sexta-feira, 31 de maio de 2013

"Devemos estudar chimpanzés em Cativeiro?" - O Debate


Neste momento há 451 chimpanzés em laboratórios do NIH nos Estados Unidos. No entanto, este organismo pretende em breve “aposentar” muitos destes animais, congelar novas autorizações para o seu estudo em laboratório e extinguir faseadamente projectos actualmente a decorrer. Esta decisão resulta de um relatório de 2011 sugerindo que a maior parte da investigação nestes animais em laboratórios é desnecessária. 

O debate promovido pela Science pretendeu dar resposta a perguntas como: Que tipo de estudos (se algum) deverão continuar a ser efectuados em chimpanzés cativos? Há algum modo ético de conduzir estudos biomédicos em animais desta espécie? O que é que podemos aprender de estudos em cativeiro que não seja possível em meio selvagem, e vice-versa? 

Os convidados foram William HopkinsPascal Gagneux e Brian Hare . 


Cada um dos investigadores convidados apresentou posições distintas, havendo no   entanto alguma convergência nalguns pontos:

Em termos gerais, William Hopkins considera que é errado discutir se é melhor estudar chimpanzés em estado selvagem ou em cativeiro, pois ambas as abordagens são úteis e complementares. Para Hopkins, o estudo em cativeiro permite controlar uma série de variáveis de um modo que é completamente impossível num ambiente natural.  

Já Pascal Gagneux não considera ser possível estudar devidamente o comportamento e desenvolvimento dos chimpanzés num ambiente de privação sensorial e social como um laboratório pois, por maior que sejam os esforços no enriquecimento ambiental desse espaço, nada substitui o habitat natural da espécie. 

Para Brian Hare, há valor no estudo destes animais quer num ambiente selvagem, quer em cativeiro. Contudo, para Hare, estudar primatas em cativeiro não significa fazê-lo num laboratório, e menos ainda através de experiências invasivas. Aliás, ele não vê porque esse meio cativo não poderá ser em África, já que a Internet e as ligações áreas regulares ao continente (algo que não era possível quando se construíram as primeiras instalações para primatas nos EUA) o possibilitam. Isto poderá também ter um impacto positivo no desenvolvimento local e nos esforços de conservação da espécie. Para além disso, abre a possibilidade para o estudo ético de Bonobos, "a espécie certa", já que é mais próxima dos humanos.

Relativamente às questões em debate cada um dos investigadores esgrimiu argumentos  éticos e científicos relevantes a ter em consideração antes de formar uma opinião sobre o tema. Vale assim a pena acompanhar esta conversa em diferido no vídeo acima, estando em breve disponível também o áudio e transcrição do debate.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Devemos estudar chimpanzés em cativeiro?

A pergunta é discutida num chat a decorrer hoje (às 15h EDT ou seja 20h portuguesas) motivado pela reforma planeada dos chimpanzés mantidos nos National Institutes of Health estadounidenses. Para mais informação, clique sobre a imagem.



segunda-feira, 27 de maio de 2013

É menos ético usar animais para estudar obesidade?

O uso de animais na investigação é controverso. Segundo alguns filósofos, nunca ou quase nunca  é eticamente justificado realizar experimentação animal para o benefício de outros. Do outro lado defende-se o valor científico de experiências com animais.


Além do (frequentemente aceso) debate, existe uma posição de compromisso, em que a nossa legislação se baseia. Podemos ver isto claramente nos recitais (o texto que precede os parágrafos num texto legal da União Europeia e que explica o fundamento das normas estabelecidas) da Diretiva 2010/63/UE que regula investigação com animais na Europa: 

“Embora seja desejável substituir a utilização de animais vivos em procedimentos por outros métodos que não impliquem a sua utilização, o recurso a animais vivos continua a ser necessário para proteger a saúde humana e animal, assim como o ambiente.” (recital 10)
“os animais deverão ser sempre tratados como criaturas sencientes e a sua utilização em procedimentos deverá ser limitada a domínios que, em ultima análise, tragam benefícios para a saúde humana ou animal, ou para o ambiente” (recital 12)
“A escolha dos métodos e das espécies a utilizar tem impacto directo tanto no número de animais utilizados como no seu bem-estar. Por conseguinte, a escolha dos métodos deverá assegurar a selecção do método susceptível de proporcionar resultados mais satisfatórios e provocar o mínimo de dor, sofrimento e angustia.” (recital 13)

Ou seja, investigação com animais é legalmente (e portanto segundo a visão em que a legislação se baseia, também eticamente)  aceitável quando não existir outro método, quando o sofrimento animal é minimizado e quando produz benefícios para a saúde ou ambiente. E – o que na Diretiva tem que ser lido nas entrelinhas – quando o beneficio ultrapassa o custo.

E é com referência ao último aspeto que académicos e ONGs têm argumentado que investigação sobre obesidade não justifica o uso de animais. Nas palavras do Marc Bekoff:
“A good deal of obesity can be easily prevented so these monkeys are being used to study a condition that many people can we can avoid simply by choosing healthier lifestyles. The monkeys shouldn't have to pay for our indiscretions and poor choices.”  

Num primeiro olhar, parece coerente. Baniu-se (na Europa) o uso de animais para testar cosméticos e há uma visão quase unânime que os animais não devem pagar pela a vaidade humana. Mas aguentará um argumento semelhante contra estudos de obesidade uma análise mais aprofundada?




Neste artigo analisamos os dois principais argumentos contra o uso de animais na investigação em obesidade: o argumento da responsabilidade pessoal e o argumento da distração.

Central no argumento de responsabilidade pessoal é a afirmação que as pessoas são responsáveis pela sua obesidade. Comida a mais e exercício a menos resultam em peso a mais, e os problemas de saúde relacionados poderiam ser resolvidos ou prevenidos com uma mudança de hábitos. Isto parece ser um facto, mas implica isto que o estilo de vida de uma pessoa é a sua responsabilidade moral? No que diz respeito a hábitos alimentares, estes são em grande medida adquiridos na infância, não se tratando assim de algo que escolhemos conscientemente, como quando escolhemos investir o nosso dinheiro num videojogo ou numa mensalidade no ginásio. E tão pouco como podemos escolher os nossos pais, podemos escolher os hábitos com que somos criados. Isto não implica que não possamos alterar os nossos hábitos (quanto a pais, creio que continua impossível...), mas implica que é muito mais difícil e que o sucesso não é garantido – como muita gente confirma repetidamente. Mas, para além disto, os hábitos alimentares na infância não afetam só os hábitos alimentares do adulto, havendo evidência clara de que se traduzem em alterações biológicas. Por exemplo, a amamentação parece reduzir o risco de obesidade em crianças

O argumento de distração toma como ponto de partida a observação que hábitos pouco saudáveis, e sobretudo os associados com obesidade, podem ser prevenidos. Assim sendo, argumenta que se a ênfase deve ser dada às medidas de prevenção. Novamente, é um facto que hábitos pouco saudáveis podem ser alterados e que isto reduz os problemas de saúde que deles derivam. Mas não é óbvio que isto seja um argumento contra a investigação com animais na área. A conclusão de que é errado investir em investigação com animais sobre obesidade necessita que duas condições sejam cumpridas:
a) investigação com o objetivo de desenvolver terapias para obesidade (e outras doenças relacionadas com estilo de vida) retira atenção e recursos das medidas de prevenção
b) todos os problemas com obesidade podem ser resolvidos através de estratégias de prevenção

Não existe evidência que sugere que a primeira condição seja verdade. Na área de investigação sobre obesidade, o nº de artigos científicos sobre estratégias de prevenção e controlo aumentou quase 10 vezes num período de 12 anos (1995/98-2007/10), e este tipo de investigação tem crescido mais do que qualquer outro tipo na área.

É também altamente questionável que seja possível resolver o problema de obesidade apenas através de prevenção. Esta poderá ser uma ferramenta eficiente para controlar fatores que tenham a ver com a conduta individual. E com mais pais com hábitos saudáveis, menos crianças serão criadas com hábitos pouco saudáveis. Mas mesmo se esta abordagem viesse a ter sucesso completo (o que em si é muito pouco provável), antes de os seus efeitos terem penetrado toda a população, muita gente virá desenvolver problemas de saúde relacionados com obesidade.

Face ao que é sabido da patobiologia e epidemiologia de obesidade humana, não se pode argumentar que experimentação animal seja menos aceitável para estudos desta doença do que para outras doenças humanas. Claro que isto não implica carta-branca para cada experiência animal com objetivo de estudar obesidade. Há ainda espaço amplo para uma discussão critica sobre que aspectos desta doença que são adequados a estudar em animais.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Casa Andresen no Porto invadida por animais selvagens



Desde o passado sábado, dia 18 de maio, que perigosos predadores andam à solta na Casa Andresen (no Jardim Botânico do Porto), em mais uma original exposição organizada pela Universidade do Porto. Desde leopardos que caçam impalas a rinocerontes, a exposição “Animais de Museu” junta mais de 100 exemplares taxidermizados vindos de todos os continentes, colocados em poses naturais e equilíbrios impossíveis.

Numa Casa Andresen completamente às escuras, os visitantes são convidados a fazer parte da performance, usando lanternas de cabeça para explorar o espaço e descobrir os animais que se escondem no seu interior, deliciando-se com os pormenores realistas que esta técnica de preservação permite conservar. Com os animais parados no tempo e no espaço, os visitantes embrenham-se nesta experiência, sendo acompanhados pelos sons produzidos por Manuel Cruz, músico portuense conhecido pela sua ligação a bandas como Ornatos Violeta, Pluto ou Supernada.

Ao chegarem ao piso superior da Casa, os visitantes ficam a “salvo”, numa espécie de “sala de gestão de crise”, onde são disponibilizados mapas e todo material necessário para que os visitantes aprofundem os seus conhecimentos sobre os animais em exposição. A taxidermia, arte de montar ou reproduzir animais para exibição ou estudo, é também explicada nesta sala.

Esta “invasão” vai durar cerca de seis meses e será acompanhada por um programa que prevê várias intervenções culturais de cantores, bailarinos, atores ou ilustradores. A exposição estará patente todos os dias, podendo ser visitada das 10 às 22 horas. Os ingressos custam entre os 1.50€ (para crianças e idosos) e 2.50€ (bilhete normal).

A Casa Andresen é antiga casa de família de Sophia de Mello Breyner e Ruben A. Para sempre imortalizada na obra literária de ambos, a Casa foi renovada em 2011 e já recebeu exposições como a “Evolução de Darwin” ou “Reservas” de Armanda Passos.

Fonte original aqui.


segunda-feira, 13 de maio de 2013

O banco alimentar...para animais

A associação Animalife promove até dia 19 de Maio uma campanha de recolha de rações e outros produtos para animais de companhia nas cadeias de supermercados Continente para o Banco Solidário Animal, que apoia cerca de 60 instituições de apoio a estes animais por todo o país. 

Panfleto de divulgação da campanha
É a segunda recolha deste género - contando este ano com cerca de 600 voluntários - tendo sido  divulgada nos meios de comunicação social e contado com o apoio de figuras conhecidas do grande público. 

Alimentos e outros produtos recolhidos no dia 11 de Maio
no Continente de Matosinhos
Louva-se a iniciativa, que no ano passado ajudou a apoiar a acção de várias instituições devotas à causa animal, e nomeadamente aos milhares de animais de companhia abandonados que ajudam.

Não posso deixar de mencionar que, estando esta iniciativa inserida no "projecto de responsabilidade social" da referida cadeia de supermercados do grupo SONAE, a mesma esteja a lucrar consideravelmente com a venda destes artigos (não vi nenhum comprado noutro local) e aos quais deu o devido espaço de promoção privilegiado. Ganham todos, portanto...

segunda-feira, 6 de maio de 2013

CAROCAT - Novo site

O CAROCAT (Companion Animal Responsible Ownership - Cat) é a nova plataforma virtual  que pretende fornecer e difundir conhecimento fidedígno sobre gatos na Europa, com especial enfoque na gestão da sobre-população felina e nas suas consequências em termos de bem-estar animal.
À semelhança do CARODOG,  este website oferece ferramentas científicas, legais e logísticas capazes de promover estratégias políticas capazes e programas concretos de controlo e gestão das populações felinas a nível europeu.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Cães de apoio ao ensino propedêutico no ICBAS: um apelo do Inácio


Helpmyfriends from Inácio on Vimeo.
Um grupo de alunos e ex-alunos do ICBAS escreveu uma carta aberta ao Presidente do Conselho Directivo daquela instituição a alertar para as condições de alojamento e maneio dos cães de apoio ao ensino propedêutico em medicina veterinária.

O abaixo-assinado pode ser encontrado aqui.

Como antigo aluno de Medicina Veterinária e actual aluno de doutoramento em Ciências Veterinárias do ICBAS sinto uma enorme simpatia pelo Inácio e também por esta iniciativa. Quando fiz uma visita às instalações do novo ICBAS não deixei de ficar impressionado com a sua dimensão colossal, com as condições dos seus laboratórios e o planeamento do seu Hospital Veterinário. Mas uma coisa me deixou preocupado; o canil ocupava o último andar do edifício e não tive autorização para o visitar. Na altura questionei-me como era possível passear os cães e foi-me dito que uma área do terraço lhes estava destinada. Não deixa de ser sintomático que o vídeo que acompanha o abaixo-assinado também não exiba imagens dos animais (será que também não tiveram autorização para os filmar?) e ficamos a imaginar o que será olhar para os azulejos da parede durante todo o dia enquando ouvimos o ressoar de latidos vizinhos.

Os cães utilizados para ensino veterinário (não invasivo) não devem ser motivo de embaraço para a instituição nem armas de arremesso por parte de movimentos de libertação animal. Eles desempenham, a meu ver, um papel determinante na formação de médicos veterinários. Mas se me fosse permitida uma alteração ao abaixo-assinado, eu chamaria a atenção para a participação dos próprios alunos na melhoria das condições de vida destes animais. A responsabilidade pelo seu bem-estar não cai só na Direcção da escola nem nos dois funcionários do canil. Mas talvez isso já esteja a ser equacionado.


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Sociedade Portuguesa de Etologia


Após um período de atividade reduzida, a Sociedade Portuguesa de Etologia anuncia agora -  atraves do seu novo presidente Paulo Gama Mota -  a reanimação desta organização científica fundada em 1987. 

Com uma nova composição dos órgãos sociais desde Janeiro este ano, a direção da SPE passa a integrar cientistas de norte ao sul do Portugal, com o presidente Paulo Gama Mota da Universidade de Coimbra e do CIBIO-UP, Gonçalo Cardoso e Rita Covas do CIBIO-UP, Eduardo Barata da Universidade do Algarve, Joana Jordão da Universidade de Lisboa, Clara Amorim do ISPA e Susana Lima da Fundação Champalimaud.

O próximo congresso, o 10º Congresso Nacional de Etologia, terá lugar dias 24-25 de Outubro na Fundação Champalimaud.

Mais notícias no Newsletter da SPE, onde também há informação sobre como fazer para (como eu preciso) re-ativar a sua presença da SPE ou fazer-se novo sócio.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Parisienses ovinas

Quando levanto o olhar da minha secretária de trabalho, vejo as arvores do jardim do Circúlo Universitário da Universidade do Porto. O que não é nada desagradável, mas para uma animalogante não se compara com as ovelhas que pastam no jardim dos arquivos municipais de Paris. São para já quatro ovelhas cuja função é de manter os relvados cuidados sem recurso a maquinas.

A semana passada lançou-se a primeira pedra do edifício do I3S onde se vai integrar o que é agora IBMC_INEB e onde tenho o meu lugar de trabalho. Estou com vontade de animar as discussões sobre a estrategia científica com a pergunta se podemos ter um burro no quintal.

Brincadeiras à parte, a iniciativa faz todo o sentido num programa de ambições verdes. Quem quer um cortador de relva barulhente e a cheirar de gasolina quando se pode ter uma ovelha?

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Rede Europeia de juristas de bem-estar animal

Olá Marlene Wartenberg e Sophie Duthoit, porta-vozes da European Enforcement Network of Animal Welfare Lawyers and CommissionersPodiam explicar melhor em que consta esta iniciativa
 
A iniciativa resultou da conferência Enforcement of EU Animal Welfare related legislation, que foi co-organizada pela VIER PFOTEN – Stiftung für Tierschutz (a Fundação para o Bem-Estar Animal “Quatro Patas”) e o Eurogroup for Animals a 12 e 13 de Junho de 2012, tendo como parceiros  o Stiftung für das Tier im Rech (“Fundação para Animais na Lei”), a Deutsche juristische Gesellschaft für Tierschutzrecht (“Sociedade Jurídica para as Leis de Protecção Animal”) e um grupo de académicos da Universidade Autónoma de Barcelona. Na conclusão desta conferência foi salientada a falta de uniformização na leis e sua aplicação. Tomando isto em consideração, uma rede de cooperação foi criada pela VIER PFOTEN com o objectivo de desenvolver uma “cultura de supervisão” sustentável na protecção dos animais. Esta rede já conta com mais de trinta membros de doze países diferentes, todos juristas na área do direito animal ou juristas trabalhando em legislação de bem-estar animal. Em Janeiro de 2013, o website da rede (www.lawyersforanimalprotection.eu) foi oficialmente lançado durante uma recepção no European Policy Office do VIER PFOTEN/ FOUR PAWS. Pretendemos que esta plataforma permita a troca de notícias e conhecimento jurídico, bem como experiência política na  execução destas leis de bem-estar animal nos Estados Membros.
  
O conceito de lei para o bem-estar animal, ou para a protecção dos animais é algo já familiar no contexto europeu. Há directivas europeias para a protecção da maior parte dos animais usados por humanos e o seu desenvolvimento e transposição para as leis de cada país tem ganho a atenção do público. Mas o conceito de “jurista em bem-estar animal” não é muito conhecido. O que é então um jurista desta área e como pode alguém tornar-se um?
Não há uma definição oficial de “jurista em bem-estar animal” na Europa. Alguns países da UE não consideram sequer que seja uma especialidade do Direito. Basicamente é uma pessoa que tem uma formação de base em Direito e que se especializou nesta área através de cursos de formação, ou ao realizar trabalho prático em legislação para o bem-estar animal. De facto, isto é uma parte do problema da supervisão da execução das leis que foi destacada durante a conferência em 2012. Nalguns países da UE é possível a alguém tornar-se um jurista especialista em bem-estar animal directamente, através da frequência de cursos específicos nalgumas faculdades de Direito, como em Espanha na Universidade de Barcelona (mestrado), no Reino Unido e agora na Suíça (programa doutoral na Universidade de Basileia). Noutros países não é possível estudar legislação em bem-estar animal, e quaisquer juristas motivados para trabalhar nesta área terão necessariamente que aprender por si mesmos. Para além disso, alguns juristas em direito animal têm uma formação base em medicina veterinária e depois pela prática ou aprendizagem formal especializaram-se nesta área. Não há portanto uma prática comum no que diz respeito a tornar-se um jurista em bem-estar animal, variando muito de país para país. 

O que faz um jurista em bem-estar animal? 

Juristas em bem-estar animal podem ter diferentes funções dependendo dos países e da sua profissão. Nesta área podemos encontrar advogados, comissários, provedores de justiça, delegados e até mesmo advogados de acusação. As atribuições de cada uma destas funções poderão variar bastante de país param país. Um ponto em comum entre todas estas pessoas é que todas trabalham em legislação para o bem-estar animal, nalguma altura. Alguns são inclusive responsáveis pela redacção de legislação em bem-estar animal, outros na execução destas leis, ou consultores jurídicos. 

Tem conhecimento de quantos advogados em bem-estar animal existem na Europa?  

É um pouco difícil responder. Seja qual for o caso, sou da opinião de que não temos um número suficiente. Mas esperamos que com esta nova rede de cooperação, o interesse para assuntos legais em bem-estar animal cresça, bem como o número de locais onde se possa estudar direito animal. 

terça-feira, 26 de março de 2013

O uso de animais em investigação biomédica: uma perspectiva histórica

"O uso de animais não-humanos na pesquisa biomédica tem dado importantes contribuições para o progresso da medicina alcançado em nossos dias, tendo também sido motivo de acesa discussão pública, científica e filosófica." 

Frases como esta são frequentemente derramadas na secção introdutória ou no resumo de artigos subordinados à ética ou bem-estar de animais usados em ciência. Recentemente, decidi assumir o compromisso de ir mais longe e aprofundar a história por detrás de afirmações genéricas como esta, e fazer uma revisão do uso de animais em ciência, que identificasse os seus principais protagonistas e que avaliasse como esta prática afectou ou foi influenciada pela sociedade, desde a Antiguidade até os dias de hoje. Sendo o mote para este estudo sido dado pela necessidade de escrever uma introdução para a minha tese de doutoramento, a mesma acabou contudo por ganhar "vida própria". 

“Uma demonstração fisiológica através da vivisecção de um cão" 
 Émile-Édouard Mouchy (1832)



Assim, após análise de mais de duas centenas de referências, meses de escrita (e reescrita), dos imprescindíveis comentários da parte da Anna e do Manuel, e das valiosas críticas de quatro revisores anónimos, chega este estudo à sua forma final pela mão da Animals, uma recente revista científica em open-access, e com a qual posso dizer que tive uma excelente experiência, como autor. 


Espero que este artigo possa ajudar estudantes e académicos que necessitem de uma introdução aos aspectos historicamente relevantes da ciência, filosofia e sociologia da experimentação animal, bem como a todos aqueles com interesse pelo tema.
Ah, e não se admirem que comece a usar esta referência amiúde, no blog...

sexta-feira, 15 de março de 2013

Luna, a vaca saltadora

No contexto da actual polémica da venda de cavalo por vaca, não resisto a partilhar uma troca em sentido contrário, esta provavelmente bem menos controversa. Apresento-vos assim Luna, a vaca saltadora: 



Apesar do aspecto lúdico deste post, não posso no entanto deixar de colocar questões que considero interessantes do ponto de vista da ética e bem-estar animal.

Para começar, e admitindo que não sei o suficiente sobre o comportamento de bovinos para avaliar da "naturalidade" desta situação para Luna, arrisco-me propor que estes não foram originalmente seleccionadas para: a) transportar humanos no seu dorso e b) fazê-lo enquanto saltam obstáculos. É assim legítimo interrogarmo-nos se, por exemplo, a morfologia particular das vacas não as torna mais propensas a lesões que os cavalos, nomeadamente ao nível dos membros.

Já do ponto de vista ético, e ainda que se venha a demonstrar não haver impacto de maior no bem-estar do animal, poder-se-á colocar por exemplo a questão do desrespeito pelo seu Telos. Ou, como Bernard Rollin a descreveria, "the cowness of the cow".

Já agora, e traçando um paralelo com o choque no Reino Unido resultante da revelação que carne de cavalo estava a ser vendida como carne de vaca, podemo-nos interrogar quais seriam as hipotéticas consequências da generalização da vaca como animal de companhia, ou de equiparar o seu estatuto ao que actualmente tem o cavalo no imaginário colectivo. Um bom ponto de partida seria perguntar à amazona Regina Mayer o que tem a dizer sobre o consumo de carne de bovino...

segunda-feira, 11 de março de 2013

O consumo excessivo - Samsara


La surconsommation (o consumo excessivo), assim se chama o pungente vídeo que circula na internet. Trata-se de um excerto do documentário Samsara de 2011 (realizado por Ron Fricke), uma experiência visual  absolutamente assombrosa sobre as assimetrias do nosso maravilhoso, e ao mesmo tempo aterrador, planeta Terra. O filme percorre os cinco continentes e demorou quase cinco anos a ser filmado.
O excerto em causa parece passar-se na China e retrata o superlativo da massificação da pecuária industrial, fazendo depois a ligação para o consumismo e a obesidade. O realizador tem o cuidado de descrever (através da imagem já que o filme não tem comentários) aspectos de três das mais importantes formas de produção pecuária: a apanha mecânica de frangos de engorda (broilers), as celas de amamentação de porcas e a ordenha mecânica em bovinos leiteiros. Um quarto aspecto, o do trabalhador humano, também não é esquecido. O traveling lento da câmara de alta definição permite-nos deter sobre pequenos pormenores e qualquer um deles merecia um comentário demorado. As imagens muitas vezes aceleradas transmitem uma sensação de urgência que, aliada à escala quase sobre-humana dos espaços, nos impele a reflectir sobre os nossos hábitos de consumo e sobre as suas consequências. Mal posso esperar por ver o filme completo. 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Pastoreio e publicidade

A associação Djurskyddet Sverige (Animal Welfare Sweden) denunciou recentemente à Agência Sueca dos Consumidores um filme de publicidade da margarina Bregott* como sendo publicidade enganosa.

O filme que está em causa chama-se Kvalitetskontroll i Bregott-fabriken (controlo de qualidade na fábrica de Bregott) e mostra um vitelo a mamar uma vaca num pasto ao ar livre. Não é este o filme denunciado, mas podia ser, pois o que está em causa também consta nele:




Segundo a legislação sueca, as vacas leiteiras devem ter acesso a pastoreio por 2 a 4 meses durante o periodo 2 de maio a 15 de outubro. No entanto, esta regra não inclui vitelos e na Suécia, à semelhança do que acontece noutros países industrializados, não é costume manter os vitelos junto com as vacas leiteiras.



Algo semelhante se passa em Portugal. A imagem acima ilustra a presente campanha de publicidade da principal empresa de setor de leite no norte do país. Sendo que o sistema predominante de produção na região implica manter as vacas permanentemente estabuladas, o que diria a DECO?

Uma sugestão, para a publicidade na imagem acima deixar de ser problematica, bastava uma simples alteração. Se as embalagens de leite não fossem da linha principal da empresa, mas da sua linha de leite produzido em modo biológico, já seria correto publicitar com as vacas no pasto. 

*Bregott é fabricada pela indústria leiteira a partir de manteiga a qual se adiciona óleo de colza e água para gerar um produto menos gordo e possível de barrar em frio. O produto existe desde 1969 e foi sempre publicitado como uma alternativa mais natural à margarina convencional.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Oportunidades de emprego: projeto GeneWell

No ambito do projeto GeneWell sobre qual se falou no post anterior vai se contratar técnicos, doutorandos e pós-docs:



Candidaturas até 15 de Março.Para mais informação, ver o anúncio aqui

sexta-feira, 1 de março de 2013

Genetica molecular e bem-estar animal - entrevista com Per Jensen

Olá Per Jensen, professor de Etologia e coordenador do grupo de investigação AVIAN na Universidade de Linköping, na Suécia. Parabéns pela atribuição do European Research Council Advanced Grant para o projecto Genetics and Epigenetics of Animal Welfare (GENEWELL)! Podias por favor explicar aos nossos leitores um pouco mais sobre este projecto? 

O plano é estender a nossa actual linha de investigação em genética e epigenética do comportamento em galinhas, mas também abrir uma nova linha de investigação deste tipo em cães. Estou particularmente interessado em aprofundar o conhecimento em bem-estar animal, nomeadamente como é que os animais são afectados por experiências stressantes, como lidam com estes desafios e como a habilidade para o fazer é afectada por factores genéticos e epigenéticos. Tradicionalmente, tem-se focado a pesquisa em bem-estar nas interacções entre animais e o seu ambiente, como por exemplo no que diz respeito às necessidades comportamentais de cada espécie. Estou interessado em perceber como isto é afectado pelos genes do animal, e também como é afectado pela intensa selecção de que os animais são alvo face às condições de produção modernas. Investimos vários anos no mapeamento de genes relacionados com o comportamento, stress e bem-estar em galinhas e queremos agora fazer estudos semelhantes em cães. O melhor amigo do homem tem sido criado para manifestar diferentes comportamentos há centenas de anos, e isto abre uma oportunidade de ouro para encontrar genes relacionados com as diferenças entre as raças. Por exemplo, que mecanismos genéticos fazem com que algumas raças sejam capazes de lidar melhor com situações stressantes, ou para colaborar com humanos? Esta é uma abordagem relativamente nova na investigação do bem-estar animal, e penso que dará uma contribuição fundamental para o nosso entendimento da biologia animal, no seu todo. 

A genética molecular tem sido vista como uma revolução, num certo sentido, em muitas áreas de investigação em ciências da vida. Em muita da investigação biomédica, por exemplo, tem permitido aos cientistas identificar mutações determinantes para certas doenças, bem como criar modelos melhorados destas doenças. Estas ferramentas demoraram mais a entrar na ciência de bem-estar animal. Que importantes descobertas podemos esperar do uso da genética molecular nesta área?

A visão tradicional em Biologia tem sido que os animais nascem com um determinado conjunto de genes estáveis que só se alteram gradualmente e ao longo de muitas gerações pela acção da selecção de mutações aleatórias. No entanto, tem sido cada vez mais evidente que o modo como os genes são expressos e interagem pode mudar ao longo da vida. Ao conjunto de mecanismos que regulam este fenómeno – mudando o modo como os genes funcionam sem contudo alterar a sequência de DNA –chamamos “epigenética”. Penso que podemos ter subestimado até que ponto esta orquestração do genoma é afectada por situações stressantes ao longo da vida, e como isto por sua vez altera a habilidade de um animal de se adaptar a vários desafios. Têm sido demonstrados inclusive efeitos epigenéticos transgeracionais, de modo que o stress numa geração pode afectar descendentes que ainda não nasceram ou eclodiram
 
Espero vir a compreender como mutações, por exemplo aquelas acumuladas durante a domesticação, afectam o sistema de controlo do stress e como os mecanismos epigenéticos podem calibrar e modificar todo este sistema. A relação entre os genes e as interacções ambientais são bem conhecidas em ciência: o modo como um gene em particular afecta o fenótipo depende do ambiente em que o animal vive. Agora queremos acrescentar ao epigenoma e estudar interacções entre três factores: alguns genes podem causar variação epigenética, que por sua vez afectam a expressão génica e tudo isto modela o fenótipo, que depende ainda do ambiente. A maior parte deste trabalho será realizado em galinhas mas, usando cães e a imensa variação entre as diversas raças, esperamos poder encontrar genes e mutações que possam explicar variações no modo como os animais se adaptam a diferentes circunstâncias.

Perguntei acima acerca de importantes descobertas futuras. Podemos no entanto já ter algumas descobertas importantes? 

Sim, sem dúvida. Por exemplo, localizámos nas galinhas dois importantes genes, onde mutações têm vindo a ser seleccionadas pelo processo de domesticação. Ao estudar galinhas portadoras dessas mutações e comparando com o seu antecessor (o galo selvagem) continuaremos a tentar entender todos os seus efeitos fenotípicos. O primeiro gene (TSHR) codifica para o receptor da hormona estimulante da tiróide. Este gene está aparentemente envolvido no desenvolvimento e maturação sexual e poderá afectar o comportamento e a resposta ao stress. O outro gene no qual já estamos a trabalhar codifica para o alfa-adrenoreceptor 2c (ADRA2c). Este é um auto-receptor que calibra a resposta ao stress pelo sistema nervoso autónomo e é possível que desempenhe uma função fundamental na regulação do modo como o stress é experienciado pelas aves. Encontrámos grandes diferenças numa das mais importantes variantes epigenéticas (chamada metilação do DNA), entre galos selvagens (Red Junglefowl) e domesticados da variante White Leghorn. Queremos agora descobrir qual a diferença fenotípica entre estas duas aves. Parece claro que a domesticação levou a enormes mudanças na regulação do genoma, mesmo que as diferenças na cadeia de DNA em si sejam pequenas.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

World Spay Day

Há alguns problemas inerentes em tentar apelar ao dia mundial de castração...Mas o evento marcado para dia 19 de fevereiro chama a atenção pela importância de controlar a reprodução de animais de companhia.

World Spay Day 19/2 2013

No que diz respeito a pequenos animais que vivem com um dono e cuja interação com outros animais acontece sob supervisão, há outras maneiras de fazer o 'planeamento familiar'. Mas para os animais que estão na fronteira entre a vida doméstica e a vida selvagem, como muitos gatos e alguns cães, a escolha é essencialmente entre castração e morte.

Desde que debatemos este assunto aqui no animalogos tive a oportunidade de observar os efeitos de uma campanha de Capturar-Esterelizar-Devolver (CED) na rua onde vivo no centro do Porto. Foi a  Associação Animais de Rua que levou a cabo a campanha em julho de 2011. Embora a minha observação seja pontual e não sistemática, os efeitos são claramente visíveis. O mais evidente foi a completa ausência da habitual feira de gatos em cio durante os meses de janeiro, fevereiro e março no primeiro ano. Agora no segundo inverno parece que alguns machos de outras zonas aproveitaram o território agora aberto, porque já se ouve algum miar noturno, e ontem observei um desconhecido no nosso jardim. No entanto, continua-se a ver apenas gatos em bom estado de saúde que calmamente aguardam a próxima refeição na zona da rua onde as habituais senhoras lhes deixam comida. Nada de gatos magros,doentes ou esfomeados. Quanto ao efeito nefasto sobre a vida selvagem - bem, estamos no centro da segunda cidade do país, não é?

Quem quer contribuir para a atividade desta organização pode ver as opções aqui