terça-feira, 18 de outubro de 2011

Pode um cão ser vegan ?


A passada edição da revista VISÃO (13-10-2011) publicava uma curta reportagem sobre indivíduos vegetarianos que decidiram incluir os seus animais de estimação no mesmo regime alimentar. O argumento por detrás de tal decisão é a coerência : todas as rações para cães e gatos de estimação são feitas a partir de produtos e sub-produtos da transformação animal e provenientes, na sua larga maioria, de explorações intensivas. Alguém que se abstém de consumir carne e derivados e vive na companhia de um cão ou de um gato (ou de um furão...), não deve ficar indiferente a este facto.

A minha primeira impressão ao ler esta rúbrica foi a de que modificar o regime alimentar de animais a bem das nossas opções éticas (e estéticas, na medida em que não comer alimentos de origem animal é também uma afirmação de um estilo de vida) seria atentar contra o seu telos, contra aquilo que faz um cão ser um cão e um gato ser um gato ou, segundo as palavras de Bernard Rollin, "the dogness of the dog, the catness of the cat". Na natureza, cães e gatos são animais carnívoros (tendencialmente omnívoros no caso dos cães e carnívoros estritos no caso dos gatos) e privá-los dessa característica, colocando em risco a sua saúde, a bem da coerência das nossas próprias acções pareceu-me, à primeira vista, frívolo e perigoso.

Mas uma reflexão mais atenta fez-me dar um passo atrás. Não há nada de natural nas dietas comuns dos nossos animais de estimação (basta ler um rótulo) e uma grande proporção dos seus ingredientes são, de facto, de origem vegetal. Pelo menos enquanto não houver dados que permitam tirar conclusões sobre o efeito de rações vegetarianas na saúde de cães e gatos, muitos poucos argumentos poderão ser apresentados a seu desfavor. Além disso, a indústria da pet food, por ser menos exigente em termos de qualidade das suas matérias-primas, é em grande medida responsável pela perpetuação de práticas de produção pecuária agressivas para o bem-estar dos animais em causa, o que me faz pensar que a existência de alternativas pode alertar o consumidor para a origem dos ingredientes da ração que dá ao seu pet.

Deixo este texto inacabado. Espero contribuições dos animalogantes para o desenvolver.

9 comentários:

  1. Li o mesmo artigo e a minha reacção foi exactamente a mesma.

    A ração para cães e gatos comercializada é - no caso da versão seca - maioritariamente composto por cereais. Se o cão come cereais com proteina animal (vindo de produtos secundários da industria) ou se como cereais com acidos nucleicos sinteticos, pouco importará para o seu telos.

    Tal como o artigo alerta, o cão pode ser visto como omnívoro, mas o gato é carnivoro, pelo que um gato vegan é mais problematico em termos alimentares. Por outro lado, muitos gatos estão livres de complementar a dieta oferecido no prato com o que caça lá fora. Que é o que faz a gata que convive connosco lá em casa...

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  2. Realmente, comer ração comercial não se inclui no etograma destas espécies. Em boa verdade, ir receber vacinas, fazer jogging com o dono, ou enroscar-se num sofá também não.
    Talvez o elenco que constitui o telos de um animal selvagem domesticado, ou de um animal doméstico com correspondência ainda a uma espécie selvagem (como o cão, ou o gato, ou o furão), tenha que ser repensado, ou agilizado. Assim, ressalvando consequências que não podem ser menosprezadas, como a qualidade proteica, e não só a quantidade, no caso das rações vegetais, parece eticamente aceitável um cão ou gato vegan, se é esse o enquadramento ético do responsável. Neste mesmo contexto, mas com uma lógica muito diferente, e para deixar um exemplo caricato de uma tentativa forte de incluir um animal nas doutrinas do dono, recordo um caso clínico que assisti, de uma tartaruga com a carapaça mordida, cujo dono, que também tinha um Labrador (cão), no mesmo jardim, e que me garantia que era impossível ter sido o seu canídeo a infligir os danos na tartaruga, pois ele, assim como toda a gente lá de casa, era budista e, por isso, incapaz de maltratar outro ser vivo...

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  3. Obrigado pelas vossas avisadas contribuições. A minha principal preocupação diz respeito aos limites da nossa autonomia como agentes morais. Até onde é que podemos ir na defesa das nossas convicções? Será lícito tomarmos decisões em nome de outros seres, que não são autónomos, decisões essas que podem colocar em risco a sua saúde e bem-estar? A mesma questão se aplica a pais vegetarianos que impõem essa dieta aos seus filhos (humanos). Mas também se podia aplicar aos pais obesos que impõem essa mesma cultura à progenitura.

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  4. A questão de escolha alimentar é uma batata quente, anima sempre as discussões. Quando esta escolha tem um componente moral, ainda mais.

    Como pais ou como donos/guardiões tomamos sempre decisões em nome de outros seres. E temos que crer que nestes casos quer se o melhor para o outro ser.

    O que há de potencialmente problematico em criar uma criança com alimentação vegetariana?

    À partida, assumindo que se faça uma dieta equilibrada, e que o desenvolvimento e a saúde é acompanhado de uma maneira adequada(penso que hoje em dia muitos pediatras aceitam uma dieta lacto-ovo-vegetariana mesmo para bebés), não há de por em risco o crescimento saudável da crianaça.

    Pode complicar a vida da criança se creches/infantarios/escolas etc não estejam preparadas. Penso que cada vez mais são. Nas cantinas universitárias a minha volta, há uma opção vegetariana todos os dias, cada dia um prato diferente, não é preciso reservar, é tão facil ser vegetariano como ser omnívoro.

    Pode-se questionar se não se está a limitar o contacto da criança com uma parte importante da cultura portuguesa.

    E aqui penso que a resposta é sim, está-se.

    Por outro lado, tenho comido uma excelente feijoada vegetariana à-moda-do-Porto e que sempre que posso escolhe o alho-francês-à-brás, ambos de restaurantes vegetarianos do Porto. E só podiam ser de aqui.

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  5. Para esta reflexão penso que é útil regressar a um anterior artigo da Anna, "Comer ou não comer"(http://animalogos.blogspot.com/2010/11/comer-ou-nao-comer.html), em especial à pergunta que é deixada no final.

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  6. Acho que este assunto requer, quer por parte dos pais/guardiões/donos quer por parte dos consumidores em geral, muita atenção e ponderação.

    No caso das crianças, acho que devem ser elas próprias a fazer a decisão e esta não deve ser apressada. Só faz parte do nosso papel tentar explicar os prós e contras de qualquer alimentação e ajudar a criança a fazer a sua decisão sem coagi-la, mesmo que essa decisão vá contra os nossos princípios. É um direito que ela tem. Quando ainda não tem poder de decisão, acho que devemos alimentá-las segundo uma dieta omnívora (sendo que as pessoas vegetarianas possam favorecer mais os vegetais na alimentação das suas crianças).

    No caso dos animais, a situação é muito mais complexa visto estes não terem tecnicamente poder de escolha. Tendo em conta tudo o que foi dito aqui, acho que cabe a cada um fazer a sua decisão sobre se quer que o seu animal de estimação seja vegetariano ou não (embora como foi dito aqui, alguns animais prefiram completar o menu da casa com aperitivos da rua).

    Apenas um pequeno à parte que gostaria de fazer. A alimentação omnívora, mas principalmente a vegetariana, envolve também muitas outras questões ambientais e éticas, penso, que às vezes passam um bocado ao lado. Queria relembrar que as plantas, por razões práticas e éticas, são seres relativamente fáceis de manipular geneticamente e algumas plantas utilizadas muito regularmente na alimentação vegetariana, como o milho e a soja, tem uma grande produção sendo geneticamente modificadas. Admitindo que não me encontro muito actualizada nesta área, não sei até que ponto têm sido feitos estudos para provar que o consumo prolongado de OGMs (organismos geneticamente modificados) não apresenta efeitos negativos para o consumidor (humano ou animal). Temos ainda outras questões, como por exemplo, o que aconteceria aos animais produzidos e criados unicamente para a produção de carne, visto que muitos não sobreviveriam sozinhos e/ou poderiam perturbar o resto da vida selvagem; a questão da desflorestação para áreas de cultivo; o papel dos OGMs nos outros ecossistemas visto que é muito difícil controlar a dispersão de sementes e estes podem aparecer em sítios não intencionais; etc…

    Pessoalmente, embora me consiga ver como vegetariana, acho-me incapaz de sujeitar outro ser vivo à minha alimentação, quer seja um cão ou uma criança. Embora pudesse alimentar o meu cão/gato à base de rações e/ou vegetais, incluiria sempre um bocado de carne ou peixe, não todos os dias, mas de vez em quando.

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  7. Obrigado Isabel:

    O teu comentário fez-me lembrar aquilo que acontece muitas vezes numa consulta veterinária de nutrição. Está o veterinário a tentar convencer os donos dos benefícios de uma alimentação equilibrada (vulgo ração) e os donos, por seu lado, a combaterem este conceito artificial de alimentação ao introduzirem outros alimentos que, segundo os seus próprios critérios, estão mais próximos do etograma do animal. Pelo que nos é dado a ver, também consideras a carne como um elemento fundamental da alimentação animal. Então que factores pesam quando decides o que dar de comer aos teus animais?

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  8. Quando dou de comer aos meus animais tento sempre ter em conta a sua natureza, o que comeriam num estado “natural”. E está certo quando diz que me encontro muito relutante em alimentar os meus animais com ração, visto que, a ração é uma criação “recente” tendo em conta o tempo de domesticação dos animais.

    Mas, nesta questão do artificial vs natural, o mesmo aplico para as pessoas. Se existe um alimento, que tem as características necessárias para tratar ou satisfazer um qualquer problema ou necessidade que uma pessoa tenha, tenho muita dificuldade em aceitar porque é que tem que tomar complementos vitamínicos ou outra coisa semelhante quando podia optar pelo alimento em si. Eu, sinceramente, percebo as razões para tal escolha (e algumas coincidem também com o uso de ração para animais): é mais prático, mais acessível, mais barato, etc.; e, em algumas situações, não há mesmo outra opção (como na alimentação e cuidados de pessoas muito pobres, ou de países em desenvolvimento, nos canis e sítios de abrigos para animais…). Porém, se puder dar uma alimentação mais natural a mim e aos meus animais é isso que faço porque acho que o que é natural é bom, senão melhor que as alternativas.

    Voltando ao assunto da alimentação vegetariana, aceito mais facilmente que uma pessoa se possa tornar vegetariana porque, de base, somos omnívoros (comemos um pouco de tudo). Agora quando falamos de animais carnívoros tenho um bocado mais de dificuldade em aceitar que possam fazer uma alimentação completamente vegetariana e, embora se diga que os animais domésticos à muito que comem os nossos restos, esses restos continham carne (mesmo que em pequenas quantidades ou, pelo menos, de vez em quando) ou então estes andavam à solta e podiam complementar a refeição dada pelo dono com petiscos aqui e ali (de natureza carnívora julgo).

    Porém, na alimentação dos meus animais, vem sempre em primeiro lugar a sua saúde e bem-estar. Por isso, se um médico veterinário me disser que o melhor para o meu animal é mesmo a ração ou outro tipo de alimentação qualquer, é isso que lhe irei dar. Porém, ainda pergunto se não lhe posso dar outros alimentos que considero mais naturais (e tenho o cuidado de perguntar quais os alimentos naturais melhores e como devo cozinhá-los) para que, de vez em quando (nem que seja uma vez por ano), possa dar ao meu animal uma alimentação que eu considero mais natural.

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  9. Penso que, desde que obviamente estejam garantidas as questões de saúde, quem é vegetariano por motivos éticos não tem outra opção que não seja a de assegurar aos seus filhos e animais de estimação também uma alimentação livre de produtos de origem animal.

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