segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Têm os animais direitos? Não sei...

Confesso que, quando soube que a filósofa e eticista Adela Cortina tinha escrito um artigo de opinião no Jornal El País sobre direitos dos animais um dia depois do veto catalão à touradas, fiquei entusiasmado. Mas o entusiasmo cedo deu lugar a uma funesta desilusão. No seu artigo, Adela explora a definição de direitos e partindo de um pressuposto antropocêntrico, estabelece uma distinção entre ter-se direitos (seres humanos) e serem concedidos direitos (onde parece incluir animais, bosques frondosos e bons quadros).
O argumento é antigo e podemos reconhecê-lo em Kant: os seres humanos são detentores de direitos a priori porque são agentes morais, isto é, são seres capazes de reconhecer a moralidade das acções próprias e dos outros, ao passo que animais, árvores ou pinturas são - quanto muito - sujeitos morais. Um sujeito moral é-o, não intrinsecamente, mas porque nós humanos reconhecemos nele algum valor e é da perservação desse valor (senciência, valor ecológico, valor patrimonial ou outro) que resulta a consessão de direitos.
Tudo isto é muito interessante mas... nada disto é novidade nem a abordagem é nova. E quanto ao contexto? Não devia Adela, como figura cimeira da ética que é, aflorar a questão das touradas? Não esperavamos ser ela mais objectiva na sua análise? Sim, se fosse essa a sua intenção original. Não, porque Adela preferiu usar o seu prestígio para, através de um periódico de grande circulação e tiragem, publicitar o livro que publicou recentemente sobre ... direitos dos animais. É pena, porque realmente gostava de saber a opinião dela.

5 comentários:

  1. ~Também acho este artigo penosamente desinteressante, e algo cobarde, a não ser que é propositadamente que divaga tanto.

    O argumento que os animais não têm direitos porque não podem estar conscientes deles levanta logo a questão das crianças.

    O argumento em si não me choca; acho que pessoalmente também ando a volta dele. É me muito difícil perceber como um animal pode ter o direito de não ser explorado se não se pode tornar consciente de se está ou não a ser explorado.

    Mas neste caso temos que reconhecer que apenas seres humanos a partir de uma certa idade são portadores deste tipo de direitos intrinsecos. Tanto as crianças como os animais são seres merecedores daquela protecção que direitos jurídicos conferem, mas não têm direitos intrinsecos.

    Não estou a afirmar que assim seja, mas parece-me um argumento razoável.

    Voltando ao artigo de opinião, a conclusão dele é que desilude completamente. O argumento do Millennium Development Goal não é minimamente relevante no contexto. Que evidencias há de que a causa animal tem limitado a erradicação da pobreza humana?

    E o que tem as touradas a ver com a possibilidade de alimentar o mundo?

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  2. A questão de prioridades também não é simples.

    Como pessoa e particular preocupo-me com os direitos humanos e a situação humana. Quando dou dinheiro, que faço com alguma frequência embora longe do que sugere o Peter Singer, é quase sempre em prol de causas humanas. Num período da minha vida quando tive mais tempo foi sócia da Amnistia Internacional; continuo a dar apoio financeiro a esta associação de direitos humanos.

    Mas a minha profissão tem a ver com os animais. Tenho formação nesta área, tenho emprego nesta área, tenho interesse nesta área, é nesta área que faço um bom trabalho.

    Ou devíamos todos, agronomos e veterinários, nos dedicar a questão de produção e saúde animal no mundo em desenvolvimento, sendo todo o resto questões de baixa prioridade?*

    Pode ser que a autora fala das prioridades da sociedade. Mas a sociedade é feita por pessoas, e uma serie delas terão profissões como as dos autores deste blogue. Será que não deviam ter? É um pouco tarde...



    *Fiz uma tentativa neste sentido, no fim da licenciatura, quando ainda estava a escolher entre os diferentes potencias percursos profissionais que me interessava. Tive a oportunidade de participar durante 2 meses num projecto de pecuária no interior de Vietnam. Foi uma experiência importante e ensinou-me que não faria um bom trabalho nestas circunstancias, tal como também não faria na industria pecuária.

    Errei? Devia ter insistido, ultrapassando a minha intuição, o meu desconforto com a falta de uma linguagem comum, as minhas saudades de coisas básicas da minha vida normal como a possibilidade de ter uma conversa abstracta ou livros que não apodreciam na humidade tropical?

    É com algum sarcasmo mas também com igual parte sinceridade que levanto a questão. Este verão vi com grande interesse uma reposição do serie The Monastery do BBC http://www.worthabbey.net/bbc/. E uma das questões que ficou completamente em aberto tem exactamente a ver com isso. Cinco homens passam 40 dias num mosteiro dominicano, e quando voltam um ano depois, um deles tem mudado completamente a sua vida (anda a falar com reclusos sobre o sentido de vida) enquanto os outros tem feito modificações das suas mas continuam nas profissões onde se sentem bem. Alguém defende que o único que fez o que realmente devia é o que mudou completamente de rumo. Outro argumenta que vocação também tem a ver com a pessoa que cada um é, e que não se pode ignorar a personalidade e preferências pessoais.

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  3. Eu tenho ideia que muitas pessoas acham que alguém só muda a sua vida se der uma volta de 180 graus. E creio que essa ideia é um pouco errada, pois muitas mudanças, se calhar aquelas que são mais importantes podem não ser visíveis. Muitas pessoas que vejam essa série, provavelmente pensam que a pessoa que anda a falar com os reclusos é que realmente mudou a sua vida. Eu não vi essa série, mas acredito que esses 40 dias no mosteiro de alguma forma influenciou cada uma das pessoas. Uma delas mudou a sua vida completamente e as outras decidiram continuar com a vida que tinham, mas de algum modo eles devem ter mudado, para que esse tempo no mosteiro não tenha sido em vão. Não se precisa de mudar radicalmente de vida para que os outros vejam que se mudou. A mudança deve começar nas pequenas coisas. Não é preciso mudar radicalmente para ter uma vida melhor, basta as pequenas coisas, que são aquelas que realmente fazem a diferença, e eu acredito que a vida é feita de pequenas coisas com grande significado...

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  4. Irin@: Obrigada por esta reflexão. Sim, acho que tem toda a razão tanto quando diz "uitas pessoas acham que alguém só muda a sua vida se der uma volta de 180 graus" como quando acha que isto é uma ideia um pouco errada.

    De facto, esta visão de que mudar tem que ser radical provavelmente dificulta mudanças. Como alguem disse, duas pessoas que passam a comer metade da quantidade de carne que comiam reduz tanto o consumo total como uma que se torna completamente vegetariana. E há muito mais gente que se deixa de convencer para reduizir o seu consumo até metade do que se consideram capazes de deixar completamente de comer carne.

    Já agora, seria muito interessante saber o que pensa a Irin@ como estudante de bem-estar animal sobre o nosso papel de profissionais neste respeito. Para que mudanças podemos nós contribuir?

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  5. Como estudante de bem-estar animal, não tenho uma opinião concreta formada. Mas como pessoa, um tanto ou quanto informada sobre assuntos de bem-estar, tenho uma opinião mais ou menos formada, mas não sei se terá argumentos suficientemente fortes para se aguentar de pé.
    Muita gente sabe como os animais são tratados em certas explorações, que muitas vezes não têm condições, têm pouco espaço, são mal alimentados, etc. E assim que sabem essa informação, muitas das vezes, através de organizações de defesa dos animais, pensam logo "Meu Deus, ando eu a comer carne, quando fazem estas atrocidades aos animais!". E logo optam pelo vegetarianismo e outro tipo de dietas das quais eu não tenho conhecimento. Mas esquecem-se muitas vezes que a carne é importante na alimentação, tem nutrientes muito importantes. Começam por comer apenas saladas, confiantes que assim os animais não sofrem, ou se sofrem, não será por causa deles. Dia após dia, começam a ficar mais fracos, e apercebem o quanto lhes apetece um bom bife, mas continuam a tentar manter os seus ideais. Não sou contra o vegetarianismo. Nada disso. Mas tenho a consciência de que muitas pessoas não estão correctamente informadas acerca desse "estilo" alimentar. Muitas pensam que é só comer vegetais e está feito. Esquecem-se que se querem "cortar" definitivamente com a carne da sua alimentação, têm de arranjar uma compensação nutricional.
    Se uma pessoa se sente "culpada" por gostar de carne e pela forma como alguns animais são tratados, para que o seu jantar seja um bom bife ou outro tipo qualquer de carne, mais vale reduzir o consumo do que "arriscar a vida" por certos ideais que não vingarão se deixarmos de comer.
    Uma solução para resolver os “conflitos interiores” que estas pessoas possam ter em relação a esta situação, não passa apenas pelo médico veterinário. Passa também por um nutricionista, pelo médico de família, até por um psicólogo caso necessário. Todas as pessoas, independentemente da sua profissão, deveriam estar envolvidas neste tipo de situações. Afinal, quantas delas já não passaram por este dilema?
    Acho que compete a todos fornecerem mais informação. Quando uma pessoa tiver essa dúvida, devem lembrá-la que nem todos os animais são tratados daquela forma, deve ser mostrado que há animais de produção a serem tratados de forma “digna” (não sei se será a palavra correcta) e lembrar a essa pessoa que se quer aliviar o “sentimento de culpa” basta reduzir no consumo. Há maneiras de ajudar os animais e grande parte delas, não passam por mudar o tipo de alimentação que fazemos.
    A solução passa pela informação. As pessoas devem estar informadas e isso compete a todos, desde pessoas da área de medicina à comunicação social.
    Agora, falando por mim, eu sei como muitos animais são tratados em certas explorações, mas isso não me faz excluir a carne da minha alimentação. Isso não é uma solução e não vai mudar a maneira como os animais são tratados. A única coisa que pode mudar é a possibilidade de vir ter problemas de saúde por défice de nutrientes.
    Só para concluir, a solução a este tipo de problemas não depende só dos médicos veterinários, e, creio que agora, a melhor maneira de resolver, ou tentar, esta situação será através da informação.

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