quarta-feira, 14 de julho de 2010

"Enriquecimento ambiental combate cancro"

A revista The Scientist dá-nos a conhecer um estudo recente no qual ratinhos a viver em ambiente espacial, funcional e socialmente enriquecido desenvolveram tumores menores que ratinhos em caixas padrão, após receberem um enxerto com células de melanoma. Os que tinham vivido 3 semanas antes da indução dos tumores apresentavam uma redução de 43 %, ao passo que animais vivendo nestes ambientes 6 semanas antes da indução tinham tumores 77% mais pequenos que os seus congéneres em ambientes não enriquecidos. Este estudo, com resultados bastante consistentes, foi publicado na Cell, merecendo uma leitura atenta.

Foto obtida da revista The Scientist

Na minha opinião, isto assume particular relevância devido às assimetria que encontramos entre o contexto ambiental pré-clínico e os estudos clínicos que lhe sucedem. Humanos que participam em estudos clínicos levam vidas ricas ao nível sensorial, social, cognitivo e motor (ou pelo menos bem mais que ratinhos em pequenas caixas onde a estimulação destes domínios é escassa). Um dos meus argumento é que o enriquecimento ambiental (se biologicamente relevante) não só melhora a vida dos animais como também aumenta a validade externa dos dados provenientes do seu uso. e isto tem vindo a ser crescentemente corroborado por estudos científicos.

Digo eu...

2 comentários:

  1. Eu concordaria contigo, Nuno, não fosse o investigador Matthew During afirmar no vídeo que este tipo de ambientes enriquecidos aumenta os níveis de stress dos animais. Não será que a sobre-estimulação a que os animais são sujeitos pode trazer novas variáveis que interfiram no processo experimental?

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  2. Por partes:

    1 - Não me parece haver aqui sobre-estimulação. Quando "enriquecemos" estes ambientes artificias, o que na realidade estamos a fazer é torná-los "menos pobres". É virtualmente impossível mimetizar as condições naturais que permitem aos animais expressar todo o leque de comportamentos que potencialmente poderiam manifestar (aconselho vivamente o site http://ratlife.com, o qual merecia, só por si, que lhe dedicasse um post).

    2 - Há evidências que apontam para o contrário do que diz During (http://www.nature.com/mp/journal/vaop/ncurrent/abs/mp201034a.html). Contudo, conheço o efeito que o enriquecimento pode ter no aumento da disputa territorial. Em termos simples, resume-se a qualquer coisa do tipo "se há alguma coisa a disputar, a mesma será disputada". O clássico tubo de cartão é um bom exemplo disto pois não só se constitui como um recurso a disputar, como é ainda usado pelos animais para se esconderem e depois "emboscarem" outros.

    3 - Hanno Wurbel e a sua equipa já demonstraram (http://www.forschung3r.ch/data/projects/AltexSupl-07-W%C3%BCrbel-Bul30.pdf) que o Enriquecimento ambiental não só não constitui fonte de variabilidade indesejada, como também que permite maior reprodutibilidade que a tão procurada "padronização" ambiental", que de facto a diminui (http://www.nature.com/nmeth/journal/v6/n4/full/nmeth.1312.html).

    4 - Aumentar o espaço útil utilizável pelos animais permite que animais hierarquicamente inferiores possam fugir e assim evitar confronto resultante da disputa e exacerbado pela falta de espaço (não encontrei a referência, depois digo).

    5 - Até agora, só material de ninho parece ser consensualmente encarado como enriquecimento ambiental biologicamente relevante. Todos os outros tipos, como tubos de cartão, "iglos" e outros semelhantes não são tão consensuais, se consideramos os estudos disponíveis a esse respeito (como este aqui: http://www.appliedanimalbehaviour.com/article/S0168-1591%2801%2900200-3/abstract)

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