sexta-feira, 30 de março de 2012

A moral, segundo a maioria

Ontem, pelas 18h, a Associação Académica da UTAD (minha alma mater) organizou uma reunião geral de alunos para levar novamente a votos a organização da Garraiada durante a Semana Académica, actividade que fez parte do cartaz deste evento durante cerca de vinte anos, até que foi pela primeira vez interrompida em 2009.

Cartaz a convocar os alunos para a RGA deste ano
para votar a realização das garraiadas
Essa primeira interrupção resultou da primeira RGA convocada ad hoc para debate desta questão, tendo nessa primeira edição a maioria dos alunos presentes decidido pela abolição das garraiadas.
Foi uma abolição que pouco durou, uma vez que em 2011, e novamente por decisão da maioria dos alunos presentes em RGA, a garraiada voltou às comemorações da Semana Académica, mas não sem polémica.

O debate acesso levou a AAUTAD a nova convocação de RGA este ano, que resultou na aprovação da realização deste evento na Queima 2012, por 120 votos contra 80. 

Mas o que é a garraida? Antes de mais, convém salientar que é diferente de uma tourada, uma vez que o animal não é toureado ou bandarilhado. Assemelha-se mais à pega pelos forcados que vemos nas arenas portuguesas. Um vitelo (ou uma vaca) é libertado na arena e cabe a um grupo de meia-dúzia de voluntários - muitas vezes embriagados - tentar conter o animal. Na UTAD, há ainda um grupo supostamente cómico - "Los Papa Vacas" - que faz "sketchs" nos quais o animal é "convidado" a integrar como personagem de destaque (mais ou menos na linha dos rodeo clowns). Apesar de menos violenta que a tourada, na garraiada o tipicamente dócil animal é espicaçado, cercado, empurrado e puxado pela cauda e cabeça, podendo sofrer luxações, fracturas e até morrer na arena (como chegou a acontecer há poucos anos na UTAD) como consequência de trauma infligido. Não é também de menosprezar o stress a que é submetido.

Garraiada na UTAD
Ainda que seja de louvar a atitude da AAUTAD de manter uma posição neutra e sondar os alunos, não é menos verdade que os 200 alunos presentes na última RGA (e foi a mais participada) não sejam representativos de uma universidade com 6.000 alunos, os quais vão em massa para  actividades da semana académica como a serenata ou os concertos à noite, mas que não costumam ser tão adeptos de assistir à garraiada, tipicamente organizada por e para alunos das ciências agrárias (Medicina Veterinária, Zootecnia, Agronomia).

Ao contrário da AAUTAD, não sou isento nesta matéria e, ainda que não possa votar, não deixei de dar a minha opinião das redes sociais, onde este foi o tema em destaque entre alunos da universidade, por estes dias.

Do ponto de vista custo/benefício, e ainda que o custo para o jovem animal (se não houver acidentes, algo impossível de garantir) possa não ser tão grande como o presenciado nas touradas, o inexistente benefício proveniente das garraiadas desde logo leva a que as considere condenáveis. Também julgo ser uma actividade que veicule valores de desrespeito pelos animais, não contribuindo assim para a formação ética e cívica dos jovens alunos da universidade.

A ética contratualista assenta no pressuposto que a moralidade se baseia no consenso. Não creio ser este o caso, já que quando se leva uma questão moral a votação, não ganha o consenso nem o compromisso, mas sim a maioria. Ainda que o processo democrático seja de valorizar, será legítimo deixarmos a "maioria" (neste caso concreto, nem sabemos ao certo o que a maioria dos alunos pensa) decidir o que é ou não moralmente aceitável, principalmente quando a opinião não resulta de reflexão ética isenta, informada e precedida de debate aberto a todos os pontos de vista?

5 comentários:

  1. Dizer que os alunos presentes não são representativos é o mesmo que dizer que as eleições para a AR ou PR também não são representativas... enfim. Esse argumento é típico de quem ficou do lado "derrotado". Se vamos a "eleições" tem de se aceitar a derrota e a maioria de quem votou. Isso é democracia.

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    1. E as eleições para a AR e PR, muito provavelmente, não são representativas. São democráticas, mas os abstencionistas não são aleatoriamente "selecionados" (neste caso selecionam-se a eles mesmos) de entre a população. Ou seja, nem toda a gente tem a mesma probabilidade de ir ou não votar (têm o mesmo direito, mas alguns optam por não o usar). Os resultados das eleições é que são representativos dos eleitores votantes, no caso das legislativas, uma vez que cada partido tem um número de deputados proporcional ao nº de votos. Já no caso das presidenciais, é uma simples vitória por maioria, não há representatividade.

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  2. O que eu testemunhei ontem na RGA foi uma palhaçada! Não foi representativa, porque não a realizaram no dia em que não há aulas de tarde, isto é, quarta-feira...Só por aí já condiciona quem pode ou não comparecer. Mais, não estavam representados todos os cursos, e acho que isso se deveu à falta de divulgação da RGA. Por isso não, não foi representativa.

    Os insultos pessoais, durante o "debate", também foram algo a lamentar e os argumentos do género "é como brincar com um cão", ou "ao teres gatos em casa também lhes provocas stress, pois não podem expressar a sua natureza de predador", etc etc, ditos por alunos de Medicina Veterinária a frequentar os anos finais do curso são de envergonhar aqueles que realmente se importam em tratar os animais e em não os usar como divertimento.

    O sistema de votação foi do melhor que já vi; 1º mão no ar e contagem "a olho" com os resultados de 85 a favor, 95 contra e 16 abstenções. Como o contra ganhou (coisa impossível de aceitar!) reclama-se e a mesa cede. Nova votação...desta vez individual e pública. Resultados: 10 abstenções, 85 contra e 124 a favor... de onde apareceu esta gente extra é coisa que não percebi, mas como todos se foram embora antes de se dar por encerrada a RGA não houve hipótese de averiguar.

    Uma palhaçada totalmente não representativa. É o país que temos...O que ainda me alegra é que vai chegar o dia em que o contra vai ser superior ao a favor...e vai ser de tal forma que nenhuma estratégia vai conseguir camuflar isso.

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  3. É lamentável que a UTAD continue a permitir que ocorram acções de desrespeito contra animais, como nos casos das garraiadas, principalmente por alunos de cursos de veterinária.
    As vacas fistuladas que têm são outro atentado também (http://youtu.be/zUqU7ePTILU).
    Como instituição de ensino e formação deveriam preocupar-se em incutir formação ética aos seus alunos e não apenas formação científica. A UTAD está completamente ultrapassada.
    Uma instituição de ensino não pode ser conivente com o sacrifício inútil e cruel de seres dotados de senciência.

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  4. Cara Manuela Vilares,

    No meu entender. a imagem das vacas fistuladas tem mais uma força simbólica do que um real fundamento para preocupações de bem-estar animal.

    Tecnicamente, a fistula (ou cânula que será um melhor termo) é semelhante a ostomia que se coloca num paciente cujo intestino (ou parte dele) teve que ser removido. No entanto, há duas importantes diferenças médicas:
    1. No caso do paciente é feito no seu melhor interesse, no caso da vaca é feito por motivos científicos, para permitir que se chega diretamente ao rumen (ou outra parte do sistema digestivo, dependente de onde se instala a cânula) para medir a digestibilidade de diferentes alimentos.
    2. Como a vaca mantem todo o seu sistema digestivo intacto, quando a cânula é mantida tapada, não interfere com o funcionamento normal e a vaca come e elimina normalmente. Ou seja, uma vez instalada a cânula, o tecido cicatrizado e a vaca completamente recuperada da cirurgia, não aparenta sinais de dor ou desconforto.

    A vaca obviamente não tem interesse nenhum em ser fistulada (o que é diferente do paciente cuja vida pode ser salva pelo processo), mas também não lhe causa particular incomodo. As imagens e filmes de vacas fistuladas mantidos no pasto junto com outras vacas mostram bem como a fistula não é um problema para a vaca.

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