quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Ignorância ou ideologia?


Há um aparente paradoxo entre a opinião predominante entre cientistas portugueses (e a qual partilho) de que teorias como o criacionismo ou o ‘intelligent design’ não se apresentam como problemáticas em Portugal, e os dados apresentados por Jerry Coine que mostram que cerca de 25% dos portugueses consideram a teoria da evolução falsa. Não resisti a debruçar-me sobre esse paradoxo, e fui assim conferir o artigo original citado por Coyne (e do qual ele obteve o gráfico). O artigo original não é acessível através do website da revista (mas poderão facilmente encontrá-lo através de uma pesquisa no Google).  


 Este artigo fora publicado em 2006 na Science, por Jon D. Miller, Eugenie C. Scott e Shinji Okamoto, respectivamente dois investigadores dos Estados Unidos e um do Japão. Como acontece frequentemente em artigos publicados nestas revistas de elevado factor de impacto e que são extremamente condensados, para aferir como o estudo foi de facto conduzido o que precisamos de ler é o material de suporte disponível online.

A partir daqui, procurei identificar o que de facto foi perguntado neste estudo e cujas respostas servem de base a este gráfico. 

Estes dados referentes à Europa provêm do estudo 63.1 do Eurobarómetro. Este foi conduzido usando um questionário extenso, sendo que Miller et al não fornecem nenhuma informação acerca de que parte dos dados foi usada na sua comparação com os provenientes dos Estados Unidos e o Japão, mas as únicas perguntas que dizem respeito à evolução encontram-se na questão Q10. Segue uma lista de afirmações apresentadas aos respondentes para testar os seus conhecimentos em áreas da Ciência e Tecnologia (nota: a tradução aqui apresentada e a nossa do inglês e difere ligeiramente da versão portuguesa do inquerito original).

- O centro da Terra é muito quente
- O Sol orbita em torno da Terra
- O Oxigénio que respiramos provém das plantas
- O leite radioactivo torna-se seguro após fervido
- Os electrões são mais pequenos que os átomos
- Os continentes em que vivemos têm-se movido durante milhões de anos e continuar-se-ão a mover no futuro
- São os genes da mãe que determinam se o bebé será um rapaz ou uma rapariga
- Os primeiros seres humanos viveram no mesmo período que os dinossauros
- Os antibióticos tanto matam bactérias como vírus
- Os lasers funcionam pela focalização de ondas sonoras
- Toda a radioactividade é produzida pelos seres humanos
- Os seres humanos, tal como os conhecemos, desenvolveram-se a partir de outras espécies mais antigas
- A Terra demora um mês a dar uma volta em torno do Sol.

Destaquei as duas frases acima que nos dão alguma informação relativamente à evolução. Estas foram também incluídas num estado sobre o nível de aceitação dos paradigmas científicos nos Estados Unidos mas – e isto é de particular importância para entender o que os dados de Miller nos dizem sobre Portugal – no estudo americano estes surgem juntamente com um terceiro, mais forte:
“Os seres humanos foram criados por Deus como pessoas completas e não evoluíram de formas de vida mais antigas” 

Vamos assim olhar para estas três informações e reflectir acerca do que as diferentes respostas nos podem dizer sobre o que os respondentes sabem e acreditam

- A afirmação “Os primeiros seres humanos viveram no mesmo período que os dinossauros” é falsa. Mas para responder corretamente não chega ter conhecimento que o processo de evolução tem lugar, é ainda necessário conhecer a história natural da Terra o suficiente para saber que a espécie humana apenas surgiu depois da extinção dos dinossauros.
 - A afirmação “Os seres humanos, tal como os conhecemos, desenvolveram-se a partir de outras espécies mais antigasé verdadeira. As razões mais prováveis para afirmar ser falsa serão acreditar que os humanos são especiais e assim não relacionados com outras espécies (ideologia) ou não ter a mínima ideia de como as espécies evoluíram (ignorância).
Mas a única afirmação que permite distinguir ideologia de ignorância é “Os seres humanos foram criados por Deus como pessoas completas e não evoluíram de formas de vida mais antigas”, mas aos respondentes portugueses não foi pedido que comentassem esta afirmação.  

No estudo europeu estas frases foram usadas para medir o nível de conhecimentos em ciência e tecnologia - não para medir aceitação da teoria da evolução. E Portugal surgiu como um dos países com menor nível de conhecimento científico, como este mapa do Relatório do Eurobarómetro evidencia (a cor cinzenta representa a categoria mais baixa, 0-20% de respondentes com conhecimento científico muito bom).

E assim, onde levará tudo isto? Vou argumentar que com base neste conjunto de dados é de facto impossível separar ideologia de ignorância na explicação para a relativamente reduzida crença na teoria da evolução em Portugal. Mais, diria que há de facto alguma indicação de que é ignorância e não ideologia que explica porque Portugal fica numa posição tão baixa na escala de aceitação da teoria da evolução.

Baseio este argumento numa abordagem diferente dos mesmos dados. Num artigo de Cosima Rughini de 2011 encontrei o pormenor importante que me faltava no artigo de Miller. Com base nas respostas perante a afirmação Os seres humanos, tal como os conhecemos, desenvolveram-se a partir de outras espécies mais antigas, foi feito o ranking de 33 países em termos de aceitação da evolução. Se este ranking for feito com base na percentagem de respostas corretas (que a afirmação é verdadeira), Portugal ocupa um modesto 18º lugar entre 33. Mas, se o ranking for feito com base na percentagem de respostas incorretas (que a afirmação é falsa), Portugal sobe até um confortável 10º lugar, com uma percentagem menor de respostas erradas do que Alemanha, Países Baixos e Suiça. Isto é porque os portugueses respondem "Não sei" proporcionalmente com mais frequência. 

E será que isto importa? Provavelmente, sim. A razão pela qual Jerry Coyne escreveu este livro foi que achou que se as pessoas ficavam a conhecer a evidência convincente da teoria da evolução passarão a ser convencidas da sua veracidade. Como disse na sua palestra na Serralves, ele acabou por perceber que isto não é suficiente, pelo menos nos Estados Unidos de onde é oriundo: as pessoas também precisam de ser menos religiosas.

Mas se em Portugal o principal problema é o conhecimento e entendimento muito limitado da ciência (e não sendo a Igreja no geral avessa à ciência ou a explicações científicas), então será mais importante disseminar o conhecimento do que será combater a religião.

Contudo, pessoas como os autores deste blog não parecem ser as mais adequadas para este trabalho, pelo menos a acreditar no Eurobarómetro…


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O lobo, o sangue e as crianças




"Medo que o lobo ataque novamente" diz a letra abaixo da imagem, que causou surpresa, consternação e alguns protestos a semana passada. A reportagem saiu no jornal local da região sul da Suécia (do qual sou natural) e mostra os cadáveres de alguma das cerca de 30 ovelhas mortas por um provável ataque de lobo. Confesso que a notícia me deixou completamente surpreendida. O lugar onde aconteceu é uma das áreas mais densamente povoadas da Suécia, a apenas 40 quilómetros da terceira cidade do país e numa plena zona agrícola. Consciente do risco de argumentação NIMBY (Not In My Backyard), a minha consternação tem sobretudo a ver com esta infeliz manifestação de biodiversidade da vida selvagem.

Mas essa não foi a única preocupação que a imagem levantou. Diz o editor do jornal que foi contactado por leitores indignados com a decisão do jornal de publicar uma imagem tão sangrenta. O formato do jornal é do habitual tablóide e, como podem ver, a imagem ocupa a maior parte das duas páginas, pelo que o impacto deve ter sido considerável para quem lê a versão em papel.

O editor defende a sua decisão: o jornal é publicado numa zona fortemente agrícola, onde a maioria dos habitantes come carne e muitos vivem da produção animal, e “escrever sobre o lobo sem mostrar os resultados da sua atividade seria fechar os olhos à verdade”.  

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Pós-graduação Bem-Estar Animal - ISPA

Estão abertas as inscrições para a terceira edição do Curso de Pós-graduação de Comportamento e Bem-Estar Animal no ISPA (Lisboa). Este curso destina-se a todos aqueles que, directa ou indirectamente, lidam com animais na sua actividade profissional e se preocupam com os efeitos das suas acções sobre esses mesmos animais. A formação permite ao aluno desenvolver competências específicas para a sua área de actuação. Daí as edições anteriores terem contado com a participação de profissionais tão diversos como biólogos, sociólogos, psicólogos, médicos veterinários, enfermeiros veterinários, cinotécnicos, etc.


Aceitam-se inscrições até dia 4 de Janeiro de 2013.
Para mais informações visite o site do curso e a brochura do mesmo.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Beyond animal rights: Crítica de livro


Esta crítica do livro Beyond Animal Rights: food, pets and ethics, Tony Milligan; Continuum International Publishing, foi originalmente publicada na revista Animal Welfare.
 
Este livro propõe como tema a ideia do vegetarianismo estar longe de ser moralmente perfeito, e de como isso não serve como uma desculpa para a maior parte de carne que a maioria de nós come. Assim vale a pena ler, seja qual for a dieta preferencial de cada leitor - e quem preferir uma versão curta da crítica deste livro, pode parar de ler por aqui. Mas neste caso, leia o livro (ou pelo menos os seus primeiros cinco capítulos).

Tom Milligan é Honorary Research Fellow em Filosofia na Universidade de Aberdeen, e esta a sua reflexão sobre o consumo de carne é publicada na série “Think Now” (da editora Continuum)  de “livros acessíveis que examinam problemas-chave da sociedade contemporânea de um ponto de vista filosófico”. De facto, o livro de Milligan encaixa perfeitamente nesta descrição; a sua escrita clara e bem fundamentada proporciona uma leitura agradável e intelectualmente estimulante. 

A problemática da ética animal ocupa uma posição central, mas não é a única perspectiva considerada. Sendo ele próprio vegan, Milligan não considera a perspectiva padrão dos direitos dos animais como a única relevante para uma escolha moralmente guiada das nossas opções alimentares. O seu conceito da alimentação reflecte a abrangência da sua análise: “it involves things of the following sort: enjoyment in and through food, nutritional appropriateness given the condition that we are in; a degree of honesty about what we are eating; some rudimentary knowledge about how our food was produced; eating in a way that enriches our relations with other humans (e.g. it should not involves habitual solitary consumption); eating in a way that is consistent with our values and/or expresses those values; having values that are themselves of a reasonable and defensible sort; eating in a way that involves a practical awareness of the importance of other humans, other creatures and our shared environment” (página 20)

Dos cinco capítulos dedicados ao consumo de carne, o primeiro de todos, “The Depth of Meat-Eating”, oferece um olhar geral e serve de introdução ao tópico. No capítulo 2, “An Unwritten Contract”, explora a ideia de que a agro-pecuária e o consumo de carne oferecem um bom “contrato” aos animais, como grupo, na medida em que lhes permitiu que prosperassem, em número. Por um lado, é um fraco negócio para os animais que pagam pela protecção e alimento com a sua morte precoce, e que por vezes é precedida por uma vida que não vale a pena ser vivida. Por outro lado, em condições que proporcionam uma vida que valha a pena ser vivida, o argumento de que de outro modo estes animais não teriam sequer existido é muito forte. Isto deixa-nos com uma situação “in which rival considerations can be balanced up against each other but no single consideration obviously trumps the others. On the one hand, the opportunity of life argument does real work (...) to give some justification for ethically informed meat-eating. It is the means by which animals come into existence and enjoy some approximation to a good, if short, life. (...) Ethical vegetarianism, on the other hand, might better save the interests of already existing creatures” (página 40)

"Vegetarianism and Puritanism" (Capítulo 3) analisa a possibilidade de que a recusa ao consumo de carne possa ser motivada por algum tipo de puritanismo. Isto não só inclui a ideia de abandonar algo potencialmente desfrutável (este não parece ser o caso para a maioria dos vegetarianos e vegans), de não ingerir algo “sujo” ou alguma maneira prejudicial ao corpo (historicamente verdadeiro; até certo ponto também presente nas motivações contemporâneas), bem como a ideia de manter as mãos limpas do sangue derramado pelo abate dos animais, o que é parcialmente verdade, ainda que “there will always be a blood price to pay for a harvest. The numbers of animals inadvertently killed through harvesting can be reduced with caution (...) but the taking of animal lives cannot be avoided. Recognition of this is a matter of acknowledging that the presence of we humans as part of our planetary eco-system is always, to some extent, at the expense of other creatures. And this is one of the many things that vegetarians, vegans and carnivors have in common” (páginas 62-63).

O capítulo 4, "Diet and Sustainability", foca-se nos aspectos ambientais das diferentes aspectos que envolvem as diferentes opções alimentares. Milligan considera que a produção de carne actual deixa uma pegada ecológica inaceitável, mas também que há terreno que só pode contribuir para a alimentação humana atraves de produção de carne e leite de animais de pastoreio. Tendo em consideração todos os factores (tanto quanto a complexidade do problema o possibilita), Milligan admite que uma dieta contendo pequenas quantidades de carne de origem local e produzida com respeito pelo ambiente, poderá ser tão ou mais sustentável que uma dieta vegetariana. Mas de imediato observa não ser esta a dieta típica de um consumidor de carne, e que “(t)here is just as much danger that the sheer possibility of an eco-friendly carnivorous diet may be used as a stalking horse to provide dubious justification for widespread carnivorous practices that are not nearly as eco-friendly as their practitioners may assume” (página 84). O valor ecológico do consumo limitado de carne, é a razão pela qual o veganismo, como opção universal, poderá ser "The Impossible Scenario" (Capítulo 5), mas que um vegetarianismo universal, que permita alguma produção animal, poderá ser mais exequível. 

Apesar da capa nos mostrar o processo de triagem de salmão (selvagem?) capturado em Vancouver, o livro é na realidade centrado na alimentação humana através da produção agro-pecuária. Millingan faz um trabalho excelente na análise desta actividade, tendo em consideração uma grande diversidade de factores. Infelizmente, os capítulos 6 e 7 (sobre a posse de animais de estimação e experimentação animal) não estão ao mesmo nível do resto do livro e, dado estes temas estarem apenas indirectamente ligados ao tema principal, não fica de todo claro por que razão foram incluídos. A sua omissão numa futura edição tornaria este livro uma pequena mas brilhante discussão do consumo de carne que poderia ser uma leitura obrigatória para todos os estudantes universitários em cursos ligados à produção animal. 

Traduzido do inglês por Nuno Franco.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

E porque hoje é dia do animal...

Uma série de iniciativas tem lugar hoje por todo o globo, não sendo Portugal a excepção. De entre as actividades organizadas por autarquias, zoológicos e várias associações, destaco a devolução de vários animais ao habitat natural pelo Centro de Recuperação de Fauna Selvagem do Parque Biológico de Gaia.






Clique na imagem para um programa detalhado da libertação de animais selvagens pelo Centro de 
Recuperação do Parque Biológico de Gaia



















A autarquia de Valongo é uma de várias que hoje dedicam um programa especial para comemorar este dia (clique na imagem para mais informações).







O Centro Veterinário Universitário Vasco da Gama abrirá hoje as suas portas para um dia destinado a várias sessões de aconselhamento veterinário, apelando às Associações de Protecção Animal que se juntem a essa acção (clique na imagem para mais informações).

Jerry Coyne: Porque é que a evolução é verdade mas poucos acreditam nela?

PORQUE É QUE A EVOLUÇÃO É VERDADE (MAS POUCOS ACREDITAM NELA)?

Casual Conferences
Orador: Jerry Coyne
06 OUT 2012 (Sáb), 15h30
Auditório da Fundação de Serralves, Porto

Entre as maravilhas que a ciência tem revelado acerca do universo, nenhum assunto desperta maior fascínio e debate do que a evolução. Porém, raramente se menciona aquilo que importa: as provas, os dados empíricos que demonstram o processo de evolução por selecção natural. E essas provas são extensas, variadas e grandiosas, provindo de um espectro alargado de investigação científica, desde a genética, a anatomia e a biologia molecular, até à paleontologia e à geologia.

Nesta palestra, Jerry Coyne, um dos mais conceituados biólogos evolucionistas a nível mundial, apresentará um resumo sucinto e acessível dos factos que corroboram o processo evolutivo – incluindo as provas que reuniu no seu já famoso livro A Evidência da Evolução, cujo lançamento em português terá lugar nesta sessão, e provas adicionais que surgiram desde então. Ao demonstrar a existência da «marca indelével» dos processos inicialmente apresentados por Darwin, Jerry Coyne mostrará que a evolução é mais do que uma teoria: é um facto de que ninguém pode duvidar. Apesar disso a ideia de evolução continua a ser rejeitada por muita gente em todo o mundo. Jerry Coyne discutirá as razões desta resistência e sugerirá algumas estratégias que tornarão mais consensual a teoria da evolução.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Donos de peixes procuram-se!

Para um projeto de doutoramento a decorrer na Universidade de Western Australia, procura-se donos de peixes de aquário dispostos a participar numa sondagem on-line. Vejam a mensagem da doutoranda Miriam Sullivan.

If you own fish or can pass on the survey to someone who does, please visit  https://edu.surveygizmo.com/s3/1012880/fish  for more information.
This study is purely for research purposes and has been approved by The University of Western Australia’s Human Research Ethics Committee (RA/4/1/5511). You will NOT be contacted for commercial or marketing reasons.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Memento Mori - Podem os cães ter dignidade?


Esta história soube-a há dois meses atrás por uma crónica da Ana Bacalhau no DN. O artista de Taiwan Tou Yun-Fei capta uma última imagem de cães vadios minutos antes de serem eutanasiados (saiba mais aqui). O projecto chama-se Memento Mori e pretende chamar a atenção para o abandono de animais naquela ilha do sudeste asiático. A pose estudada, aliada ao equilibrado jogo de luzes, confere uma qualidade particular às fotografias. De tal forma se assemelham a retratos humanos que quase somos levados a acreditar que os cães estão, de facto, conscientes do seu destino o qual encaram com dignidade. Mas podem os cães - abandonados ou não - ter dignidade? 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Prevenção da mordedura canina - Mesa Redonda

A Associação Psianimal promove, dia 23 de Setembro, pelas 17.30, uma Mesa Redonda subordinada ao tema "Programa de prevenção da mordedura canina", que terá lugar na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa. 

Após várias notícias relacionadas com ataques de cães de raças potencialmente perigosas, a realização deste debate tem como objectivo a reflexão e discussão da situação actual em Portugal, bem como, a implementação de medidas para evitar estes acidentes, destacando-se a educação da população. O objectivo é perceber as causas para se poderem prevenir e evitar os danos causados pelas dentadas caninas. 

A mesa redonda irá dividir-se em dois momentos. Primeiramente, pretende-se partilhar os diferentes pontos de vista de diversos profissionais que lidam directamente com este problema, seja com os cães, donos ou vítimas. Num segundo momento o objectivo é alargar a discussão à audiência, onde contamos com a presença de profissionais com  diferentes experiências que nos irão ajudar a delinear medidas para se prevenirem estes acidentes.

No debate estarão os seguintes convidados: Sónia Ramalho - jornalista (moderadora), Gonçalo da Graça Pereira (Presidente da PsiAnimal), Nuno Vieira e Brito (Director Geral de Alimentação e Veterinária), o presidente da Associação de Médicos Veterinários Especialistas em Animais de  Companhia, Dra Clara Alves Pereira (Médica Pediatra) e entre outros a confirmar.

A mesa redonda está inserida no primeiro fim-de-semana do II Congresso da Psianimal, onde vários temas sobre comportamento e bem-estar animal serão abordados. Dos vários temas realçamos a palestra "Prevenir a agressividade em cães: a solução!" pela Dra. Tiny De Keuster, domingo, às 16.00, e a demonstração de cães de assistência pela Bocalán Portugal, no sábado, pelas 18.00.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Desmistificar a agressividade canina

O último mês de Agosto foi pródigo em notícias (aqui e aqui) de acidentes com cães de raças consideradas perigosas e que resultaram em mortes ou lesões graves em pessoas. A agressividade canina é um daqueles temas que mais padece de raciocínios erróneos ou mistificados. Por isso é que a opinião da colega e amiga Mónica Roriz (MR), na página web da revista profissional Veterinária Atual, é tão importante. Num artigo chamado Os Potenciais Perigosos, MR procura desmistificar o binónio agressividade - perigosidade associado a certas raças de cães, com especial incidência no papel do médico veterinário. Um dos aspectos que MR refere diz respeito ao procedimento, considerado de boa prática clínica, de isolar o cachorro durante o período de primovacinação, que normalmente ocorre entre o mês e meio e os quatro meses de vida. No entanto, este é também o período crítico de sociabilização do animal, que em grande medida determinará o seu comportamento futuro, altura em que o cachorro deve ser exposto ao maior número possível de estímulos. Os dois pontos de vista têm sido tomados como inconciliáveis, com os médicos veterinários a privilegiarem a protecção da saúde do animal (e do seu bem-estar físico) em detrimento do seu comportamento (mais relacionado com o seu bem-estar mental). As razões para esse facto permanecem por esclarecer mas atrever-me-ia a apontar a existência de lacunas consideráveis no ensino universitário do comportamento animal. Uma boa forma de colmatar essas lacunas é através da formação pós-graduada, existindo já ofertas de cursos on-line especificamente direccionados para médicos veterinários. A não perder também o Congresso da PSIANIMAL que decorre este mês em Lisboa, sendo o primeiro fim de semana inteiramente dedicado à agressividade canina e felina. A forma como MR descreve o fatídico caso do dogue argentino faz-nos pensar que mais (e melhor) poderia ter sido feito no acompanhamento (e aconselhamento) daquela família.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Quando os macacos se apaixonam: Recensão


Por Paulo Gama Mota, Director do Museu de Ciência e Professor Associado da Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade de Coimbra.

Com o subtítulo ‘A vida afetiva dos animais: das pequenas formigas aos gigantes elefantes’, esta obra de George Stilwell (Edição Esfera dos Livros, 2012) procura apresentar a um público leigo, mas interessado, alguns aspectos mais interessantes e singulares do comportamento reprodutivo dos animais.  O livro está bem escrito, num estilo rápido e cativante, em que o autor recorre com grande frequência a analogias humanas, que contribuem, através de paralelismos antropomofizantes, para criar uma ligação e empatia com o comportamento desses animais. 

O olfacto sexual das moscas da fruta, machos de abelha cujos genitais ficam na fêmea, pavões com caudas que são semáforos sexuais, pénis destacáveis do argonauta, os repertórios do pardal-cantor, o contraditório macho esgana-gata, a monogamia dos pinguins reais, o parasitismo dos cucos, a sabedoria intrínseca de um picanço a atacar um escorpião, a aprendizagem social em corvos, o desenvolvimento do canto em bicos-de-diamante, o logro químico nas formigas, ou visual nos pirilampos, são alguns dos muitos exemplos passados em revista. A narrativa não se detém muito em cada exemplo. Apresenta-o com uma pincelada, de onde se destacam os elementos com que se pretende ilustrar uma regra, ou um princípio do comportamento, ou uma singularidade. O livro organiza-se em sete capítulos abordando questões reprodutivas como a escolha do par, a gestação, ou os cuidados parentais, e outras que decorrem da existência, como a complexa questão do desenvolvimento do comportamento, a vida social e as situações de cooperação e conflito.

O estilo da escrita adequa-se bem ao público-alvo, não procurando uma caracterização exaustiva do comportamento reprodutivo dos animais, com exposição das teorias explicativas associadas. A preocupação do autor vai antes no sentido de suscitar o interesse do leitor que conduza a outras leituras mais aprofundadas sobre um determinado tema. Mostrar quão fascinante e diversificado pode ser o comportamento animal, é a principal motivação do autor. 

À organização dos exemplos subjaz um conjunto de princípios e teorias científicas, que apenas são aflorados para uma explicação contextual. Os comportamentos extra-par são justificados para aumento da diversidade genética, ou da evolução dos cuidados parentais em função das vantagens para a espécie, ou a evolução do canibalismo filial que é apresentada como vantagem selectiva para a descendência. 

É aqui que encontramos problemas na consistência teórica de alguns argumentos.
A obra oscila entre a lógica do interesse da espécie e a do interesse dos indivíduos ou dos genes, adoptando frequentemente a posição do ‘interesse da espécie’, como é claramente explicitado logo no início, na p. 18 e depois na explicação dos conflitos de interesses entre os sexos quanto aos cuidados parentais (p. 78-9) ou na forma confusa como o assunto do canibalismo é tratada (p.103-5). O argumento ‘para o bem da espécie’ foi desmontado no campo teórico, na década de 60, pelos trabalhos de George Williams, Bill Hamilton e John Maynard Smith, que mostraram que o comportamento evolui não por causa do interesse da espécie, mas o dos indivíduos ou dos genes que transportam. Quando um macho de leão matam as crias de outros machos, a fêmea fica fértil mais cedo, o que implica que pode mais rapidamente conceber crias do novo macho. O comportamento não é vantajoso para a espécie, mas evoluiu por ser evolutivamente vantajoso para o macho em questão.

Um outro aspecto que me merece crítica é o raciocínio teleológico subjacente à análise dos processos evolutivos: “A racionalidade da Evolução faz-se sentir na forma como reajusta o sucesso reprodutivo […] à exigências da situação”(p. 20) e que encontramos em inúmeras passagens na obra.  A evolução resulta de um processo puramente mecanístico decorrente de haver diferenças genéticas entre os indivíduos e de estes competirem por recursos. Atribuir-lhe uma inteligência e uma intencionalidade que não possui, embora possa facilitar o discurso e a explicação, é errado e conduz inevitavelmente a que se construam quadros mentais errados sobre a evolução dos comportamentos. 
O estilo de analogias antropomorfizantes utilizado para criar familiaridade ou fazer uma piada com a situação, com referências a reduções nas saídas do casal ao cinema (p. 64) como analogia para os custos dos cuidados parentais, ou às fêmeas preferirem a inteligência à força bruta (p. 21), pode ser excessivo para alguns, ao cruzar uma linha fina entre descrição factual e interpretação excessiva. Há vantagens e desvantagens neste processo de escrita, que o autor reconhece ao discorrer, no prefácio, sobre a intencionalidade do comportamento animal e sobre as inferências que nos é permitido fazer acerca da mesma. Neste caso, as vantagens de aproximação com o leitor compensam as desvantagens da interpretação distorcida ou menos precisa.  

De um modo geral, o propósito de divulgação do comportamento sexual entre os animais é conseguido de forma interessante, embora o estilo antropomorfizante possa provocar uma reacção menos positiva por parte dos biólogos do comportamento. Uma revisão da discussão sobre conceitos evolutivos, em futuras edições deste livro, seria desejável para que possa melhor servir a sua dupla função de entreter e de informar.

sábado, 1 de setembro de 2012

Animal Mosaic - outra forma de comunicar o Bem-estar Animal

Sob a égide da Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA, na sigla inglesa), ANIMAL MOSAIC é o mais recente site dedicado ao Bem-estar Animal. O site propõe ser uma plataforma de debate e fonte de informação sobre o mundo animal e da forma como as questões de bem-estar se relacionam com outras preocupações globais.

Das muitas fontes de informação disponíveis, é de destacar a versão renovada da ferramenta Concepts of Animal Welfare, que anteriormente só estava disponível em CD-ROM.  Esta pode ser uma boa maneira de se iniciar no multifacetado mundo (científico e filosófico) do Bem-estar Animal. Outra ferramenta importante é o Sentience Mosaic, que se vem assim juntar ao já existente Animal Sentience da Compassion in World Farming, outro site de uma ONG dedicado à consciência animal. O Sentience Mosaic providencia um Fórum de discussão sobre temas de senciência, consciência e cognição animais (e já com algumas entradas).



Ambas as ferramentas, no entanto, devem ser usadas com um alerta: as visões nelas expressas não reflectem todo a panóplia de opiniões existente no universo do Bem-estar Animal. Elas são o reflexo das estratégias e campanhas levadas a cabo pela WSPA. Na qualidade de organização líder mundial em protecção animal, a WSPA veicula uma mensagem marcadamente antropomórfica do comportamento animal, como aliás se pode perceber pelo vídeo, e que não é partilhada por todos os cientistas e filósofos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Veterinária e Animais: longe da vista, longe da profissão ?

Texto da autoria de Ana Santos, Bruno Lopes e Leonor Valente
Alunos da Pós-graduação em Bem-estar Animal, ISPA

A utilização de animais - resultando muitas vezes em sofrimento ou morte dos mesmos - continua a ser comum na educação veterinária em disciplinas como cirurgia, fisiologia, bioquímica, anatomia, farmacologia e parasitologia. Nos dias de hoje, em que se sabe que os animais sentem dor e stress (o conceito de senciência animal está, aliás, consagrado na lei da União Europeia desde 1997), parece assim pouco ética a utilização e manutenção de animais para uso exclusivo no ensino, e sua perpetuação, pode estar ligada a uma falta de planeamento e aproveitamento dos recursos já existentes nas faculdades. Este tipo de abordagem tem implicações na formação dos próprios alunos, ao promover uma desvalorização da própria vida dos animais. Tem também um impacto negativo no bem-estar dos animais implicados e nos custos que a manutenção e uso de animais representa para cada faculdade. Substituir este tipo de prática por outras alternativas mais éticas e com resultados de aprendizagem igualmente satisfatórios trará novas oportunidades para professores, beneficiará os alunos, as faculdades, o mercado (explorações pecuárias, clínicas e hospitais veterinários, associações zoófilas) e, não menos importante, os animais.

Tradicionalmente, a profissão veterinária não tem sido a mais activa no avanço do ensino e divulgação das questões de bem-estar animal (Nota do Editor: um papel muitas vezes deixado a organizações como a WSPA). Isto é atribuído em parte à educação inadequada para esta temática durante o curso já que parece haver uma inibição do desenvolvimento da capacidade de raciocínio moral ao longo dos cinco anos de formação. Esta inibição pode ter duas explicações: pode, por um lado, ser devida aos exemplos dados pelos docentes, que em muitos casos não terão tido formação específica em questões de natureza ética e de bem-estar animal, e, por outro, pode também representar uma adaptação que permite aos alunos suportar o stress psicológico resultante do sofrimento causado em seres sencientes e na ausência de motivo aparente.

Algumas das alternativas realistas e que podem ser utilizadas para eliminar a utilização de animais no ensino incluem o recurso a modelos cirúrgicos e programas multimédia. No entanto, e apesar de existirem já várias alternativas que promovem igual ou mesmo maior aprendizagem por parte dos alunos (Nota do Editor: é o caso do simulador de palpação transrectal), continua a existir a necessidade de trabalhar com animais vivos em determinadas matérias. Esta prática não tem de ser eliminada, mas é necessário certificarmo-nos da proveniência, manutenção e destino desses animais. A título de exemplo podemos pensar nas faculdades de medicina veterinária em Portugal, as quais têm um hospital associado à instituição. Se os animais que procuram estes hospitais realmente necessitam de uma intervenção médica poderão ser aproveitados como objeto de estudo para os alunos, sem que se levantem questões éticas adicionais e permitindo que os alunos beneficiem exatamente do mesmo tipo de prática. Isto traz também a vantagem de permitir ao aluno uma noção mais real da prática clinica. Outro exemplo são as associações zoófilas que frequentemente se deparam com a sobrepopulação de animais e a escassez de cuidados médicos dos mesmos. Estes animais poderão também servir os alunos como objeto de estudo suprindo as necessidades das associações.

Na nossa opinião, estes são apenas alguns exemplos que demonstram como a utilização e manutenção de animais com fins exclusivamente educativos se pode tornar obsoleta e desnecessária existindo, no entanto, alternativas para a formação melhorada dos profissionais mais profundamente consciencializados para temas éticos e de bem-estar animal.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Educar para mudar?


No meio da minha leitura dos textos vindos do trabalho de didática em bem-estar animal, encontrei na última edição da revista Animal Welfare uma recensão do livro Education for Animal Welfare. O balanço custo (99,95€) - benefício (88 paginas e uma critica bastante reservada) não me faz correr a comprar o livro, mas a crítica de autoria de Siobhan Abeyesinghe levanta varias questões importantes que aproveito para trazer para cá:

“The issue, as with many environmental and health concerns, is not how to reach those who are already sympathetic, but how to reach those who are not. The risk of using very emotive and castigating language to raise awareness in the first place is in actually alienating rather than engaging the audience whose attitudes and knowledge we wish to alter. Likewise, I found the implication that simply raising awareness alone would necessarily change human attitudes and thus improve animal protection somewhat naïve. In terms of aiding the prospective educator, I consider an opportunity to address the education and learning process itself was missed. For example, what should education aim to act upon? Knowledge alone may not necessarily be implemented if it is counter to beliefs or not perceived to be of personal relevance; positive and caring attitudes may actually be detrimental to welfare without appropriate knowledge – pet obesity is an example of ‘killing with kindness’; animal welfare-promoting behaviour may not be implemented if a person does not perceive it to be their responsibility; they perceive it to risk censure or they do not consider their behaviour will make a difference. So, is it necessary to alter knowledge, attitude, behaviour or combinations of these factors? How do we achieve this and how do we address barriers to their implementation?"

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Animais de estimação – uma escolha para a vida

Texto da autoria de Cláudia Correia, Filipa Abreu e Maria da Paz Pereira
Alunas da Pós-graduação em Bem-estar Animal, ISPA

Uma das grandes causas da posse insuficientemente ponderada de animais de companhia reside na insistência das crianças no seio familiar. A sensibilização das crianças para este tema deve, pois, ser uma acção enquadrada na estrutura escolar (com pais e educadores, professores, animadores de ATL’s, etc.). Este é o ambiente ideal para ensinar e promover práticas de bem cuidar e, ao mesmo tempo, incutir atitudes conscientes em relação à posse, pois um dos factores que desperta o desejo numa criança de ter um animal é a imitação e a influência dos pares. Em paralelo ao ambiente escolar, as associações de protecção de animais abandonados e os canis/gatis podem também exercer importante influência nas crianças alertando-as para os problemas do abandono dos animais e promovendo alternativas à posse de um animal, com apadrinhamentos, horários de visitas para cuidar de alguns animais, fazendo-lhes companhia ou levando-os a passear, ofertas de brinquedos, etc. As escolas de treino de animais podem também ser um importante veículo para ensinar os donos a corrigir problemas que se poderão agravar no futuro e levar à negligência do trato ou mesmo abandono e as crianças, cujos pais procuram estas escolas, devem acompanhar os seus animais e envolverem-se de modo a compreender as suas necessidades e tudo o que está em causa quando se toma posse de um animal de estimação.

Educar para uma posse responsável dos animais implica que os educadores ensinem as crianças a tomar decisões ponderadas e, por outro lado, crianças que aprenderam a ser responsáveis com os seus animais podem influenciar os comportamentos dos adultos e promover alternativas conscientes. As grandes lições de vida passam pelas difíceis decisões que se aprendem a tomar. Sendo as crianças um factor de peso tão grande na influência da aquisição de um animal de estimação, podem ser elas a sugerir alternativas à posse de um animal, algo muitas vezes esquecido pelos adultos. Por outro lado, sendo possuidoras, podem partilhar o seu animal.

Manter com os outros seres (não humanos) relações saudáveis e conscientes permite a construção de pilares sociais onde as crianças que hoje cuidam de modo responsável virão a ser adultos incapazes de abandonar um animal de estimação à sua sorte. Crianças com conceitos corretos de relacionamento com os animais virão a ser adultos com características sociais mais estruturadas e assentes em valores que enriquecem as relações não só entre humanos e animais, mas entre os próprios humanos.