Por ocasião das comemorações do Dia Mundial da Medicina Veterinária, realiza-se no próximo dia 29 de Abril (entre as 14h e as 16h, hora portuguesa) um seminário on-line sobre Bem-estar Animal. Organizado pela Associação Mundial de Veterinária e pela Comissão Europeia, este Global Webminar intitula-se: "Liderança Veterinária: disponibilizar ferramentas para veterinários na área de Bem-Estar Animal". A inscrição é gratuita (termina hoje!) e permite ao público colocar questões e participar no debate.
terça-feira, 15 de abril de 2014
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Universidade Júnior - já abriram as inscrições!
Já abrirarm as inscrições para a Universidade Júnior, onde este ano inclui uma atividade organizada por nós. Apresentamos a atividade num post anterior e pode também ler mais no site da Universidade Júnior.
As inscrições estão a entrar a bom ritmo, mas ainda há vagas.
As inscrições estão a entrar a bom ritmo, mas ainda há vagas.
sexta-feira, 21 de março de 2014
Porco desodorizado
Ou mais especificamente, estrume de porco desodorizado. O método de origem italiana, agora a ser testado em França implica o uso de chabazita. Este mineral da família dos zeólitos pode ser acrescentado à ração que os animais comem ou espalhado no terreno juntamente com o estrume. Através de pequenas cavidades na sua estrutura, o mineral tem a capacidade de captar amónio, o que consequentemente reduz a formação de nitratos que contribuem à eutrofia de águas e a emissão de amónio para o ar.
Suinicultores nas regiões italianas Emilia-Romagna e Toscana já utilizam chabazita como aditivo na alimentação desde há um par de anos, e o método está em estudo na região de Bretanha em França. Os efeitos ambientais imediatos são prometedores: a adição de 3% de chabazita à ração reduz a quantidade de amónio livre no estrume com cerca de um terço. Enquanto os suinicultores italianos têm acesso ao mineral localmente produzido, para os restantes o efeito ambiental ainda tem que ter em conta o transporte.
O mineral não é mineralizado e não são relatados efeitos nefastos sobre os animais. Ao contrário, pelo menos em condições sanitárias menos favoraveis, a adição de zeólitos à alimentação pode reduzir a ocorrencia de problemas gastro-intestinais.
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segunda-feira, 17 de março de 2014
Comportamento e Bem-estar Animal: Novo Estágio da Universidade Júnior no IBMC
É com grande satisfação que anunciamos a abertura de dois estágios de Verão em Comportamento e Bem-estar Animal para alunos do 10º ao 12º ano do Ensino Secundário.
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| Fonte |
Esta actividade, da responsabilidade do grupo de Ciências de Animais de Laboratório do IBMC, será realizada em duas semanas consecutivas do mês de Julho de 2014 para grupos de até oito alunos, estando incluída na oferta de estágios no âmbito do projecto Universidade Júnior, da Universidade do Porto, que vai já na sua 10ª edição. As inscrições serão abertas muito em breve no site da UP Júnior.
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| Fonte |
Esta iniciativa quebra um interregno de cerca de seis anos desde o estágio desenvolvido pelo nosso grupo em 2008 com o tema "Nós e os outros animais na investigação biomédica" (n.º 3 desta lista) e que integrou alunos do 11º/12º ano em projectos científicos em curso. O grupo tem no entanto desde esse ano tido a seu cargo um dia inteiro do estágio da Escola de Ciências da Vida e da Saúde (também da UP Júnior) em Neurociências, a cargo da Dr.ª Isabel Silveira.
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| Um cão usado em cinoterapia (da Vinculum Animal, acedida aqui) |
Os participantes terão oportunidade de realizar uma pequena experiência medindo a preferência de roedores de laboratório. Contactarão ainda com animais de produção e de companhia através de uma visita de estudo e uma demonstração, actividades para as quais contaremos com a colaboração de uma empresa que se dedica a cinoterapia e treino de cães (a Vinculum Animal) e de uma empresa dedicada à pecuária.
No final do estágio, espera-se que os participantes sejam capazes de reconhecer a importância de uma abordagem científica para a avaliar e melhorar o bem-estar animal e que sejam capazes de aplicar esta metodologia a um nível elementar.
Petição para abolir o uso do Diclofenac na Europa
| Fonte: BBC - Poisoning drives vulture decline in Masai Mara, Kenya |
Está a decorrer uma petição enderaçada aos Comissários Europeus do Ambiente e da Saúde para abolir o uso do medicamento veterinário Diclofenac no espaço europeu. Este anti-inflamatório não esteróide é usado há décadas no combate da dor e inflamação em ruminantes (bovinos, ovinos e caprinos). Trata-se, no entanto, de uma droga altamente nefrotóxica noutras espécies, nomeadamente cães e aves. Especialmente vulneráveis são as espécies necrófagas - como os abutres - que se alimentam das carcaças de ruminantes medicados com diclofenac. Segundo o Programa Antídoto-Portugal:
dados relativos à mortalidade massiva de várias espécies de abutres em países asiáticos, nomeadamente na Índia e no Paquistão (...) revelaram que a elevada diminuição anual de adultos e sub-adultos se devia à insuficiência renal que era provocada pela ingestão de cadáveres com resíduos de Diclofenac, um anti-inflamatório de uso veterinário com que os ruminantes são medicados naquela região (Oaks et al. 2004).
Com o advento de novas drogas mais seguras e eficazes (como o meloxicam) o uso sistémico de diclofenac não apresenta qualquer benefício (para os animais tratados, a saúde pública e as espécies selvagens) que não seja o seu baixo preço. No entanto, a sua comercialização é permitida em Espanha e Itália, onde residem 80% dos abutres da Europa. Acresce o facto de que qualquer medicamento veterinário vendido em Espanha rapidamente se torna disponível em Portugal, já que existe um mercado paralelo que permite que os produtores pecuários se abasteçam, sem grandes dificuldades, de medicamentos para os seus animais no país vizinho.
O valor ecológico dos abutres - espécies que podem ser facilmente avistadas em Portugal nas regiões raianas do Tejo e do Douro Internacional - é inestimável e o seu papel na remoção de carcaças e prevenção de doenças insubstituível. Assinar a petição é, por isso, um dever de cidadania.
O valor ecológico dos abutres - espécies que podem ser facilmente avistadas em Portugal nas regiões raianas do Tejo e do Douro Internacional - é inestimável e o seu papel na remoção de carcaças e prevenção de doenças insubstituível. Assinar a petição é, por isso, um dever de cidadania.
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terça-feira, 4 de março de 2014
Problemas de separação no cão - estudo internacional
A Universidade de Lincoln, Reino Unido e a Universidade de Medicina Veterinária e Farmácia de Kosice, Eslováquia estão a realizar um estudo a nível internacional que visa melhorar a compreensão do comportamento do cão na ausência do proprietário.

O comportamento destrutivo, a vocalização e eliminação inapropriada estão entre as queixas mais comuns dos donos de cães, resultando frequentemente na quebra do vínculo homem-animal, e em alguns casos, até mesmo ao abandono.
Se for dono/a de um cão pode contribuir com a sua informação para este estudo atraves do questionário.

O comportamento destrutivo, a vocalização e eliminação inapropriada estão entre as queixas mais comuns dos donos de cães, resultando frequentemente na quebra do vínculo homem-animal, e em alguns casos, até mesmo ao abandono.
Se for dono/a de um cão pode contribuir com a sua informação para este estudo atraves do questionário.
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Outra vez Marius, e o abate de animais saudáveis em Zoos.
O caso de Marius - a girafa que foi abatida no Zoo de Copenhaga, necropsiada em público e dada de comer aos leões - continua a dar que falar. No vídeo aqui reproduzido podemos observar como o Director do Zoo de Copenhaga, Bengt Holst, procura defender-se de forma serena do criticismo apaixonado por parte do jornalista do Channel 4, Matt Frei. Esta entrevista espelha bem o confronto de valores entre duas formas muito diferentes de entender o papel dos animais na sociedade.
O Director do Zoo justifica a prática como sendo uma aproximação à natureza. No estado selvagem a girafa também é comida por leões e a autópsia pública permite um exame naturalista do interior de uma girafa, com evidentes benefícios pedagógicos. Em resposta à pergunta ‘Gosta de animais?’ Bengt Holst responde que sim, em função de manter populações saudáveis. Para Bengt Holst, o valor moral está no grupo ou população e não tanto nos indivíduos que compõem o grupo. Por outras palavras, o todo vale mais do que a soma das suas partes.
O jornalista, por seu lado, procura enfatizar a componente emocional, usando termos como ‘crueldade’, ‘desmembramento’, ‘crianças horrorizadas’, e acusando o entrevistado de usar uma linguagem ‘clínica e fria’. Para ele, o valor parece estar nas relações que nós humanos estabelecemos com os outros animais. No entanto, Matt Frei não é capaz de articular um único argumento válido para contrapor as justificações do entrevistado. Mais do que o abate em si, o jornalista parece chocado com o facto de Marius ter apenas dois anos e ser saudável. Mas não parece fazer sentido esperar que os animais fiquem doentes ou velhos para que o seu abate se torne permissível.
A discussão enfatiza a diferença fundamental entre o abate de Marius e o abate de outros animais selvagens (como coelhos e roedores) para controlo das suas populações: a qualidade de “praga”. Aqueles mamíferos silvestres que são considerados pragas podem ser abatidos, mas o mesmo não se passa com girafas em zoos. A resposta de Holst espelha bem este dilema: mas quem decide o que é uma praga?
Uma crónica publicada ontem por Hannah Barnes, jornalista da BBC, procura contextualizar o abate de animais em Zoos. Trata-se de uma prática recorrente na gestão de um Zoo, nomeadamente daqueles que são membros da Associação Europeia de Zoos e Aquários (EAZA). Segundo a jornalista, na semana anterior ao escândalo de Marius um outro Zoo dinamarquês, o Odense Zoo, tinha abatido dois leões. Os exemplos de abate incluem ainda zebras no Reino Unido, hipopótamos em Portugal ou crias de tigre na Alemanha. Para mim, o mais curioso desta história é que à medida que os Zoos melhoram as usas práticas e a qualidade de vida dos animais em cativeiro aumenta, mais hipóteses existem destes se reproduzirem e maior número de animais terá de ser abatido para manter populações captivas saudáveis.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Aprender bem-estar animal sem sair de casa!
Universidade do Edinburgo e alguns dos docentes do conhecido programa de mestrado Applied Animal Behaviour and Animal Welfare apresentam um curso introdutório, de livre acesso on-line sobre bem-estar animal.
O curso que tem a duração de 5 semanas vai decorrer em Julho este ano. O curso é leccionado em inglês.
O curso que tem a duração de 5 semanas vai decorrer em Julho este ano. O curso é leccionado em inglês.
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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Gatos na Sociedade - Ordem dos Médicos Veterinários
A Ordem dos Médicos Veterinários lançou o vídeo didático "Gatos na Sociedade", depois de em Outubro passado ter disponibilizado o vídeo "Cães na Sociedade". Estes vídeos destinam-se à população em geral e focam-se bastante nas questões comportamentais. Neles pode-se aprender sobre socialização, medos e fobias, aprendizagem e cuidados básicos com vista a promover uma saudável interação entre o Homem e os Animais, assim como sensibilizar os donos para a importância dos cuidados médico veterinários regulares aos seus animais de companhia.
Estes vídeos passarão a estar disponíveis na janela "Animalogos no Ensino", na barra superior do blog.
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Marius - uma Girafa a mais no Zoo de Copenhaga
A notícia do abate da girafa (ou antes, do girafo) Marius no Jardim Zoológico de Copenhaga tem feito as manchetes dos jornais de hoje. O juvenil de 18 meses foi abatido com um tiro, necropsiado perante o olhar dos visitantes (incluindo crianças), esquartejado e dado de comer aos leões do zoo. Segundo a direcção do parque zoológico, não haveria espaço para mais um animal e o risco de consanguinidade caso o Marius viesse a acasalar seria elevado. O mesmo risco existiria caso o Marius fosse transferido para outro Zoo, como chegou a ser proposto.
É natural que muitos se insurjam contra esta violação dos direitos das girafas. A forma rápida, desapaixonada e funcional como o Zoo tratou do assunto choca alguns mas ajudou a impedir que a indignação crescesse e a pressão da opinião pública colocasse em risco a operação. Mas como é possível que uma instituição com responsabilidades em proteger animais selvagens, os trate de forma tão instrumental?
Para o compreender é preciso perceber o que é um Jardim Zoológico. Um Zoo moderno serve dois propósitos principais: plataforma de preservação de espécies selvagens, especialmente daquelas em risco de extinção, e estrutura educativa sobre zoologia, biologia, ambiente e conservação. Os animais são as peças mais importantes deste processo mas não são o seu fim. Por outra palavras, num zoo os animais são instrumentais para a finalidade de conservar a espécie a que pertencem e educar - e entreter - os visitantes. Os interesses das espécies (onde se inclui também os cohabitantes de Marius que já não terão de dividir o espaço com ele e os leões que o comeram) e os interesses dos seres humanos sobrepõem-se aos dos indivíduos. Pela imagem percebe-se que a necrópsia foi feita pública com propósitos didácticos e não de forma precipitada ou com o intuito de chocar. A mensagem que passa para aquelas crianças é a de que para com os animais só temos deveres indirectos: os animais não têm direitos por si próprios e podem ser usados como um meio para atingir um fim. Essa finalidade é ecocêntrica (a espécie) ou antropocêntrica (o ser humano). E isso ajudará a preservar a cultura dos jardins zoológicos.
Ainda assim, questões mais profundas se levantam: num contexto de espaço e outros recursos limitados porque deixaram os pais de Marius reproduzir-se? E porque deixaram Marius nascer? Quanto vale o nascimento de uma nova cria num zoo em termos de visitantes? Terá sido este o propósito de Marius, que agora juvenil já não serve? E qual a urgência em abatê-lo agora? Segundo a Encyclopedia of Life, a maturidade sexual em girafas ocorre pelos 3-4 anos de idade, mas os machos (em liberdade) raramente têm a oportunidade de procriar antes dos sete. É possível que a forma funcional como o Zoo tratou do assunto lhes tenha evitado maior contestação a curto prazo, mas também pode acontecer que esta forma contractualista de lidar com os seus animais lhes traga oposição acrescida a médio ou longo prazo.
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Manuel Sant'Ana
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Proteger os animais protegendo as crianças?
Como se de propósito ao post anterior, a notícia que a ONU quer limitar a participação de crianças em touradas. A preocupação surge num relatório sobre a situação portuguesa no que respeita aos direitos das crianças e tem a ver com o potencial impacto da violência nas touradas sobre as crianças que assistem ou até participam.
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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Protegemos os animais em detrimento dos humanos?
O comentário que os animais têm mais direitos do que os seres humanos surge inevitavelmente em cada discussão mediática que envolve proteção animal. Normalmente o descarto como populismo barato e sem fundamento. Não é por garantirmos (como sociedade) às galinhas-poedeiras mais uns centímetros quadrados que ficamos sem recursos para apoiar quem vive de reformas baixas.
Mas há situações em que é compreensível que a reflexão surge. A imagem aqui ao lado mostra a cozinha numa casa rural no sul da Suécia onde na semana passada foram apreendidos 8 gansos, 2 cabras, 40 galinhas e galos e 15 gatos. Relata o inspetor de bem-estar animal que a sujidade era tremenda e não havia lugares de descanso secos para os animais.
Aqui muito provavelmente não se trata de um dono violento, que queria fazer mal aos seus animais ou que não se preocupava com eles. Associados a estes casos graves de maus-tratos (palavra que uso por falta de outra mas preferia não usar, porque expressa uma intencionalidade que pode nem sempre existir) estão quase sempre muitos outros de foro social ou até psiquiátrico.
Considerando que esta foto é da cozinha parece mais do que evidente que a pessoa que vive nesta casa precisa de ajuda, que é incapaz de organizar a sua própria vida de modo funcional. Apreende-se os animais e deixa-se a pessoa ficar?
A resposta é sim. Vivemos numa sociedade com grande respeito pela liberdade individual, e não se pode legalmente (salvo muito poucas exceções) interferir com esta liberdade enquanto apenas está em causa a saúde e bem-estar do individuo próprio. Se este por livre vontade procurar ajuda é outra questão, mas não pode ser obrigado a não viver assim.
No entanto, quando o que está em causa o bem-estar de outros seres vivos, que não são humanos adultos, a sociedade tem o direito legal (e às vezes o dever, legal e/ou moral) de intervir para os proteger. Se for crianças, o interesse da criança em continuar a viver com o progenitor ou com a pessoa com que tem laços de afeto é também considerado, uma consideração que não se faz em casos de animais maltratados.
É essa a razão pela qual se pode proibir uma pessoa a tratar os animais de uma maneira que se aceita que trate de si próprio.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Crudiveganismo – uma estranha forma de vida.
Esta história – que não inclui animais – soube-a pela Alexandra Prado Coelho, a jornalista do Público responsável pelas crónicas de culinária e hábitos alimentares. Francis Kenter é uma cidadã holandesa que vive numa comunidade animista, professando um estilo de vida que inclui o crudiveganismo (ou crudivorismo), isto é, o consumo exclusivo de alimentos de origem vegetal não cozinhados (pelo efeito do calor, portanto). A história não seria merecedora de atenção mediática não fosse esta mãe alimentar o seu filho, Tom, segundo os mesmos proverbiais preceitos e o caso ter ido parar aos tribunais por uma queixa de maus-tratos interposta pelos serviços de acção social. A crónica de Mikel López Iturriaga, no blog El Comidista do Jornal El País, desenrola o novelo da história.
O insólito caso foi seguido pela documentarista holandesa Anneloek Sollart durante vários anos, dando origem a dois filmes: Raw (Cru), de 2008 - quando Tom tinha 10 anos - e Rawer (mais cru), de 2012, com Tom já na adolescência. Segundo os médicos, Tom terá um crescimento 10-15 cms inferior ao esperado para um rapaz da sua idade e apresenta um quadro nutricional característico de crianças da África subsariana. A sua mãe, por outro lado, interroga-se porque é que o Estado quer retira-lhe a custódia do filho ao mesmo tempo que permite que milhares de pais alimentem os seus filhos com junk food, cujos malefícios para a saúde estão sobejamente demonstrados. Nas palavras de Alexandra Prado Coelho, este:
“É um caso que levanta uma série de questões. Devem os pais, por convicção de que estão a fazer o melhor para os filhos, ser autorizados a alimentá-lo de uma forma que os poderá prejudicar? Será legítimo o Estado intervir nestes casos? Tom será mais feliz a viver separado da mãe e a comer comida com a qual não concorda? Terá o rapaz sofrido uma lavagem ao cérebro desde pequeno ou terá capacidade para ter opinião própria neste assunto? E os pais que alimentam os filhos exclusivamente com junk food, devem ver-se também privados do poder paternal?”
Este caso está em contraste gritante com a epidemia de obesidade que grassa no mundo desenvolvido (e não só) mas as questões que coloca são semelhantes. Onde acaba a nossa liberdade como agentes (morais) autónomos em fazer o que entendemos pela nossa saúde e a dos nossos filhos e começa o dever da sociedade em pôr cobro a hábitos alimentares que considera inaceitáveis (e, portanto, imorais)? E onde está a linha que os separa?
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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Meat Atlas - factos e números sobre os animais que comemos

A ONG ambientalista Friends of the Earth (Amigos da Terra) publicou, em colaboração com a Fundação Heinrich Böll, o Atlas da Carne - factos e números sobre os animais que comemos. Dividido em 26 curtos capítulos ilustrados por 80 gráficos, trata-se de um relatório extremamente pedagógico e de fácil leitura.
O retrato, como seria esperado, não é nada abonatório para a indústria da carne. O mercado global de carne é guiado pelo preço e está cada vez mais na mão de mega-empresas como a americana Tyson Foods, a dinamarquesa Danish Crown e a brasileira JBS. O preço da carne ao consumidor tem vindo a descer em detrimento dos custos sociais, ambientais e de bem-estar animal.
Ainda assim, o relatório dos Amigos da Terra adopta uma postura conciliatória ao considerar que comer carne não resulta forçosamente em dano para o clima e para o ambiente. Pelo contrário - e estou a citar - o uso apropriado de terrenos agrícolas pelos animais pode até trazer benefícios ambientais. A solução para um consumo 'saudável' de carne passa pela adopção de esquemas de certificação ambiental e, claro está, pela diminuição da quantidade que comemos. O relatório introduz o conceito - que eu desconhecia - de 'flexitarian diets', e que consiste em comer menos e melhor carne e mais proteína de origem vegetal.
De realçar que as preocupações dos Amigos da Terra são acima de tudo do foro ambientalista e não propriamente de bem-estar animal. Embora não dedique nenhum capítulo ao bem-estar animal, o relatório não ignora por completo este tema. No capítulo do abate, o relatório procura contextualizar as posições dos movimentos de bem-estar animal (reformistas) e de direitos dos animais (abolucionistas). As suas conclusões incluem, também, mais e melhores regras de bem-estar para espécies pecuárias.
De realçar que as preocupações dos Amigos da Terra são acima de tudo do foro ambientalista e não propriamente de bem-estar animal. Embora não dedique nenhum capítulo ao bem-estar animal, o relatório não ignora por completo este tema. No capítulo do abate, o relatório procura contextualizar as posições dos movimentos de bem-estar animal (reformistas) e de direitos dos animais (abolucionistas). As suas conclusões incluem, também, mais e melhores regras de bem-estar para espécies pecuárias.
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Controlo de Animais Errantes na Praia de Faro
A Associação Animais de Rua (AAR), está a desenvolver o Projecto da Praia de Faro que visa controlar as populações de cães e gatos errantes naquela emblemática zona balnear da Ria Formosa. Já aqui elogiei o trabalho da AAR numa mensagem anterior e volto a fazê-lo. Este é um projecto pensado e estruturado, que conta com a colaboração, entre outros, da Dogs Trust e da Universidade Lusófona. Isso é bem visível na forma como o projecto inclui o recenseamento de todos os animais - com recurso a uma aplicação android especialmente desenvolvida para o efeito - e um inquérito à comunidade.
Para quem não conhece, a Praia de Faro é uma das ilhas-barreira que formam a Ria Formosa e aquela que mais pressão humana tem sofrido ao longo dos anos (e também a mais vulnerável). Mas a Praia de Faro não é só local de veraneio; nela também habita uma comunidade que vive da actividade piscatória (em especial mariscadores) que actua numa área protegida pelo estatuto de Parque Natural. Identificar, monitorizar, alimentar e esterilizar os animais errantes vai não só beneficiar o bem-estar destes mesmos animais como permitir controlar o seu efeito sobre as espécies selvagens e promover a relação homem-animal, nomeadamente para quem vive sozinho ou isolado, algo comum por esta bandas. E é por isso que este projecto é tão importante pois contribui activamente para a sustentabilidade ambiental e social da região.
Caso pretenda dar o seu contributo, faça-o por favor através do NIB da AAR (0065 0921 00201240009 31) e envie um email para o geral@animaisderua.org, mencionando que o mesmo se destina ao Projecto da Praia de Faro.
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Bem-estar Animal: recursos educativos para o ensino superior
Um artigo publicado na última edição do Perspectives in Animal Welfare (ATLA) apresenta a mais recente adição ao portal Animal Mosaic: um conjunto de recursos para o ensino de Bem-estar Animal em Medicina Veterinária.
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| Animal Mosaic Tertiary Education resources |
Estas ferramentas didácticas foram idealizadas para dar suporte à abordagem curricular proposta para o ensino de Bem-estar Animal em Medicina Veterinária Concepts in Animal Welfare - fruto da colaboração entre a Universidade de Bristol e a WSPA - e assim complementar os conteúdos já disponíveis para este programa. A lista de contribuidores para esta Toolbox inclui ONGs, instituições de ensino superior e associações profissionais. Nestas contam-se a World Organisation for Animal Health, a British Veterinary Association e a Federation of Veterinarians of Europe.
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| A pesquisa de ferramentas de apoio ao ensino de bem-estar animal pode ser refinada por tema, categoria, língua e região |
Alguns destes recursos estão já disponíveis em chinês, prevendo-se em breve também conteúdos em português e castelhano. O acesso é livre, gratuito e não requer registo prévio nem filiação académica.
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Last Christmas I gave you a dog
É má ideia oferecer um cão (ou outro animal de companhia) a quem não tenha capacidade de assumir o compromisso de cuida-lo até o fim da vida, assim como não se deve comprar ou adotar um cão sem este compromisso.
Mas há um problema em si com o facto de oferecer um animal de companhia? Esta pergunta é colocada num recente artigo publicado na revista Animals. O que motiva a equipa de autores, de American Society for the Prevention of Cruelty to Animals de investigar o assunto, foi a prevalência da ideia que não se deve oferecer um animal como prenda.
A equipa analisou resultados de uma sondagem feita nos Estados Unidos, focando nos 222 entrevistados que afirmaram ter recebido um cão ou um gato como prenda. Perguntas subsequentes abordaram o envolvimento na escolha da prenda, afinidade com o animal e eventual abandono do mesmo.
Os resultados desta investigação são muito limitados pelo facto de não haver um grupo de comparação: não se falou com pessoas que tinham adquirido um animal de companhia por iniciativa própria. É bom saber que a maior parte dos entrevistados afirmaram gostar tanto ou mais do animal do que se tivesse sido adquirido pelo próprio, e que na maioria dos casos ainda mantinha o animal. Mas diz pouco enquanto não sabemos a informação equivalente de quem não recebeu mas adquiriu o seu animal. Convence um pouco mais quando cita outros estudos em que a razão de abandono foi investigada, sendo por exemplo alergias ou falta de tempo causas muito mais comuns do que o facto de ter recebido o animal como prenda.
Se não estivesse neste momento ocupadíssima com o que tem que ser ultimado antes do Natal (dentro do qual não consta a compra de um animal de companhia!), passava agora a ler o estudo que American Humane Association acabou de publicar, sobre os fatores que influencia a manutenção ou não de um animal obtido de um centro de recolha. Mas podemos todos aproveitar os dias mais calmos para lê-lo para voltar a falar do assunto logo no ano que vem.
Até então (e com uma lufada dos anos 80) votos de Boas Festas a todos os leitores do animalogos!
Mas há um problema em si com o facto de oferecer um animal de companhia? Esta pergunta é colocada num recente artigo publicado na revista Animals. O que motiva a equipa de autores, de American Society for the Prevention of Cruelty to Animals de investigar o assunto, foi a prevalência da ideia que não se deve oferecer um animal como prenda.
A equipa analisou resultados de uma sondagem feita nos Estados Unidos, focando nos 222 entrevistados que afirmaram ter recebido um cão ou um gato como prenda. Perguntas subsequentes abordaram o envolvimento na escolha da prenda, afinidade com o animal e eventual abandono do mesmo.
Os resultados desta investigação são muito limitados pelo facto de não haver um grupo de comparação: não se falou com pessoas que tinham adquirido um animal de companhia por iniciativa própria. É bom saber que a maior parte dos entrevistados afirmaram gostar tanto ou mais do animal do que se tivesse sido adquirido pelo próprio, e que na maioria dos casos ainda mantinha o animal. Mas diz pouco enquanto não sabemos a informação equivalente de quem não recebeu mas adquiriu o seu animal. Convence um pouco mais quando cita outros estudos em que a razão de abandono foi investigada, sendo por exemplo alergias ou falta de tempo causas muito mais comuns do que o facto de ter recebido o animal como prenda.
Se não estivesse neste momento ocupadíssima com o que tem que ser ultimado antes do Natal (dentro do qual não consta a compra de um animal de companhia!), passava agora a ler o estudo que American Humane Association acabou de publicar, sobre os fatores que influencia a manutenção ou não de um animal obtido de um centro de recolha. Mas podemos todos aproveitar os dias mais calmos para lê-lo para voltar a falar do assunto logo no ano que vem.
Até então (e com uma lufada dos anos 80) votos de Boas Festas a todos os leitores do animalogos!
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Anna Olsson
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
Falar com o público sobre a experimentação animal
À luz de acontecimentos como a recente libertação de cães de laboratório no Brasil e o subsequente debate, torna-se evidente o
desconhecimento geral sobre a experimentação animal. Quando a maior
parte do público não sabe quase nada sobre o que é um biotério, sobre
como se realizam experiências, sobre o propósito dos estudos com
animais, sobre o potencial e as limitações de métodos alternativos, é
fácil manipular opiniões num sentido ou noutro. E não é num clima de debate aceso que se deva fazer a comunicação que vise preencher lacunas
de conhecimento. Um dos argumentos de quem se dedica a comunicar sobre
experimentação animal é que os cientistas que usam animais não devem
esconder este facto, devem antes pelo contrário comunicar claramente o
papel que animais têm na sua investigação.
Neste contexto,
queria chamar a atenção para a publicação recente de um livrinho por um grupo de investigadores da Universidade de Coimbra: "Células Estaminais: O que são, Onde estão?, Para que servem?" e que emana de uma serie de pequenas crónicas no Diário de Coimbra que visa
“contribuir para uma população mais informada que emitirá opiniões e
tomará decisões mais conscientes sobre a aplicação das células
estaminais”. Quem começa a ler o livro num lado, encontra estas
crónicas, quem começa do outro encontra a - já internacionalmente comentada - banda desenhada Uma Aventura Estaminal.
O livro foi enviado para todos os assinantes do jornal Público (foi assim que o recebi) e é em si um bom exemplo de comunicação de ciência de um tema complexo – células estaminais. Mas a razão para o comentar aqui no Animalogos é o facto do uso de animais de laboratório estar expressa em vários contextos no livro, a banda desenhada incluída.
Por exemplo, no seu texto sobre a descoberta de novos medicamentos, a farmacologista, Cláudia Cavadas aborda um tema que muitas vezes surge no debate sobre experimentação animal: o papel de métodos diferentes no desenvolvimento e nos testes de medicamentos:
"Para que uma nova molécula passe à categoria de fármaco eficaz e seguro, existe um longo percurso, de pelo menos 10 anos. Altamente dispendioso, em que só uma pequena percentagem das moléculas que parece promissora em laboratório chega ao mercado. Este fracasso resulta numa cada vez menor investimento em moléculas novas e, em especial, no desinteresse no desenvolvimento de novos fármacos para patologias com baixa incidência como é o caso das doenças raras. Antes de passarem aos testes clínicos, as novas moléculas têm que passar diversos testes laboratoriais (ensaios pré-clínicos) para demostrar a sua eficácia e a sua não-toxicidade, quer recorrendo a células animais ou linhas celulares mantidas em condições apropriadas, quer recorrendo, numa fase posterior, a experimentação animal. (…) No entanto, os resultados nestes modelos nem sempre são observados no homem, isto é , compostos que mostraram resultados promissores num modelo animal de determinada patologia podem não ser eficazes no homem. Assim, milhares de moléculas promissoras não passam esta fase. É fundamental qu sejam desenvolvidos ensaios pré-clínicos que encurtaram o tempo de de descoberta e que os resultados obtidos prevejam com maior aproximação possível o que vai ocorrer nos doentes. (…) (A)s experiências com células diferenciadas a partir das células estaminais poderão não substituir outros modelos celulares, já bem validados, nem a experimentação animal, mas juntamente com estas metodologias vão contribuir para que se encontrem novos fármacos de uma forma mais rápida e eficaz."
Se queremos que haja um debate informado sobre experimentação animal, é fundamental que o tema surja não apenas nestes debates mas que também faça parte da comunicação de ciência, assim como neste livro da autoria de João Ramalho-Santos, Inês Araújo, Luís Pereira de Almeida, Lino Ferreira e Cláudia Cavadas, com ilustrações de Fernando Correia e André Caetano.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Animais, direitos e capacidades
No inïcio do ano exploramos a questão de direitos para animais de uma perspetiva jurídica cá no animalogos. Nos Estados Unidos continuam as iniciativas para incluir algumas especies na comunidade de seres portadores de direitos, analisado em mais detalhe num recente artigo em NY Times.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
"No compres ese perro"
Crónica do Arturo Pérez-Reverte. Todos podemos imaginar o conteúdo, todos conhecemos a problematica que retrata. Natal, prendas, crianças que pedem, adultos que possam querer fazer-lhes a vontade.
Mas ninguém como um escritor para contar o que se segue:
No aparece y desaparece cuando conviene. Es un miembro de la familia con derechos y necesidades, que exige pensar en él cuando se planean vacaciones, e incluso una simple salida al cine o a un restaurante. A eso añádele la educación. Un perro mal educado puede convertirse en una pesadilla familiar y social. Además, cada uno, como las personas, tiene su carácter. Punto de vista y maneras. Eso exige un respeto que no todos los humanos somos capaces de comprender.A estas alturas, sabes dónde voy a parar. Si eres de esa materia miserable de la que estamos hechos buena parte de los seres humanos, acabarás abandonándolo. Un viaje en coche a un campo lejano, una gasolinera, una cuneta.
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Anna Olsson
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