terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Doutoramento em bem-estar de animais de laboratório


Queres trabalhar num projeto internacional com o objetivo de desenvolver novas técnicas para medir bem-estar de animais de laboratório?

Procuramos candidatos com um mestrado em ciências de vida para trabalhar neste projeto. As tres partes envolvidas no trabalho são na Dinamarca  Universidade de Copenhaga onde o doutorando terá a sua base de trabalho e Novo Nordisk e em Portugal Instituto de Biologia Molecular e Celular.

Mais detalhes sobre o projeto e como candidatar-se.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Mocho Sábio - Uma sugestão de Natal

A história d’O Mocho Sábio “conta a história de um casal de mochos galegos, a Sancha e o Raimundo que estão apaixonados e escolheram um bonito local para viver. Mas a Sancha não consegue pôr ovos e anda muito triste. O casal tem um amigo sábio, o mocho Al-Kibir. O Al-Kibir vive na Quinta das Ardósias com o Dr. Alcobia, um sábio farmacêutico, reformado, cuja biblioteca faz as delícias do Mocho Sábio: aí aprendeu a ler e adquiriu conhecimentos que se vão revelar muito úteis.“

Este é o primeiro livro da colecção “A Vida Selvagem”, da Editora Escrivaninha. O livro é ilustrado por 24 aguarelas e conta com o prefácio de João Eduardo Rabaça, Professor de Biologia da Universidade de Évora.

Em associação com a ALDEIA, este livro pretende angariar fundos para o projecto STRI – Rapinas Nocturnas de Portugal. Especificamente, os lucros obtidos - 4€ por cada livro vendido - têm em vista a contribuição para a colocação de uma câmara de vigilância numa caixa-ninho de Tyto alba (Coruja-das-torres) para que seja possível acompanhar a nidificação de um casal desta espécie.

O preço de venda é de 10€. Para adquirir o seu livro, contacte a associação ALDEIA através do e-mail rias.aldeia@gmail.com.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A "Ilha do Dr. Moreau" é um laboratório na Universidade de Rochester?

Esta poderá ser a primeira reacção de muitas pessoas ao descobrirem que investigadores nessa universidade injectaram células gliais humanas precursoras de astrócitos em cérebros de ratinhos, produzindo animais mais inteligentes e com melhor memória que os seus irmãos "normais". 

Crédito da imagem: Scientific American (Fonte)
Até ao século XXI, o papel das células gliais no sistema nervoso central (SNC) era tido como fundamental, mas secundário, como que prestando "vassalagem" aos personagens principais do SNC, os neurónios, dando-lhes sustentação, protecção e isolamento, nutrientes e oxigénio, defesa contra agentes infecciosos e remoção de neurónios mortos. 

Contudo, no nosso século descobriu-se que podem também ter um papel directo na neurotransmissão, sendo ainda vitais para o pensamento consciente pelo seu papel na modulação da actividade dos neurónios e coordenação da transmissão de sinais entre estes, no espaço sináptico.

Ilustração representativa de células gliais (fonte)
Como os astrócitos humanos são até  vinte vezes maiores que os dos ratinhos e muitíssimo mais ramificados, este grupo de cientistas questionou se as nossas células gliais evoluíram no sentido de contribuir para uma maior inteligência humana, justificando as diferenças com a de outras espécies.
Num estudo conduzido por esta equipa e publicado no ano passado, células precursoras de astrócitos foram implantadas em ratinhos imunodeficientes  (para evitar rejeições do xenotransplante) neonatos.

Como descrito no vídeo, os resultados foram surpreendentes!


A grande diferença entre o estudo descrito no vídeo e o mais recente estudo desta equipa foi que, no primeiro, as células gliais humanas encontravam-se numa fase mais madura e integraram-se no cérebro dos animais sem se desenvolverem ou multiplicarem mais (mas foram suficientes para alterar dramaticamente a capacidade cognitiva e memória dos ratinhos), ao passo que no segundo as células gliais humanas fetais usadas desenvolveram-se e dividiram-se no cérebro dos ratinhos ao ponto de substituírem completamente as previamente existentes no espaço de um ano. Em termos da quantidade bruta de células, estes cérebros são assim "metade humanos", até porque há mais células gliais que neurónios.

Representação artística de um
oligodendrócito revestindo axónios 
com baínhas de mielina.(fonte)
É de salientar que num estudo paralelo a este transplantaram estas células para ratinhos neonatos com uma deficiência na produção de mielina. Neste caso, as células humanas diferenciaram-se em oligodendrócitos, especialistas no envolvimento dos axónios neuronais com camadas de mielina. De alguma maneira, as células reconheceram o defeito e procuraram compensá-lo, sendo ainda mais surpreendentemente se considerarmos que fizeram no cérebro de um animal de outra espécie! Isto abre possibilidades para o tratamento de doenças como a esclerose múltipla, sendo que esta equipa já pediu autorização para conduzir ensaios clínicos para testar se o recurso a esta biotecnologia pode ajudar no tratamento desta doença.

Contudo, a Scientific American coloca a pergunta: Isto ainda é um ratinho? Eu não tenho dúvidas que apesar de estarmos a falar de ratinhos mais inteligentes estes não deixam de ser, fundamentalmente, ratinhos. Apenas são mais eficientes a fazer aquilo que os ratinhos conseguem fazer. 

Aparte o uso de células fetais humanas (que vou deixar para discussão pelos bioeticistas stricto sensu), questões éticas prementes poderão surgir se células gliais humanas forem implantadas em chimpanzés, ou até neurónios humanos, em qualquer espécie.

Devemos assim questionar se existem limites para o que se poderá fazer neste domínio, independentemente da nossa capacidade técnica para o fazer? Poderá estar de alguma maneira em risco a dignidade humana? E a dignidade do animal?

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Sobre boa e má fotografia: uma história de cães

Esta mensagem surgiu de uma associaҫão de temas dispersos que se uniram numa ideia comum. Desde que me mudei para a Irlanda, mais ou menos ao mesmo tempo que a minha subscriҫão do jornal Público expirou, que me mantenho permanentemente ligado a três jornais: o The Guardian, o El País e, mais recentemente, o Observador. Um novo mundo de interconectividade, por vezes fonte de distracção mas também geradora de inspiraҫão e criatividade.

E foi nestas deambulaҫões que soube do trabalho da fotógrafa alemã Julia Christe. Julia criou uma série fotográfica sobre cães voadores a que chamou Freestyle. Ao que parece, os cães são lançados pelos próprios donos para um colchão enquanto Julia capta o ‘instante decisivo’ (expressão cunhada pelo fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson).


Mas não é preciso ser-se cinólogo para se perceber que os cães não estão a achar a mínima piada à brincadeira. Basta olhar-lhes bem nos olhos. Noutros animais, ao contrário dos humanos, não é normal ver-se a esclera, isto é, a parte branca do olho. É sabido que a exposição da esclera é indicadora de estados mentais negativos (stress, dor, sofrimento) em cães, vacas e outros animais. Quanto mais branco se vir, pior o estado mental. Isto está em oposição com o que se passa na espécie humana, onde a brancura ocular está associada a saúde, beleza e aptidão reprodutiva.

Por outras palavras, o Husky fotografado não está a curtir o salto, como parece indicar a inscrição que acompanha a fotografia no The Guardian: “Much falling. So levity. Wow! An adorable husky drops.” Ele está antes apavorado. Se houvesse uma expressão canina de terror, seria esta. Estes retractos não são só condenáveis. São também má arte porque desprovidos de conteúdo e penso que isso me deixa igualmente incomodado. Já agora, vejam a série Studie Faces e façam um exercício semelhante.

Em total oposição a este frívolo exercício estão as cino-foto-reportagens da fotógrafa britânica Julie McGuire. Ao contrário da sua homónima alemã, Julie fotografa cães com um propósito que vai para além da graça de retractar animais. Em Hounds of Hope Julie conta-nos a história da Penang Animal Welfare Society, associação zoófila malaia criada por uma aposentada alemã (Barbara Janssen) que foi viver para a Malásia para socorrer animais abandonados. Actualmente toma conta de mais de 250 cães num exercício que parece ter tanto de louvável como de condenável.


A fotografia aqui reproduzida é especialmente impactante e está entre as vencedoras do World Press Photo 2014. As razões são evidentes, mas ainda assim faço aqui um exercício de interpretação. A fotografia mostra-nos uma divisão do que foi antes uma casa, agora transformada em canil. Ela é abruptamente cortada em duas metades iguais por uma viga (de madeira?) que quase nos obriga a dar um passo atrás. A metade direita é feita de movimento, com vários animais em poses contorcidas e aleatórias. A metade esquerda, é toda ela tensão, com os animais hirtos e focados num mesmo ponto. Por fim, os tons sépia (quase monocromáticos) parecem conferir solenidade ao tema. E perguntamo-nos: como pode alguém trocar o conforto de uma reforma na Europa rica por uma entrega total, caótica e desinteressada aos animais no sudoeste asiático?

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"E se os animais do Biotério entrassem em greve?"

Esta é uma das muitas questões colocadas na peça "Biodegradáveis", em palco no Teatro Carlos Alberto no Porto até dia 16 de Novembro. Esta peça original é da responsabilidade da companhia Visões Úteis.

Segundo a companhia, não se pretende retratar o quotidiano do investigador, mas antes "reflectir sobre as expectativas e alguns dos estereótipos que o grande público parece partilhar em torno do que é a prática do cientista." Segundo os criadores, pretende-se ainda celebrar algumas características que acreditam serem comuns a artistas e cientistas: "a persistência, o sacrifício, a paixão, a constante dúvida e o permanente desejo de perceber e ajudar a melhorar o humano."

A peça aborda temas sérios - como o cancro e o testamento vital - recorrendo à comédia, sendo de destacar o papel que cientistas do IPATIMUP da Universidade do Porto e o 3Bs da Universidade do Minho tiveram como consultores para esta peça. 

Crédito da foto: Susana Neves. Fonte
Os actores partilham o palco com diversos animais, nomeadamente peixes e gerbos, que presumo serem proxys para os peixe-zebra e murganhos e ratos utilizados como modelos em investigação biomédica. Não sei o suficiente porque ainda não assisti à peça, mas interrogo-me porque razão não utilizaram estas mesmas espécies. 

Já agora, que destino terão estes animais utilizados como décor? É o seu uso justificado para este propósito? Não me opondo, a priori, com este tipo de utilização - desde que responsável - preocupa-me que não haja nenhuma informação disponível acerca da manutenção e futuro destes animais, o que não deixa de ser irónico face à apertada regulamentação do uso dos animais de laboratório que se procura aqui representar. 

Crédito da foto: Susana Neves. Fonte
Já que se abordam nesta peça questões de foro ético, ficará ironicamente a ética animal de lado, aqui? Se tiver oportunidade de ver a peça, voltarei a este tema no Animalogos

sábado, 8 de novembro de 2014

"I don't like you" - Jane Goodall e John Oliver

Numa curta entrevista com o brilhante John Oliver - o apresentador e humorista britânico que é hoje um fenómeno de popularidade nos Estados Unidos -  Jane Goodall revela o seu bom-humor (e paciência), sendo o mesmo utilizado como veículo para divulgar as principais descobertas da primatóloga ao longo da sua vida dedicada ao estudo dos chimpanzés. 

O que eu gosto mais desta entrevista é que, ao passo que a maioria das peças televisivas "sérias" tendem a romantizar a vida e trabalho desta investigadora, aqui não só isso não acontece, como é dada oportunidade a Goodall de de não se levar demasiado a sério, ao mesmo tempo que são abordadas questões sensíveis ao nível da investigação destes primatas, como a atribuição de nomes aos indivíduos, ao invés de números de referência. 



Goodall também não se coíbe de designar os seus comportamentos com a mesma terminologia com que nós, humanos, descrevemos os nossos comportamentos. Assim, para Goodall, comportamentos sociais como dar abraços, beijos e as mãos não são  "parecidos" ou "análogos" aos dos humanos, mas a mesma coisa, de facto. 

Eu não sou nada de antropomorfismos, mas acho que no caso de animais tão biologicamente próximos, estamos de facto perante comportamentos homólogos, salvas as devidas distâncias. 

Uma peça despretensiosa, interessante, didática e cativante como a comunicação de ciência deverá ser. Uns cinco minutos bem passados.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Conversas inspiradoras

What is life? é o nome de um ciclo de dialogos interdisciplinares entre investigadores e docentes de diversas faculdades, a ter lugar no ICBAS, Universidade do Porto durante os próximos meses. Os organizadores Maria Strecht Almeida e José Augusto Pereira propõem conversas a partir do livro What is life do Erwin Schrödinger. A programação já está anunciada para a primeira sessão, dia 28 de Outubro e a segunda sessão, dia 11 de Novembro.

A imagem aqui ao lado é uma das muitas manifestações interessantes da vida, não só para quem se interessa por animais em geral mas também que estuda aspectos particulares de evolução e desenvolvimento. Não é o vulgar ratinho que parece, é um mamífero de uma classe taxonomica que não temos na Europa: os marsupiais. A razão deste opossum Monodelphia domestica de estar neste poste é a conferência que houve ontem também no ICBAS em que a Professora Yolanda Cruz da Oberlin College, Ohio, EUA partilhou com alunos e outros interessados alguns aspectos do seu trabalho com o marsupial Monodelphis domestica. Na pequena introdução no video clip aqui, descreve como e porque trabalha com estes mamíferos, originarios da America do Sul.


Foi uma conversa inspiradora também para quem ensina e investiga, pelo entusiasmo e pela abordagem inovadora que mostra. No Oberlin College, apenas há undergraduates, ou seja alunos do equivalente do 1º ciclo de ensino superior. Portanto, sem envolvimento de alunos de mestrado ou doutoramento, toda a investigação no laboratório da Yolanda Cruz é feita em forma de pequenos projetos de alunos do 1º ciclo de biologia e bioquimica.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Métodos de treino e modificação comportamental de cães: Eficácia e impacto no Bem-estar

Ana Catarina


Um texto de Ana Catarina Vieira de Castro, Bióloga  e Postdoc no grupo de Ciências de Animais de Laboratório do IBMC. A Catarina estudou o comportamento de pombos para o seu doutoramento (trabalho que lhe valeu um prémio) e é treinadora de cães certificada.  




Os métodos utilizados no treino e modificação comportamental de cães estão longe de ser lineares e consensuais entre treinadores e veterinários comportamentalistas. Há duas abordagens ou “escolas” principais com diferenças vincadas nas metodologias utilizadas. De um lado temos as chamadas metodologias tradicionais ou aversivas, que assentam sobretudo na utilização de força física, castigo e intimidação. Do outro lado temos as chamadas metodologias positivas ou force-free, que assentam sobretudo no uso do reforço positivo.


Recentemente várias associações veterinárias, associações de bem-estar e proteção animal e algumas associações de treinadores têm-se posicionado contra o uso das metodologias aversivas (ver, por exemplo, aqui aqui). Um dos principais argumentos utilizados prende-se com o impacto negativo que estes métodos podem ter no bem-estar dos cães. Algum suporte para estas preocupações pode ser encontrado em estudos laboratoriais realizados na área da psicologia da aprendizagem ao longo do século XX (utilizando diferentes animais como pombos, ratos ou cães), que demonstraram alguns dos potenciais efeitos colaterais da punição, como estados emocionais generalizados de medo e ansiedade, supressão generalizada de comportamentos e agressividade (ver, por exemplo, aqui e aqui).


No entanto, em alguns casos são feitas afirmações que carecem de comprovação científica ou que algumas vezes vão mesmo contra o conhecimento científico actual. Por exemplo, a Pet Professional Guild, uma associação norte americana de treinadores force-free, afirma na sua declaração de posição sobre treino de cães que existem evidências científicas extensas e irrefutáveis de que o treino aversivo de cães 1) provoca repercussões comportamentais negativas e 2) é menos eficaz do que o treino positivo.



Embora possamos encontrar nos estudos da psicologia acima referidos algum suporte para a afirmação relativa aos potenciais efeitos deletérios dos métodos aversivos, o caso é muito diferente para a afirmação sobre a eficácia dos mesmos. Não parece haver actualmente literatura em que nos possamos basear para aceitar afirmações sobre a maior eficácia do reforço positivo em relação à punição. E basta recorrermos a um manual de introdução à psicologia da aprendizagem para encontrarmos referências relativas à extrema eficácia de determinados procedimentos aversivos.

O caso torna-se ainda mais complicado quando falamos de evidências no caso específico do treino de cães. Ao contrário daquilo que é afirmado na declaração, os estudos científicos realizados sobre métodos de treino de cães são escassos e não é possível retirar deles as evidências (irrefutáveis) acima referidas.
No entanto, o mês passado foi publicado na revista Plos One um estudo que, na minha opinião, trouxe algumas indicações e algum avanço nesta matéria.


O estudo, desenvolvido por um grupo de investigadores da Universidade de Lincoln (Reino Unido), comparou a eficácia e as implicações no bem-estar de treino com coleiras de choque (Grupo A), treino com métodos aversivos mas sem coleiras de choque (Grupo B) e treino com métodos positivos (Grupo C).
Os três grupos de cães foram treinados durante 5 dias e as sessões de treino foram filmadas para posterior análise comportamental. Os resultados revelaram uma tendência geral para os animais do Grupo A mostrarem uma frequência maior de comportamentos indicadores de stress e/ou desconforto do que os animais do Grupo B e estes, por sua vez, maior do que os do Grupo C.

Os autores concluem que o uso de coleiras de choque resulta numa situação de stress para os cães, mesmo quando realizada de acordo com as melhores práticas (os treinadores que participaram no estudo eram todos treinadores experientes e foram nomeados pela ECMA - Electronic Collar Manufacturers Association e pela APDT – Association of Pet Dog Trainers), e que portanto apresenta um risco para o bem-estar dos cães. Apesar de este estudo se focar sobretudo no uso das coleiras de choque, também é possível concluir a partir dos dados obtidos que mesmo o treino com métodos aversivos sem coleiras de choque envolveu stress para os animais, embora menos quando comparado com o treino com coleiras de choque.

Os autores também concluem que a eficácia dos três tipos de treino é equivalente. Questionários feitos aos donos após o treino revelaram que os mesmos estavam satisfeitos com os resultados do treino e que esta percepção foi equivalente para os três grupos. A maior limitação do estudo parece residir neste ponto. Não é claro porque os investigadores optaram por usar a percepção dos donos como medida de eficácia, uma vez que esta não é uma medida objectiva. O estudo teria ganho mais força se a eficácia tivesse sido avaliada pelos próprios experimentadores, por exemplo, através da análise de vídeos.

Apesar desta limitação, este estudo foi, na minha opinião, um primeiro passo de qualidade no estudo dos efeitos dos métodos de treino no bem-estar dos cães. No entanto, mais estudos experimentais, sistemáticos e comparativos são necessários até podermos falar de evidências fortes e/ou irrefutáveis. Estudos deste género poderão ser conduzidos em maior escala, envolvendo mais treinadores. São também necessários estudos que procurem avaliar os efeitos a longo prazo da eficácia e do impacto no bem-estar dos métodos de treino.

Gostava de terminar este texto com uma reflexão. Independentemente das respostas que a ciência possa vir a dar, a discussão desta matéria terá sempre, na minha opinião, uma componente ética. Até que ponto é eticamente justificável optar por ensinar um animal através de metodologias que envolvem desconforto, dor e/ou medo, mesmo que os impactos no bem-estar se revelem negligenciáveis? Caberá aqui uma análise dano-benefício? Mesmo que as metodologias aversivas permitam atingir resultados mais rapidamente, até que ponto é justificável optar por elas? E mesmo que as metodologias aversivas se mostrem mais eficazes em determinadas situações, será isto suficiente para apoiar o seu uso generalizado? Os métodos aversivos, quando utilizados na terapia comportamental humana (e aqui o seu uso é, naturalmente, também extremamente questionado), são-no em situações onde outros métodos falharam. Não há nenhum terapeuta humano que defenda o uso indiscriminado de estímulos aversivos como forma de controlo ou modificação comportamental. No entanto, é isso que acontece com os cães. Haverá alguma teoria ética em que esta prática não seja questionável? Até para um contractualista ela é, no mínimo, merecedora de consideração.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A epidemia de Ébola chegou ao nosso quintal – e aos nossos animais!

A crise de saúde pública em Espanha, desencadeada pelo contágio directo do Ébola – o primeiro conhecido fora de África – entre um paciente e uma auxiliar de enfermagem do Hospital Carlos III, nos arredores de Madrid, segue tão descontrolada como a propagação do próprio vírus. Por entre acusações de falta de coordenação da direcção do Hospital, equipamento desadequado, treino insuficiente, impacto das medidas de austeridade no sistema de saúde espanhol, nada nem ninguém parece ficar imune à propagação do vírus (ou pelo menos, às suas consequências).

A mais recente vítima colateral desta epidemia - que parece retirada do filme Contagion (Steven Soderbergh, 2011) - é o cão da enfermeira infectada. A pedido das autoridades sanitárias da Comunidad de Madrid, um juiz autorizou hoje o abate de Excalibur, um American Stanfordshire Terrier de 12 anos de idade. O marido da enfermeira – também ele internado para observação – lançou um apelo nas redes sociais para que Excálibur seja poupado, com o apoio do partido animalista PACMA e da associação AXLA (Amig@sXlosanimales). A campanha #SalvemosExcalibur conseguiu reunir umas cinquenta pessoas à porta de casa da enfermeira, onde o cão está sozinho, depois do internamento dos seus donos.

Embora o papel dos animais domésticos na propagação do Ébola seja desconhecido, sabe-se que cães podem ser portadores assintomáticos do vírus e representam potencial risco de contágio. No entanto, Eric Loy, um especialista na transmissão do Ébola, discorda com a solução encontrada pelas autoridades espanholas, já que cão representaria uma fonte importante de informação sobre o vírus e sobre a sua transmissão. Em vez do abate, o cão deveria ser isolado e usado como ferramenta estudo. Uma petição, propondo algo semelhante, foi entretanto criada.

Peter Piot, um dos investigadores que descobriram o vírus em 1976, nunca pensou que o Ébola pudesse causar grandes riscos epidemiológicos, dada a natureza episódica e localizada dos anteriores surtos da doença. Mas agora o responsável europeu da Organização Mundial da Saúde (OMS-WHO) já admite que incidentes como o de Espanha se venham a repetir noutros países europeus, dada a proximidade e as deslocações frequentes entre os dois continentes.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Um Tributo à Dra Sophia Yin

Foi com grande consternaҫão que recebi a notícia do falecimento, em circuntâncias trágicas, da médica veterinária e etóloga americana Sophia Yin. Sophia, de 48 anos, era uma especialista em comportamento canino de dimensão estelar e uma presenҫa assídua em conferências por todo o globo. Sophia alcanҫou fama pelos seus métodos de treino. Provavelmente o mais famoso é o Learn to Earn Program, que recorre ao uso do reforҫo positivo, o que o separa de métodos alternativos, como os do famigerado “Dog Whisperer” Cesar Milan, muito baseados na dominância e no reforҫo negativo.



Os seus vídeos, como aquele aqui reproduzido, terão ajudado milhares de pessoas a compreender os seus cães e a dar-lhes uma vida melhor. Os seus ensinamento apelam à comunicaҫão e à consistência como métodos de ensino, e fazem do treino de obediência uma actividade agradável para ambos, homem e animal.

A morte, por suicídio, da Dra Sophia Lin, traz de novo o tema da saúde mental à ordem do dia: de facto, os médicos veterinários têm três vezes mais probabilidade de pôr termo à vida do que o cidadão comum e o dobro de outros profissionais de saúde, como médicos. As razões são várias e é impossível apontar uma única causa, mas a consistência destes dados um pouco por todo o mundo (a Dinamarca é uma das poucas excepҫões) tem levado à criaҫão de programas de apoio à saúde mental dos profissionais veterinários (médicos e enfermeiros), como é o caso do VetLife britânico.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Estudos com animais em destaque nos Prémios (Ig)Nobel 2014

Os prémios Ig Nobel são a grande festa da ciência. Ao contrário do que muitos pensam, não são atribuídos a estudos mal feitos, ridículos ou de pouco interesse científico. Antes celebram o lado divertido da ciência, que frequentemente os próprios investigadores não se apercebem que pode existir nos seus estudos, até que alguém o aponta. 

No ano passado, referimos o destaque dado à ciência de comportamento animal, na forma do IgNobel atribuído a Tolkcamp e colegas pelo seu estudo, que demonstrou que a probabilidade de uma vaca se deitar não aumenta com o tempo que passa em pé.  Este ano, entre outros nobres laureados, os estudos em animais estiveram bem representados, com três estudos que, como é apanágio dos galardoados pelo comité IgNobel, primeiro nos fazem rir, mas depois nos fazem pensar. 

Fonte: Hart et al
O estudo que recebeu o Ignobel da Biologia envolveu milhares de observações realizadas pelo checo Vlastimil Hart e colegas, que demonstraram que, quando os cães fazem as suas necessidades, por vezes se alinham com o campo geomagnético da Terra. Apesar da metodologia usada ter sido hilariante, se pensarmos bem nisso, foi não obstante também rigorosa e adequada. 
Os autores introduziram assim um novo paradigma de estudo comportamental, definindo assim também uma nova metodologia. Acima, de todo, são as implicações da sua descoberta que se revestem do maior interesse: os cães  poderão ter grande sensibilidade magnética, à semelhança de algumas aves, algo que era desconhecido até agora. IgNobel da Biologia muito bem atribuído. 


Ao que parece, não é só o Grumpy Cat
que fica de mau humor...
O IgNóbel em Saúde Pública foi atribuído a Jaroslav Flegr e colegas, também da República Checa, pelo seu estudo em que procuraram aferir se o convívio com gatos tem implicações na saúde mental dos proprietários. Demonstraram que a toxoplasmose latente (que pode variar, de área para área, entre 20-80%) resultante do contacto com gatos poderá levar a alterações comportamentais em jovens mulheres, e aumentar o risco de esquizofrenia em homens. Os autores sugerem que as mulheres que convivem com gatos são mais inteligentes, tem maior sentimento de culpa, apreensão e insegurança e, possivelmente, uma maior propensão para se sentirem tensas, determinadas e agitadas. 


Uma das imagens bem-humoradas apresentadas pelos
autores na cerimónia de atribuição dos prémios, em Boston. 
Para terminar, o estudo galardoado com o IgNobel em Ciências do Ártico realizado pelas Norueguesas Eigil Reimers e Sindre Eftestøl, que observaram como renas do ártico reagem na presença de humanos disfarçados de ursos polares. Descobriram que, quando os humanos se encontravam vestidos de modo a assemelhar-se (à distância) com um urso polar, a distância de fuga das renas encurtava consideravelmente. Isto sugere a existência de uma relação presa-predador entre as duas espécies, o que tem implicações para a ecologia e conservação das mesmas. 

É de referir que, num altura em que estudos conduzidos em animais se revestem de tanta controvérsia, são galardoadas experiências inócuas para estes, o que implica que numa análise custo-benefício, não obstante à primeira vista ser difícil perceber a razão por detrás da sua realização, não levantarem questões éticas de maior. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Bob's Dog Obedience School and Taxidermy Shop

Quando aturo o ladrar infinito do cão do outro lado do quarteirão, nada me consola como este:




sábado, 20 de setembro de 2014

Produção pecuária e bem-estar animal - Debate


Está disponível o vídeo que resultou do debate sobre Produção Pecuária e Bem-estar Animal (que teve lugar na Faculdade de Ciências da U.Porto a 22-11-2012), organizado pelo projeto Ciência 2.0 e no qual participaram autores do Animalogos. Em estúdio esteve a Anna Olsson (IBMC) na companhia da Virgínia Joaquim (Associação Zoófila Portuguesa) e de José Oliveira (Confederação de Agricultores de Portugal), com a moderação do jornalista Daniel Catalão. 

Foi sem dúvida um debate construtivo, pontuado por perguntas pertinentes do público presente. Gostei particularmente da forma como a Anna lidou com a pergunta do acesso aos estados mentais (‘sentimentos’) dos animais, comeҫando a resposta pelas metodologias mais progressistas mas também mais fáceis de entender por um público leigo (o Qualitative Behaviour Assessment e a Mouse Grimace Scale) e só depois explicando os testes etológicos mais clássicos. Também gostei que, do pouco que retiraram da minha entrevista, tenham seleccionado a parte sobre a insuficiente protecção da vaca leiteira, opinião que teve reflexo nas palavras do Presidente da APROLEP. Este tema foi também trazido a debate por outro membro do público relativamente ao efeito da genética sobre o bem-estar dos bovinos leiteiros. No entanto, a resposta rápida - mas irreflectida - da Virgínia Joaquim, atirou as culpas para a selecção artificial como um mal em si próprio, esquecendo – como apontou a Anna – que a melhoramento genético também permite seleccionar para a saúde e a longevidade.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O Burro-de-Miranda - uma visita à sede da AEPGA em Miranda do Douro

Já por mais que uma vez falámos aqui do Burro-de-Miranda e do excelente trabalho da Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPGA) para a sua promoção e conservação. Recentemente, e a propósito das férias familiares, tive a oportunidade de poder visitar a sua sede, na aldeia de Atenor, Miranda do Douro, para conhecer in loco estes fantásticos animais e o meritório trabalho desta associação fundada em 2001.

Burriquitos nascidos este ano. Todos baptizados com nomes
começando por "J" (para o ano será com "L", e por aí adiante)
(Foto: Nuno Franco)
Como estava apenas de passagem, optei pela actividade de mais curta duração (passeio de 1h30), ainda que a associação tenha outros passeios em que o contacto com os burros e a natureza envolvente assumem o papel central, e que podem durar até vários dias. Organizam e dinamizam ainda várias outras actividades, que incluem, por exemplo, o próximo workshop de Medicina Veterinária de Asininos, a realizar entre 25 e 28 de Setembro próximos.

Quem é, então, o Burro-de-Miranda? É essencialmente uma raça (subespécie?) asinina autóctone do nordeste transmontano, caracterizada por:

O "Lourenço", de oito anos, um belíssimo
exemplar da raça. (Foto: NF)

- Pelagem comprida, grossa, de cor castanha 
- Grandes e peludas orelhas. Largas na base, redondas na ponta
- Peito largo, pescoço curto e cabeça volumosa
- Lábios grossos, focinho curto e branco na ponta
- Olhos rodeados por uma mancha branca.
- Estatura elevada, mais do que 1,20 m, idealmente com 1,35 m.




Os burros até nem gostam muito que lhes mexam
nas orelhas, mas este nem se queixou... (Foto:NF) 
São animais de temperamento muito dócil, ainda que apenas machos castrados e fêmeas sejam utilizados nos passeios (a associação dispõe de 6 garanhões, não castrados, para reprodução). Quer os juvenis quer os adultos com quem contactei procuravam activamente a presença e os mimos dos visitantes, tornando muito difícil não nos afeiçoarmos a estes animais.  
Foram muito populares no passado como animais de carga, de tracção e de transporte, mas encontram-se hoje ameaçados. Existem em todo o país cerca de 800 fêmeas, ainda que apenas 400 estejam em idade reprodutora, o que coloca a raça na lista de animais ameaçados.

A longevidade dos animais de trabalho é de cerca de 30 anos, mas prevê-se que os animais que se encontram nas instalações da AEPGA possam chegar aos 40 anos de idade. 

Nas instalações da AEPGA, que incluem um terreno com 14 hectares, residem hoje 70 burros, (tendo começado com 20), catorze dos quais nasceram este ano, o maior registo de sempre. Por limitações de ordem logística (a associação não conta com qualquer apoio do município de Miranda do Douro), a associação vende ou cede animais para vários locais do país. No distrito do Porto podem ser encontrados, por exemplo, na Fundação de Serralves ou no Parque Biológico de Gaia.

A associação conta com dois médicos veterinários a tempo inteiro, que se encarregam da monitorização dos animais da associação, mas que também fazem acompanhamento veterinário de outros burros na região, por um valor simbólico, dada a idade e perfil sócio-económico da maioria dos proprietários de gado asinino na região.

Nada é deixado ao acaso pela equipa veterinária da AEPGA,
como se pode constatar neste quadro. (Foto: NF) 
Já o passeio em si, foi uma experiência muito positiva e didáctica. Toda a família adorou e eu confesso que me apaixonei por estes belos animais. Partilho com os animalogantes alguns destes momentos passados em Atenor na companhia dos Burros-de-Miranda, aproveitando ainda para recomendar esta experiência a todos que gostem de animais, de contacto com a natureza e de aventura.
Fotos: Nuno Franco
 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Treinar ratos para detectar minas



O uso de ratos (que não são os europeus Rattus norvegicus mas os seus primos distantes Cricetomys, bastante maiores, de tamanho de um cão pequeno) para detetar minas antipessoais é um elegante exemplo de colaboração humano-animal que aproveita as característica físicas e mentais do rato para abordar um problema humano gigantesco. Ativo e inteligente, o rato é fácil de treinar, e pesando pouco mais do que um quilo não faz disparar as minas.

No vídeo do TEDx de Roterdão, Bart Weetjens fala da iniciativa de treinar e disponibilizar ratos para deteção de minas e de tuberculose em Africa e Asia. O site da associação APOPO tem informação vasta sobre a sua atividade no terreno, que inclui Angola e Moçambique.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Petição para abolir a caça à Rola-Brava


 A QUERCUS lançou uma petição para proibir a caça à rola-brava (Streptopelia turtur). Se não concorda com a caça não lhe será difícil assiná-la. Mas mesmo que seja caçador, ou de alguma forma adepto da caça, esta petição é também para si. De facto, a rola-brava já foi no passado uma das aves mais abundantes da nossa avifauna, e daí ser chamada também de rola-comum. Mas qualquer caçador saberá que hoje em dia caçar uma rola é uma raridade e poucos serão aqueles que o farão sem se questionarem sobre o futuro da espécie.

Esta petição, da autoria da maior associação nacional de conservação da natureza, está longe ser perfeita; seria mais razoável pedir uma suspensão da caça por um período de, p.e., uma década em vez da liminar proibição. Os poderes políticos, por norma, não gostam que as coisas lhes sejam impostas, mas antes sugeridas. Não vem acompanhada por dados científicos sobre a ocorrência da espécie no nosso país, dados esses que existem e que, além disso, oferecem possíveis soluções para prevenir o seu declínio. Também não se compreende a alusão às aves aquáticas e ao uso do chumbo no mesmo documento, numa espécie de "já agora". A meu ver, cada tema deve ser tratado separadamente e com devida profundidade, o que não é o caso.

Ainda assim, por uma gestão cinegética sustentável, é importante suspender a caça à rola-brava e por isso assino esta petição.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Carne de Galinha - o maior problema de saúde pública na Europa?

A epidemia de infecҫões por Campilobacter pilori na Europa, levou o jornal de referência The Guardian a fazer uma investigaҫão secreta à industria avícola no Reino Unido, o maior consumidor europeu de carne de galinha. Estima-se que só neste país 280 mil pessoas sejam infectadas por Campilobacter, uma bactéria que para além de transtornos gastro-intestinais, é capaz de atacar o sistema nervoso e causar lesões neurológicas irreversíveis e até mesmo a morte. 



De forma a prevenir este tipo de infecҫões, que na sua maioria são contraídas através da manipulaҫão de carne de galinha crua, a Food Standards Agency alerta os consumidores para não lavarem a carne. Ao invés, a carne deve ser cozinhada directamente, eliminando assim quaisquer contaminantes que lá possam existir.

Isto traz-nos de volta ao tema do verdadeiro preҫo da comida barata, nomeadamente da proteína animal. O paradigma da produҫão avícola é o preҫo. Quando uma galinha inteira é vendida a 3€, e quando sabemos que a maior parte do lucro fica no retalho e não no produtor ou na transformaҫão, que são quem realmente influenciam a qualidade e seguranҫa do alimento, o desafio que se põe é como infuenciar positivamente uma indústria que não tem margem de manobra.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Sexo, experiências e ratos! - Parte 2

Há um tempo atrás falámos do impacto que a preferência por um determinado sexo na escolha de modelos animais pode ter na capacidade de poder reproduzir estes estudos e até extrapolá-los para estudos clínicos. 

Mas o sexo de outros animais envolvidos em investigação pode também ter uma forte influência no resultado das experiências: o dos animais humanos!

Um estudo publicado na Nature Methods (PDF disponível aqui) demonstrou que o odor de cientistas do sexo masculino, bem como o de outros mamíferos machos, faz aumentar os níveis de stress de animais de laboratório - ratos e murganhos - seja qual for o seu sexo, ainda que de modo menos marcado nas fêmeas. 

Ainda que surpreendente, o estudo foi feito de modo rigoroso e extensivo, recorrendo quer à análise comportamental quer à medição de níveis de corticosterona (hormona cujos níveis são indicativos do nível de stress a que um animal está sujeito), sendo os resultados apresentados bastante fidedignos. Algumas das experiências tiveram mesmo alguns elementos divertidos, como a adição de modelos de papelão de Paris Hilton e William Shatner.  Também recorreram a voluntários seniores e pré-adolescentes (o primeiro presumivelmente com valores de testosterona em declínio e o segundo ainda longe dos níveis da idade adulta) e obtiveram resultados intermédios entre os observados para homens e mulheres.  

Este efeito é visível esteja ou não presente o indivíduo responsável pelo odor, pelo que pode ser reproduzido através de uma camisola usada por um homem, ou por uma almofada onde um gato macho costume dormir, mas não  se forem de fêmeas, se deixados juntos dos animais. Independentemente da espécie do animal macho responsável pelo odor - ou pelo menos dos testados: como cobaias, gatos e cães e murganhos e ratos estranhos -  o efeito é observável.


Ao passo que os autores se centraram no efeito analgésico do stress, este pode ter um efeito profundo em vários parâmetros fisiológicos, e na própria resposta às diversas variáveis que possamos  estudar. isto pode ter um impacto significativo em anos de estudo em animais, o que foi verificado quando estes investigadores estudos foram avaliar retrospectivamente os seus dados, cruzando-os com a informação acerca do sexo do investigador responsável pela observação dos animais. 

Estes resultados indicam que, no mínimo dos mínimos, se deverá evitar trocar os responsáveis pela recolha de dados dos animais por outros de sexo oposto, para evitar que tal se torne um factor de variabilidade não desejada nos resultados. Para além disso, para efeitos de interpretação dos resultados publicados e sua replicação, o sexo dos experimentadores deverá ser contemplado como uma potencial variável, e deverá ser devidamente descrito na secção e materiais e métodos.

Já pessoalmente, e sem qualquer intenção de ser sexista, acho que passarei a pedir a colegas do sexo feminino que façam todo e qualquer trabalho experimental com animais que eventualmente me possa vir a calhar. Tudo em prol da ciência, claro...

quarta-feira, 16 de julho de 2014

WSPA passa a ser World Animal Protection

Tem mais do que 50 anos e agora um novo nome: 
 
World Animal Protection está presente em tudo o mundo. O seu trabalho vai desde ações concretas no terreno para proteger animais que vivem em contacto com seres humanos (como por exemplo populações de cães asilvestrados) até uma campanha junto às Nações Unidas para uma Declaração Universal de Bem-Estar Animal (não a confundir com a muito divulgada mas completamente inoficial Declaração Universal dos Direitos dos Animais).