segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Ó seu zoocêntrico!

Quando no século XVI Copérnico apresentou o seu - então revolucionário - modelo do sistema solar, iniciou-se uma batalha entre uma visão geocêntrica (a então predominante) e uma visão heliocêntrica (a de Copérnico). No contexto astronómico, os termos fazem todo o sentido: o que se discutia era se a terra circulava a volta do centralmente localizado sol ou o sol a volta da centralmente localizada terra.

 O Modelo Heliocêntrico de Copérnico (esq.) e o modelo
Geocêntrico (dir), vigente  no  Séc. XVI (Fonte)
Numa tentativa de sistematizar as diferentes percepções éticas do mundo vivo, alguns autores referem-se a um outro conjunto de centrismos: o antropocentrismo, o zoocentrismo, o biocentrismo e, às vezes, ainda o ecocentrismo. Destes quatro, tropeço sempre no zoocentrismo – e sobretudo no uso deste termo para descrever a ética de Peter Singer e Tom Regan (como é o caso no recente parecer do CNECV, abordado no post anterior).

Vejo três problemas com este uso do termo.

O menos grave é que a analogia com a astronomia é algo coxa, uma vez que a questão é mais “Quem está incluído no círculo moral” do que “Quem está no centro do círculo moral”.

Capa do  "The Expanding Circle", de Peter Singer,
onde o autor defende a ampliação do nosso círculo de
consideração moral para incluir os animais senciente.
Mais problemático é que o termo convide a uma interpretação errada, porque estamos habituados a usar o termo “zoo” para falar dos outros animais. Mas nós, os animais humanos, ainda cabemos no círculo moral que Singer ou Regan estabelece. Só não podemos é contar com a posição central (e elevada) que o antropocentrismo nos confere.

Mas o mais grave de tudo é afirmar-se que a ética de Singer ou Regan se centra nos animais. Para este autores, os portadores de interesses (Singer) ou direitos (Regan) não são todos os membros do reino animal, mas antes os que têm a capacidade de sentir, os sencientes.





Por isso, se insistimos em falar em centrismos, e em tentar encontrar um em que podemos inserir Singer e Regan, o melhor termo será provavelmente senciocentrismo.

6 comentários:

  1. Na verdade, se me permite, nem senciocentrismo é adequado. Pois uma ética senciocêntrica seria uma ética na qual as únicas propriedades moralmente relevantes seriam as propriedades da senciência. Mas nem Singer nem Reagan, nem qualquer outro filósofo que eu conheça, defende tal coisa. O que eles defendem é que a senciência é uma propriedade moralmente relevante, entre outras que também o são.

    Se me permite, parece-me que quando se colide com preconceitos, as pessoas reagem com pouco pensamento e demasiada histeria. Singer tem o dom de suscitar imensa histeria não nos pontos do seu pensamento que são mais frágeis, mas precisamente nos pontos que o são menos -- nomeadamente, a ideia de que a senciência é uma propriedade moralmente relevante. As pessoas reagem histericamente como se ele dissesse que a senciência é a única propriedade moralmente relevante. É um pouco como acontecia há umas décadas, quando alguém atacava o racismo: imediatamente era acusado de gostar de ir para a cama com negros. Confundia-se assim o ataque à discriminação social injustificável com respeito aos negros, com um gosto particular por negros. Do mesmo modo, chamar zoocêntrica à ética de Singer sugere que Singer só dá atenção aos animais não humanos, quando o que ele faz é dar atenção à falta de atenção moral que as sociedades hoje dão aos animais não humanos.

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  2. Eu tenho dificuldade em colocar as filosofias de Regan e Singer no mesmo saco e só o consigo conceber como figura de estilo. Considerar teoria dos direitos e utilitarismo de preferências como zoocêntricas seria então uma sinédoque, de forma a agilizar o discurso em oposição às visões tradicionalmente antropocêntricas (outra sinédoque). Da mesma forma, penso que substituir zoocentrismo por senciocentrismo resolve apenas metade do problema. A filosofia de Singer, no que aos animais diz respeito, baseia a consideração de interesses na senciência e, por isso a designação é adequada (ao contrário do que afirma o Desidério). Mas o mesmo já não se passa com Regan. Os princípios deontológicos que substanciam a pertença à comunidade moral baseiam-se em propriedades que vão muito para além da senciência (na linha do que afirmou o Desidério).

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  3. Não me parece muito adequado dizer que Singer é senciocêntrico porque isso implica que Singer considera ser a senciência a única propriedade moralmente relevante de um ser. E isto é falso. O que ele pensa é que esta é a mais básica, a mais elementar, das propriedades moralmente relevantes de um ser. Outras propriedades incluem a projecção no futuro, por exemplo.

    Coisas muito diferentes podem partilhar aspectos em comum. Os meus sapatos são muito diferentes do Sol, mas ambos são feitos de átomos. Certamente que as ideias morais de Regan são muito diferentes das de Singer em muitos aspectos, mas têm algo em comum: ambos consideram que os animais não humanos são dignos de consideração moral.

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  4. Não me parece ser necessário que o argumento de Singer se esgote na sensciência para se poder considerá-lo como senciocêntrico na medida em que todos os outros argumentos, incluindo a projecção no futuro, servem para reforçar o argumento central e assim estabelecer prioridades na consideração moral.
    Mais uma vez, o mesmo não se passa com Regan, já que o conceito de sujeito-de-uma-vida sobreviveria caso se retirasse qualquer referência a prazer e dor (já agora, na definição original, Regan não menciona nem senciência nem sofrimento).

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  5. No meu entender, Regan e Singer estão muito mais próximos na sua consideração do que deve constituir base para o estatuto moral do que no resto da sua ética.

    No cenário hipotético muitas vezes aplicado nas discussões filosóficas, podemos imaginar um organismo com crenças e desejos sem ter emoções e sensações; aí sim o conceito de sujeito-de-uma-vida poderia sobreviver sem senciÊncia. Mas no mundo real não conhecemos nenhum organismo capaz de reúnir crenças e desejos sem emoções e sensações.

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  6. Uma vez que o conceito de senciocentrismo não tem uma definição consensualmente aceite, penso que tanto o Desidério como o Manuel podem ter razão. Penso que mais importante do que saber se a ética de Singer é ou não senciocêntrica é saber se isso representa ou não um enviesamento moral, ou se é a consequência lógica das premissas de Singer, que são mais amplamente aceites que as consequências sugeridas por Singer. Eu acho que é a segunda. Para mim faz todo o sentido que a capacidade de sentir prazer ou sofrimento seja o critério base do círculo moral da consideração de interesses. Se um ser não tem sencicência, é lógico que não tem desejos. Por outro lado, o desejo de não sofrer é comum à espécie humana e a todas as outras espécies sencientes, pelo que não existe uma razão válida para considerar apenas esse desejo em humanos.

    Concluindo, mais importante do que saber se existe zoocentrismo (acho que isso foi totalmente desmontado pela Anna Olson) ou senciocentrismo, é saber se acusação, por parte dos defensores dos direitos dos animais, de especismo é válida ou não. Eu penso que é. E, sendo-o, constitui uma discriminação não fundamentada que deve ser eliminada.

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