sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Quem fala com os consumidores?

Aproveito para trazer para Animalogos uma pergunta que coloquei ao Mateus Paranhos da Costa (etologo e zootécnico de São Paulo, conhecido sobretudo pelo seu trabalho com gado bovino e com os produtores e tratadores deste gado) numa discussão no simpósio Animais na Ciência:

Há no mundo um crescente classe média, sobretudo nas economias emergentes como Brasil, India e China, que com condições económicas melhores desenvolve padrões de consumo diferentes. Concretamente, para o que interessa neste contexto, quer comer mais carne.

Face a esta procura crescente, cresce também a produção animal intensiva, ou intensifica-se a produção animal.

Sabemos todos que há problemas com a produção intensiva em termos de bem-estar animal e em termos ambientais.

Perante isto, é suficiente que nós - os profissionais na área de bem-estar animal - trabalhemos junto dos produtores para tentar melhorar as condições dos animais? Não precisamos também de trabalhar com, ou dirigir-nos a, os consumidores, dialogando, explicando que enquanto continuarmos a querer carne barata para todos os almoços e jantares, então será este tipo de produção que vamos ter?

Daquela maneira que muitas vezes acontece nas sessões de perguntas nos congressos, a questão acabou por não ser verdadeiramente discutida. E eu continuo a interrogar-me, como profissional.

O que acham?

5 comentários:

  1. A meu ver, o consumo de carne há alguns anos encontrava-se muito relacionado com o estatuto social/poder económico, ou seja, em famílias de estrato social mais baixo, o seu consumo era raro. Assim, ao longo do tempo penso que o consumo aumentou não só pelo gosto ou pela facilidade de a cozinhar relativamente a outros produtos mas, também por estar associada a "uma coisa boa/um luxo". Como tudo, se a procura aumenta, a oferta tem de aumentar, e quanto maior a oferta mais baixo o valor do produto. Hoje em dia, procura-se apenas o que se gosta e a baixo preço, ou seja, carne barata(por norma)=animais com baixíssimo/ausência nível de bem-estar (e é preciso que as pessoas sejam informadas do que isto significa em termos práticos).

    Assim, é fundamental que as pessoas percebam realmente aquilo que procuram, aquilo que estão a pagar, o serviço que estão a pagar. Porque no fundo, indirectamente, somos todos nós que estabelecemos "as leis" deste sector e a forma como queremos que as coisas sejam feitas. Queremos carne barata? É isso que os produtores nos darão então, independentemente do que seja necessário azer para a alcançar.

    É preciso uma educação neste sentido, desde os produtores aos consumidores (directos e indirectos=crianças), e que tem de ser feita por todos nós e para todos nós.

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  2. O problema muitas vezes é que informar não basta. As vidas humanas são complicadas e a atitude normal de quem se vê confrontado com uma realidade que colide com o seu estilo de vida é negar a sua importância. Ou relativizá-la face às outras prioridades como seja dar o melhor aos filhos. Isto acontece também porque existe uma dissociação crescente entre o consumidor final e a origem do produto ou a matéria prima. É preciso educação sim, mas deve ser uma educação de proximidade e de valores.

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    1. O que entendes como uma educação de valores, neste contexto?

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    2. Dar o melhor para os filhos é um valor. Mas esse valor não pode ser dissociado dos outros valores que me permitem alimentar a família a custo reduzido: vida animal, bem-estar animal, recursos naturais, equidade na distribuição dos lucros, promoção da saúde, responsabilidade social,... uma educação de valores tem em conta todos estes factores e não apenas uma análise custo-benefício. De proximidade porque é preciso tirar as pessoas do sofá e envolvê-las, torná-las participantes de todo o processo farm to fork.

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  3. Atentendo ao facto de muitas "necessidades" serem criadas pela disponibilização de novos produtos e serviços no mercado - e não porque eram originalmente entendidos como tal pela generalidade dos consumidores - também se pode alargar o número de pessoas que dá valor ao tratamento ético dos animais se for criado um segmento de produtos com a especificidade de atender a boas práticas na criação, maneio e abate. Não quer isto dizer que se tornaria uma prática mainstream, mas creio que o surgimento (e, acima de tudo, a promoção) deste tipo de produtos tem um maior potencial para cativar consumidores e melhorar padrões de produção do que o mercado de produtos vegetais ditos biológicos.

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