos animais mais responsáveis e a base de dados de identificação mais operacional. Na área dos animais selvagens, também julgo ter havido uma evolução, com os parques zoológicos hoje muito mais preocupados do que antes com aspectos relacionados com o enriquecimento ambiental e com o passar para o público mensagens de conservação. Há 15 anos atrás os animais saíam destas instituições para circos, colecções privadas, etc. e hoje um grande número de parques nem por sombras o considera fazer, até porque se tornou proíbido. Acerca de todos estes exemplos quero reforçar a ideia de que há indicadores de claras melhorias embora ainda haja muito por fazer. Para concluir, gostaria de lembrar que há 15 anos atrás falar de bem-estar animal em certos círculos provocava risos ou atitudes de desmerecimento do assunto. Hoje, as pessoas estão em geral mais conscientes de que os animais são seres que sentem, capazes de pensar, raciocinar, fazer as suas escolhas, alimentar desejos, sofrer e ter prazer. Essa consciência humana muda tudo em relação à nossa atitude de base.

Bem-estar animal é uma questão com uma clara conotação política – na resposta anterior falaste de leis, fiscalização e controlo, todos assuntos que têm a ver com política. Assunção Cristas acabou de tomar posse como a nova ministra de Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento. Que
assuntos consideras mais urgentes para esta nova responsável máxima pelo bem-estar animal em Portugal?
Os assuntos mais urgentes são sem dúvida a operacionalização de uma Lei de Protecção dos Animais, a formação técnica adequada de todas as partes envolvidas (pessoas que trabalham directamente com animais; gestores e inspectores de actividades envolvendo animais) e a operacionalização de bases de dados oficiais para melhorar os sistemas de controlo. Em relação à formação técnica, podemos ter a ideia de que um sistema extensivo de animais de produção é melhor do ponto de vista de bem-estar animal do que um sistema extensivo. Em larga medida, é verdade. Mas, na prática, qualquer dos dois pode ter enormes problemas dependendo da forma como o maneio dos animais é feito. E isso exige formação, conhecimentos adequados e especializados. Quanto às bases de dados oficiais, penso que é necessário operacionalizá-las melhor para que elas possam ser usadas de forma mais eficiente no controlo e na caracterização do perfil das várias áreas em causa. Precisamos com urgência de uma história, de indicadores de bem-estar animal, de uma forma consubstanciada de sabermos como estamos, de onde viemos, e para onde conduzimos os destinos do bem-estar animal em Portugal.

domingo, 5 de setembro de 2010

Venha conhecer um animalogante

Um dos nossos autores foi recentemente entrevistado pelo Science Careers. Num artigo intitulado Improving Science Through Animal Welfare pode ler mais sobre Nuno Franco e o seu trabalho.