quinta-feira, 18 de março de 2010

Má sorte nascer com pelos e ter um dono "alérgico"

DN On-line, 16-Março-2010, Ver Vídeo

"Cresceu muito, roeu os sapatos, o filho tem asma, o marido não gostou..." As razões são muitas para se entregar o animal de estimação no Canil/Gatil Municipal de Lisboa. Afastando-me, para já, da discussão sobre a legitimidade moral de algumas destas asserções, gostava de sublinhar dois aspectos, referidos na peça, e que para mim são fundamentais para se compreender a problemática dos animais errantes/abandonados: o primeiro é a imagem do Canil Municipal como sendo o fim da linha, uma espécie de ante-câmara da morte; o segundo é a animosidade latente entre associações zoófilas e canis municipais.

1) O Canil como o fim da linha.
A imagem pública dos Canis Municipais não é a melhor; para a maior parte das pessoas os canis são o último destino daqueles animais que, se não reclamados, serão eutanasiados ao fim de uma semana. É uma imagem que não faz justiça ao trabalho desenvolvido pelos Médicos Veterinários Municipais (MVM), cuja associação ANVETEM eu convido a conhecer. Na verdade, o MVM é o profissional que melhor serviço pode prestar aos animais errantes/abandonados, quer na salvaguadra da sua saúde e bem estar quer em encontrar possibilidades de adopção.

2) A conflitualidade entre Associações Zoófilas e Canis Municipais.
Ao contrário dos anteriores, os canis/gatis das associações zoóficas são por muitos considerados as alternativas mais humanas para os animais errantes. Sem querer generalizar, não é essa a minha experiência. Como referido na peça, as melhores intenções das pessoas envolvidas no activismo pró-animal nem sempre são bem dirigidas e podem culminar em acções que limitam o expectro de acção ao animal que pretendem proteger esquecendo as consequências para os outros animais (como a transmissão de doenças) ou mesmo para a saúde pública. Não nego a importância das associações zoófilas mas defendo que o seu trabalho deve ser articulado em conjunto com o dos serviços oficiais para garantir três dimensões: saúde animal, bem estar animal e saúde pública.

2 comentários:

  1. A visão negativa dos canis municipais não tem só a ver com a percepção destes como antecamaras de morte - há também a ideia que alguns não têm boas condições nem em termos de instalações nem em termos de maneio. Imagino que pode ser verdade, e que há uma grande variabilidade entre municipes diferentes? Ou é coisa do passado e agora está tudo bem?

    Podes desenvolver um pouco mais o porque do teu cepticismo em relação às associações como intervenientes nesta materia?

    E, por ultima, parece evidente que o que carece sobretudo é de trabalho preventivo. Coisas como "cresceu muito" e "o marido não gostou" não parecem inevitaveis acidentes do destino. Não será informação um trabalho importante, não só dos canis mas de todos os veterinários? Comprar um cão não é decisão muito menos importante do que ter um filho... o tempo de vida de um cão corresponde mais ou menos ao tempo que um filho precisa para ser maior de idade e a responsabilidade do cão se estende até o fim da vida deste.

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  2. Sim, as críticas aos canis municipais não seriam de todo descabidas há uma dúzia de anos atrás e suponho que a realidade ainda seja um pouco negra nalguns municípios. Mas penso que hoje podemos falar de uma nova geração de MVM que encaram o Canil/Gatil, não como um fardo que lhes consome tempo, paciência e recursos, mas como um veículo de acção social onde podem colocar em prática conhecimentos médicos e cirúrgicos. Claro que os orçamentos são reduzidos e a mão de obra escassa, mas há formas de se gerar auto-financiamento e cooperação, especialmente com as associações zoófilas. Dou como exemplo o Regulamento de Animais do Município de Sintra, disponível na internet. Quanto às outras questões, o melhor é desenvolver o tema em posts adicionais.

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