Por causa de um recente debate sobre se os animais de laboratório deveriam ter um nome (em vez de serem identificados por um código), a revista científica americana Science lanҫou um Quiz para testar o conhecimento dos seus leitores sobre os mais famosos animais alguma vez usados para fins científicos. O quiz tem perguntas interessantes e um timer, pelo que não dá tempo para ir dar uma espreitadela à Wikipedia à procura da resposta certa. No final, dá vontade de conhecer melhor quem eram estes animais e de que forma contribuiram para o avanҫo da ciência. No entanto, só um certo chauvinismo americano pode justificar que a cadela Laika não faҫa parte dasta lista (em vez disso, ficamos a saber que os primeiros animais que os americanos levaram aos espaҫo foram um par de macacos). Mais significativo é o facto de que na lista dos mais famosos aparecem espécies emblemáticas como golfinhos e chimpanzés, mas não há referência a um único rato ou ratinho, que compõem a esmagadora maioria dos animais usados em investigaҫão científica e aqueles que mais terão contribuido para o avanҫo da ciência e, por inerência, da humanidade. Assim sendo, pergunto: que outro animal sugeririam para esta lista?quinta-feira, 5 de março de 2015
Os ‘animais de laboratório’ mais famosos
Por causa de um recente debate sobre se os animais de laboratório deveriam ter um nome (em vez de serem identificados por um código), a revista científica americana Science lanҫou um Quiz para testar o conhecimento dos seus leitores sobre os mais famosos animais alguma vez usados para fins científicos. O quiz tem perguntas interessantes e um timer, pelo que não dá tempo para ir dar uma espreitadela à Wikipedia à procura da resposta certa. No final, dá vontade de conhecer melhor quem eram estes animais e de que forma contribuiram para o avanҫo da ciência. No entanto, só um certo chauvinismo americano pode justificar que a cadela Laika não faҫa parte dasta lista (em vez disso, ficamos a saber que os primeiros animais que os americanos levaram aos espaҫo foram um par de macacos). Mais significativo é o facto de que na lista dos mais famosos aparecem espécies emblemáticas como golfinhos e chimpanzés, mas não há referência a um único rato ou ratinho, que compõem a esmagadora maioria dos animais usados em investigaҫão científica e aqueles que mais terão contribuido para o avanҫo da ciência e, por inerência, da humanidade. Assim sendo, pergunto: que outro animal sugeririam para esta lista?
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Deve haver cavalos nas ruas de Nova Iorque?
Bill de Blasio é presidente de Nova Iorque. Um dos assuntos na sua agenda política é o futuro dos cavalos que puxam carruagens nas ruas e parques da cidade. É uma prática desumana, diz de Blasio, que a quer banir.
A controvérsia não tardou. Tal como em outras cidades, como Viena e Sintra, as charretes e os seus cavalos são emblemáticas e há muita gente que não quer ver a sua cidade sem elas.
O igualmente emblemático jornal New York Times pegou no assunto e lançou um debate. Sob o título Horse Carriages Are Not Just A Ride In The Park, convidou um conjunto de pessoas com perspetivas diferentes a pronunciar-se sobre o futuro dos cavalos nas ruas de uma cidade com 8 milhões de habitantes e um número desconhecido de carros.
Harry H Werner argumenta que os cavalos estão de boa saúde, vivem em boas instalações e são bem cuidados. Contrária a esta visão, Holly Cheaver, também veterinária e representante de associações de proteção animal, defende que as condições nas ruas de Nova Iorque e também nos estábulos são nefastas para o bem-estar dos cavalos.
Um terceiro veterinário, Dean W Richardson, defende o valor dos cavalos como uma forma de dar a conhecer os animais aos cidadãos urbanos e que a forma de abordar os problemas deve ser através da regulação e não da proibição.O académico Kenneth Shapiro, por sua vez, discorda que este uso de cavalos sirva como exemplo de uma boa relação humano-animal.
O debate acima referido decorreu há um ano. A proposta agora em cima de mesa é um phasing-out da atividade. Os charretistas marcaram um dia de greve em protesto.
A controvérsia não tardou. Tal como em outras cidades, como Viena e Sintra, as charretes e os seus cavalos são emblemáticas e há muita gente que não quer ver a sua cidade sem elas.
O igualmente emblemático jornal New York Times pegou no assunto e lançou um debate. Sob o título Horse Carriages Are Not Just A Ride In The Park, convidou um conjunto de pessoas com perspetivas diferentes a pronunciar-se sobre o futuro dos cavalos nas ruas de uma cidade com 8 milhões de habitantes e um número desconhecido de carros.
Harry H Werner argumenta que os cavalos estão de boa saúde, vivem em boas instalações e são bem cuidados. Contrária a esta visão, Holly Cheaver, também veterinária e representante de associações de proteção animal, defende que as condições nas ruas de Nova Iorque e também nos estábulos são nefastas para o bem-estar dos cavalos.
Um terceiro veterinário, Dean W Richardson, defende o valor dos cavalos como uma forma de dar a conhecer os animais aos cidadãos urbanos e que a forma de abordar os problemas deve ser através da regulação e não da proibição.O académico Kenneth Shapiro, por sua vez, discorda que este uso de cavalos sirva como exemplo de uma boa relação humano-animal.
O debate acima referido decorreu há um ano. A proposta agora em cima de mesa é um phasing-out da atividade. Os charretistas marcaram um dia de greve em protesto.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Portugueses investigando em bem-estar animal - Kelly Gouveia
Kelly Gouveia licenciou-se em medicina veterinária pelo ICBAS em 2007 e tem feito desde 2008 um percurso interessante e diversificado ao nível da investigação em bem-estar animal. Concluiu recentemente o seu projecto de doutoramento pela Universidade de Liverpool, sob a orientação de Jane Hurst e Paula Stockley no NC3Rs, e que se focou no refinamento do manuseamento de murganhos.
Nuno Franco - Olá Kelly, podes começar por fazer um breve resumo do teu projecto de doutoramento e das suas principais conclusões e implicações?
No meu projecto de doutoramento estudei formas práticas de reduzir o stress associado ao manuseamento, em ratinhos de laboratório. O stress associado ao manuseamento constitui um problema de bem-estar e pode induzir variação nos resultados experimentais. Animais de laboratório necessitam constantemente de ser manuseados, quer seja para efeitos de limpeza, simples inspecções diárias ou para fins experimentais. Dado que o ratinho é a espécie laboratorial mais usada neste momento, isto pode ter implicações para muitos milhões de animais utilizados em ciência mundialmente. Embora o método mais comum de manusear ratinhos seja levantá-los pela cauda, uma publicação relativamente recente (Hurst & West, 2010) demonstrou que este método induz aversão ao manuseamento e ansiedade, contrariamente a dois métodos alternativos: guiar o animal para dentro de um túnel presente na jaula ou usar a técnica da mão aberta em que o animal e apanhado com a mão aberta e segurado na palma da mão (hand cupping).
O meu projecto analisou a eficácia destes métodos relativamente ao método da cauda, a fiabilidade de os implementar na prática e modos de os integrar na prática laboratorial. Outra parte do meu projecto consistiu em testar os efeitos do método de manuseamento na fiabilidade de resultados experimentais, principalmente em experiências que aplicam testes comportamentais/cognitivos. O método do túnel contribui para uma redução significativa do stress associado ao manuseamento e pode ser implementado de forma prática, ou seja, não exigindo uma habituação prolongada e à parte do contexto laboratorial. A redução de stress associado ao manuseamento também pode melhorar a fiabilidade dos resultados experimentais e portanto constitui um método eficaz de introduzir os 2Rs (de refinamento e redução) nas práticas de laboratório.
Que desafios vês à adopção mais generalizada destas técnicas para o manuseamento de animais de laboratório?
Penso que ha vários desafios. O desconhecimento sobre os efeitos mais generalizados destes métodos, tanto a nível fisiológico como comportamental, e a sua influência nos resultados experimentais são desafios para a da adopção destes métodos como padrão. Poderá haver situações em que usar uma técnica menos aversiva possa reduzir a possibilidade de detectar um efeito experimental ou mesmo ser contra-indicada. Por exemplo, em psicofarmacologia pretende-se usar modelos animais que demonstrem elevada ansiedade. É possível que minimizando o stress ambiental associado ao manuseamento possa haver um efeito atenuante, e portanto influenciar o efeito farmacológico de um ansiolítico. É necessário haver mais investigação sobre os efeitos de manuseamento prática variação de resultados experimentais de forma a encaminhar para uma prática generalizada destes métodos. Também o uso destes métodos poderá ter algumas limitações, como por exemplo, para o manuseamento de múltiplos animais por jaula em que poucos animais cabem de uma vez no túnel ou o uso destas técnicas em animais muito jovens em que a habituação ao manuseamento não é imediata. O próprio processo de implementação generalizada destes métodos também constitui um desafio, pois é necessário que organizações científicas e entidades reguladoras reconheçam a importância do manuseamento menos aversivo e comecem a implementar as técnicas na formação de investigadores e pessoal técnico.
Antes de desenvolveres este projecto no NC3Rs, em que outros trabalhos na área de bem-estar animal estiveste envolvida?
Durante o meu estágio de veterinária fiz dois projectos sobre o bem-estar de animais no matadouro. Num deles investiguei a incidência de lesões post mortem em frangos criados em regime extensivo, e a sua associação com acontecimentos que antecedem ao abate. No outro estudei a fiabilidade de determinados comportamentos manifestados por bovinos durante o atordoamento, como indicadores de um atordoamento eficaz. Após ter completado o curso, estive envolvida na submissão da candidatura de um projecto de investigação a FCT, sobre estratégias para aumentar o uso dos parques em regime extensivo na criação de frangos. Fiz também um projecto numa sociedade protectora de animais de companhia no Porto, em que estudei o bem-estar de gatos alojados em grupos, relativamente a alguns factores, como por exemplo o tempo de estadia e composição do grupo. Pouco antes de começar o meu doutoramento também realizei um projecto na universidade de British Columbia (Vancouver, Canada) em que investiguei aprendizagem do uso de free-stalls em novilhas leiteiras.
Não há em Portugal nenhuma instituição científica nem orçamento dedicado ao desenvolvimento e promoção dos 3Rs, ao contrário do que acontece noutros países europeus. O que é que, na tua opinião, faria falta para que fosse criado um centro para investigação nestas áreas no nosso país?
Julgo que em parte falta haver investimento financeiro de grandes empresas em Portugal. Alias, esta diferença e muito notável entre países com baixo ou elevado sucesso na implementação de programas de bem-estar animal. Também era necessário haver envolvimento ou colaboração com os cientistas mais conceituados da área a nível internacional, para aumentar as hipóteses de aprovação dos projectos de investigação pelas organizações cientificas portuguesas e internacionais.
Para finalizar, que projectos tens para o futuro, no curto e médio prazo?
Gostaria de continuar a trabalhar nesta área e talvez um dia fazer parte de um centro de investigação científica em Portugal, quem sabe!
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Nuno Franco
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Animalogante no Porto Canal
Veja aqui a entrevista com o investigador e animalogante Nuno Franco no programa Mentes que Brilham no Porto Canal dia 10 de fevereiro.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Limpar os oceanos - The Ocean Cleanup
Há uns três anos atrás fiquei muito impressionado com a curta-metragem Midway, que retratava os terriveis efeitos da poluiҫão marinha. Chris Jordan, o realizador, embarcou numa aventura de dois anos a um dos lugares mais desolados da Terra - o atol de Midway, no meio do Oceano Pacífico Norte - onde testemunhou uma tragédia: a morte por inanição de milhares de albatrozes que confundiam o lixo flutuante (em especial plástico) por alimento. Jordan filmou como quem pinta naturezas mortas, compondo carcaças sem vida adornadas por letais pedaços de plástico colorido. O mesmo enquadramento visual para transmitir uma mensagem igualmente moralizante: que a poluição dos oceanos é, de facto, um importante problema ambiental.
A poluiҫão dos oceanos tem sido encarada mais como um problema local (sempre que há um derrame de crude ou uma descarga de resíduos industriais) do que propriamente como um problema global. Além disso, o tema da poluição, especialmente a poluição marinha, parece ter perdido o ímpeto para outros temas mais populares e "quentes" da agenda ambiental, nomeadamente as alterações climáticas e do aquecimento global. Porém, os efeitos dos plásticos nos oceanos são devastadores. Embora não sejam biodegradáveis, os plásticos são fotodegradáveis, o que significa que se vão desfazendo, por acҫão da luz, em particulas cada vez mais pequenas mas sem nunca desaparecerem do ambiente. Esses microplásticos são depois ingeridos e transmitidos pela cadeia trófica com consequências para a nossa saúde e a de outros animais que só agora comeҫamos a compreender.
| Uma das 'naturezas mortas', de Chris Jordan |
Estima-se que cerca de 300.000 toneladas de lixo plástico flutuem actualmente nos nossos oceanos. Muito deste material concentra-se em verdadeiras ilhas flutuantes de lixo (ou vórtices), em zonas remotas dos oceanos, e a sua remoҫão foi sempre vista como inviável. Mas um adolescente chamado Boyan Slat desenvolveu uma solução incrivelmente simples e viável para remover os cinco principais vórtices de plástico identificados pelos cientistas. Vejam a proposta de Boyan no seguinte Prezi:
Limpar o lixo dos oceanos é possível.
Saiba mais em The Ocean Cleanup e contribua para concretizaҫão deste projecto!
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Manuel Sant'Ana
Curso de delineamento experimental e estatística para estudos com animais
O Fund for the Replacement of Animals in Medical Experiments - FRAME vai organizar de 30 de Março a 1 de Abril um curso de desenho experimental delineamento experimental e estatística na Universidade de Coimbra.
Ainda que seja contra-intuitivo pensar que uma organização criada especificamente para promover a substituição de animais em biomedicina se dedique a formar investigadores para usar animais, a verdade é que tal não constitui qualquer contradição com os princípios desta ONG.
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| Melhorar as experiências E diminuir o número de animais. Não só é possível como é um imperativo de ordem ética e científica. |
Acontece que a FRAME são se dedica apenas a promover e divulgar (na revista ATLA- Alternatives to Laboratory Animals) novos métodos e tecnologias que permitem a 'substituição' - Replacement - do uso de animais, mas também os restantes 3Rs de Russel e Burch, nomeadamente os de Reduction (Redução) e Refinement ('Refinamento').
Por Reduction entende-se o uso do menor número possível de animais para atingir um determinado objectivo científico (sem prejuízo da validade científica) ou, em alternativa, a extrair mais e melhor informação aumentar o número de animais necessário. Isto é conseguido, por exemplo, através de desenho experimental sofisticado, estudos longitudinais (estudando o mesmo indivíduo, que se torna o seu próprio 'controlo') ou reduzindo o 'ruído' experimental que afecta a validade interna das experiências e pode levar a falseamento dos resultados.
Já por Refinement entende-se o 'refinamento' das experiências nos sentido de minimizar (ou mesmo eliminar) a dor e desconforto dos animais, bem como providenciar experiências positivas e uma vida confortável, sem prejuízo dos resultados experimentais.
A importância destes dois Rs não pode ser menosprezada, por razões éticas, mas também científicas. Tem sido demonstrado que uma grande parte dos estudos com animais publicados apresentam resultados não-reprodutíveis, ou exagerados, por serem mal concebidos, executados e interpretados. Isto leva a que muitos milhões de euros e vários milhares de animais sejam desperdiçados em estudos de relevância médica limitada.
Assim, a FRAME dedica-se não só a financiar projectos para desenvolvimento de métodos não-animais - inclusive no seu próprio laboratório na Universidade de Nottingham - como também oferece cursos de delineamento experimental para ensinar aos investigadores a tirar o melhor partido dos animais que são usados, através da redução de variabilidade indesejada (incluindo a negligência pelo bem-estar animal) e de enviesamentos comuns resultantes da falta de conhecimento de princípios básicos de desenho experimental e estatística.
Isto deve-se ao facto desta organização se orgulhar de fundamentar a sua actividade em princípios científicos - e não na opinião pública - pelo que não exige uma abolição imediata do uso de animais que pusesse em risco o desenvolvimento biomédico (bem como da medicina veterinária), mas uma redução progressiva através do desenvolvimento científico.
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| A FRAME tem uma abordagem científica como um dos seus princípios basilares. |
Quanto a este curso em si, posso falar da minha própria experiência, como alumnus. Participei na edição de 2009, em Manchester, e posso assegurar que o meu conhecimento e perspectiva relativamente ao desenho de experiências com animais mudou significativamente, e para melhor. Recomendo-o vivamente a todos aqueles que se interessam na validade e ética dos seus estudos.
Mais informações aqui.
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Nuno Franco
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Seminário de Medicina Forense, Comportamento e Bem-estar Animal
O primeiro Seminário de Medicina Forense, Comportamento e Bem-estar Animal terá lugar nos dias 18 e 19 de Abril no Hotel 3K Europa, em Lisboa.
Neste seminário serão discutidos temas relacionados com o mau trato sobre animais tais como a importância do comportamento animal na investigação de casos, investigação forense, clínica médico-legal veterinária, tenatologia forense, enquadramento legal, métodos de antropologia forense, dor e indicadores de bem-estar. Haverá ainda uma palestra especialmente dedicada ao elo entre o mau trato em animais e crimes direccionados a pessoas.
Esta formação é especialmente dirigida a médicos veterinários, psicólogos, estudantes de medicina veterinária e psicologia e a todos os interessados na área da Medicina Veterinária Forense.
Visite a página do evento no Facebook.
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
Feliz aniversário, Animalogantes!
No passado dia 17 de Dezembro fez cinco anos que o projecto ANIMALOGOS comeҫou. Este blog nasceu da necessidade de disponibilizar na Web 2.0 um espaҫo de debate aberto, informado e rigoroso sobre a nossa coexistência com outros animais. Actualmente temos entre 1500 e 2000 visualizações mensais e apesar de sermos principalmente vistos em Portugal, temos ainda uma audiência sólida nos EUA e no Brasil.
Neste cinco anos publicámos mais de 350 mensagens, sobre os mais diversos temas que vão da experimentaҫão animal à conservaҫão passando pela produҫão animal e pelos animais de companhia. Divulgámos estudos relevantes e entrevistámos especialistas de diferentes quadrantes: filósofos, médicos veterinários e cientistas. O Animalogos tem também sido usado como ferramenta de ensino, em especial na Pós Graduaҫão de Comportamento e Bem-Estar Animal do ISPA.
O nosso mais sincero obrigado a todos os animalogantes que têm participado com mensagens, comentários e sugestões! Aqui, todos os pontos de vista são bem vindos e nenhum comentário fica sem resposta. Ao fim desdes cinco anos tivemos mais de 700 comentários e mediámos algumas discussões polémicas e estimulantes. Em Junho do ano passado criámos a página do Facebook que conta já com cerca de duzentos seguidores.
Em jeito de celebraҫão perguntámos a amigos e colaboradores qual o acontecimento mais significativo, no que aos animais diz respeito, no ano que agora termina, e a resposta não podia ter sido mais consensual: a publicação da Lei nº 69/2014, de 29 de agosto, que criminaliza o abandono e os maus tratos a animais de companhia e que entrou em vigor a 1 de Outubro. Tratou-se de um esforҫo conjunto de deputados de diferentes quadrantes políticos (algo raro, no nosso país) e que contou também com a contribuiҫão da sociedade civil, nomeadamente das propostas de alteraҫão legislativa da Associaҫão Animal (em formato de petiҫão pública) e da Ordem dos Médicos Veterinários.
A nova Lei vem adicionar ao Código Penal português um novo título dedicado aos crimes – de maus tratos e e abandono - contra os animais de companhia. Isto permite proteger os animais por si próprios, sem alterar o seu estatuto legal de “coisas”, o que para alguns é causa de alguma incoerência jurídica. A nova lei altera ainda a Lei n.º 92/95, de 12 de setembro, de forma a clarificar o papel das Associaҫões Zoófilas, mas sem tocar nos pontos mais sensíveis e que a tornaram coxa e insuficiente (e.g. como definir “violência injustificada” e “sofrimento considerável”?).
E com estas reflexões terminamos o ano de 2014, a todos desejando um excelente ano de 2015!
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terça-feira, 30 de dezembro de 2014
2º Conferência Internacional de Alternativas à Experimentação Animal
A Sociedade Portuguesa para a Educação Humanitária organiza a 2º Conferência Internacional de Alternativas à Experimentação Animal dias 8 e 9 de Maio de 2015, no Fórum Picoas em Lisboa.
O principal objetivo desta conferência é o de promover o debate e a troca de
informação relativamente às alternativas à experimentação animal.
Submissão de posters até 6 de Fevereiro de 2015
e a inscrição a preço reduzido até 27 de Fevereiro de
2015 através do site oficial da conferência em www.icaae.com.
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domingo, 21 de dezembro de 2014
Texugos e Tuberculose no Reino Unido – Uma Relaҫão Complexa
Quando penso em texugos, espécie muito característica pelas grossas riscas brancas e pretas ao longo da cabeҫa, a imagem que me vem à memória é a de O Vento nos Salgueiros, série televisiva britânica da minha infância, baseada na novela infantil com o mesmo nome (The Wind in the Willows), do início do século passado.
O texugo europeu (Meles meles) pode ser encontrado um pouco por todo o continente mas é especialmente abundante nas ilhas britânicas. O velho Sr Texugo, personagem de O Vento nos Salgueiros, é sábio e solitário, preferindo a tranquilidade da sua toca ao buliҫo da superfície. Mas acontece que a realidade dos texugos britânicos pouco se assemelha à pacata vida do Sr. Texugo. Desde que estudos científicos descobriram que os texugos são o principal (?) reservatório do Mycobacterium bovis, e portanto importantes focos de transmissão da tuberculose bovina (bTB), que estes listrados mustelídeos nunca mais tiveram descanso.
Há décadas que o abate massivo de texugos (badger culling) tem sido a medida imposta pela autoridade sanitária no Reino Unido (DEFRA), de forma a prevenir a transmissão da tuberculose de texugos a animais domésticos (especialmente bovinos leiteiros, mas também cães e gatos) e destes a seres humanos (principalmente pelo consumo de leite não pasteurizado). Estima-se que entre 1975 e 1997, mais de 20 000 texugos tenham sido abatidos. Nos anos 80, os texugos eram gaseados no interior das suas tocas. Actualmente, os animais são mortos a tiro por caҫadores licenciados (marksmen) em montarias patrocinadas pela DEFRA, mas apenas em zonas rurais do sul de Inglaterra.
A eficácia do abate de texugos no controlo da doenҫa é alvo de um aceso debate e que está longe de estar resolvido. É sabido que outros animais silvestres, como veados, são também importantes focos de infecҫão natural, mas os texugos parecem ter garantido o estatuto de bode expiatório do falhanҫo de todas as medidas de controlo da tuberculose bovina. O governo mostra números a justificar o abate e de como a situaҫão da doenҫa seria muito pior do que a que existe hoje, caso os animais não fossem abatidos. O abate tem custado anualmente milhões de libras, pagas pelo erário público, e estudos independentes sugerem que traz poucos benefícios, para além do sentimento de seguranҫa para agricultores e consumidores. Especialistas alertam para o facto de que o abate localizado e de um número insuficiente de animais (terá sido isso que aconteceu este ano) não só torna a medida ineficaz como pode inclusivamente aumentar o risco de transmissão da bTB às espécies pecuárias, provavelmente porque os texugos infectados passam a ocupar nichos ecológicos maiores (e.g. podem percorrer maiores distâncias para procriar).
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| SOURCE: bbc.com |
Além disso, a medida tem provado ser cruel já que até 18% dos animais demoram mais de cinco minutos a morrer, intervalo de tempo a partir do qual o abate é considerado ‘inumano’. E embora este seja um tema que tem dominado a opinião pública durante décadas e o enorme esforҫo financeiro envolvido, a verdade é que não existe actualmente investigaҫão sobre métodos de abate alternativos.
Em relaҫão a métodos alternativos ao abate, decorre desde Setembro uma campanha de vacinaҫão de texugos, Badger Edge Vaccination Scheme, também patrocinada pela DEFRA mas que depende da iniciativa privada para ser implementada. A ideia é criar um cordão sanitário (feita de texugos vacinados) entre zonas indemnes e zonas afectadas por bTB em animais domésticos, prevenindo-se assim a propagaҫão da doenҫa. Durante anos a vacinaҫão foi proibida pois havia o risco de se fazer passar animais portadores por animais vacinados, mas a estratégia mudou assim que se tornou evidente que o badger culling, por si só, não será suficiente para controlar a epidemia de bTB. Só em 2013, mais de 26 mil cabeҫas de gado, infectadas com tuberculose, foram abatidas no Reino Unido.
Em relaҫão a métodos alternativos ao abate, decorre desde Setembro uma campanha de vacinaҫão de texugos, Badger Edge Vaccination Scheme, também patrocinada pela DEFRA mas que depende da iniciativa privada para ser implementada. A ideia é criar um cordão sanitário (feita de texugos vacinados) entre zonas indemnes e zonas afectadas por bTB em animais domésticos, prevenindo-se assim a propagaҫão da doenҫa. Durante anos a vacinaҫão foi proibida pois havia o risco de se fazer passar animais portadores por animais vacinados, mas a estratégia mudou assim que se tornou evidente que o badger culling, por si só, não será suficiente para controlar a epidemia de bTB. Só em 2013, mais de 26 mil cabeҫas de gado, infectadas com tuberculose, foram abatidas no Reino Unido.
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terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Doutoramento em bem-estar de animais de laboratório
Procuramos candidatos com um mestrado em ciências de vida para trabalhar neste projeto. As tres partes envolvidas no trabalho são na Dinamarca Universidade de Copenhaga onde o doutorando terá a sua base de trabalho e Novo Nordisk e em Portugal Instituto de Biologia Molecular e Celular.
Mais detalhes sobre o projeto e como candidatar-se.
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
O Mocho Sábio - Uma sugestão de Natal
A história d’O Mocho Sábio “conta a história de um casal de mochos galegos, a Sancha e o Raimundo que estão apaixonados e escolheram um bonito local para viver. Mas a Sancha não consegue pôr ovos e anda muito triste. O casal tem um amigo sábio, o mocho Al-Kibir. O Al-Kibir vive na Quinta das Ardósias com o Dr. Alcobia, um sábio farmacêutico, reformado, cuja biblioteca faz as delícias do Mocho Sábio: aí aprendeu a ler e adquiriu conhecimentos que se vão revelar muito úteis.“
Este é o primeiro livro da colecção “A Vida Selvagem”, da Editora Escrivaninha. O livro é ilustrado por 24 aguarelas e conta com o prefácio de João Eduardo Rabaça, Professor de Biologia da Universidade de Évora.
Em associação com a ALDEIA, este livro pretende angariar fundos para o projecto STRI – Rapinas Nocturnas de Portugal. Especificamente, os lucros obtidos - 4€ por cada livro vendido - têm em vista a contribuição para a colocação de uma câmara de vigilância numa caixa-ninho de Tyto alba (Coruja-das-torres) para que seja possível acompanhar a nidificação de um casal desta espécie.
O preço de venda é de 10€. Para adquirir o seu livro, contacte a associação ALDEIA através do e-mail rias.aldeia@gmail.com.
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
A "Ilha do Dr. Moreau" é um laboratório na Universidade de Rochester?
Esta poderá ser a primeira reacção de muitas pessoas ao descobrirem que investigadores nessa universidade injectaram células gliais humanas precursoras de astrócitos em cérebros de ratinhos, produzindo animais mais inteligentes e com melhor memória que os seus irmãos "normais".
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| Crédito da imagem: Scientific American (Fonte) |
Até ao século XXI, o papel das células gliais no sistema nervoso central (SNC) era tido como fundamental, mas secundário, como que prestando "vassalagem" aos personagens principais do SNC, os neurónios, dando-lhes sustentação, protecção e isolamento, nutrientes e oxigénio, defesa contra agentes infecciosos e remoção de neurónios mortos.
Contudo, no nosso século descobriu-se que podem também ter um papel directo na neurotransmissão, sendo ainda vitais para o pensamento consciente pelo seu papel na modulação da actividade dos neurónios e coordenação da transmissão de sinais entre estes, no espaço sináptico.
| Ilustração representativa de células gliais (fonte) |
Como os astrócitos humanos são até vinte vezes maiores que os dos ratinhos e muitíssimo mais ramificados, este grupo de cientistas questionou se as nossas células gliais evoluíram no sentido de contribuir para uma maior inteligência humana, justificando as diferenças com a de outras espécies.
Num estudo conduzido por esta equipa e publicado no ano passado, células precursoras de astrócitos foram implantadas em ratinhos imunodeficientes (para evitar rejeições do xenotransplante) neonatos.
Como descrito no vídeo, os resultados foram surpreendentes!
A grande diferença entre o estudo descrito no vídeo e o mais recente estudo desta equipa foi que, no primeiro, as células gliais humanas encontravam-se numa fase mais madura e integraram-se no cérebro dos animais sem se desenvolverem ou multiplicarem mais (mas foram suficientes para alterar dramaticamente a capacidade cognitiva e memória dos ratinhos), ao passo que no segundo as células gliais humanas fetais usadas desenvolveram-se e dividiram-se no cérebro dos ratinhos ao ponto de substituírem completamente as previamente existentes no espaço de um ano. Em termos da quantidade bruta de células, estes cérebros são assim "metade humanos", até porque há mais células gliais que neurónios.
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| Representação artística de um oligodendrócito revestindo axónios com baínhas de mielina.(fonte) |
Contudo, a Scientific American coloca a pergunta: Isto ainda é um ratinho? Eu não tenho dúvidas que apesar de estarmos a falar de ratinhos mais inteligentes estes não deixam de ser, fundamentalmente, ratinhos. Apenas são mais eficientes a fazer aquilo que os ratinhos conseguem fazer.
Aparte o uso de células fetais humanas (que vou deixar para discussão pelos bioeticistas stricto sensu), questões éticas prementes poderão surgir se células gliais humanas forem implantadas em chimpanzés, ou até neurónios humanos, em qualquer espécie.
Devemos assim questionar se existem limites para o que se poderá fazer neste domínio, independentemente da nossa capacidade técnica para o fazer? Poderá estar de alguma maneira em risco a dignidade humana? E a dignidade do animal?
Devemos assim questionar se existem limites para o que se poderá fazer neste domínio, independentemente da nossa capacidade técnica para o fazer? Poderá estar de alguma maneira em risco a dignidade humana? E a dignidade do animal?
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terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Sobre boa e má fotografia: uma história de cães
Esta mensagem surgiu de uma associaҫão de temas dispersos que se uniram numa ideia comum. Desde que me mudei para a Irlanda, mais ou menos ao mesmo tempo que a minha subscriҫão do jornal Público expirou, que me mantenho permanentemente ligado a três jornais: o The Guardian, o El País e, mais recentemente, o Observador. Um novo mundo de interconectividade, por vezes fonte de distracção mas também geradora de inspiraҫão e criatividade.
E foi nestas deambulaҫões que soube do trabalho da fotógrafa alemã Julia Christe. Julia criou uma série fotográfica sobre cães voadores a que chamou Freestyle. Ao que parece, os cães são lançados pelos próprios donos para um colchão enquanto Julia capta o ‘instante decisivo’ (expressão cunhada pelo fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson).
Mas não é preciso ser-se cinólogo para se perceber que os cães não estão a achar a mínima piada à brincadeira. Basta olhar-lhes bem nos olhos. Noutros animais, ao contrário dos humanos, não é normal ver-se a esclera, isto é, a parte branca do olho. É sabido que a exposição da esclera é indicadora de estados mentais negativos (stress, dor, sofrimento) em cães, vacas e outros animais. Quanto mais branco se vir, pior o estado mental. Isto está em oposição com o que se passa na espécie humana, onde a brancura ocular está associada a saúde, beleza e aptidão reprodutiva.
Por outras palavras, o Husky fotografado não está a curtir o salto, como parece indicar a inscrição que acompanha a fotografia no The Guardian: “Much falling. So levity. Wow! An adorable husky drops.” Ele está antes apavorado. Se houvesse uma expressão canina de terror, seria esta. Estes retractos não são só condenáveis. São também má arte porque desprovidos de conteúdo e penso que isso me deixa igualmente incomodado. Já agora, vejam a série Studie Faces e façam um exercício semelhante.
Em total oposição a este frívolo exercício estão as cino-foto-reportagens da fotógrafa britânica Julie McGuire. Ao contrário da sua homónima alemã, Julie fotografa cães com um propósito que vai para além da graça de retractar animais. Em Hounds of Hope Julie conta-nos a história da Penang Animal Welfare Society, associação zoófila malaia criada por uma aposentada alemã (Barbara Janssen) que foi viver para a Malásia para socorrer animais abandonados. Actualmente toma conta de mais de 250 cães num exercício que parece ter tanto de louvável como de condenável.
A fotografia aqui reproduzida é especialmente impactante e está entre as vencedoras do World Press Photo 2014. As razões são evidentes, mas ainda assim faço aqui um exercício de interpretação. A fotografia mostra-nos uma divisão do que foi antes uma casa, agora transformada em canil. Ela é abruptamente cortada em duas metades iguais por uma viga (de madeira?) que quase nos obriga a dar um passo atrás. A metade direita é feita de movimento, com vários animais em poses contorcidas e aleatórias. A metade esquerda, é toda ela tensão, com os animais hirtos e focados num mesmo ponto. Por fim, os tons sépia (quase monocromáticos) parecem conferir solenidade ao tema. E perguntamo-nos: como pode alguém trocar o conforto de uma reforma na Europa rica por uma entrega total, caótica e desinteressada aos animais no sudoeste asiático?
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
"E se os animais do Biotério entrassem em greve?"
Esta é uma das muitas questões colocadas na peça "Biodegradáveis", em palco no Teatro Carlos Alberto no Porto até dia 16 de Novembro. Esta peça original é da responsabilidade da companhia Visões Úteis.
Segundo a companhia, não se pretende retratar o quotidiano do investigador, mas antes "reflectir sobre as expectativas e alguns dos estereótipos que o grande público parece partilhar em torno do que é a prática do cientista." Segundo os criadores, pretende-se ainda celebrar algumas características que acreditam serem comuns a artistas e cientistas: "a persistência, o sacrifício, a paixão, a constante dúvida e o permanente desejo de perceber e ajudar a melhorar o humano."
Segundo a companhia, não se pretende retratar o quotidiano do investigador, mas antes "reflectir sobre as expectativas e alguns dos estereótipos que o grande público parece partilhar em torno do que é a prática do cientista." Segundo os criadores, pretende-se ainda celebrar algumas características que acreditam serem comuns a artistas e cientistas: "a persistência, o sacrifício, a paixão, a constante dúvida e o permanente desejo de perceber e ajudar a melhorar o humano."
A peça aborda temas sérios - como o cancro e o testamento vital - recorrendo à comédia, sendo de destacar o papel que cientistas do IPATIMUP da Universidade do Porto e o 3Bs da Universidade do Minho tiveram como consultores para esta peça.
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| Crédito da foto: Susana Neves. Fonte. |
Os actores partilham o palco com diversos animais, nomeadamente peixes e gerbos, que presumo serem proxys para os peixe-zebra e murganhos e ratos utilizados como modelos em investigação biomédica. Não sei o suficiente porque ainda não assisti à peça, mas interrogo-me porque razão não utilizaram estas mesmas espécies.
Já agora, que destino terão estes animais utilizados como décor? É o seu uso justificado para este propósito? Não me opondo, a priori, com este tipo de utilização - desde que responsável - preocupa-me que não haja nenhuma informação disponível acerca da manutenção e futuro destes animais, o que não deixa de ser irónico face à apertada regulamentação do uso dos animais de laboratório que se procura aqui representar.
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| Crédito da foto: Susana Neves. Fonte. |
Já que se abordam nesta peça questões de foro ético, ficará ironicamente a ética animal de lado, aqui? Se tiver oportunidade de ver a peça, voltarei a este tema no Animalogos.
sábado, 8 de novembro de 2014
"I don't like you" - Jane Goodall e John Oliver
Numa curta entrevista com o brilhante John Oliver - o apresentador e humorista britânico que é hoje um fenómeno de popularidade nos Estados Unidos - Jane Goodall revela o seu bom-humor (e paciência), sendo o mesmo utilizado como veículo para divulgar as principais descobertas da primatóloga ao longo da sua vida dedicada ao estudo dos chimpanzés.
O que eu gosto mais desta entrevista é que, ao passo que a maioria das peças televisivas "sérias" tendem a romantizar a vida e trabalho desta investigadora, aqui não só isso não acontece, como é dada oportunidade a Goodall de de não se levar demasiado a sério, ao mesmo tempo que são abordadas questões sensíveis ao nível da investigação destes primatas, como a atribuição de nomes aos indivíduos, ao invés de números de referência.
Goodall também não se coíbe de designar os seus comportamentos com a mesma terminologia com que nós, humanos, descrevemos os nossos comportamentos. Assim, para Goodall, comportamentos sociais como dar abraços, beijos e as mãos não são "parecidos" ou "análogos" aos dos humanos, mas a mesma coisa, de facto.
Eu não sou nada de antropomorfismos, mas acho que no caso de animais tão biologicamente próximos, estamos de facto perante comportamentos homólogos, salvas as devidas distâncias.
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Nuno Franco
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Conversas inspiradoras
What is life? é o nome de um ciclo de dialogos interdisciplinares entre investigadores e docentes de diversas faculdades, a ter lugar no ICBAS, Universidade do Porto durante os próximos meses. Os organizadores Maria Strecht Almeida e José Augusto Pereira propõem conversas a partir do livro What is life do Erwin Schrödinger. A programação já está anunciada para a primeira sessão, dia 28 de Outubro e a segunda sessão, dia 11 de Novembro.
A imagem aqui ao lado é uma das muitas manifestações interessantes da vida, não só para quem se interessa por animais em geral mas também que estuda aspectos particulares de evolução e desenvolvimento. Não é o vulgar ratinho que parece, é um mamífero de uma classe taxonomica que não temos na Europa: os marsupiais. A razão deste opossum Monodelphia domestica de estar neste poste é a conferência que houve ontem também no ICBAS em que a Professora Yolanda Cruz da Oberlin College, Ohio, EUA partilhou com alunos e outros interessados alguns aspectos do seu trabalho com o marsupial Monodelphis domestica. Na pequena introdução no video clip aqui, descreve como e porque trabalha com estes mamíferos, originarios da America do Sul.
Foi uma conversa inspiradora também para quem ensina e investiga, pelo entusiasmo e pela abordagem inovadora que mostra. No Oberlin College, apenas há undergraduates, ou seja alunos do equivalente do 1º ciclo de ensino superior. Portanto, sem envolvimento de alunos de mestrado ou doutoramento, toda a investigação no laboratório da Yolanda Cruz é feita em forma de pequenos projetos de alunos do 1º ciclo de biologia e bioquimica.
A imagem aqui ao lado é uma das muitas manifestações interessantes da vida, não só para quem se interessa por animais em geral mas também que estuda aspectos particulares de evolução e desenvolvimento. Não é o vulgar ratinho que parece, é um mamífero de uma classe taxonomica que não temos na Europa: os marsupiais. A razão deste opossum Monodelphia domestica de estar neste poste é a conferência que houve ontem também no ICBAS em que a Professora Yolanda Cruz da Oberlin College, Ohio, EUA partilhou com alunos e outros interessados alguns aspectos do seu trabalho com o marsupial Monodelphis domestica. Na pequena introdução no video clip aqui, descreve como e porque trabalha com estes mamíferos, originarios da America do Sul.
Foi uma conversa inspiradora também para quem ensina e investiga, pelo entusiasmo e pela abordagem inovadora que mostra. No Oberlin College, apenas há undergraduates, ou seja alunos do equivalente do 1º ciclo de ensino superior. Portanto, sem envolvimento de alunos de mestrado ou doutoramento, toda a investigação no laboratório da Yolanda Cruz é feita em forma de pequenos projetos de alunos do 1º ciclo de biologia e bioquimica.
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terça-feira, 21 de outubro de 2014
Métodos de treino e modificação comportamental de cães: Eficácia e impacto no Bem-estar
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| Ana Catarina |
Um texto de Ana Catarina Vieira de Castro, Bióloga e Postdoc no grupo de Ciências de Animais de Laboratório do IBMC. A Catarina estudou o comportamento de pombos para o seu doutoramento (trabalho que lhe valeu um prémio) e é treinadora de cães certificada.
Os métodos utilizados no treino e modificação comportamental de cães estão longe de ser lineares e consensuais entre treinadores e veterinários comportamentalistas. Há duas abordagens ou “escolas” principais com diferenças vincadas nas metodologias utilizadas. De um lado temos as chamadas metodologias tradicionais ou aversivas, que assentam sobretudo na utilização de força física, castigo e intimidação. Do outro lado temos as chamadas metodologias positivas ou force-free, que assentam sobretudo no uso do reforço positivo.
Recentemente várias associações veterinárias, associações de bem-estar e proteção animal e algumas associações de treinadores têm-se posicionado contra o uso das metodologias aversivas (ver, por exemplo, aqui e aqui). Um dos principais argumentos utilizados prende-se com o impacto negativo que estes métodos podem ter no bem-estar dos cães. Algum suporte para estas preocupações pode ser encontrado em estudos laboratoriais realizados na área da psicologia da aprendizagem ao longo do século XX (utilizando diferentes animais como pombos, ratos ou cães), que demonstraram alguns dos potenciais efeitos colaterais da punição, como estados emocionais generalizados de medo e ansiedade, supressão generalizada de comportamentos e agressividade (ver, por exemplo, aqui e aqui).

No entanto, em alguns casos são feitas afirmações que carecem de comprovação científica ou que algumas vezes vão mesmo contra o conhecimento científico actual. Por exemplo, a Pet Professional Guild, uma associação norte americana de treinadores force-free, afirma na sua declaração de posição sobre treino de cães que existem evidências científicas extensas e irrefutáveis de que o treino aversivo de cães 1) provoca repercussões comportamentais negativas e 2) é menos eficaz do que o treino positivo.
Embora possamos encontrar nos estudos da psicologia acima referidos algum suporte para a afirmação relativa aos potenciais efeitos deletérios dos métodos aversivos, o caso é muito diferente para a afirmação sobre a eficácia dos mesmos. Não parece haver actualmente literatura em que nos possamos basear para aceitar afirmações sobre a maior eficácia do reforço positivo em relação à punição. E basta recorrermos a um manual de introdução à psicologia da aprendizagem para encontrarmos referências relativas à extrema eficácia de determinados procedimentos aversivos.
O caso torna-se ainda mais complicado quando falamos de evidências no caso específico do treino de cães. Ao contrário daquilo que é afirmado na declaração, os estudos científicos realizados sobre métodos de treino de cães são escassos e não é possível retirar deles as evidências (irrefutáveis) acima referidas.
No entanto, o mês passado foi publicado na revista Plos One um estudo que, na minha opinião, trouxe algumas indicações e algum avanço nesta matéria.
O estudo, desenvolvido por um grupo de investigadores da Universidade de Lincoln (Reino Unido), comparou a eficácia e as implicações no bem-estar de treino com coleiras de choque (Grupo A), treino com métodos aversivos mas sem coleiras de choque (Grupo B) e treino com métodos positivos (Grupo C).
Os três grupos de cães foram treinados durante 5 dias e as sessões de treino foram filmadas para posterior análise comportamental. Os resultados revelaram uma tendência geral para os animais do Grupo A mostrarem uma frequência maior de comportamentos indicadores de stress e/ou desconforto do que os animais do Grupo B e estes, por sua vez, maior do que os do Grupo C.
Os autores concluem que o uso de coleiras de choque resulta numa situação de stress para os cães, mesmo quando realizada de acordo com as melhores práticas (os treinadores que participaram no estudo eram todos treinadores experientes e foram nomeados pela ECMA - Electronic Collar Manufacturers Association e pela APDT – Association of Pet Dog Trainers), e que portanto apresenta um risco para o bem-estar dos cães. Apesar de este estudo se focar sobretudo no uso das coleiras de choque, também é possível concluir a partir dos dados obtidos que mesmo o treino com métodos aversivos sem coleiras de choque envolveu stress para os animais, embora menos quando comparado com o treino com coleiras de choque.
Os autores também concluem que a eficácia dos três tipos de treino é equivalente. Questionários feitos aos donos após o treino revelaram que os mesmos estavam satisfeitos com os resultados do treino e que esta percepção foi equivalente para os três grupos. A maior limitação do estudo parece residir neste ponto. Não é claro porque os investigadores optaram por usar a percepção dos donos como medida de eficácia, uma vez que esta não é uma medida objectiva. O estudo teria ganho mais força se a eficácia tivesse sido avaliada pelos próprios experimentadores, por exemplo, através da análise de vídeos.
Apesar desta limitação, este estudo foi, na minha opinião, um primeiro passo de qualidade no estudo dos efeitos dos métodos de treino no bem-estar dos cães. No entanto, mais estudos experimentais, sistemáticos e comparativos são necessários até podermos falar de evidências fortes e/ou irrefutáveis. Estudos deste género poderão ser conduzidos em maior escala, envolvendo mais treinadores. São também necessários estudos que procurem avaliar os efeitos a longo prazo da eficácia e do impacto no bem-estar dos métodos de treino.
Gostava de terminar este texto com uma reflexão. Independentemente das respostas que a ciência possa vir a dar, a discussão desta matéria terá sempre, na minha opinião, uma componente ética. Até que ponto é eticamente justificável optar por ensinar um animal através de metodologias que envolvem desconforto, dor e/ou medo, mesmo que os impactos no bem-estar se revelem negligenciáveis? Caberá aqui uma análise dano-benefício? Mesmo que as metodologias aversivas permitam atingir resultados mais rapidamente, até que ponto é justificável optar por elas? E mesmo que as metodologias aversivas se mostrem mais eficazes em determinadas situações, será isto suficiente para apoiar o seu uso generalizado? Os métodos aversivos, quando utilizados na terapia comportamental humana (e aqui o seu uso é, naturalmente, também extremamente questionado), são-no em situações onde outros métodos falharam. Não há nenhum terapeuta humano que defenda o uso indiscriminado de estímulos aversivos como forma de controlo ou modificação comportamental. No entanto, é isso que acontece com os cães. Haverá alguma teoria ética em que esta prática não seja questionável? Até para um contractualista ela é, no mínimo, merecedora de consideração.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
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