quarta-feira, 29 de junho de 2016

Porque é que os porcos mordem as caudas uns dos outros?

Anna Olsson: Rick D'Eath, olá e parabéns pelo teu artigo sobre a mordedura da cauda em suínos, recentemente publicado na revista Animal Welfare. Neste estudo, descreves como o comportamento diferiu entre grupos onde os suínos tinham a cauda cortada (mutilados) e grupos de suínos com caudas intactas. Antes de discutirmos o próprio estudo, pode dizer-nos um pouco mais sobre o problema por trás do estudo?

RD: Morder a cauda é um problema comportamental que afeta suínos em crescimento alojados em parques, um pouco por todo o mundo. Embora existam muitos fatores de risco conhecidos, o mais importante parece ser o acesso limitado a recursos (como espaço no comedouro), mas também o acesso limitado a algum material para mastigar, focinhar e explorar. A mordedura da cauda ocorre em 'surtos' esporádicos, que são difíceis de prever ou controlar. É sabido que cortar as caudas bem curtas quando os leitões têm poucos dias de idade reduz o risco posterior de mordedura da cauda, mas é um procedimento doloroso, e visto por muitos como sendo não-ético, sendo que devíamos melhorar o ambiente, em vez de depender de uma mutilação como "solução". Seria ótimo se pudéssemos avançar para uma redução no corte da cauda, proporcionando simultaneamente as necessidades comportamentais dos suínos de focinhar e mastigar. No entanto, há muita coisa que ainda não se sabe sobre a mordedura de cauda.

AO: Obviamente que o comportamento desempenha um papel importante na mordedura da cauda. Tinhas algumas hipóteses muito concretas para este estudo. Explica-nos, por favor, quais eram elas e no que se baseavam.

RD: O corte da cauda reduz o risco de mordedura da cauda (embora não completamente), mas a razão pela qual é eficaz não é clara. Uma hipótese diz que as caudas cortadas são mais sensíveis, o que significa que os porcos são mais propensos a afastar-se de um potencial mordedor. Outra hipótese é as caudas curtas serem menos atraentes para os mordedores. Comportamentos como investigar causas ou colocá-las na boca sao potencialmente percursores do comportamento efectivo de morder. Por isso, a frequência com que eles ocorrem é susceptível de afectar o risco de um surto prejudicial de mordedura da cauda. No nosso estudo observámos porcos mutilados e não mutilados na mesma exploração, mas que ainda não estavam envolvidos em mordedura da cauda. Comparámos seu comportamento lado a lado para investigar se caudas cortadas eram mais sensíveis ou menos atractivas do que caudas intactas.

Devo acrescentar que este projecto foi uma colaboração entre mim e os investigadores Helle Lahrmann e Torben Jensen- no Danish Pig Research Centre (SEGES), e que o trabalho foi realizado por Mallary Paoli, numa exploração comercial dinamarquesa, para seu projeto de dissertação para o Mestrado em Comportamento Animal Aplicado e Bem-Estar animal (Universidade de Edimburgo).


AO: E o que é que descobriram?

RD: Nenhuma das hipóteses se verificou. Os porcos mutilados não eram mais propensos do que os porcos intactos em afastar-se quando a sua cauda era investigada por (ou colocada na boca de) outro porco, sugerindo que as suas caudas não são mais sensíveis. Além disso, comportamentos dirigidos à cauda não foram mais comuns nos porcos mutilados do que nos porcos intactos, e também não houve evidência de que porcos mutilados posicionem as suas caudas de forma diferente ou mudem o seu nível geral de atividade, o que poderia afetar a capacidade de atratividade ou a disponibilidade das caudas para outros porcos. Portanto, também não há suporte para a ideia de cauda com reduzida atratividade.

Ao invés, Mallary defendeu outra explicação: quando as caudas são mais longas, os porcos são capazes de mantê-las ao longo da boca e mordê-las com mais força usando os dentes molares. As caudas cortadas são demasiado curtas para isso, e os mordedores usam apenas os incisivos, resultando em menos danos. Esta hipótese merece uma investigação mais aprofundada.

Inesperadamente, também descobrimos que os porcos intactos usaram mais os objectos de enriquecimento ambiental (cordas, pedaços de madeira, correntes) do que porcos mutilados, e não temos nenhuma explicação para isso. Também descobrimos que os porcos de maior dimensão passam mais tempo em comportamentos exploratórios e em comportamentos dirigidos à cauda, assim como as marrãs (fêmeas) em comparação com os machos castrados.

Por fim, num dos grupos de porcos mutilados houve um surto de mordedura da cauda perto do fim do estudo. Mallary mapeou os comportamentos neste parque e descobriu que nos dias anteriores ao surto a atividade do grupo foi comparável à de outros grupos, mas os comportamentos dirigidos à cauda foram maiores, e os porcos eram mais propensos a baixar as suas caudas (que é provavelmente um comportamento protetor e um sinal de dor). Embora estes dados digam respeito a um único parque, estas mudanças comportamentais pré-surto foram relatadas por alguns outros estudos utilizando mais grupos e têm o potencial para ser usadas pelos produtores como "sinais de alerta" para intervir e reduzir, ou evitar, danos de mordedura da cauda.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O estranho caso do homem-cabra

Esta é a estranha estória de Thomas Thwaites, o designer britânico que se fartou de todas as complexidades inerentes a ser um humano, e procurou durante um ano desenvolver uma forma de se deslocar como uma cabra, e que lhe permitisse co-existir num prado com demais cabras.

Thomas Thwaites, o "Homem-Cabra", faz amizade com uma "congénere".
A ideia surgiu-lhe quando fazia pet-sitting de cães. Então desempregado e vivendo com o pai, pensou no quão maravilhoso seria poder viver como um animal (não-humano) durante algum tempo, sem preocupações. Mas enquanto muitos de nós já pensamos de forma hipotética como seria ser um animal, Thwaites decidiu mesmo levar essa idea em frente.

Estranho? Sem dúvida. Mas fica ainda mais estranho. A ideia de se "tornar" uma cabra veio, segundo Thwaites, de uma "xamã", que o aconselhou a não se tornar um elefante, a sua ideia original. Ainda mais estranho é ter recebido financiamento do Wellcome Trust para esta empreitada. 


Com a ajuda de especialistas em distintas áreas, eventualmente conseguiu fazer patas prostéticas que lhe permitiam deslocar, tão próximo quanto possível, como uma cabra, e conseguiu que um proprietário suíço lhe permitisse pastar junto das suas cabras durante três dias, nos alpes. 

Entendo toda a ideia de juntar design, ciência e arte, mas, correndo o risco de ser visto como pouco sofisticado, acho que há projectos muito mais meritórios do dinheiro do Wellcome Trust que este bizarro projecto que, segundo o autor, não fica por aqui, uma vez que procura uma maneira de deslocar o seu campo de visão para se assemelhar ao das cabras, bem como arranjar forma de digerir ervas. Até agora, apenas as consegue reunir num saco e comê-las depois de cozidas, à noite (!). 

Por mais que o autor considere que se pode aprender mais sobre o modo de pensar e o comportamento destes animais, continuo convencido que este projecto tem pouco de científico, e muito de golpe publicitário. E a verdade é que tempo de antena não lhe tem faltado. 

O livro que relata a sua experiência está já disponível. Não que esteja muito interessado em o ler. 



terça-feira, 10 de maio de 2016

Parabéns Sir David Attenborough

A 8de Maio, David Attenborough completou 90 anos. Felizmente para nós, não tenciona parar. 


Já muito se disse sobre o naturalista que há mais de 60 anos leva a natureza às nossas casas e em todo mundo e cuja influência se estende por várias gerações. Não são assim de estranhar os seus mais de trinta doutoramentos honoris causa, um título nobiliárquico, ter dado já nome a vários animais e fósseis - incluindo aranhas, plantas carnívoras, peixes extintos, dinossáurios - e mais recentemente a um navio que será utilizado para exploração científica, o RSS David Attenborough. 

O futuro RSS David Attenborough
Não podemos deixar de marcar a efeméride, celebrando a sua vida e o contributo. A BBC assinala este acontecimento com uma série programas dedicados, que não devem perder. Fiquem com um vídeo em 360º, um exemplo do seu entusiasmo por novas tecnologias como formas inovadoras de nos dar a conhecer o mundo natural. Obrigado, Sir David!

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Have you hugged a hog today?

Gostar de contacto humano não é um privilegio só de animais de companhia!

quarta-feira, 30 de março de 2016

I Jornadas do PD de Ciências Veterinárias - ICBAS, Porto

Decorre no dia 15 de abril a primeira edição das Jornadas do Programa de Doutoramento de Ciências Veterinárias do ICBAS na Universidade do Porto.O programa final já se encontra disponível.

Mais informação sobre o programa doutoral aqui.

quinta-feira, 24 de março de 2016

O seu animal de estimação pode salvar vidas!

A propósito da reportagem desta semana no suplemento P3 do Público sobre o Banco de Sangue Animal (BSA) damos a conhecer esta iniciativa do médico veterinário Rui Ferreira, doutorado em medicina transfusional de cães.  

O site do BSA está disponível em Português e Castelhano,
e há já uma app para Android para clínicos
O BSA foi inaugurado em 2011, encontrando-se nas instalações do Hospital Veterinário da Universidade do Porto, sendo o segundo do género em Portugal. Até ao surgimento destes bancos de sangue, as dádivas costumavam ser ad hoc, quando surgia uma necessidade, mas nem sempre isto era possível, pelo que frequentemente se perdiam vidas animais. Hoje o BSA conta com cerca de 500 cães e 300-350 gatos dadores - que em troca têm vacinas e análises gratuitas - sendo já um dos melhores da Europa.  Dispõe de um serviço de urgência 24h, e graças a uma rede de clínicas, plasma e outros hemoderivados podem ser disponibilizado no espaço de uma hora em todo o país.

Tal foi o sucesso que Rui Ferreira foi inclusive convidado a criar um banco de sangue similar em na Catalunha,  inaugurado no mês passado, exportando ainda para países como Itália, França ou Inglaterra.

Reportagem RTP, de Outubro de 2015

Estima-se que as contribuições destes dadores - que fora o transiente desconforto da picada não sofrem qualquer impacto negativo na sua saúde e bem-estar - permitiram já salvar à volta de 10 mil animais nos últimos cinco anos. 

Não posso contudo deixar de fazer uma brevíssima análise ética. No prisma da maior parte das principais correntes da ética animal - como a utilitarista, contractualista, ou relacional - tem este tipo de iniciativas o maior mérito, dadas as vantagens para todos os intervenientes. 

Contudo, de um ponto de vista dos direitos dos animais, stricto sensu, não pode ser a dádiva de sangue vista como uma violação da integridade e dignidade dos animais dadores, uma vez que não o fazem por escolha sua, ou com o seu consentimento? 

No título deste post - ao qual poderia ter incluído qualquer coisa como "mas o seu animal nem sabe" ou "sem o seu consentimento", caso o propósito fosse denunciar esta prática, que não é o caso - há um antropomorfismo latente, que no artigo do Público é aliás mais manifesto, ao classificar estes animais como "voluntários". É uma antropomorfização descabida aplicar os epítetos de "voluntários" ou "heróis" a estes animais, mas também conceitos como "saber", "consentir", ou mesmo "doador" com o significado que habitualmente têm para os humanos. O próprio conceito de "dignidade" é muitas vezes para mim difícil de definir, quando aplicada aos animais, pois é e será sempre um conceito humano projectado noutras espécies. 

Assim sendo, e apesar dos méritos dos bancos de sangue animal serem aparentemente reconhecidos pela generalidade das pessoas, nas quais me incluo, intriga-me o que achará Tom Regan a este respeito, ou os seus seguidores. 

quarta-feira, 16 de março de 2016

Trabalhar com bem-estar animal: bolsas abertas em Portugal



No IMM – Instituto de Medicina Molecular em Lisboa, está aberta uma vaga para uma bolsa de técnico de investigação, para uma posição e funções equivalentes à de "Animal Welfare Officer". O prazo limite para o envio de candidaturas é 24 de Março. Mais informação

No i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde no Porto, está aberta uma vaga para uma bolsa para desenvolver investigação nos 3Rs em estudos com roedores e peixes-zebra. O praxo limite para o envio de candidaturas é 31 de Março. Mais informação.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Quais os limites para o uso de animais no turismo ?

A forma como os animais são tratados em contexto de viagens e turismo evoca reações fortes e é um tema que os estudantes de bem-estar animal têm abordado frequentemente aqui no Animalogos, em posts sobre comércio ilegal de animais de outros continentes e passeios de elefante em destinos de turismo. Num país diferente pode ser difícil distinguir entre interações com animais que podem ser interessantes para o viajante e benéficas para o animal, e práticas que ameaçam bem-estar animal e biodiversidade, tendo em conta diferenças culturais e falta de informação e conhecimento. Claro que a responsabilidade não deve ser só de quem viaja mas também de quem organiza as viagens – e já começa a haver trabalho feito no terreno. Desde 2013, que a associação inglesa de agências de viagem ABTA tem recomendações para bem-estar animal no contexto de turismo

Recentemente, ANVR - que é a associação equivalente na Holanda - lançou o mesmo tipo de recomendações, desenvolvidas em colaboração com a World Animal Protection. Estes documentos apresentam informação sobre bem-estar animal, sobre situações em que este pode ser posto em causa e sobre legislação. Também definem práticas inaceitáveis em três domínios importantes: 1) atrações turísticas com animais de cativeiro, 2) atrações culturais envolvendo animais e 3) atividades turísticas com animais no meio natural:

1. Práticas inaceitáveis em atrações turísticas com animais de cativeiro
• Exibir animais em restaurantes ou espaços de entretenimento, envolvendo más práticas.
• Criação ou comércio de animais em Santuários ou Orfanatos.
• Animais usados como adereços fotográficos, envolvendo más práticas.
• Atuações de animais, tendo por base comportamentos não-naturais e espectáculos onde os métodos de treino comprometem o bem-estar.
• Passeios de elefante e outras atividades que envolvem interação direta com elefantes.
• Caça de troféu.
• Polo com elefantes.
• Passeios de avestruz.
• Parques zoológicos não licenciados.
• Cirurgia ou modificação física da pele, tecidos, dentes ou ossos de um animal,
excepto para fins terapêuticos.
• Formas de eutanásia que não cumpram com as melhores práticas.
2. Práticas inaceitáveis envolvendo animais em eventos e atividades culturais
• Animais utilizados para mendigar (e.g.ursos dançarinos, serpentes encantadas ou primatas).
• Lutas com Ursos (Bear baiting).
• Indústria de bílis de urso.
• Poços para Ursos.
• Corridas e largadas de Touros.
• Lutas de galos.
• Criação de répteis, envolvendo más práticas.
• Lutas de crocodilos.
• Criação de tigres.
• Cirurgia ou modificação física da pele, tecidos, dentes ou ossos de um animal,
excepto para fins terapêuticos.
3. Práticas inaceitáveis em atividades turísticas com animais no meio natural
• Recolha não regulamentada de animais e plantas silvestres.
• Contacto direto e alimentação de animais.silvestres.
• Interação física com baleias selvagens e golfinhos iniciada por humanos.
• Passear leões, tigres ou quaisquer outros gatos selvagens.
• Comércio e venda de produtos de animais selvagens em perigo de extinção.
• Caça de Troféu.
• O uso de animais selvagens como adereços fotográficos sob qualquer forma, tais como selfies.

quinta-feira, 3 de março de 2016

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Workshop: "e quando o cavalo não entra no atrelado"

Durante este workshop irá abordar-se o motivo de alguns cavalos não quererem entrar num atrelado e como resolver estas situações! Além de uma abordagem teórica, serão feitos também exercícios práticos durante esta ação de formação.

Para informações e inscrição: geral@cpcanimal.pt

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Uma tempestade num copo de leite?

Numa discussão na Assembleia da República (em Janeiro último) de projectos de resolução de PSD/CDS-PP e BE para a defesa do sector leiteiro face ao fim das quotas de leite, o deputado André Silva, do PAN, propôs uma solução out-of-the-box: não bebam leite! 

Carregue na imagem para ver o vídeo.

O deputado referiu o crescente número de pessoas (estatísticas por confirmar) que deixaram de beber leite, na sua opinião por agora disporem de informação "científica" que retira ao leite o estatuto de "super-alimento", que considera um "mito, fruto do marketing ao serviço do lacto-negócio". Destacou ainda os problemas ambientais (e o aumento de gases de "efeito-estufa" em particular) resultantes da actividade agropecuária, que embora factuais, não estavam em discussão. 

Quanto à defesa dos produtores, o PAN propõe ajudas para "diversificar" e "converter" a actividade dos pequenos produtores, ao invés da "perpetuação de um problema que é estrutural". Apesar de em nenhum momento falar de animais, ou do seu bem-estar, esta posição é coerente com a ideologia do PAN, que subscreve uma linha de pensamento filosófica próxima da dos Direitos dos Animais, em sentido estrito. Segundo esta, nenhum animal pode ser usado como um meio para atingir fim, o que exclui o seu uso na exploração de leite ou de lã, por exemplo.


Fonte:vidarural.pt
Sendo apenas representado por um deputado, e não tendo a sua intervenção feito particular mossa na discussão, o impacto da mesma poderia ter ficado por aqui. Contudo, a FENALAC (Federação Nacional das Cooperativas de Produtores de Leite) decidiu reagir vigorosamente à mesma com uma carta aberta. O teor ríspido desta comunicação contrasta com o respeito devido a um legítimo representante de uma parte não-negligenciável do povo português, concorde-se ou não com ele e as suas palavras.

Mas aparte o tom e o faux pas de num estado democrático se questionar a legitimidade de um representante do povo de exprimir a sua opinião (reitero, concorde-se ou não) a carta da FENALAC abre um pouco mais o debate para áreas de interesse mais geral, como a questão do bem-estar dos animais e da regulação deste e do regime sanitário e impacto ambiental das explorações agropecuárias. 

O deputado do PAN reagiu a esta carta na semana passada com um artigo de opinião no Público onde tem como ponto de partida o direito democrático à informação e à escolha do consumidor e do cidadão.
Se a “liberdade de informação é um direito fundamental essencial”, referido pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1946, como a pedra basilar sobre o qual assentam todas as liberdades, deixemos que aqueles que, primeiro são cidadãos e só depois consumidores, façam as suas escolhas, sabendo que existem alternativas e se ainda assim, pretenderem consumir produtos de origem animal ou quaisquer outros, pois que seja, louvamos as escolhas individuais informadas, sejam quais forem. Só assim caminhamos rumo a novas opções políticas que defendam o direito à verdade em confronto com diferentes modelos de sociedade. 
Sendo a questão do direito à informação da maior relevância, o artigo é não obstante bastante confuso, descontextualizado (foi preciso algum trabalho de detective para saber a que se referia) e em momentos contraditórios (ora acha que se deva deixar a discussão científica para os cientistas, como a seguir diz que estes lhe dão razão). André Silva opta ainda por lamentavelmente manter o debate num nível abaixo do desejável, ao referir-se às "instituídas seitas sistémicas jamais (...) questionadas nas altas instâncias". No artigo, reforça os principais pontos da sua intervenção na Assembleia da República, insistindo nos estudos que questionam o valor do leite, mas sem apresentar uma só referência (como um link para informação credível) que substancie essa posição. Esta, aliás, é também uma falha que se pode apontar à FENALAC, pois classificam os estudos que supostamente sustentam a posição de André Silva como "pseudo-estudos", mas não dão exemplos do que consideram "estudos sérios". 


Fonte: www.pecuaria.pt
Se por um lado se entende que a o PAN não seja particularmente sensível aos problemas do sector leiteiro e queira antes promover alternativas ao leite como alimento, por outro o facto de não trazer ao debate a questão mais premente do bem-estar dos milhares de animais que são - e continuarão a ser - usados para a produção leiteira é um virar de costas ao seu eleitorado, certamente mais afeito a questões de bem-estar animal que a uma visão radical dos direitos dos animais. Também não ajuda que considere os produtores como uma "seita" apenas preocupada com os seus interesses, quando estes de facto - como salientam na sua carta aberta - têm uma maior relação de proximidade com os animais e a natureza (os supostos objectos de interesse maior do PAN), que o comum "defensor dos animais" urbanizado que constitui o eleitorado principal deste partido.

A alterização dos produtores pelo PAN (e vice-versa) assenta em preconceitos resultantes da ignorância mútua acerca dos seus interlocutores e não beneficia ninguém, muito menos os animais. Referências a interesses económicos obscuros (seja do "lacto-negócio", ou do "soja-negócio"), desinformação e manipulação da opinião pública, argumentos de autoridade ("os cientistas dizem que") são falácias básicas cometidas de parte-a-parte, e que evitam a obtenção de consensos (ou compromissos) que permitam progresso que beneficie consumidores, animais e produtores. 

Neste vazio de questões por resolver, destaca-se o direito do consumidores - que continuarão a consumir leite e os seus derivados como queijo, manteiga, iogurte e gelados - a informação transparente. 

E que sabem os portugueses das condições em que são alojados e criados os animais de produção? Ou o impacto ambiental das produções agro-pecuárias? A julgar pelos dados do Eurobarómetro, ou o nosso trabalho com alunos do ensino secundário no âmbito da Universidade Júnior, muito pouco. E que vantagens (ou desvantagens) haverá para o ambiente e para o bem-estar animal do leite ser produzido em Portugal? 

À falta de melhor legislação, começam alguns produtores a investir e explorar segmentos do mercado para o qual estas questões são relevantes. Exemplo disso é o programa "vacas felizes", da Terra Nostra, ou o leite biológico Agros. Mas o direito à informação deve ser universal.  

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Posição disponível em comportamento de peixes: Fish Ethology Database

Para quem tem interesse em comportamento animal, e em peixes em particular, pode interessar esta oferta para colaborar no projecto "FishEthoBase" - Fish Ethology Database


O perfil desejado do candidato é:
  • Ter habilitações ao nivel de mestrado numa área das ciências naturais
  • Comprovado interesse em bem-estar animal (preferencialmente de peixes)
  • Nível de Ingês C1 (7 em 9)
  • Competências ao nível da informática e Internet
  • Experiência em pesquisa bibliográfica e trabalho com bases de dados
  • Habitar na Europa
  • Dispor dos recursos necessários para trabalhar em casa
  • Acesso gratuito a literatura científica
  • Disponibilidade  para dedicar metade do horário de trabalho
  • Disponibilidade para viajar duas vezes por ano para se encontrar com a restante equipa
Oferece-se:
  • Trabalho em regime de freelance (média de 65 horas por mês)
  • Liberdade de organizar o seu próprio horário de trabalho, respeitando os deadlines acordados
  • Remuneração de 20€/hora (tudo incluído) no primeiro ano, 25€ no segundo e 29€ no terceiro
  • Perspectiva de permanecer até final de 2017, e com boas hipóteses de se estender para além dessa data
Candidaturas até 15 de Março de 2016
Reservar as datas de 18 e 19 de April (Zurich) e 25 em Bruxelas Bruxelas para entrevistas

Antes de se candidatar, é favor contactar Billo Heinzpeter Studer (international@fair-fish.net), Director da FishEthoBase, para saber mais detalhes

Para mais detalhes, pode consultar: www.fair-fish.net/resources/job_offer_FEB_2016.pdf

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Nuno Franco em documentário na RTP

Numa série de 13 episódios, o programa "A Minha Tese", da RTP, retrata jovens cientistas, pessoas que realizaram o seu doutoramento em Portugal e portugueses que fizeram doutoramento no estrangeiro. Os documentários foram realizados pelo Carlos Ruiz Carmona da Fronteira Filmes


No próximo dia 12 de Fevereiro, Sexta-feira, Nuno Franco é o protagonista do programa que passa na RTP2, pelas 00.45h.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Percepção do consumidor sobre o Bem-estar Animal


Uma equipa de investigadores da Universidade de Évora, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia de Lisboa e do Centro para o Conhecimento Animal está a desenvolver um estudo que pretende avaliar a percepção do comportamento do consumidor relativamente ao bem-estar animal. Este trabalho de investigação pretende conhecer e avaliar essa mesma percepção de uma forma quantitativa, através de um questionário online.

Para alcançar um número representativo de inquiridos, e obter resultados robustos e interessantes que explanem a realidade Portuguesa, o questionário poderá ser preenchido por qualquer pessoa maior de idade neste link.

Para qualquer questão relacionada com o estudo, poderá ser contactar Hernani H. G. Pereira, através do email questionario.pccbea@gmail.com


domingo, 17 de janeiro de 2016

Conferencia sobre Ética e o Futuro da Medicina Veterinária

A Universidade de Utrecht, na Holanda, organiza de 19 a 20 de Maio de 2016 a conferência "Ethics and the future Veterinary Professional". À luz dos avanços da Biomedicina, do interesse crescente do público pelas questoes de Bem-estar animal e dos desafios colocados por fenómenos globais como as alteraçoes climáticas, esta reunião pretende debater o papel da profissão veterinária num mundo em rápida mudança. Mais informaçoes podem ser encontradas aqui.

Esta é a terceira conferência internacional sobre ética veterinária a realizar-se na Europa. A primeira teve lugar em 2011, no Royal College of Physicians, em Londres e foi organizada pelo Royal Veterinary College. Foi uma reunião generalista e que abordou numerosos temas, como demos conta, na altura, aqui no animalogos. Desse evento resultou o livro Veterinary and Animal Ethics, da UFAW Animal Welfare Series.

Mais recentemente, em 2015, O Messerli Research Institute (Faculdade de Medicina Veterinária, Univeridade de Viena) organizou a conferência VETHICS FOR VETS - Animal Welfare and Veterinary Medicine, que se debruçou sobre as questoes éticas que os médicos veterinários oficiais enfrentam.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Food Futures - congresso da EurSAFE 2016 no Porto!



Submissão de trabalhos até dia 25 de Janeiro de 2016.

  • Temas:
    • Política alimentar, democracia, regulação e direitos individuais
    • Sustentabilidade, ambiente e produção alimentar
    • Ética e bem-estar animal 
    • Perspectivas críticas sobre a alimentação e a experiência humana (migração, cultura, assimilação cultural, resistência e dinâmicas sociais) 
    • Cenários prospectivos utópicos holísticos 
    • Modos de combate ao desperdício alimentar; 
    • Ética em nutrição e política alimentar. 

Mais informação no website do congresso.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Quem salva estes animais?

O ano de 2015 terminou com uma notícia dramática, pelo menos para quem se preocupa com o bem-estar animal. Mais de 100 bois, vacas e vitelos (170 animais, incluindo cavalos, segundo o Correio da Manhã) estão a morrer lentamente à fome, abandonados à sua sorte pelo seu produtor. 

O produtor junto a um animal em cadavérico, prestes a morrer. (Fonte:Jornal de Notícias)
O problema é de difícil resolução mas conta-se em poucas linhas. José Vieira, produtor agropecuário com historial de problemas com a justiça e de tratamento negligente dos animais ao seu cuidado,  está proibido de comercializar os animais, que se encontram sob sequestro pela Direcção Geral de Alimentação e Veterinária por ter detectado brucelose na exploração. A situação tem vindo a arrastar-se desde então, tendo o produtor, sem subsídios nem quaisquer outros meios de prover aos animais, deixando estes à sua sorte, num local onde o pasto tem vindo a rarear. A recente chamada de atenção para o problema resultou de um crescente número de mortes, desde Agosto, por estado avançado de inanição.  

Fonte: SIC

Mas já antes o abandono destes animais tinha tido consequências dramáticas, como a morte pelo fogo ou o seu abate a tiro pela divisão SEPNA, da GNR. 

Versão impressa da notícia de 20/07/2012
Estes e outros problemas com as autoridades têm vindo a ocorrer pelos menos desde 2003. Não obstante, o produtor vitimiza-se e culpa o Estado pela situação, apesar de ter recebido múltiplos avisos e até ajudas para regularizar a sua situação (ver o vídeo). A ser assim, a questão coloca-se: como pode ter sido permitido a este produtor continuar a ter uma exploração?  

É necessário apurar responsabilidades, mas urge neste momento, face à emergência de valer a estes animais, elaborar um plano urgente para os ajudar. A solução mais costumeira é o abate (humano) dos animais para prevenir que a situação se arraste e assim poupá-los a mais sofrimento. Há, contudo, outras opções, como defende o PAN, mas que poderão ser inviáveis dados o elevado custo de manutenção dos animais (300 € diários, segundo José Vieira). 

Serve este caso ainda para salientar a importância de prevenir estas situações, através de uma supervisão eficiente e intervenção rápida por parte das autoridades, que permita agir atempadamente quando é evidente que um produtor não tem capacidade para suprir as mais básicas necessidades dos animais, poupando-os a sofrimento evitável.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Porque é o presépio vivo mais ético do que o circo?

Natal é tempo de circo em Portugal. 

Tempo então de palhaços, acrobatas, cavalos e…tigresInfelizmente, ainda é comum encontrarmos estes últimos nos circos portugueses, ao contrário de Inglaterra, por exemplo, onde a partir deste ano os circos estão proibidos de incluir animais de espécies selvagens nos espetáculos.

Ringling brothers over the top tiger


Mas porque será mais problemático ter um tigre do que um cão, ou pior ter um zebra do que um cavalo numa companhia de circo? A resposta está numa única palavra: domesticação. Cães e cavalos são versões domesticadas de espécies selvagens, ou seja, que durante um processo que levou milhares de anos e gerações de animais houve uma adaptação gradual à vida em comunidade com o ser humano. Como resultado deste processo, os cavalos e os cães de hoje têm um comportamento mais compatível com treino humano do que os equídeos e canídeos selvagens. São mais calmos e não se assustam tão facilmente.

E as suas características são também mais compatíveis com as condições de alojamento e maneio que podemos oferecer. Se viramos esta questão ao contrário e perguntamos quais os animais mais mal adaptados para uma vida em cativeiro, a resposta clássica é: os grandes carnívoros. São os animais que associamos com mais comportamentos anormais e pior bem-estar nos jardins zoológicos. Num estudo agora clássico, as investigadoras Georgia Mason e Ros Clubb tentaram perceber as características dos grandes carnívoros que os fazem tão pouco preparados param uma vida em cativeiro. Analisaram dados de estudos científicos de 35 espécies e encontraram um fator que, mais do que qualquer outro, determina se os animais terão problemas em cativeiro: o tamanho do seu território natural. Quanto maior o território, maiores ou mais frequentes os problemas com comportamento estereotipado e mortalidade infantil em cativeiro. E o tigre é uma das espécies com maiores territórios.


Szopka-Wyszków-3

Ao contrário dos circos, os presépios portugueses apenas contêm animais domésticos. Embora Papa Bento XVI considere a vaca e o burro no presépio uma invenção moderna, do ponto de vista de ética e biologia animal fazem muito mais sentido do que os tigres no circo!

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A tecnologia ao serviço de bem-estar animal

Por Ana Margarida Pereira, médica veterinária e colaboradora do grupo Ciências de Animais de Laboratório, IBMC.

A monitorização do estado de saúde dos animais de interesse pecuário tem um impacto no bem-estar animal e na saúde publica. Em relação ao primeiro, está em causa uma das cinco liberdades, apontadas pelo Farm Animal Welfare Council (FAWC), que afirma que, os animais deverão ser mantidos em condições que lhes permitam estar livre de dor, lesões e/ou doença, através de procedimentos de prevenção e diagnóstico seguidos de tratamento célere. O impacto na saude publica por seu lado, envolve a prevenção da transmissão de zoonoses, bem como a garantia da qualidade das carnes ou outros subprodutos para consumo humano.

De acordo com a legislação vigente, Decreto-Lei n.º 157/2008, a inspeção dos animais deve ser efetuada diáriamente. No entanto, a elevada densidade de frangos coloca dificuldades à inspeção. A rotina de inspeção deve seguir os Welfare Quality® Assessment Protocols, que se encontram disponiveis online. A dor é associada a lesões gerais que, causam claudicação, ou mais especificas como dermatites nos membros e/ou queimaduras na região do jarrete. A mortalidade dos bandos, bem como o numero de animais abatidos em consequência de lesões graves anteriormente descritas, são utilizados como indicadores de doença.


Frango com claudicação grave. (Fotografia: Charlotte Berg, Universidade Sueca de Ciências Veterinárias).
Por forma a melhorar a monitorização do bem-estar de frangos de carne, investigadores da Universidade de Oxford, estão a desenvolver um projeto financiado pela Biotechnology and Biological Sciences Research Council (BBSRC), intitulado ‘’Automated assessment of broiler chicken welfare using optical flow patterns in relation to behaviour, disease risk, environment and production’’. A proposta passa por complementar a inspeção diária com de videos, capturados por camaras estrategicamente montadas nos pavilhões. Estas registam os movimentos do bando, produzindo um optical flow cujo padrão é analisado em tempo-real. A análise é feita com base em estatistica descritiva, nomeadamente média e curtose. Assim, o método usado, não incide sobre a existência ou ausência de movimentos, mas sim sobre a hetero/homogenidade dos mesmos. O principio baseia-se no conhecimento de que, um bando saudável, com uma marcha normal caracteriza-se por um optical flow homogéneo, contrariamente ao que acontece em bandos afetados com claudicação que, por se movimentarem mais devagar, originam um optical flow heterogéneo, com velocidades de movimentos muito disparos. Artigos publicados pela investigadora principal, MS Dawkins, e seus colegas, em 2009, 2012 e 2013 apresentam uma relação entre a média e a curtose do optical flow e problemas de bem-estar relacionados com a marcha. O desafio consiste agora, em relacionar a existência de doença do foro intestinal (frequentemente diagnosticadas em exame post mortem) com o optical flow. Os investigadores acreditam ser possível encontrar esta relação uma vez que, secundáriamente à infeção e dadas as caracteristicas dos sinais clinicos (diarreia profusa, fraqueza) existe predisposição para lesões nos membros com marcha e comportamento consequentemente alterados.

Apesar das perspectivas serem favoráveis, a validação do sistema requer ainda o desenvolvimento de equipamento mais fiável e da realização de testes no terreno. No entanto, esta tecnologia e a forma como irá objetiva, continua e automáticamente monitorizar o bando, poderá contribuir para o envio de alerta atempado de mau-estar e consequente tomada de atitude.


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Não é uma espécie nova de mamífero. Mas é bem-vinda a Portugal.

Tenho visto algumas notícias reportando a descoberta de uma nova espécie de mamífero portuguesa, algo que a confirmar-se mereceria muito mais atenção, já que é um evento raro, a nível mundial. Acontece que o que os investigadores do CITAB e CIBIO fizeram foi encontrar pela primeira vez em Portugal uma variedade de uma espécie já conhecida, o "rato-das-neves", ou Chionomys nivalis, no Parque Natural de Montesinho, tendo dado entrada da mesma registo de espécies existentes em Portugal. 

Foto de Gonçalo Rosa. A estória do encontro é contada no site Wilder
A descrição dos espécimes encontrados e que confirmam a pertença à espécie, bem como a separação desta população da espanhola, pode ser encontrada no artigo publicado esta semana no Italian Journal of Zoology.  A distribuição deste micro-mamífero é extensa, mas bastante fragmentada, pelo que esta descoberta vem alargar a sua abrangência territorial conhecida.


O local onde foram encontados (a) uma fêmea juvenil (b) e um macho adulto.
Fotos tiradas pelos investigadores com câmaras de infra-vermelhos. (Fonte)

Face ao recente artigo sobre a eutanásia de uma ave rara durante uma expedição científica, não posso deixar de louvar a equipa do Laboratório de Ecologia Aplicada da UTAD por ter devolvido os espécimes recolhidos à Natureza, não obstante esta espécie não estar, ao nível global, ameaçada. Nas palavras da investigadora Hélia Vale-Gonçalves:
“Capturámos dois animais, um macho adulto e uma fêmea juvenil. Fizemos medições, pesagens, tirámos amostras de tecido e observámos a coloração do pêlo. Os animais foram libertados no mesmo local,  junto às armadilhas."
Ciência com consciência, portanto.

Nota: Podem ser encontrados bons artigos na imprensa sobre esta descoberta e o seu significado, no jornal Público e no site Wilder.