Não são muitos dos cientistas que podem se gabar de terem estabelecido um método próprio para a sua área de estudo. Uma destas, da área da etologia aplicada e bem-estar animal, vai estar em Lisboa dia 18 de Julho para uma workshop sobre avaliação qualitativa de comportamento – Qualitative Behaviour Assessment ou QBA como se tem tornado mais conhecido o método desenvolvido por Françoise Wemelsfelder.
Françoise Wemelsfelder doutorou-se em etologia na
Universidade de Groningen em 1993, num estudo sobre tédio em animais. A escolha
de tema foi corajosa e pouco convencional, características que têm marcado todo
o trabalho da etóloga. Investigadora do Scottish Rural College desde há mais do
que 10 anos, tem dedicado a maior parte da sua carreira até data ao
desenvolvimento de um método para avaliar o estado emocional de animais.
O método QBA baseia-se na ideia da Françoise Wemelsfelder
que o animal expressa o seu estado emocional ou disposição através da sua
maneira de se movimentar, e que precisamos de observar o animal como um todo e
não apenas quantificar por quanto tempo que ele executa um comportamento ou
outro. QBA difere dos habituais testes de comportamento em que o investigador
recorre a um painel de observadores para recolher dados sobre o comportamento
do animal em estudo. Portanto, o observador não quantifica o comportamento do
animal diretamente mas antes a interpretação dos observadores. Estes podem
observar o animal diretamente ou através de gravações de vídeo, e dar uma
pontuação às diferentes características do animal. A pontuação pode ser numérica
e seguindo uma escala pré-estabelecida, ou em alternativa os observadores podem
atribuir as suas próprias descrições. Trata-se de descrever os animais em
termos de características como ‘nervoso’, ‘curioso’, ‘ansioso’, ‘agitado’, ‘relaxado’,
‘irritado’ etc.
A ideia é que esta é uma abordagem integrativa que permite reunir mais informação do que simples quantificações de comportamento. Nas palavras da investigadora:
A ideia é que esta é uma abordagem integrativa que permite reunir mais informação do que simples quantificações de comportamento. Nas palavras da investigadora:
The qualitative assessment of behaviour is based upon the integration by the observer of many pieces of information that in conventional quantitative approaches are recorded separately, or are not recorded at all. This may include incidental ehavioural events, subtle details of movement and posture, and aspects of the context in which behaviour occurs. In summarizing such details (...) qualitative behavioural assessment specifies not so much what an animal does, but how it does it. (Wemelsfelder et al 2001 Animal Behaviour 62, 209-220.)
O método foi inicialmente visto com muito ceticismo por
parte de investigadores habituados a usar métodos quantitativos e que não
envolvem uma componente subjetiva. Françoise Wemelsfelder e os seus
colaboradores têm investido muito trabalho em demonstrar a capacidade do método
de gerar resultados que podem ser repetidos, e mais recentemente em valida-los versus
outros indicadores de bem-estar animal.
Françoise Wemelsfelder vem a Portugal no âmbito do projeto
AWIN – Animal Welfare Indicators. A workshop tem lugar dia 18 na Faculdade de
Medicina Veterinária em Lisboa, com inscrição gratuita mas obrigatória, para psianimal.geral@gmail.com.




