quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Eutanásia em animais de companhia


Por Ana Sofia Silva, André Mau e Marlene Ferreira, alunos do Pós-graduação em Comportamento e Bem-Estar Animal, ISPA.


O jornal Diário de Noticias publicou no dia 3 de Outubro de 2011 uma notícia que nos impressionou bastante: “Cada vez mais pedidos de eutanásia indignam veterinários”. De acordo com a notícia, as dificuldades económicas têm aumentado os casos de eutanásia de conveniência. Os pedidos de eutanásia são feitos pelos donos sem haver uma justificação clínica para tal, o que leva a uma revolta dos profissionais da área: “O meu papel é salvar vidas e não acabar com elas. Quando me propõem tal coisa, tento explicar - e ajudar - que há solução clínica para o caso do animal ou, se o dono não quer ficar com ele, que pode optar por dá-lo para adopção".

A palavra eutanásia, que provém do grego “boa morte", consiste no acto de retirar a vida a um ser, de forma indolor. No caso dos animais, recorre-se à eutanásia em situações extremas como sejam doenças terminais ou incuráveis, ferimentos irremediáveis, idade avançada ou problemas comportamentais graves. Mas quando o que está em causa é a conveniência do dono, estaremos ainda a falar de uma boa morte? Tendo em conta as circunstâncias actuais, que medidas podem ser tomadas para evitar este tipo de situações?

8 comentários:

  1. Quando se trata de ter de dar um animal ja adulto, pois já não se possui as condições para tratar dele penso que não se deve falar de ânimo leve sobre "eutanásia de conveniência". Quais sao as opções do dono, quando o país em que vive não dispoem de associações e canis municipais em numero suficiente para responder a todos os pedidos de ajuda? Se esta solução lhes é negada o dono tem duas opções: abandono ou eutanásia. Venha o diabo e escolha.

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  2. Mudar mentalidades é difícil, pois até com os seres humanos isso é feito, depositando os idosos em lares quando começam a dar mais trabalho ou interrompendo processos de adopção por razões descabidas.
    Enquanto o ser humano não aprender o que é o respeito pelos outros, não perceberá que a responsabilidade por uma vida é "para sempre"...

    Existe sempre uma escolha e os donos podem optar por procurar um outro lar para o animal ou recorrer à ajuda das associações de protecção animal da sua área de residência. Neste último caso, graças à internet e ao fenómeno que são as redes sociais, podem até conseguir encontrar um novo lar para o seu animal de estimação em qualquer local do país.
    Os animais não são objectos e não se deve de todo permitir que as pessoas os vejam como tal e decidam "ver-se livres" deles como se de um aparelho doméstico que se tornou obsoleto.
    Cabe-nos a nós, médicos veterinários, semear a noção de que isso é errado e nenhuma situação é tão desesperada para que a "eutanásia de conveniência" seja uma opção. Há sempre alguém que aceitará ficar com o animal, é só uma questão de procurar e esperar, e também nisso desempenhamos um papel importante, divulgando esses apelos.
    Não é com leis ou regras que se lá vai, é com calma e com o exemplo, tal como deve ser com tudo na vida.

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  3. Mais um post dos alunos de ISPA amanhã, entitulado Qual o lugar dos animais de companhia numa sociedade empobrecida, vai contribuir para esta discussão.

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  4. ~Tanto esta mensagem como a posterior (http://animalogos.blogspot.pt/2012/02/qual-o-lugar-dos-animais-de-companhia.html) retractam um problema bastante comum, infelizmente.
    As pessoas deixam de ter dinheiro para elas próprias e quem acaba por sofrer por consequência desta crise são também os animais de companhia. Perante estas dificuldades os donos muitas vezes ficam desesperados e pedem então uma “eutanásia por conveniência”. Mas até que ponto a “conveniência” é suficiente para tirar a vida a um animal saudável? Vamos supor que estamos a falar de eutanásia apenas devido às dificuldades económicas em assegurar o bem-estar básico do animal, dizendo respeito à comida essencialmente, e que estes se encontram saudáveis.
    Em primeiro lugar penso que depende muito das dificuldades económicas que estamos a falar, uma vez que não me é incomum ouvir em contexto de abandono de animais que tiveram de o dar porque já nem dinheiro têm para ir de férias e que ele era uma despesa porque se não tivessem de gastar dinheiro em ração então já podiam ir de férias. Até que ponto pode um animal ser tão descartável ao ponto de o abandonar porque “não dá jeito”? Estas pessoas são geralmente também aquelas que adoptaram o animal porque na altura “dava jeito” ou porque “era giro”. São adopções não responsáveis que devem ser combatidas a todo o custo, mas esse é outro assunto.
    Há outro assunto que é importante, é que se perceba que o animal consegue viver com algumas condições reduzidas encontrando-se ainda com qualidade de vida, desde que tenha uma casa e alimento e cuidados básicos (sejam vacinas por exemplo só). Questiono-me se as pessoas pensam em passar a dar um pouco de arroz com frango ao cão em vez de ração antes de o abandonar. É importante questionar de que dificuldades económicas estamos a falar. São dificuldades em termos de conforto económico ou em termos de sobrevivência?
    No entanto, se as dificuldades económicas forem realmente extremas, avistam-se duas alterativas como já foram aqui referidas, o abandono ou a eutanásia. Há quem afirme que mais vale a eutanásia que poupa o animal de uma vida em sofrimento nas ruas, ou pior, nos canis. No entanto, há quem também afirme uma visão mais de respeito pela natureza, dando valor à vida e por isso rejeitando a hipótese de eutanásia.
    Há sempre a opção, que na minha opinião me parece a menos má, de tentar dar o animal a uma associação sem fins lucrativos que procura que estes sejam novamente adoptados por outra família, e que enquanto não o são, asseguram a sua vida e bem-estar. Contudo, no panorama actual e com o aumento gigante dos abandonos, as associações (que são muitas) encontram-se todas sobrelotadas, com as pessoas a aceitar até mais animais do que aqueles que podem cuidar.
    Idealmente haveria a doação do animal a uma associação/canil que depois conseguiria encontrar um novo adoptante para que este animal continuasse a viver a sua vida de forma satisfatória. No entanto, são raros os casos em que as coisas acontecem assim.
    Infelizmente, hoje em dia são poucas as pessoas que querem adoptar animais, e por isso eles acabam por ficar a viver nas associações. Pior ainda, é quando eles ficam nos canis municipais, que muitas vezes acabam por recorrer à eutanásia como forma de contrariar a sobrepopulação de animais que existe. Ora, neste processo o animal acaba por perder a vida também, será que isto não acaba por ser outra “eutanásia por conveniência” assumindo contornos semelhantes à opção de ser uma eutanásia feita pelo médico veterinário?

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    1. Obrigado pelos comentários, Ana. São argumentos muito pertinentes.
      Adopção, abandono, eutanásia (por esta ordem) é um percurso demasiado frequente para os animais de companhia no nosso país. Tive a oportunidade de passar um dia inteiro nos bastidores do Dogs Trust de Dublin e pude observar como até a mais abastada das associações zoófilas enfrenta desafios quotidianos que não são muito diferentes dos nossos. De forma a diminuir os casos de abandono, a associação contratou um "gestor pós-adopção", responsável por fazer um acompanhamento periódico à família de acolhimento (no início presencial; depois por telefone), providenciando aconselhamento personalizado e removendo o animal, se for caso disso. O cargo é recente (e, segundo me disseram, pioneiro) mas os resultados parecem sugerir que vale a pena o investimento neste recurso humano.

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    2. Bom dia, gostaria de saber, como futuro veterinario, qual é a legislação em vigor, recomendações da OMV ou normas europeias a respeito da eutanasia de animais, ou seja qualquer proprietario que insista na eutanasia de um animal perfeitamente saudavel e com probabilidade de ser adotado, não existe forma legal de salvaguardar o animal?
      Obrigado

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    3. Olá Neca.
      Obrigado pela tua pergunta, que é muito pertinente. A resposta é nao, mas vamos por partes.

      A OMV nao estabelece qualquer norma no que diz respeito à eutanásia de animais. Qualquer veterinário é livre de decidir eutanasiar um animal a pedido do dono, ou de recusar-se a faze-lo. é mais uma questao moral do que legal. Ainda assim, há legislacao a ter em conta.

      A Convencao Europeia para a Proteccao dos Animais de Companhia (Decreto 13/93) foi transposta para legislacao nacional através do Decreto-Lei 276/2001. No artigo 19 estao previstas as normas para a recolha, captura e abate compulsivo de animais de companhia, nomeadamente por razoes de saúde pública, e às quais o veterinário deve obedecer. No entanto, este DL nao regula a prática de eutanásia de conveniencia (isto é, a pedido do dono e na ausencia de razao clinica). Esta decisao continua a ser uma prerrogativa do veterinário. A nova Lei 69/2014 Dos crimes contra animais de companhia só criminaliza o abandono e os maus tratos, sendo que a eutanásia nao é nem uma coisa nem outra.

      Resumindo, cabe aos médicos veterinários, associacoes zoófilas e sociedade civil criarem mecanismos para que animais nao desejados sejam adoptados em vez de eutanasiados.

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  5. Quem me dera que todas as pessoas envolvidas neste meio pensassem assim, mas muitas vezes as associações querem é que eles sejam adotados independentemente da pessoa para quem vão, nem que depois o animal seja devolvido (que é muitas vezes, e que eu acho que é de extrema falta de empatia). Só que muitas vezes no meio desse pensamento prático de "despachar" o animal para terem mais vagas, está a crença de que esse animal vai para um sitio melhor do que aquele que está, o que nem sempre é verdade. É um pensamento centrado no humano e que não dá foco algum ao bem estar do animal em questão, pensando apenas na parte da gestão da associação e não a nível do indivíduo cuja vida está à sua responsabilidade.
    Na minha opinião esse cargo de "gestor pós-adopção" seria muito útil para prevenir mais abandonos e para garantir que as famílias adotantes tinham condições para ficar com o animal, não só condições monetárias como também emocionais. Eu pessoalmente adoraria fazer parte de um processo de gerir as adoções se fosse algo que realmente quisessem investir cá em Portugal, para além de ser bom para eles (animais), é bom para nós (humanos) e ainda ajuda a mudar algumas mentalidades no que toca ao cuidado com o animal de companhia.

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