quarta-feira, 27 de abril de 2011

Poluição sonora no mar mata cefalópodes?

Há vários registos da ocorrência, em vários pontos do globo, de cefalópodes (como polvos, chocos e lulas) que aparecem mortos no litoral.em grandes números (entre várias dezenas a centenas).

Um trabalho da equipa de investigadores liderada por Michel André, da Universidade Politecnica de Barcelona e publicado recentemente na Frontiers of Ecology and the Environment, sugere uma possível explicação para este fenómeno. Experiências em laboratório mostram que ruidos de baixas frequências com comprimentos de onda semelhantes aos produzidos pela exploração de petróleo, gás e navios, danificam de modo severo e permanente os orgãos de equilíbrio nestes animais, que deixam de se poder mover normalmente, perdendo assim capacidade de caçar e tornando-se também facilmente vítimas de outros predadores.

Fonte: New scientist
A primeira resposta comportamental é a fuga, que rapidamente se converte em imobilização, ficando os animais imóveis no fundo do tanque (chocos) ou a flutuar estaticamente à superfície, sendo de esperar que possa ocorrer um comportamento semelhante no meio ambiente.

Estes dados vêm reforçar a necessidade de regular a produção humana de ruído nos oceanos, uma vez que a poluição sonora - proveniente de navios, extracção de combustíveis fósseis ou exploração eólica - pode afectar de modo significativo os ecossistemas marinhos. É este aspecto que a edição de 16 de Abril da New Scientist destaca no seu editorial, onde consta que Cephalopods may not be as charismatic as whales and dolphins but they are integral to the marine food chain."  Não é por acaso que os cephalopodos são comparados com estes emblematicos mamíferos marinhos. Entre os invertebrados, os cephalopodos mostram uma capacidade cognitiva extraordinária, com um sistema nervoso bem desenvolvido e um comportamento rico e complexo.

Com base nas suas capacidades cognitivas, os cefalopodes foram recentemente incluidos como os primeiros invertebrados na legislação euroeia que protege os animais usados em experimentação. Mas no mar continuam desprotegidos.

terça-feira, 26 de abril de 2011

World Tapir Day

Animal Ethics - Nova revista academica

http://www.press.uillinois.edu/journals/jane.html

Curso comportamento e bem-estar de ruminantes

Voltamos a lembrar do Curso em Comportamento e Bem-estar de Ruminantes a decorrer na Faculdade de Medicina Veterinária em Lisboa.


Organizado por George Stilwell, reúne especialistas nacionais e internacionais na área. Poucos combinam investigação da mais alta qualidade científica com preocupação prática neste campo como Jeff Rushen e Anne-Marie de Passillé. Aprender com eles é uma oportunidade a não perder para quem trabalha com gado de produção.

Dia 13 de Maio na Faculdade de Medicina Veterinária.
Inscrições (20 euros, 5 para estudantes) através de tbaltazar@fmv.utl.pt

quinta-feira, 21 de abril de 2011

The Cycle of Life and Death

Fiel às minhas origens, como ovos, arenque e salmão na Páscoa, e a minha intenção para o Animalogos desta Páscoa era um post sobre rotulação de ovos (de galinha). Mas entretanto encontrei este trabalho de uma famosa actriz, filha de mãe sueca, que além de ser a mulher mais bonita do mundo revela agora a sua genialidade na comunicação humorística e artística de biologia. Então ficaremos pelo salmão.

Vida, morte e ressurreição - que tema mais adequado para estes dias?

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Produzir bem é estar bem... ou não?

A maioria dos cientistas em bem-estar animal diria que a produção não é um parâmetro fidedigno para se aferir o bem-estar. Mas muitos agricultores e engenheiros zootécnicos diriam, por outro lado, que um animal que produz bem é também um animal que está bem. Em geral, é verdade que um animal acometido pela doença não será o mais produtivo mas, para além deste facto, a relação entre produtividade e bem-estar está longe de ser linear. Isto fica claramente ilustrado num interessante e importante estudo que relaciona a saúde podal de vacas leiteiras e a produtividade, publicado na revista Animal Welfare 04/2010.

Uma equipa conjunta da Universidade Austral de Chile e da Warwick University no Reino Unido treinou produtores de gado leiteiro a usar um sistema padronizado de detecção de laminites (inflamações do casco que provocam claudicação) e a identificar a patologia podal por detrás da claudicação. Sempre que uma vaca manca era identificada, ela era tratada para o problema específico. Sete explorações e 1.635 vacas foram incluídas no estudo. No final, correlacionaram-se os dados sobre a saúde podal com os dados sobre a produção de leite de cada vaca.
 
Para todas as causas de claudicação, a produção de leite aumentou no mês após o tratamento. Para algumas das anteriores houve também uma redução significativa na produção durante alguns meses antes do tratamento, como ilustra o diagrama (que pode ser visto em formato maior clicando sobre a figura).

Mas para uma das patologias podais, dupla sola, as vacas que foram diagnosticadas com o problema apresentaram maior produção de leite antes da sintomatologia do que as vacas sem claudicações. E para outra patologia, a dermatite digital, as vacas coxas produziram mais leite - mesmo sofrendo da doença não tratada - do que aquelas que não apresentaram claudicações.
 
O que é que isto nos diz? Em primeiro lugar - e este é provavelmente o achado mais importante do estudo - que vale a pena aos agricultores estar atentos às vacas coxas e tratá-las atempadamente já que, em geral, a produção diminui quando a vaca claudica e volta a aumentar após o tratamento. Em segundo lugar, que seria benéfico tanto para os agricultores como para as vacas se os problemas fossem detectados mais cedo. As vacas foram tratadas logo que o problema foi detectado, mas, como mostra a figura, a produção já vinha diminuindo durante os meses anteriores, sugerindo que os animais poderiam ter problemas podais muito antes de estes serem detectados. Em terceiro lugar, que a relação entre produção e saúde / bem-estar é complexa. Ao nível individual, a produção parece, de facto, reflectir a saúde: à medida que uma vaca desenvolvia patologias nos seus cascos, a produção de leite descia. Mas ao nível colectivo esta relação não é clara. Por um lado, as vacas de alto rendimento parecem estar em maior risco de desenvolver patologias podais (como já havia sido determinado noutros estudos). Por outro lado, vacas com dermatite digital mantiveram-se mais produtivas do que as vacas não coxas mesmo quando a patologia não estava ainda a ser tratada.

Assim, quando o agricultor observa que uma vaca diminui inesperadamente a produção de um mês para o outro, há todas as razões para suspeitar que a sua saúde e bem-estar estão afectados. Mas o facto de uma vaca produzir mais do que a média não pode ser usado como prova de que ela é saudável e de que goza de bem-estar.Listen
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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Direito animal

Direito animal , ou "Animal law", é o ramo de direito que se preocupa com o estatuto legal dos animais e a prática legal em casos envolvendo animais. É praticamente inexistente em Portugal e não tem grande expressão nas faculdades de direito europeias mas está em forte crescimento nos EUA: Tanto que a revista Science dedica um News Focus ao assunto.
As recently as 2000, only a handful of law schools in the United States offered courses in animal law. Now roughly 120 do. These include several of the nation’s premier law schools, including
Harvard, Stanford, and Columbia.
Este movimento nasceu em resposta a actual situação legal nos EUA onde - diferente do que no cenário europeu - poucos animais estão legalmente protegidos.
many [who teach and study animal law] take issue with a legal system that treats animals as property and provides few mechanisms for protecting their interests in court.
O que está a acontecer legalmente tem paralelos com o que conhecemos da Europa no sentido de introdução de regras para o alojamento e tratamento de animais de produção. Neste ambito, alguns estados aproximam-se da legislação da União Europeia.
In 2008, for example, California voters approved a ballot measure that will outlaw cages that restrict the movement of egg-laying hens, calves raised for veal, and pregnant sows
E o estatuto legal dos outros animais não é uma precupação unicamente da Europa e America do Norte.
From Science Magazine 1 April 2011


Mas há caracteristicas particulares do movimento actual que refletam as diferenças politicas e legais entre EUA e Europa. Há noutro lado do Atlantico um maior enfase nos direitos individuais, mesmo quando o individuo é peludo ou tem asas ou barbatanas. David Favre do Michigan State University College of Law defende que os animais devem "have the right to sue", ter o direito de levar (ou ter alguem a levar) o seu caso a tribunal. E um outro dos juristas notáveis da area, Steven Wise, está a juntar evidências para testar o sistema.
Getting a judge or jury to consider these arguments is the goal of NHRP [Nonhuman Rights Project] Since 2007, Wise has recruited more than 50 volunteers, including lawyers and sociologists, who are working to identify potential plaintiffs and determine which jurisdictions are most likely to be sympathetic to their arguments and which legal strategies are most likely to be effective. He estimates that they’ve spent a cumulative 20,000 hours analyzing dozens of legal and sociological issues in all 50 states.
The first case will likely involve an animal being held in substandard conditions: perhaps a dolphin kept in a small pool at an aquarium or a chimpanzee confi ned to a small cage at a zoo or research facility. NHRP will file a lawsuit in trial court, probably using habeas corpus or another
common law writ, de homine replegiando, used centuries ago in slavery cases.
If the trial court dismisses the case, Wise says he will appeal all the way to the state’s highest court.

Dado que os EUA aplica case law (jurisprudencia, ou seja uma decisão particular de um tribunal pode mudar a maneira como a lei é interpretada em geral), um caso de sucesso do Wise poderá ter consequências vastas. Neste sentido, o movimento parece mais confrontacional do que a visão europeia em que o desenvolviemnto da legislação expande a protecção dos animais sem lhes conferir direitos. A protecção dos animais contra sofrimento parece mais compatível com um uso humano dos outros animais do que a defesa dos direitos dos animais.

terça-feira, 5 de abril de 2011

De novo a China - "Porta-chaves" com peixes e tartarugas

Interrogo-me porque aparece tantas vezes a China como um país onde não se tem em consideração o sofrimento animal.

Evidentemente, esta descrição não corresponde à posição de todos os chineses perante os animais, mas a verdade é que a China continua a ser um grande consumidor de carne de golfinho, chifres de rinoceronte, barbatanas de tubarão, bilis de urso, etc., com consequências desastrosas para o bem-estar animal e a conservação das espécies.

Crédito da foto: Li Bo
 ("Global Times")
Agora, parece que o novo "negócio da China" é a comercialização de "porta-chaves" de plástico transparente e selado, onde são colocados pequenos peixes ou tartarugas, que eventualmente morrem asfixiados. Indiferentes a isso, os compradores destes "acessórios" simplesmente cozinham no microondas os cadáveres e consomem-nos. De salientar que esta prática não infringe lei alguma, sendo os "animais embalados" vendidos em plena praça pública, à luz do dia, sendo comprados frequentemente por chineses que o fazem para os poderem libertar de seguida. Esta atitude, ainda que bem-intencionada, poderá levar a problemas ecológicos e/ou de saúde pública, caso esta "moda" esteja para ficar.


Como nota de rodapé, deixo a  notícia do Global Times de Novembro do ano passado, que divulgava a existência de grupos secretos na China que pagam a  mulheres para maltratar animais até à morte e que filmam esta prática, colocando os vídeos on-line, como forma de satisfazer um mórbido fetiche.

Olhando para tudo isto, apetece perguntar:  "What`s wrong with China?"